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RISINHOS E PALMATÓRIAS

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Luís Montenegro na Escola Secundária Afonso Domingues, montagem fotográfica

A minha perplexidade mais recente foi ver o debate sobre o Estado da Nação, na semana passada. Quando se discutia Educação e outras matérias importantes, vejo o primeiro-ministro, em lugar de estar a ouvir os deputados, a rir para um lado e outro. Comentava, em segredinhos e risadinhas, sabe-se lá o quê, mas que não seria, certamente, o Estado da Nação. Esse, de facto, não tem graça nenhuma. Portanto, tudo lhe valeu risinhos, alguns cínicos, e segredinhos, tal como terá feito na escola primária com os coleguinhas de carteira. Pena foi não estar ali uma mestre-escola das antigas que lhe atirasse a ‘menina de cinco olhos’…

Entretanto, os factos revelaram que o Estado da Nação no que se refere à Educação é caótico, em todos os níveis. O futuro do próximo ano escolar está seriamente comprometido, mas parece que o governo ainda não entendeu isso. Caótica é também a situação do ministro da Administração Interna. O silêncio, aqui, é o pior. Se há explicações a dar no que respeita a eventuais crimes, que elas sejam dadas. Luís Neves merece que as ouçamos e nós precisamos de o ouvir.

Por outro lado, ouvi falar, da parte do governo, das ‘maravilhas’ operadas nos últimos anos. ‘Maravilhas’ que se confrontam com a dura realidade do dia-a-dia: pessoas sem casa e que não são os tradicionais sem-abrigo, pais com filhos adultos, que não podem casar e ter filhos, desempregos de longa duração, ordenados de miséria e impostos que não param de subir.

A novidade da Lei das Rendas que torna os despejos mais céleres e os aumentos mais frequentes. Uma festa, portanto, para este governo que se traduz na cada vez maior descrença do povo português.

Para aproveitar a boleia do governo, o presidente da Câmara de Lisboa não hesitou: deu duas semanas a pessoas sem-abrigo para abandonarem escola onde vai acontecer o Festival Iminente. São seis os habitantes da antiga Escola Industrial Afonso Domingues, que ali vivem há vários anos e agora souberam que têm de sair até 31 de Julho, dado que o festival de arte urbana é em Setembro. A organização do certame, por seu turno, diz que resposta social compete à câmara. Não deixa de ter razão. A questão é se esta câmara existe mesmo…

Uma equipa de técnicos foi comunicar o despejo aos sem-abrigo, mas não foi tratar do seu alojamento futuro. É a tal câmara que não se percebe se existe…

Em todo o caso, este despejo contraria as declarações de Juliana Almeida, diretora e porta-voz do Festival Iminente, ao Observador, no final de Abril. O jornal publicou uma reportagem que explicava que as pessoas que ali viviam receavam ser forçadas a sair do espaço, na sequência da colocação de uma placa da autarquia a anunciar o encerramento das vias de acesso à escola. A responsável pelo festival garantiu, então, que o plano ideal era integrar as pessoas ali residentes, admitindo mesmo a ‘possibilidade’ de fazer o festival com pessoas a viver naquele lugar.

Aliás, em declarações ao mesmo jornal, a responsável acentuou que ‘da parte do Iminente, a posição não mudou. Nunca exigimos, nem exigimos agora, que estas pessoas saiam’, referiu. E acrescentou que ‘a realização do festival não depende da desocupação do edifício, e o projeto de implantação está a ser preparado de forma a não ocupar os espaços onde estas pessoas vivem, nem perturbar o seu quotidiano’.

Juliana Almeida afirmou também que ‘as decisões sobre o imóvel e sobre o alojamento cabem à Câmara e às entidades sociais competentes. O nosso compromisso é o mesmo desde o primeiro dia: ninguém sai por causa do festival sem uma alternativa digna e individual, que possam conhecer e avaliar antes de decidirem’.

E sublinhou: ‘o festival não condicionou a realização do evento à saída de quem ali vive, nem teria poder para o fazer: o edifício é público, pertence ao Estado, esteve cerca de dezasseis anos ao abandono e está destinado à demolição no âmbito dos acessos à Terceira Travessia do Tejo. Não somos proprietários do espaço e não desalojamos, nem podíamos desalojar, quem quer que seja’.

