Ora, olhai para nós, excelsos pensadores de trazer por casa, de punho erguido e rima na ponta da língua. Que belo e terrível espetáculo este, onde o trágico da opressão se resolve com a elegância de um soneto de cordel.
A Dialética do Chouriço e do Absoluto
Dizeis que os séculos pesam mais que os anos. É uma belíssima hipérbole para impressionar os tiranos no café central. Mas perguntemos, com a devida vénia epistemológica: o tirano tem tempo para ler prosa crua enquanto conta o dinheiro dos impostos sobre o brio e o estudo? A história ensina-nos que o opressor não teme a vossa estrofe; teme, sim, o dia em que o preço do pão suba tanto que o povo decida usar os muros que ele ergueu para afiar as foices.
Quereis que o juízo seja o açoite. Muito bem. Mas quem segura o cabo? O problema filosófico da revolta é que o chicote muda de mão, mas raramente muda de função. O oprimido de hoje é o burocrata de amanhã, que passará o carimbo da censura com a mesma firmeza com que outrora segurava o escudo do grito. É a eterna astúcia da razão, ou talvez apenas a velha e boa hipocrisia humana.
A Estética da Maré e o Azar dos Muros
Prometeis uma “madrugada nova” e uma “maré que não para”. A metafísica da água é fascinante: limpa tudo, mas deixa a terra enlameada. O povo, com as suas espáduas curvadas, marchará com passo largo e estrondo alto. É uma coreografia magnífica para um documentário histórico do futuro. Contudo, convém notar a ironia existencial: quando o futuro for finalmente tomado “num último assalto”, ele transforma-se imediatamente em presente. E o presente, como todos sabemos, é aquela rotina aborrecida onde é preciso voltar a semear o trigo, limpar as ruas e pagar a conta final que o destino somou — com juros de mora.
O Paradoxo da Luz Explosiva
Terminais com a visão apocalíptica da “luz que explode em cada mão”. Do ponto de vista estritamente conceptual, ter uma explosão na mão parece doloroso e pouco prático para quem tem de lavrar o chão logo a seguir. Se já não haverá prosa, nem escárnio, nem luto, o que nos resta? O silêncio dos triunfantes. E o silêncio, meus caros revolucionários, é a matéria-prima de que os novos tiranos gostam para começar a construir os seus próprios muros seguros.
Colhamos, pois, o fruto da revolta. Mas guardemos o caroço, não vá a terra continuar seca e a madrugada nascer com nevoeiro.



