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O PAÍS ENCALHADO

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Os países que lideram o desenvolvimento científico e industrial não afastam investigadores nem atrasam pagamentos aos bolseiros da investigação…

Mas Portugal continua a privilegiar o sector do turismo e dos serviços, como se daí conseguissemos dar emprego decente aos nossos jovens.

O que dizem as parangonas sobre o nosso crescimento do PIB, não nos leva para perto, sequer, dos parceiros europeus. É um crescimento sempre abaixo dos 70% da média europeia.

A nossa dívida externa, que não é para pagar mas para gerir (ouvi dizer), esmaga a  possibilidade de subirmos no ranking europeu. O tecido empresarial é maioritariamente de micro, pequenas e médias empresas e quase todas viradas para os serviços e para o turismo.

Produz-se pouco e estamos sempre, mas sempre, dependentes dos fundos estruturais.

O investimento externo não vem, porque a justiça é lenta e o fisco injusto. O que vemos é um marcar passo permanente porque continuamos com mão de obra de baixos salários, tão baixos que nem servem para animar o mercado interno.

Como é que se passa para uma economia que tem a sua estrutura no conhecimento e inovação, se se aposta no imobiliário, turismo, serviços…?

Pagamos caro as formações dos nossos jovens e eles, findo os cursos, não vêm hipótese nenhuma em conseguir empregos capazes por cá. Emigram para os países que não gastaram um cêntimo nessas formações.

Mas que atraso de vida.

E a música deste fado que não nos larga:

O VÍCIO DA GUERRA

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imagem descritiva alterada com grafismo

Os americanos viciaram-se na guerra. O que temos visto é a aplicação do método negocial com a pistola apontada à cabeça do interlocutor. Foi assim com o Irão. Enquanto decorriam negociações, choveram bombas. Agora, durante um cessar-fogo criado precisamente para negociar a paz, voltaram os bombardeamentos. A guerra interrompe as negociações; as negociações servem apenas para preparar o ataque seguinte.

Em Gaza, a farsa é ainda mais obscena. Washington financia, arma, abastece e protege diplomaticamente o exército israelita. Diz querer a paz enquanto garante que nunca faltam bombas para os israelitas prosseguirem com o plano genocida de limpeza étnica de extermínio dos palestinianos.

Os Estados Unidos já nem escondem a lógica que orienta a sua política externa. Não procuram compromissos. Procuram obediência. Não querem adversários convencidos. Querem adversários vencidos.

A negociação deixou de ser um instrumento para evitar a guerra. Tornou-se uma arma da própria guerra: ganha tempo, desorienta o adversário, cria ilusões, divide opiniões públicas e permite preparar o ataque seguinte, dá tempo para as fábricas de armamento e munições reporem os arsenais gastos.

Quem continua a acreditar que Washington negoceia para alcançar a paz talvez devesse perguntar por que razão os bombardeamentos surgem tantas vezes antes de a tinta secar nos comunicados sobre o diálogo.

Não há paz possível quando uma das partes fala através de ultimatos e mísseis. Não há boa-fé quando os bombardeiros mantêm os motores ligados e os porta-aviões permanecem em posição.

A história recente mostra-nos que para os Estados Unidos o que eles chamam de paz é apenas mais um caminho para a subjugação de outros povos.

O TALISMÃ VOADOR

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adaptação de um cartoon de Hélder Dias

Houve quem dissesse que Luís Montenegro era um talismã da seleção nacional. Não deixa de ser uma ideia simpática, própria das páginas de desporto, mas agora há que reconhecer que não resultou.

O primeiro-ministro assistiu presencialmente a três jogos de Portugal no Mundial. Para lá e para cá, atravessou seis vezes o oceano Atlântico. A primeira viagem teve o carácter de visita oficial aos Estados Unidos. As outras já não. Foi como “adepto talismã”. A pergunta não é se um chefe de Governo pode assistir a um jogo da seleção. Pode. A pergunta é outra: precisava de assistir a três? E se Portugal tivesse passado, a quantos jogos Montenegro teria ido?

Governar um país não é acompanhar uma equipa em digressão. O primeiro-ministro não é o décimo segundo jogador, nem um amuleto institucional que tenha de ocupar um lugar na tribuna para que Portugal marque golos.

