DEITADA NA AREIA DO DESERTO, BRAÇOS ABERTOS AO VENTO

No coração abrasador do deserto do Namibe, onde o horizonte se dissolve na ondulação da areia e o vento parece ter doutoramento em contar histórias antigas, vive uma das figuras mais improváveis do reino vegetal: a Welwitschia Mirabilis. Planta? Sim. Mas com personalidade suficiente para reclamar estatuto de personagem histórica. Não fosse ela contemporânea dos Dinaussauros.

0
301
Deserto do Namibe, Angola

Endémica do sul de Angola e do norte da Namíbia, a Welwitschia é, à sua maneira, minimalista: passa a vida inteira com apenas duas folhas. Duas. Nem uma, nem três, nem um conjunto elegante de ramos. Apenas duas folhas teimosas que crescem continuamente a partir da base, podem atingir os 4 metros, podendo a planta ultrapassar os mil anos de idade. O vento encarrega-se de as rasgar e torcer, dando-lhe aquele aspeto de desalinhado de quem acordou há séculos e ainda não teve tempo de se pentear. Para outros, esta planta parece um polvo.
Considerada um verdadeiro “fóssil vivo”, é do tempo do Jurássico, pertence à divisão das gnetófitas, um grupo raro de gimnospérmicas * que há muito intriga botânicos em todo o mundo. Mas há mais: a Welwitschia é dioica – existem plantas masculinas e plantas femininas. Os exemplares masculinos produzem cones com pólen; os femininos, cones que, após a polinização (frequentemente feita por insetos persistentes), originam sementes. Romance botânico em pleno deserto, com direito a pólen levado pelo vento e encontros discretos entre cones.


A sobrevivência, essa, é obra de engenharia natural. Uma raiz axial profunda mergulha no subsolo em busca de humidade, enquanto as folhas absorvem o nevoeiro atlântico que se insinua pelas madrugadas do Namibe. Num território onde quase tudo parece desistir, ela insiste e resiste.

O próprio nome conta várias histórias:

Na língua local, a Welwitschia, chama-se Tômbwa ou Tômbua e dá nome a uma cidade no Namibe. Este foi também o primeiro nome científico (latinizado) que teve, Tomboa Angolensis. Mas os nomes locais raramente são os fixados pela ciência e mais tarde passou a
chamar-se Welwitschia Mirabilis.

Welwitschia homenageia o botânico austríaco Friedrich Welwitsch, que a encontrou e descreveu em Angola em 1859, perto de Cabo Negro**, aquando das suas explorações botânicas em Angola ao serviço da coroa portuguesa – recolheu um total de 8.000 amostras botânicas, com 5.000 espécies diferentes, destas, mais de mil eram espécies novas. Já Mirabilis vem do latim e significa “maravilhosa” – e a ciência não exagerou no adjetivo, é mesmo maravilhosa (à sua maneira, mas maravilhosa). No Namibe, porém, ela atende por nomes mais íntimos: “N’tumbo”, em umbundu, e “Onyanga”, em herero e também “Tômbua” ou “Tamboa”.

E como toda figura “maravilhosa”, também carrega uma lenda.
Conta a tradição oral que teria sido uma jovem transformada pelos espíritos do deserto – condenada, ou quem sabe abençoada, a permanecer deitada sobre a areia, braços abertos ao vento, atravessando séculos. Olhando para as suas folhas largas e retorcidas, não é
difícil imaginar a silhueta de alguém que caiu, mas nunca se rendeu.
Também há quem diga que é carnivora e que come galinhas ou mesmo humanos, mas há também quem afirme que esta éuma história inventada para a proteger, pois assim não lhe tocam.
Entre o rigor científico e a poesia do deserto, a Tômbua permanece ali, impassível e desalinhada, testemunha de impérios que passaram, de fronteiras traçadas e redesenhadas, de gerações que nasceram e partiram. Mais do que planta, é metáfora viva: num lugar onde tudo parece árido e inóspito, a vida não apenas resiste – faz questão de permanecer.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui