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DESGOVERNO EM LISBOA

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A Câmara Municipal de Lisboa exonerou a vogal do conselho de administração dos Serviços Sociais, Mafalda Livermore, por ‘uma quebra de confiança institucional’. A mesma pessoa que Carlos Moedas tinha chamado para o cargo. Embora a dita-cuja senhora alegue que foi ela quem se demitiu. São trapalhadas deles. A verdade é que uma investigação jornalística, realizada pela RTP no programa A Prova dos Factos, revelou que Livermore é proprietária de vários imóveis com habitações clandestinas arrendadas a imigrantes.

Por outro lado, os socialistas, em minoria, já que Moedas se aliou ao Chega, pedem a reforma nos contratos de delegações de competências às freguesias. Moedas pediu ‘tempo’, mas, até agora, ignorou os autarcas. Assim, as juntas de freguesia socialistas estão numa situação que ‘não é financeiramente sustentável’ e ‘sem interlocutor’.

O serviço municipal das juntas mais criticado pelos fregueses de Lisboa é a recolha do lixo. Depois de Moedas ter anunciado a recentralização dessa competência, durante a campanha, e reiterado o plano na tomada de posse, houve uma informação da Câmara que trocou as voltas aos presidentes de Junta de Lisboa. Com base em informações da autarquia, o jornal Público anunciou, no início de Fevereiro, que essa reforma na recolha do lixo seria adiada para 2027 e o presente ano serviria como ‘transição’.

Outra das questões que se levanta é o protocolo para a manutenção dos espaços verdes, uma das competências da Câmara, delegada às juntas com a reforma administrativa de 2014. Em S. Domingos de Benfica, continuam ao abandono e, imagine-se, que no meio dos temporais e em dias de chuva, os repuxos da Praça Humberto Delgado, em Sete Rios, continuavam a deitar água. Veremos o que sucede no Verão…

FLAGRANTES DA VIDA REAL

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Alberto Ramos foi um daqueles amigos do peito que todos gostamos de ter. Antigo aluno salesiano, seguiu a carreira musical, foi professor de História no Ensino Preparatório e aposentou-se como docente na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Amiúde meu companheiro de viagem entre Coimbra e a Gare do Oriente, partilhávamos, naturalmente, muitas das peripécias do quotidiano. E ele tinha-as a rodos!

Revoluções

Uma delas contou-ma um dos seus antigos alunos dos primeiros tempos.

O professor entrou na aula, na manhã do 25 de Abril. Nós estávamos excitados. E, creio, até que um pouco medrosos, ao que ele nos tranquilizou:

– É uma revolução! Não estudámos nós já, na História, uma série delas? Há alguma agitação; mas, afinal, tudo se acalma e renova. Vamos, pois, aguardar que tudo se passará bem.

– E nós sossegámos – garantiu-me esse antigo aluno.

Morte

Outra me contou ele, de algum tempo depois do 25 de abril, quando começaram as reivindicações.

Entrou na sala de aula. Era dia de ponto escrito. Apercebeu-se que havia uma frase a giz no quadro. Foi até à secretária, como era seu hábito. Tirou os enunciados. Deu as indicações para o preenchimento dos cabeçalhos. Certificou-se de que todos tinham folhas de ponto. Deu a distribuir os enunciados que policopiara. Não havia dúvidas? Podiam começar!

Como era seu costume em dia de ponto – e sempre, aliás – saiu da secretária e dispôs-se a ir passear pela sala. Silêncio sepulcral. Agora é que ele vai ver! Escrito no quadro estava MORTE AO DR ALBERTO.  Calmamente, Alberto foi até ao quadro. Pegou no giz. Ainda mais sepulcral se fez o silêncio. Todas as esferográficas quietinhas. Entre a palavra MORTE e a palavra AO abriu ele uma chaveta e escreveu: IMEDIATA. Gargalhada geral. De novo, o silêncio. As esferográficas voltaram a escrever.

Olhos de ver cão

Nesse âmbito – e dizia-me que o aprendera na escola salesiana – um outro episódio, este já da Universidade.

Um dos alunos olhava para ele com ar estranho, um tudo-nada provocante. O Alberto não hesitou:

– Não olhes para mim com esses olhos com que olhas prós cães!

E o estudante também não hesitou em replicar:

– Ó doutor, eu para os cães olho com ternura!