Agora pergunto: percebe-se o que é um governo que não existe? E uma câmara que, se dúvidas houvesse quando se olha para Lisboa, também não?

Ao menos, nas telenovelas turcas só há uma pessoa malvada. É certo que condiciona a vida de muitos e transforma alguns bonzinhos. Mas o enredo, no essencial, é sempre o mesmo. Por isso, vou continuar a ver as ditas séries e deixar os noticiários onde só há mauzinhos.

vídeo sobre a Escola Secundária Afonso Domingues

A DITADURA DO SILÊNCIO PRODUTIVO

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A suspensão entre o produzir e o respirar surge aqui como o drama supremo. A paz anuncia-se como um “aroma de incenso biológico num espaço aberto (openspace)”, uma espécie de óleo essencial caro que os Recursos Humanos borrifaram no corredor, mas cuja fragrância não apaga o odor a desespero do prazo que termina às seis da tarde. Movido por uma “vontade de desempenho”, o nosso herói não quer apenas trabalhar (o que seria demasiado vulgar); ele quer “cocriar sinergias com o universo”. Quer chegar onde? Ao “centro do foco”. Há uma glorificação da resiliência como detergente do cansaço humano, transformando a exaustão num troféu de pureza profissional. O colapso nervoso deixa de ser uma crise médica e passa a ser um manifesto estético no LinkedIn.

O ruído é o mestre. Existe um medo terrível do silêncio, ou seja, o pavor de que, ao desligar as notificações, o mistério da sua relevância social se revele apenas um e-mail vazio ou falta de reuniões que podiam ter sido um memorando. O executivo quer ser um espelho de águas calmas, mas apenas se puder monitorizar os batimentos cardíacos no relógio inteligente. É a recusa deliberada da simplicidade; afinal, se a agenda estivesse limpa, ver-se-iam os dias pequenos e a irrelevância comum das tarefas diárias. O sujeito prefere a névoa dos conceitos em inglês, a ruína dos fins de semana e a certeza de que é indispensável. Há um fetiche aristocrático na urgência: “estou sem tempo”. O trânsito, a biologia e a velhice encarregar-se-ão de o travar, sem necessidade de tanta aplicação de meditação.

No final, resta o “puído ecrã dos domingos à noite”. O tempo passa pelo sujeito como se ele fosse um gráfico de barras numa apresentação, uma queixa existencial clássica contra a inteligência artificial que, teimosamente, recusa reconhecer a superioridade do sofrimento humano. Mas no crepúsculo da semana, antes que a inércia vença, há a “audácia do retiro espiritual”. A inscrição num workshop de silêncio para encontrar a alma do “líder interior” e transformá-la num “abismo partilhado” de mentoria — o que soa perigosamente a cobrar dois mil euros a alguém para partilhar o mesmo nível de perplexidade face à vida.

A grande revelação filosófica surge na avaliação de desempenho, num golpe de mestre que anula todo o misticismo anterior. A ilha prometida, o equilíbrio perfeito entre a vida pessoal e profissional nunca esteve longe. Descobrimos, após meses de sumos verdes, banhos gelados e aplicações de produtividade, que o sujeito esteve apenas a fazer marcha no mesmo lugar. A odisseia da evolução pessoal reduz-se ao sublime ato de organizar meticulosamente a lista de tarefas que nunca vai realizar, fingindo que a pressa é o infinito.

Caos Cooperativo (Criação ChatGPT)

DE FÉRIAS NO ALGARVE

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Passeia-se o jovem envergando a camisola número 7 do RONALDO, embora não seja português; o senhor acolá vestiu hoje a de MESSI; aqueloutro tem a NEWMAN JR 10; mais adiante, CURRY 30 (número da camisola do base dos Golden State Warriors, o considerado o melhor atirador da história da NBA); GARRO 10 é do renomado jogador do Corinthians. Camisolas, aliás, há-as de todas as cores e feitios, com os mais díspares e desconcertantes dizeres gravados; a maior parte claro, aparente ou realmente adquiridas em viagem a destino turístico estrangeiro de renome, a denunciar ser viajado o seu possuidor. Uma senhora encorpada mostra «Lost in Río», seguramente a sugerir romance (compreende-se) inexistente, porque não só a senhora se não perdera no Rio de Janeiro, como também, se aí a comprara (mau gosto do vendedor) não estaria perdida mesmo.

