Passeia-se o jovem envergando a camisola número 7 do RONALDO, embora não seja português; o senhor acolá vestiu hoje a de MESSI; aqueloutro tem a NEWMAN JR 10; mais adiante, CURRY 30 (número da camisola do base dos Golden State Warriors, o considerado o melhor atirador da história da NBA); GARRO 10 é do renomado jogador do Corinthians. Camisolas, aliás, há-as de todas as cores e feitios, com os mais díspares e desconcertantes dizeres gravados; a maior parte claro, aparente ou realmente adquiridas em viagem a destino turístico estrangeiro de renome, a denunciar ser viajado o seu possuidor. Uma senhora encorpada mostra «Lost in Río», seguramente a sugerir romance (compreende-se) inexistente, porque não só a senhora se não perdera no Rio de Janeiro, como também, se aí a comprara (mau gosto do vendedor) não estaria perdida mesmo.
De interesse sociológico para o cronista se revela o despistar das nacionalidades. Só autorizada consulta ao rol dos hóspedes podia dar, em cada dia, o requerido panorama. A preguiça sugere, porém, que tente descobrir por si, embora também os membros da «Animação» não estejam com meias-medidas: é português e em inglês as línguas em que se exprimem e quem não entender que reclame. Mas, aqui, português é só de quando em quando que se ouve entre os veraneantes. De vez em quando, para jubilo do cronista, octogenário com 5 anos de Francês na Escola Secundária, lá se topa família francesa. Numa delas, porém, a senhora mais idosa envergava camisola com o dístico «From Paris with love»! Ora toma!
Temos ainda outros indicadores, para além do linguajar. Assim, aquele senhor avantajado, a comer, ao pequeno-almoço, quatro ovos estrelados só pode ser norte-americano!…
Dos empregados há seguramente em todo o lado, para a área das limpezas, uma maioria africana das ex-colónias. Nos serviços de mesa e balcão, o pessoal de Leste, (permita-se-me a expressão): romenos, moldavos, ucranianos, croatas… Boa parte deles já a pronunciarem bem o português, a anunciar não apenas a vontade de ficar, mas também a compreensão de que poderá ser a melhor hipótese.
Ia-me esquecendo dos brasileiros. Compreende-se, por se estar já dentro da paisagem normal. A mim, nesse âmbito, como epigrafista – a quem naturalmente o fenómeno da identificação não pode deixar indiferente – o que me espanta é a facilidade com que. no país irmão, se admitam nomes tão estranhos, boa parte das vezes resultantes não apenas da má compreensão oral. Saúdo aí a adopção de antropónimos clássicos, ainda que inusuais no dia a dia: Arquimedes, Sófocles, Aristóteles… Um hino, assim, à prístina identidade clássica. Veja-se, porém, em contrapartida: Janaina Claret (do Rio de Janeiro), Dieniffe Chaves (de Minas), Gerci Inácio (de Minas também)… Perdem-se identidades.
Há os letreiros. Frases lapidares, duas ou três palavras, mensagem curta em letras capitais, a facilitar a leitura e a compreensão; por isso, em suporte rígido: uma placa, uma parede… Sempre em português e em inglês. Hoje, porém, numa estância balnear, há letreiros nos corpos humanos. E, aí, as tatuagens não são apenas desenhos, figuras; no caso da escrita, há de tudo: datas, antropónimos, frases célebres e até, ao que parece, fragmentos de poemas em zonas do corpo apenas visíveis em biquíni, no quotidiano bem escondidas.