– Boa resposta, amigo, boa resposta! Parabéns! – sublinhou assim o Alberto a gargalhada geral.

E a explicação da matéria continuou.

Inês

Ainda nesse contexto de uma atitude especial do docente poder influenciar toda uma vida, positiva ou negativamente, o caso que mais o impressionara, confidenciou-me, foi o de uma senhora sua ex-aluna, já formada, de que ele até já nem se lembrava bem.

Ao encontrá-lo na Baixa de Coimbra, veio saudá-lo com um beijo, identificou-se  e convidou-o para um café. Confidenciou-lhe:

– De certeza que não se lembra de mim. No meu primeiro ano, eu ousei entrar na sua aula a meio. Sentei-me e o professor andava pela sala a explicar a matéria, como costumava fazer. Deve ter reparado em qualquer coisa de estranho, quando eu entrei e depois. O certo é que, ao passar por mim pela segunda vez, me acariciou o cabelo e me segredou: «Não penses nisso! Vai correr tudo bem, acredita!». Tem alguma ideia porque é que eu me atrasara? De facto, apesar do atraso, nesse dia eu não queria mesmo faltar à sua aula. Se calhar, para receber aquela carícia, sabe-se lá!… Eu vinha do tribunal, doutor, onde acabara de ser decretado o meu divórcio!… Ainda não tinha 21 anos e um filho nos braços. Nunca mais me esqueci das suas palavras! Estou-lhe muito grata. Já passaram mais de 10 anos! Obrigado!

PEGADAS DE AQUILINO POR VISEU

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Ninguém, ninguém mais do que Aquilino Ribeiro celebrou em páginas de livro esta cidade. Viseu. Ninguém. Nem escritor nem poeta. De historiadores e cronistas não falo, que aí é vasto o trajecto, memoráveis os nomes, extenso o discurso.

Aquilino Ribeiro conheceu Viseu era jovem ainda e estudante encartado, já havia peregrinado com alguma demora por Lamego, dormente a cidade, lhe chamou enquanto Viseu a vai sentir prazenteira, amável, buliçosa, jucunda. Jucunda, escreveu ele. Agradável, queria ele dizer. “A melhor cidade para viver”, talvez quisesse dizer, premonitório.

Que viver aqui não viveu. Para além da pouca demora, em 1902, quando vem ao Liceu fazer exame de Filosofia, apenas tem uma curta pausa em 1928, mas aí vive entre as grades do Fontelo e da janela do calabouço pouco mais podia ver do que o longínquo horizonte da sua pátria, as Terras do Demo, para onde em breve irá romper caminho.

Aquilino foi aedo, celebrou a terra, o chão de lavra, marginal, o chão de pedra levantada, a paisagem, gratuitamente estendida para gozo dos homens como a primavera em flor para deleite de insectos; e lembrou os homens, humanista de seu génio, que da humanidade transviada apenas queria arredar o mal.

E o seu rasto ficou no eterno chão de Viseu, no nome de um Parque, de uma Rua, de uma estátua. Mais fundo ficou nas letras de ouro do seu lavrar; mais ainda no coração dos homens que cultivam o humanismo de que se fez paladino e defensor; retrato seu de vaidade não deixou; e o bronze de um retrato que eu ajudei a construir e se implantou no chão da Rua Formosa, onde ele tantas vezes sedeou, ficou como vero documento de um homem inteiro, que algum tempo entre nós viveu e trabalhou.

O CH É RACISTA

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O Chega agendou um debate na Assembleia da República sobre “As acusações de racismo na sociedade, no desporto e no sistema político: é preciso virar a página”, com o qual quis demonstrar que não há racismo algum na sociedade portuguesa e quem nem o próprio Partido Chega é racista.

Levou um bailarico da esquerda, logo a começar pela caracterização que Rui Tavares, do Livre, faz do Partido Chega.

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A CRIMINALIZAÇÃO DO JORNALISMO

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Mustafa Ayash conseguiu sair de Gaza, refugiou-se na Áustria. Em 2025, por pressão de Israel, foi acusado de financiar o Hamas, através de recolha de fundos promovida pelo site Gaza Now que, na realidade, apenas financiavam manutenção e a atividade do site. Perseguido pelo Estado de Israel, Mustafa foi a Haia para apresentar uma queixa no Tribunal Penal Internacional. Não conseguiu lá chegar, no aeroporto foi detido pela polícia holandesa, até hoje.