De interesse sociológico para o cronista se revela o despistar das nacionalidades. Só autorizada consulta ao rol dos hóspedes podia dar, em cada dia, o requerido panorama. A preguiça sugere, porém, que tente descobrir por si, embora também os membros da «Animação» não estejam com meias-medidas: é português e em inglês as línguas em que se exprimem e quem não entender que reclame. Mas, aqui, português é só de quando em quando que se ouve entre os veraneantes. De vez em quando, para jubilo do cronista, octogenário com 5 anos de Francês na Escola Secundária, lá se topa família francesa. Numa delas, porém, a senhora mais idosa envergava camisola com o dístico «From Paris with love»! Ora toma!

Temos ainda outros indicadores, para além do linguajar. Assim, aquele senhor avantajado, a comer, ao pequeno-almoço, quatro ovos estrelados só pode ser norte-americano!…

Dos empregados há seguramente em todo o lado, para a área das limpezas, uma maioria africana das ex-colónias. Nos serviços de mesa e balcão, o pessoal de Leste, (permita-se-me a expressão): romenos, moldavos, ucranianos, croatas… Boa parte deles já a pronunciarem bem o português, a anunciar não apenas a vontade de ficar, mas também a compreensão de que poderá ser a melhor hipótese.

Ia-me esquecendo dos brasileiros. Compreende-se, por se estar já dentro da paisagem normal. A mim, nesse âmbito, como epigrafista – a quem naturalmente o fenómeno da identificação não pode deixar indiferente – o que me espanta é a facilidade com que. no país irmão, se admitam nomes tão estranhos, boa parte das vezes resultantes não apenas da má compreensão oral. Saúdo aí a adopção de antropónimos clássicos, ainda que inusuais no dia a dia: Arquimedes, Sófocles, Aristóteles… Um hino, assim, à prístina identidade clássica. Veja-se, porém, em contrapartida: Janaina Claret (do Rio de Janeiro), Dieniffe Chaves (de Minas), Gerci Inácio (de Minas também)… Perdem-se identidades.

Há os letreiros. Frases lapidares, duas ou três palavras, mensagem curta em letras capitais, a facilitar a leitura e a compreensão; por isso, em suporte rígido: uma placa, uma parede… Sempre em português e em inglês. Hoje, porém, numa estância balnear, há letreiros nos corpos humanos. E, aí, as tatuagens não são apenas desenhos, figuras; no caso da escrita, há de tudo: datas, antropónimos, frases célebres e até, ao que parece, fragmentos de poemas em zonas do corpo apenas visíveis em biquíni, no quotidiano bem escondidas.

A ECONOMIA DA EXPERIÊNCIA

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Durante décadas, um profissional aprende a decidir, a resolver problemas, a lidar com crises, a compreender pessoas e a distinguir o essencial do acessório. Esse património não consta dos balanços das empresas nem das contas nacionais, mas representa uma riqueza incalculável. É um capital construído ao longo de uma vida inteira.

Quando uma sociedade afasta sistematicamente os seus cidadãos mais experientes apenas porque atingiram determinada idade, não está apenas a cometer uma injustiça social. Está a praticar um enorme desperdício económico.
Formar um bom médico, um professor competente, um engenheiro, um gestor, um jornalista ou um técnico especializado exige anos de investimento público e privado. Porém, quando esses profissionais atingem a idade da reforma, o sistema comporta-se como se todo esse investimento deixasse, de repente, de ter valor. É uma lógica difícil de compreender.
Nenhuma empresa sensata destruiria deliberadamente uma máquina ainda perfeitamente operacional. Nenhum agricultor arrancaria uma árvore que continua a dar bons frutos. No entanto, fazemos exatamente isso com milhares de pessoas que continuam plenamente capazes de ensinar, aconselhar, criar e produzir.