Cada uma destas viagens mobilizou inevitavelmente recursos públicos. Se foram utilizados voos comerciais, acompanhados por uma comitiva de segurança e assessoria, uma estimativa prudente aponta para um custo global entre 120 mil e 185 mil euros. Se, como é perfeitamente plausível, foi utilizado um avião da Força Aérea Portuguesa (solução mais compatível com a flexibilidade exigida à agenda de um chefe de Governo), o custo total poderá situar-se entre 300 mil e 500 mil euros. São estimativas, não números oficiais.

Dir-se-á que são valores irrelevantes perante um Orçamento do Estado de dezenas de milhares de milhões de euros. Talvez. Mas a ética na gestão do dinheiro público nunca começou pelos grandes números. Começa pelos pequenos gestos e pelo exemplo de quem governa.

Se Montenegro é realmente um talismã, talvez valha a pena levá-lo também para as listas de espera do SNS, para os atrasos na Justiça ou para as crises da habitação. Aí, o país agradecer-lhe-ia muito mais a presença do que numa bancada de um Mundial.

Um primeiro-ministro pode gostar de futebol. O que não deve fazer é dar a ideia de que confunde representação institucional com lugar cativo na tribuna.

cartoon original de Hélder Dias

ABRAM ALAS PARA A VERDADE NUA E CRUA DO NOSSO PORTUGAL!

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Vejam bem esta loucura total que é a nossa maravilhosa e esquizofrénica existência:

A LOUCURA DOS DOIS MUNDOS!

A Batalha do Relógio!

Na Vida Social: “Chego num minutinho!” Tradução: ainda estou em cuecas a escolher a camisa! O atraso crónico é o nosso oxigénio!

No Futebol: Às 20h15 é o apito inicial. Às 19h00 já o adepto está alapado na cadeira, com o cachecol esticado e o coração a bater a duzentos à hora. Ai do árbitro que atrase o jogo trinta segundos! É uma ofensa nacional!

O Grito de Revolta!

Na Vida Social: Hospitais sem médicos, escolas sem professores, comboios que nunca passam. O português suspira, bebe uma bica, come um pastel de nata e diz: “Olha, é o país que temos…” É uma paz de alma que até assusta!

No Futebol: O lateral-esquerdo falhou um passe de dois metros? REVOLUÇÃO! Convocam-se assembleias gerais extraordinárias, exige-se a demissão do presidente, queima-se o carro do treinador e pede-se a intervenção das Nações Unidas antes que chegue a terça-feira!

O Milagre Financeiro!

Na Vida Social: O azeite está a preço de ouro! O combustível é um assalto! Choramos, gritamos e fazemos contas à vida por causa de três cêntimos no quilo do arroz!

No Futebol: Cento e cinquenta euros por uma camisola de plástico que diz “Emirates” no peito? Oitenta euros por um bilhete para apanhar pneumonia na bancada superior norte? “DÁ-ME DOIS, QUE O DINHEIRO NÃO SE LEVA PARA A COVA!” É a terapia do povo!

A União que Move Montanhas!

Na Vida Social: Uma manifestação para exigir melhores salários junta o organizador, a mãe do organizador e um cão vadio que passava por ali.

No Futebol: O autocarro do clube vai passar numa rotunda à meia-noite, debaixo de um dilúvio bíblico? MIL E POUCAS ALMAS de tronco nu, a acender fachos vermelhos ou verdes, a chorar baba e ranho por onze milionários que nem sabem o nome deles! É épico! É poético! É absurdo!

A Justiça Divina!

Na Vida Social: Fugir ao fisco? Coisa linda. Estacionar o jipe em cima da passadeira para ir buscar o pão? Desenrasque! Subornar o primo da junta? Inteligência!

No Futebol: Um fora de jogo de dois milímetros que o VAR não viu no canal 11? É uma cabala! É corrupção ao mais alto nível! É a Maçonaria a tentar destruir as fundações da nossa região! Queremos sangue!

O VEREDICTO FINAL!