O caso de Mustafa Ayash não é apenas um processo judicial. É, acima de tudo, um exemplo da politização extrema das leis antiterroristas europeias e do modo como decisões políticas internacionais podem transformar jornalistas em alvos de um sistema de justiça enviesado.

O jornalista Mustafa Ayash não é acusado de um atentado, mas de ser próximo de uma organização classificada como terrorista, uma categoria legal tão vaga que transforma qualquer cobertura jornalística em suspeita criminal.

A lista de “terroristas” da UE não nasce da lei, mas da política: reflete alinhamentos estratégicos com EUA e Israel. E, assim, o direito formal perde o seu sentido. Presunção de inocência? Liberdade de imprensa? Tornam-se conceitos flexíveis, ajustáveis ao interesse geopolítico do dia.

No contexto atual, Ayash corre riscos extremos: detido, aguarda deportação para a Áustria, de onde poderá ser deportado para Israel (onde ficará sujeito a tortura e à pena de morte). Não se trata de justiça: trata-se de poder político mascarado de direito penal. O caso tem sido acompanhado atentamente pelo canal Al Jazeera, que tem dado conta das iniciativas populares e da ação da advogada na tentativa de defender o jornalista das acusações de “terrorismo”.

Esta história é o exemplo de como jornalistas são transformados em alvos e cidadãos críticos passam a potenciais “terroristas”. Se isto é segurança, a Europa perdeu a bússola.

Este caso evidencia o paradoxo de uma Europa que proclama princípios de liberdade de imprensa e presunção de inocência quando, na prática, esses princípios são esquecidos quando se confrontam com interesses estratégicos. A proteção jurídica formal existe, mas é condicionada por pressões diplomáticas e considerações geopolíticas, que, em casos como o de Ayash, tendem a se sobrepor à justiça objetiva.

O que está em jogo não é apenas o destino de um jornalista, mas o próprio significado de lei e justiça. Se a criminalização da proximidade com organizações classificadas como terroristas pode recair sobre jornalistas e ativistas, qualquer cidadão crítico de certas políticas ou regimes pode, teoricamente, ser o próximo da fila. Até mesmo o autor destas linhas que acabou de ler.

LUTA SEM TRÉGUAS

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Luís Montenegro percebeu que Passos Coelho quer recuperar o lugar para o qual entende ser a ‘última coca-cola do deserto’, o ‘D. Sebastião’ e, depois de um primeiro ataque com os seus ‘proxis’ – já agora um deles foi copiosamente derrotado nas eleições internas do PSD -. decidiu lançar um ataque, na perspectiva dele, mortal, que o deixará sossegado por mais dois anos, remetendo Passos Coelho para o silêncio. Antecipação das eleições directas no PSD para Maio – pois sabe que quanto mais tempo passar, maior pode ser o trambolhão – e um desafio a Passo Coelho que se candidate, ‘se tens coragem avança’, ao estilo do O Comboio Apitou sempre cinco vezes, um clássico do western, protagonizado por Gary Cooper.

Passos Coelho, que pensa ser um génio da política, o escolhido, desvalorizou as presidenciais, embalado no mantra de muitos comentadores que garantiam que o próximo Presidente da República só cumpriria um mandato. Mas, com a eleição de António José Seguro, percebeu que este tem condições para fazer dois mandatos e, daqui a dez anos, é tarde para uma candidatura presidencial, na eventualidade de falhar o assalto ao cargo de primeiro-ministro.

Neste novo quadro, decidiu passar ao ataque e afastar do caminho o seu ex-líder da bancada parlamentar, sem dó, nem piedade. Passos Coelho é um homem desprovido de sentimentos, frio, racional, que tem como único objectivo alcançar o poder para o exercer como ele pensa que deve ser exercido. Sentiu que Montenegro estava frágil e atacou. Acossado, Luís Montenegro reagiu, pois acredita que os amigos que o ajudaram a manter-se no poder irão continuar a ajudar e a afastar as pedras do caminho. Partiu para o ataque. Antecipação das eleições directas e Congresso em Maio de 2026, encurtando o tempo para uma movimentação de Passos Coelho, embora sabendo que este poderia juntar os apoios a uma candidatura, mas, neste momento, a maioria dos militantes do PSD não iria arriscar, a não ser que algo de grave acontecesse até essa data. Falhados os ‘idos de Março’, Passos Coelho, sem a ajuda das televisões, vai ficar a falar sozinho e a corroer o PSD, tecendo a teia que ele acredita que o leva ao poder. O ex-primeiro-ministro não irá desistir, quer afastar Luís Montenegro e implementar as reformas que serão o alfa e o ómega do nosso futuro colectivo. Não quer saber se os eleitores o querem ou o rejeitam, quer voltar a liderar o executivo.