A experiência reduz erros, evita riscos desnecessários e melhora a qualidade das decisões. Não substitui a energia dos mais jovens, tal como a juventude não substitui a sabedoria adquirida. Ambas são indispensáveis. A verdadeira inteligência organizacional nasce da colaboração entre gerações, e não da substituição de umas pelas outras.

Os países que aprenderem a aproveitar este património humano estarão melhor preparados para enfrentar os desafios do envelhecimento demográfico, da escassez de mão de obra qualificada e da crescente complexidade das decisões económicas e sociais.
Talvez tenha chegado o momento de deixarmos de olhar para a idade apenas como um indicador estatístico e começarmos a vê-la como um indicador de capital acumulado.
A experiência não pesa nas contas públicas. Pelo contrário: pode representar uma das maiores fontes de riqueza de uma sociedade madura.
A economia do futuro não será apenas a economia da tecnologia ou da inteligência artificial. Será também a economia da inteligência humana acumulada. E essa inteligência não desaparece com a idade. Pelo contrário, aperfeiçoa-se com ela.

As sociedades verdadeiramente inteligentes serão aquelas que compreenderem que o conhecimento adquirido ao longo de uma vida não é um custo a suportar, mas um património a preservar. Porque a experiência, quando é reconhecida e colocada ao serviço dos outros, transforma-se na forma mais nobre e mais rentável de capital

TRUMP FALOU DE INTERFERÊNCIAS DA CHINA E DA RÚSSIA NAS ELEIÇÕES AMERICANAS

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grafismo e montagem fotográfica

As palavras importam. Entre uma campanha de propaganda nas redes sociais e a adulteração de votos existe um abismo. Chamar ‘interferência’ às duas coisas sem as distinguir pode ser uma forma de confundir os cidadãos e de os preparar para aceitar mudanças profundas nas regras do jogo eleitoral.

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Antes de tudo, talvez convenha colocar a questão da forma mais simples possível. Trump anunciou documentos que, segundo afirma, provarão interferências da China, da Rússia e do Irão nas eleições americanas. Mas a primeira pergunta não é se esses documentos existem. A primeira pergunta é outra: de que interferência está Trump a falar? Porque “interferência” pode significar muitas coisas.

Quando ouvimos o Presidente dos Estados Unidos afirmar que potências estrangeiras interferiram nas eleições, é natural imaginar o pior: urnas adulteradas, votos alterados, máquinas eletrónicas manipuladas, resultados falsificados. Seria um atentado direto à democracia.

Mas será disso que se trata? Até hoje, não foram apresentadas provas públicas de que qualquer potência estrangeira tenha alterado a contagem de votos numa eleição presidencial norte-americana. Nem a Rússia, nem a China, nem o Irão. Nem ninguém.

O que as agências de informação americanas têm descrito ao longo dos últimos anos é algo diferente: campanhas de influência. Contas falsas nas redes sociais, bots, publicidade dirigida, desinformação, divulgação de documentos obtidos por meios ilícitos, amplificação de temas que dividem a sociedade americana. Em suma, tentativas de influenciar a opinião pública. É uma diferença fundamental, até porque não será preciso vir um chinês para fazer esse tipo de ações políticas. Influenciar um eleitor não é o mesmo que manipular o seu voto.

Caso contrário, seria necessário concluir que todos os dias há interferências nas eleições americanas: pela Fox News, pela CNN, pelos grandes grupos económicos, pelas plataformas digitais, pelos sindicatos, pelas igrejas, pelas universidades, pelos milionários que financiam campanhas eleitorais e pelos próprios partidos políticos.

E há uma ironia difícil de ignorar. Os Estados Unidos acusam frequentemente outros países de procurarem moldar a opinião pública americana. Ao mesmo tempo, Washington investe há décadas milhões de dólares em programas de “promoção da democracia”, apoio a meios de comunicação, organizações não-governamentais, fundações e projetos políticos espalhados pelo mundo. Uns chamar-lhe-ão diplomacia. Outros chamar-lhe-ão influência política. Em muitos países, chamar-lhe-ão ingerência.

É por isso que os documentos prometidos por Trump terão de ser lidos com extremo cuidado. Se neles estiver escrito que a China desenvolveu campanhas de influência nas redes sociais, isso não equivale a dizer que a China alterou o resultado das eleições. Se neles constarem operações de propaganda atribuídas à Rússia, isso não significa que a Rússia tenha manipulado urnas ou contado votos.

Antes de aceitar conclusões bombásticas, talvez valha a pena exigir respostas a perguntas muito simples: quem ordenou esta investigação? Que tipo de interferência procurava? Que metodologia foi utilizada? E, sobretudo, estamos perante provas de fraude eleitoral ou apenas perante evidências de operações de influência, algo que, em maior ou menor escala, faz hoje parte da disputa geopolítica entre as grandes potências?

Tudo isto pode ser um mero jogo de palavras. Neste tipo de política, a verdade pouco importa.

HOMENS SÃO 94% DA POPULAÇÃO RECLUSA

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O rosto masculino da agressão revela-se de forma gritante nas estatísticas: os homens dominam as tabelas do abismo, representando 94% da população reclusa e concentrando os mais alarmantes índices de violência. Perante este cenário, impõe-se uma conclusão inadiável: precisamos de uma mudança de paradigma. Não se trata de substituir o masculino (androgénico) pelo feminino, mas de transcender a lógica vigente, rumo a um novo modelo, feminino-masculino, que reconheça a complementaridade como alicerce do desenvolvimento humano e social.

A coexistência harmoniosa entre a feminilidade e a masculinidade, tanto nos homens como nas mulheres e na própria organização da sociedade, é hoje inviabilizada por uma matriz profundamente enraizada que molda o nosso pensamento e a nossa existência. Esta matriz, de feição exclusivamente masculina, confinou o elemento feminino aos domínios do natural e do religioso, despojando-o do seu legítimo lugar na esfera pública e intelectual. Paralelamente, ao impor uma mentalidade materialista e práticas orientadas unicamente para o progresso funcional, a eficiência e o lucro, esta estrutura reprime a dimensão espiritual e emocional do ser humano.

As mulheres, para ocuparem espaços de decisão, são muitas vezes coagidas a atuar contra o seu próprio princípio feminino, integrando-se apenas ao nível do funcionamento mecânico da sociedade, um mecanismo cujo leme permanece firmemente nas mãos do masculino. O homem age, assim, quase exclusivamente sobre os sintomas da desumanização, mas nunca sobre as causas profundas que alimentam a brutalidade, a beligerância e a indiferença perante o sofrimento.

Como documenta Boris von Hessen na sua obra “O que os homens custam”, os homens são responsáveis pelo dobro dos acidentes rodoviários, pela maioria esmagadora dos crimes e por 94% da população prisional. São eles os protagonistas de 75% das mortes relacionadas com o álcool e de mais de 80% dos casos de violência doméstica. Para além do sofrimento humano incalculável, estes dados traduzem-se em custos sociais astronómicos. Estamos perante uma realidade que clama por uma reflexão radical.

Face a esta realidade sombria e à aptidão bélica de uma sociedade que privilegia uma cultura de guerra em detrimento de uma cultura de paz, impõe-se uma pergunta incómoda e urgente: o que é que correu mal connosco, homens? Porque razão nos agarramos, com tamanha obstinação, a esta matriz masculina, sem a questionar, e nos apegamos a papéis que sistematicamente recompensam a dureza, a dominância e a exagerada propensão para o risco? Se não rompermos com este padrão arcaico, todas as estratégias de prevenção e as reformas institucionais se tornarão letra morta, servindo apenas para paliar os estragos ou, pior ainda, para consolidar e perpetuar a própria matriz que gera o problema.

(crónica adaptada do original publicado em Pegadas do Tempo)

AS FOTOGRAFIAS QUE CONTINUAM SEM RESPOSTA

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Donald Trump foi condenado por um tribunal norte-americano a indemnizar Jean Carroll em cerca de cinco milhões de dólares por abuso sexual e difamação. Não se trata de um rumor das redes sociais nem de uma acusação política. Trata-se de uma decisão judicial.