Nós somos brilhantes! Nós temos uma energia que podia colonizar Marte! Só que escolhemos gastá-la toda a insultar homens de preto que correm de apito na boca! Viva o futebol, que nos salva de ter de resolver a nossa própria vida!

A MESMA HISTÓRIA, VERSÃO BD

OBRIGADO CAPITÃO!

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fotomontagem

Ao contrário de muitos não vejo que se possa dizer que esta seleção tem os melhores jogadores que disputaram fases finais do Mundial por Portugal. Tem um bom guarda-redes mas Portugal já teve bem melhor: Vitor Baía, Vitor Damas e Bento, por exemplo e para não ser exaustivo. Dos defesas só Nuno Mendes se destaca. Os nossos centrais estão a anos luz de dezenas de outros que passaram pela Selecção: Humberto Coelho, Jorge Costa, Fernando Couto, Ricardo Carvalho, Pepe, Bruno Alves, por exemplo. O nosso meio campo de “sonho” fracassou completamente e só João Neves mostrou alguma classe.

Bruno Fernandes foi de novo, na Selecção, o que há de pior num jogador de equipa: querer destacar-se não pelo mérito, mas prejudicando quem lhe é superior. O campeão das assistências no Campeonato Inglês não fez UMA durante esta fase final do Mundial, não fosse ajudar CR7 a marcar um golo.

Vitinha e Bernardo Silva, em quem depositava enormes esperanças, foram uma desilusão. Mais de sessenta jogos nas pernas poderão ajudar a perceber o fracasso, mas esse era um problema de muitos.

A verdade é que adjectivámos, ao longo dos últimos tempos, alguns bons jogadores como “super” jogadores. E não são.

Já tivemos muito melhor: Figo e Deco foram médios excepcionais, Paulo Sousa, Rui Costa, André, Coluna e Sérgio Conceição deixariam os actuais titulares no banco de suplentes.

No ataque temos, hoje, alguns razoáveis jogadores: João Félix, Rafael Leão, Gonçalo Ramos e Gonçalo Guedes. Jogadores vulgarissimos como: Conceição, Trincão e Pedro Neto.

E temos Cristiano Ronaldo que, aos 41 anos, é a grande referência da equipa. Para se perceber o problema basta dizer que a Ronaldo só Eusébio se pode comparar.

Depois recordo alguns dos avançados que passaram pela nossa Selecção e que seriam titulares na actual, ao lado de CR7, mesmo que estivessem a jogar a 50% das suas capacidades: Quaresma, Hugo Almeida, Pauleta, Paulo Futre, Fernando Gomes, João Pinto e Postiga.

Portugal fez o seu Campeonato. Ao contrário de muitos sempre disse que a nossa Selecção não podia ser considerada candidata a Campeã do Mundo.

Com a saída de Ronaldo vai passar a ter enormes dificuldades em se classificar para as fases finais. Os extraordinários sucessos dos últimos anos têm um único responsável: CRISTIANO RONALDO. Foi ele quem carregou a equipa às costas. Só um Povo habituado a denegrir os seus melhores não reconhecerá isto.

Por todos os sucessos conseguidos nos Estádios onde espalhou magia, por tudo o que fez pelo meu País, pela sua história de vida (criança a viver abaixo do nível de pobreza, que vem aos dez anos para o Continente, sozinho, longe da Família e se torna numa Figura Mundial, unicamente com o seu talento e esforço) o meu sincero e emocionado: OBRIGADO CR7.

OBRIGADO CAPITÃO!

REFLEXÕES SOBRE A (in)JUSTIÇA

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O que é a Justiça dos homens? Quanto à justiça divina, sabemos que a mesma existe para quem acredita e tem a fé suficiente para interiorizar que, numa outra dimensão, será, sempre, feita.

O pior é com a Justiça dos homens, até porque ela é feita por homens, algumas vezes com o desvario de estarem ungidos do poder divino de aplicar na Terra o que Deus aplica no Céu.

E esses homens que governam e aplicam a Justiça, que nunca erram, que se deitam sem dúvidas existenciais quanto à sua actuação em defesa da sociedade, quando chegarem lá, onde todos nós, quer acreditemos, quer não, teremos de pagar a conta final, qual será o seu saldo? Terão um saldo credor ou devedor?