Para já, estou convencido que não irá disputar as eleições internas e vai esperar que o poder lhe caia no colo. Resta saber se, quando isso acontecer, a vingança que preparou para Luís Montenegro ainda o irá favorecer, ou se, dentro do PSD, já começam movimentos para uma alternativa. Ou mesmo, se, quando acontecer, a maioria que se formou com a eleição de António José Seguro, cria uma nova maioria.

O QUE RICARDO TEM QUE OUTROS NÃO TÊM?

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Paulo de Morais é uma espécie de campeão tuga da luta contra a corrupção. Professor universitário, ativista de longa data da luta contra a corrupção acabou por ser ultrapassado em termos de ganhos políticos pelo atual deputado André Ventura.

Enquanto Morais nunca conseguiu grandes vitórias eleitorais com os seus pregões contra a corrupção, Ventura criou um partido e diversificou o seu mercado eleitoral com a inclusão de teses racistas e fascistas, com as quais tem conseguido granjear votos significativos em atos eleitorais. Ou seja, não será a corrupção o tema que mais chama a atenção do eleitorado que vota no Chega, o partido de Ventura.

Vem isto a propósito de uma promessa de Paulo de Morais, mantida religiosamente na sua página do Facebook. O texto é basicamente sempre o mesmo e reza assim:

publicação de Paulo de Morais repetida semanalmente

Este é um tema de interessante discussão. De que vale meter um octagenário na cadeia? A Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR) diz que “que não serve de nada enfiar mais um velho numa prisão portuguesa, tanto mais que se trata de uma demência e que, portanto, não tem consciência do que se passa à volta dele”.

Diz a APAR, que “um inimputável é vítima de uma alteração estrutural cerebral que condiciona a capacidade de compreensão dos actos. Nestes casos, não deve ser condenado a uma pena de prisão, mas sim a uma medida de segurança de internamento em hospitais psiquiátricos ou unidades de saúde especializadas.”

Mas Ricardo Salgado está condenado. Perdeu todos os recursos possíveis, o último dos quais no Tribunal Constitucional. Muitos teimam em ver Ricardo Salgado unicamente como um homem que prejudicou milhares de cidadãos, e o próprio país, em milhares de milhões de euros. E, por isso, uma vez condenado, tem de cumprir pena.

O argumento de que é um velho doente com Alzheimer não pode valer só para ele. Se Ricardo Salgado não der entrada numa cadeia, o Estado terá a obrigação de colocar em liberdade, ou dar um tratamento idêntico, a centenas e centenas de cidadãos presos, alguns há muitos anos, com idade e em condições de saúde idênticas, ou piores, do que as do banqueiro. Portugal tem, nas suas prisões, centenas de inimputáveis sendo que, muitos deles, ao contrário de Salgado, cometeram os seus crimes num período em que já eram doentes mentais, absolutamente incapazes de distinguir o bem do mal e, por maioria de razões, o legal do ilegal.

Mas, a verdade é que o tempo passa e Ricardo Salgado continua no conforto da sua casa, acompanhado pela família e criadagem. Sem novidade, reconfirmamos que há uma justiça para ricos e outra para nós.

A LEI DO MAIS FORTE

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Houve um tempo em que a lei internacional foi vendida como “livro sagrado da diplomacia”. Nunca foi e os últimos acontecimentos acabaram de vez com esse fingimento.

Durante muito tempo todos fingimos que bombas atómicas nunca caíram no Japão sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945, que no Chile Salvador Allende não foi morto num golpe armado pelos EUA em 1974, ou que Kaddafy não foi linchado em público depois dos bombardeamentos da NATO terem aberto caminho para a mudança de regime na Líbia, em 2011.