Esse facto não prova que Trump tenha cometido outros abusos. Mas transporta a certeza de que qualquer suspeita nesta matéria não deve ser afastada.

É por isso que continuam a suscitar inquietação as fotografias antigas em que Trump surge ao lado de Jeffrey Epstein rodeado por jovens cuja aparência é marcadamente juvenil. Essas imagens circulam há anos, foram reproduzidas milhares de vezes e acabaram por perder, em muitos casos, a sua origem documental.

Legalmente, uma fotografia não demonstra um crime. Mesmo que seja autêntica, prova apenas que determinadas pessoas estiveram juntas num determinado lugar e num determinado momento. Para sustentar uma acusação seriam necessários outros elementos: a identificação das pessoas retratadas, a confirmação da idade que tinham, testemunhos, documentos ou outros meios de prova.

Mas também seria intelectualmente desonesto fingir que essas fotografias nada significam. Constituem, no mínimo, um motivo legítimo para fazer perguntas. Quem eram aquelas jovens? Que idade tinham? Quem tirou as fotografias? Em que circunstâncias? Porque nunca foram plenamente contextualizadas?

publicado em AS FARRAS DE TRUMP

Não sabemos responder a essas perguntas. Também não sabemos, apenas olhando para as imagens, se aquelas jovens eram menores de idade. Sabemos apenas aquilo que qualquer pessoa vê: parecem crianças.

E enquanto ninguém responder às perguntas essenciais, continuará a existir uma diferença entre aquilo que um tribunal pode dar como provado e aquilo que a opinião pública considera profundamente perturbador.

VISÃO PERISCÓPICA DO ESTADO

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Aqui está o relatório do periscópio sobre a anatomia subaquática do Leviatã Lusitano.

Setor Norte: O Convés de Comando (A Visão Macroeconómica)

  • O Periscópio deteta: Uma elite política que confunde “governar” com “gerir fundos europeus”.
  • O Alvo: Bruxelas é o farol. O Estado português funciona como um intermediário que recebe fundos comunitários em formato digital e os converte em rotundas, relatórios de consultoria e promessas eleitorais.
  • A Ilusão de Ótica: Os gráficos oficiais sobem sempre. O PIB cresce, o turismo bate recordes, mas a frota de barcos salva-vidas (o povo) continua a meter água pela proa.

Setor Este: A Sala das Máquinas (A Burocracia Profunda)

  • O Periscópio deteta: Uma rede impenetrável de institutos, direções-gerais, observatórios e secretarias de Estado criadas para observar problemas em vez de os resolver.
  • O Peso Efetivo: O Estado é o maior empregador do país, o que cria um paradoxo. Metade da população trabalha para pagar o salário da outra metade que está ocupada a emitir as licenças que impedem a primeira metade de produzir riqueza.
  • O Radar da Eficiência: Um sistema de agendamento prévio que exige que prevejas a tua necessidade de renovar o Cartão de Cidadão com seis meses de antecedência.

Setor Sul: A Linha de Flutuação (A Carga Fiscal e o Povo)

  • O Periscópio deteta: O cidadão comum a fazer apneia fiscal prolongada.
  • A Dinâmica de Captura: O Estado português tem olhos de lince para cobrar e braços de preguiça para devolver. Se deves 10€ às Finanças, és caçado por um algoritmo de inteligência artificial de última geração. Se o Estado te deve 1000€, o processo entra num arquivo físico guardado por um funcionário que está de baixa médica.
  • O Lastro: O peso do Estado converteu o ordenado médio num mito urbano. O salário bruto entra na conta bancária como um herói e sai como um sobrevivente após os descontos para a Segurança Social e IRS.

 Setor Oeste: O Horizonte dos Serviços (O Naufrágio Social)

  • O Periscópio deteta: Infraestruturas públicas que funcionam com base no voluntarismo e na boa vontade de quem lá trabalha.
  • A Saúde: Hospitais onde a triagem de Manchester devia ter uma cor nova (o cinzento-esperança) para quem vai passar a noite nas cadeiras de plástico.
  • A Justiça: Um submarino pesado que se move tão devagar no fundo do mar que, quando dita uma sentença, o crime já prescreveu, o réu já faleceu e o advogado já se reformou.

BILHETES DOURADOS

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O futebol construiu a sua dimensão global precisamente por ser um desporto popular, jogado e vivido pelas classes trabalhadoras. No entanto, os jogos mais emblemáticos são hoje comercializados como produtos premium, com preços semelhantes aos de experiências de luxo.

Quando o bilhete mais barato para a final do Mundial custa cinco ou seis mil euros, e os melhores lugares ultrapassam largamente esse valor, as ofertas para se ir à bola deixam de ser gestos de cortesia.

Há poucos dias, o Duas Linhas questionou os custos das deslocações do primeiro-ministro aos três jogos da seleção portuguesa no Mundial. A questão mantém-se. Quem pagou os bilhetes?

Se foram adquiridos pelo Estado, os cidadãos têm o direito de conhecer a despesa. Se foram oferecidos, importa saber por quem e a que título. Porque, afinal, estamos a falar de ofertas de milhares de euros.

publicado em O TALISMÃ VOADOR

A discussão não diz respeito apenas a Luís Montenegro. Vale para qualquer governante, autarca, deputado ou dirigente público. Não podemos aceitar como normal que um político receba bilhetes que custam vários milhares de euros.

A que título o Estado permite que os seus representantes aceitem benefícios desta ordem de valor? Creio que os políticos que se sentam na Assembleia da República deveriam trabalhar no sentido de regular este tráfico. No fundo, se a representação nacional for considerada essencial em determinados jogos de futebol, o Estado tem a obrigação de pagar essa despesa e não aceitar ofertas de milhares de euros.

Acaba de ser criado um novo ditador popular: não há bilhetes grátis para ir à bola.

A SOLIDÃO INFINITA

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A coisa passou-se assim: Franz Xaver Kappus escrevinhava uns versos e decidiu enviar alguns ao consagrado poeta Rainer Maria Rilke. Foi o início de uma troca de correspondência que, 20 anos depois, foi transformada neste livro.

Pelo que se depreende da leitura, o poeta Rilke não gostava de enganar ninguém. Logo na primeira carta, desencoraja o jovem poeta, recusa avaliar os poemas enviados, e escreveu isto: “não me pergunte se os seus versos são bons; pergunte antes se conseguiria viver sem os escrever. Se a resposta for sim, então não deve ser poeta. Se for não, então deve organizar toda a sua vida em torno dessa necessidade interior.”

A segunda carta aprofunda essa ideia. Diz Rilke que à excepção da Bíblia e da poesia de Jens Peter Jacobsen, os livros de outros autores podem ser interessantes, mas não fundamentais.

Há um aparente paradoxo nesta história, se por um lado Rilke parece desencorajar o jovem, por outro está a tentar salvá-lo de uma motivação errada. Não lhe diz “não escreva”. Diz-lhe: só escreva se escrever for tão inevitável como respirar.

O resultado foi que Franz Xaver Kappus nunca se dedicou à poesia. Acabou por seguir a carreira militar e publicou estas cartas apenas depois da morte de Rilke. É interessante notar que Kappus optou por não publicar as suas próprias cartas. Apenas conhecemos as perguntas e inquietações que dirigiu a Rilke através das respostas deste. Isso faz com que o livro tenha uma estrutura muito particular: lemos apenas metade da conversa, mas a outra metade é suficientemente sugerida para percebermos o diálogo.

Sem Kappus nunca conheceríamos estas cartas. Consciente do seu valor preservou-as durante mais de duas décadas. Acabou por desempenhar um papel decisivo na história da literatura, embora permaneça quase invisível na obra que tornou célebre.

Há uma ideia de que não gosto, mas que considero muito forte, quando Rilke afirma que as obras de arte “são de uma solidão infinita”. É demasiada angústia, demasiado sofrimento, e creio que não precisa de ser assim. O criador pode ser uma pessoa feliz.