Quando o Mundo atravessa uma crise de valores tão profunda, em que a vida humana deixou de ter qualquer significado, não será tempo de parar para pensar qual a essência que se deve proteger? A vida ou o património? Os valores que podem fazer renascer a sociedade, potenciar um desenvolvimento harmonioso dos nossos jovens ou os bens materiais? Será justa uma lei que privilegia o património à vida, ou que lhe dá a mesma relevância?

Já pensaram porque é que aumentou a violência nas escolas? Porque é que os crimes violentos, típicos de uma sociedade desenraizada, como a dos Estados Unidos, se transportam para a ‘velha Europa’, a tal de uma cultura secular?

Quem tem a culpa desta situação? Serão os pais? Os governantes? Os detentores do poder económico? Os detentores do poder judicial?

Qual a solução? Entregar o poder aos magistrados, como aplicadores e garantes da Lei? E quem é que passaria a fazer as leis?

Será que o poder corrompe? E a impunidade? E a impunidade total? Vejam o que se passou no Campeonato do Mundo dos Estados Unidos com a impunidade da despenalização de um jogador a pedido de Trump. E a irresponsabilidade é um valor ou uma forma de exercício do poder total?

Vale a pena acreditar que a Justiça existe e é pautada pelo bom senso?

A resposta para todas estas questões pode não ser politicamente correcta e, essencialmente, desagradar às corporações de interesses que se instalaram no Estado e que não vivem preocupadas com os cidadãos, mas tão somente com os seus mesquinhos poderes fácticos.

Eu, por mim, confesso que não sei se vale a pena encontrar essas respostas.

FAUSTINO

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– Ó avô, porque é que tu mostras sempre o bilhete ou o passe errado?

– Sabes, neto: o revisor passa o dia a inspecionar passes. A maior parte das vezes, nem lhe dizem «Bom dia!» nem «Boa tarde!». Uma vida monótona. À noite, ao jantar, nada tem pra contar à mulher ou à namorada ou aos filhos. Assim, hoje, sempre poderá dizer «Imaginem que, esta tarde, um velho queria enganar-me e mostrou-me o passe errado. fora do prazo! Tive de o obrigar a ver nos bolsos tudo, até que lá encontrou o verdadeiro!».

O Faustino é, de facto, assim. No bairro onde vive, não consegue cruzar-se com rapaz, senhora, homem, seja quem seja, trabalhador da garagem ou senhor bem posto de fato e gravata em jeito de engenheiro, sem lhes falar.  Um bairro periférico, onde, por mais estranho que pareça, a maior parte das pessoas ainda se conhecem, mas onde  passam diariamente muitas outras que não são do bairro: vêm ao hospital, à estação dos correios, a uma das oficinas de automóveis, à pastelaria, ao restaurante, ao minimercado… Ao cruzar-se com esses forasteiros, na paragem do autocarro por exemplo, Faustino não deixa de os saudar. Da maior parte sai um «Bom dia!» ou uma «Boa tarde!». impregnados de admiração, a denunciar quanto se não esperava a saudação. Não é raro, porém, que a surpresa leve a um «Olá! Boa tarde!», a revelar contentamento. Raro também é haver quem não corresponda, estrangeiro que seja.

Faustino, porém, vai mais longe.

A noite fora chuvosa, depois de um dia deste Junho de intenso calor. Nessa manhã, que acordara chuvosa também, Faustino cruzou-se com a senhora de calção e manga curta:

– Vamos esconjurar a chuva, vizinha?

–Vamos, pois!

E ambos sorriram.

Nos corredores do hospital, já o ouvi acrescentar à senhora grávida com que se cruzou na escada: «Que tenha uma boa hora!». «Obrigado!» – surge sempre, admirado, o sorriso!

Ou ao ancião que se protege da chuva: «Ela hoje não molha, amigo!». «Ai, molha, molha! É de molhar tolos!».

Parar diante da criancinha que chora, agarrada à mãe, e fazer-lhe uma fosquinha – e o choro passa! E a mãe sorri.

Na passadeira da rua, quando o carro pára, a fim de o deixar passar, apressa-se a correr, numa de, na brincadeira, ter medo de ser atropelado, sorridente, só para ver o sorriso do condutor! Melhor, se for da condutora! E agradece sempre.