Salvador Allende, Presidente do Chile, antes de ser morto no bombardeamento do Palácio presidencial
Kaddafy, Presidente da Líbia

No ocidente, os líderes políticos, os média, sempre montaram cenários e narrativas convenientes. O caso do Iraque é o exemplo: invadiram um Estado argumentando a mentira da existência de armas químicas de destruição massiva. Jornalistas de todo o mundo foram ver as bombas destruir Bagdad, nenhum deles viu armas químicas. Portugal participou nessa farsa, com a Cimeira das Lajes e o único que ganhou com isso foi Durão Barroso, sempre levado ao colo, desde então, por presidências e lugares de delícias.

Cimeira das Lajes, quando 4 presidentes e primeiro-ministros mentiram ao mundo sobre o perigo do Iraque

Quando Saddam Hussein foi encontrado num buraco poeirento e exibido ao mundo como um animal capturado, o ocidente fez uma espécie de pedagogia com o exemplo do que acontece aos desalinhados . O julgamento que se seguiu teve a solenidade de um espetáculo teatral. A sentença era conhecida antes da primeira palavra da acusação. O juiz e o carcereiro pertenciam ao mesmo exército.

Saddam Hussein, Presidente do Iraque, prisioneiro dos EUA

Agora olhemos para Volodymyr Zelensky. Desde 2022 vive sob mísseis russos. Poderia ter sido eliminado logo nos primeiros dias da invasão. Não foi. Não porque os russos acreditem nalgum mandamento que diga “não matarás presidentes em funções”. Mas, talvez, porque o cálculo estratégico tenha aconselhado Putin a ter misericórdia. Mas, se fosse hoje, depois dos que os EUA fizeram na Venezuela e no Irão, talvez a sorte de Zelensky não fosse a mesma.

Volodymyr Zelensky, Presidente da Ucrânia

A partir de agora, o destino dos líderes passará a depender da sua força militar e de ser, ou não, considerado parte estrutural da ameaça. Se for ameaça, elimina-se. Sem tribunal. Sem alegações formais. Sem teatro jurídico. Não se muda o regime, elimina-se o topo e logo se vê o que sobra.

Ali Khameney, líder supremo do Irão, morto num bombardeamento dos EUA/Israel em Teerão

A verdadeira regra

O padrão é, agora, claro: se o teu Estado colapsa, és julgado; se o teu Estado resiste com aliados poderosos, és preservado; se representas um risco tolerável, sobrevives; se representas um risco maior e ninguém te pode defender, fazem de ti exemplo e matam-te.

Já ninguém se atreve a chamar a isto “ordem internacional baseada em regras”. Talvez fosse mais honesto chamar-lhe ordem internacional baseada em capacidade de retaliação. O problema não é que líderes autoritários caiam. O problema é que a régua não é igual para todos. Quando a execução, o assassinato ou o rapto dependem da força disponível e não de um quadro jurídico universalmente aplicável, o mundo não se torna mais justo.

Já não fingimos que a lei é cega. Ela vê perfeitamente, sobretudo o calibre das armas. E as reservas de hidrocarbonetos.

RECLUSO AGREDIDO EM MONSANTO

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Apanhou uma carga de porrada que o deixou “todo marcado”, são as palavras do avô de Hugo Pereira, o recluso que terá morto o colega de cela no Estabelecimento Prisional do Linhó.

Depois do sucedido, o recluso foi transferido para o Estabelecimento Prisional de Monsanto, cadeia de alta segurança, informa a Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR).

As críticas da APAR são severas: “Trata-se de um recluso que sofre de esquizofrenia, medicado com doses fortíssimas de medicamentos, e que deveria estar, há muito, internado em hospital psiquiátrico e não numa prisão. Como a APAR e os familiares do recluso repetidas vezes solicitaram. Os responsáveis dos Estabelecimentos Prisionais por onde passou têm disso conhecimento até porque foram inúmeras as vezes que tiveram de o conduzir aos hospitais por ter engolido pilhas e lâminas de barbear. Foram sempre desvalorizando esses sinais até ter acontecido esta última tragédia.”

Mas, em vez de ter sido transferido para a Clínica Psiquiátrica do Hospital Prisional de Caxias (ou para a Clínica do Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo) este homem doente levou um “tratamento” dos guardas prisionais de Monsanto.

 “Nada que não seja usual naquela prisão”, informa a APAR. “Há guardas prisionais (felizmente uma minoria), que se acham no direito de espancar reclusos e se sentem realizados com esse acto de ignóbil cobardia”, esclarece esta associação.

“Agredir um preso que não se pode defender, para mais doente, é absolutamente indigno e criminoso. Quando essa agressão vem de elementos da guarda prisional, que deve pugnar pela Lei dentro dos Estabelecimentos Prisionais, é a maior das ignomínias”, e esta posição da APAR foi endereçada por escrito para o Governo, Assembleia da República e responsáveis pelos serviços prisionais.

A APAR pede um inquérito ao que está a suceder, “caso se confirmem as agressões que se  identifiquem os agressores e que se questione a inércia dos chefes desses guardas e da Direção do Estabelecimento Prisional porque, terão de ser considerados seus cúmplices”.

Segundo a APAR, vai ser apresentada queixa na Procuradoria-Geral da República.

DEITADA NA AREIA DO DESERTO, BRAÇOS ABERTOS AO VENTO

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Deserto do Namibe, Angola

Endémica do sul de Angola e do norte da Namíbia, a Welwitschia é, à sua maneira, minimalista: passa a vida inteira com apenas duas folhas. Duas. Nem uma, nem três, nem um conjunto elegante de ramos. Apenas duas folhas teimosas que crescem continuamente a partir da base, podem atingir os 4 metros, podendo a planta ultrapassar os mil anos de idade. O vento encarrega-se de as rasgar e torcer, dando-lhe aquele aspeto de desalinhado de quem acordou há séculos e ainda não teve tempo de se pentear. Para outros, esta planta parece um polvo.
Considerada um verdadeiro “fóssil vivo”, é do tempo do Jurássico, pertence à divisão das gnetófitas, um grupo raro de gimnospérmicas * que há muito intriga botânicos em todo o mundo. Mas há mais: a Welwitschia é dioica – existem plantas masculinas e plantas femininas. Os exemplares masculinos produzem cones com pólen; os femininos, cones que, após a polinização (frequentemente feita por insetos persistentes), originam sementes. Romance botânico em pleno deserto, com direito a pólen levado pelo vento e encontros discretos entre cones.


A sobrevivência, essa, é obra de engenharia natural. Uma raiz axial profunda mergulha no subsolo em busca de humidade, enquanto as folhas absorvem o nevoeiro atlântico que se insinua pelas madrugadas do Namibe. Num território onde quase tudo parece desistir, ela insiste e resiste.

O próprio nome conta várias histórias:

Na língua local, a Welwitschia, chama-se Tômbwa ou Tômbua e dá nome a uma cidade no Namibe. Este foi também o primeiro nome científico (latinizado) que teve, Tomboa Angolensis. Mas os nomes locais raramente são os fixados pela ciência e mais tarde passou a
chamar-se Welwitschia Mirabilis.

Welwitschia homenageia o botânico austríaco Friedrich Welwitsch, que a encontrou e descreveu em Angola em 1859, perto de Cabo Negro**, aquando das suas explorações botânicas em Angola ao serviço da coroa portuguesa – recolheu um total de 8.000 amostras botânicas, com 5.000 espécies diferentes, destas, mais de mil eram espécies novas. Já Mirabilis vem do latim e significa “maravilhosa” – e a ciência não exagerou no adjetivo, é mesmo maravilhosa (à sua maneira, mas maravilhosa). No Namibe, porém, ela atende por nomes mais íntimos: “N’tumbo”, em umbundu, e “Onyanga”, em herero e também “Tômbua” ou “Tamboa”.

E como toda figura “maravilhosa”, também carrega uma lenda.
Conta a tradição oral que teria sido uma jovem transformada pelos espíritos do deserto – condenada, ou quem sabe abençoada, a permanecer deitada sobre a areia, braços abertos ao vento, atravessando séculos. Olhando para as suas folhas largas e retorcidas, não é
difícil imaginar a silhueta de alguém que caiu, mas nunca se rendeu.
Também há quem diga que é carnivora e que come galinhas ou mesmo humanos, mas há também quem afirme que esta éuma história inventada para a proteger, pois assim não lhe tocam.
Entre o rigor científico e a poesia do deserto, a Tômbua permanece ali, impassível e desalinhada, testemunha de impérios que passaram, de fronteiras traçadas e redesenhadas, de gerações que nasceram e partiram. Mais do que planta, é metáfora viva: num lugar onde tudo parece árido e inóspito, a vida não apenas resiste – faz questão de permanecer.