Na caixa do supermercado, perscruta sub-repticiamente a etiqueta identificativa do funcionário e saúda-o pelo nome. Recebe o habitual sorriso admirado e as contas até correm melhor!…

Aos 70 e poucos anos, Faustino resiste a viver isolado.

FACE AO GENOCÍDIO DE GAZA, A BRANDURA DE PORTUGAL

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Gaza, julho de 2026

Isaltino Morais não foi o único autarca português a ir a Israel “a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita e da Embaixada de Israel em Portugal”. A explicação vem nas redes sociais, com a chancela do embaixador de Israel em Portugal.

fonte Instagram IsraelinPortugal

A informação não especifica quem pagou as despesas da viagem, mas depreende-se que terá sido quem fez os convites. A informação também não nomeia nenhum dos autarcas portugueses que aceitaram o convite, mas o Presidente da Câmara de Oeiras assumiu que esteve em Israel para visitar uma feira empresarial onde decorreu uma conferência sobre “cidades inteligentes”.

Hoje, a expressão “cidade inteligente” está frequentemente associada a sistemas de videovigilância, reconhecimento facial, análise de dados, controlo de multidões e outras tecnologias de monitorização. Trata-se de um setor onde várias empresas israelitas ocupam posições de destaque, desenvolvendo soluções que, em muitos casos, resultam de conhecimento adquirido em contextos de ocupação militar e de conflito. Essas empresas  anunciam produtos como combat proven (testados em combate), precisamente para lhes conferir credibilidade comercial. Na maioria dos casos, os ditos “combates” não passam de assassinatos seletivos ou de tiro ao alvo contra multidões em Gaza, na Cisjordânia e em outros territórios vizinhos.

Na conta de Instagram IsraelinPortugal multiplicam-se os registos de contactos do embaixador israelita com autarcas portugueses, incluindo os presidentes das câmaras de Oeiras, Guarda, Valongo, Vila Nova de Gaia e outros municípios. A mesma conta documenta convites para cerimónias oficiais, como as comemorações do 10 de Junho, e diversos encontros institucionais.

à esquerda, o embaixador de Israel com o autarca da Guarda, à direita com o autarca de Oeiras

A imagem que daí resulta é inequívoca: o embaixador de Israel continua a ser recebido com toda a normalidade por responsáveis políticos portugueses, que aceitam surgir em fotografias de cordialidade institucional ao lado do principal propagandista e representante diplomático em Portugal de um Estado atualmente acusado, em instâncias internacionais, da prática de crimes de guerra, crimes contra a Humanidade e genocídio contra a população palestiniana.

embaixador de Israel com o ministro da Defesa Nacional do Governo português

Tal como escrevemos na crónica de ontem, “quando um representante institucional português escolhe deslocar-se a Israel para participar numa iniciativa de promoção empresarial, fá-lo num contexto em que o Estado israelita enfrenta acusações de crimes de guerra, crimes contra a Humanidade e genocídio sobre a população palestiniana.”

Claro que são escolhas que transmitem uma mensagem política. E, neste caso, são sinais de normalização de crimes de guerra e do genocídio de um povo.

publicado em ISALTINO EM ISRAEL

ÓPERA DA INAÇÃO NACIONAL

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Imagem real de autor desconhecido (disponível na net)

Senhoras e senhores, sintonizem as vossas televisões e preparem as vossas carteiras. Está em cena, com lotação esgotada e financiamento público vitalício, a grandiosa Ópera da Inação Nacional. Um drama lírico onde os tenores do hemiciclo e os barítonos das comissões parlamentares cantam as dores do país enquanto afinam o seu próprio património.

Ato I: O Milagre da Multiplicação dos Tachos

O libreto abre com o habitual coro de lamentações. A Saúde tosse, a Escola reprova e a Habitação desaba. Mas não temam! O Ministro em funções, cuja única competência conhecida é a capacidade de deslizar por entre as perguntas dos jornalistas como uma enguia em azeite, tem a solução perfeita: a fundação de um novo Grupo de Trabalho.

O banquete da comissão é servido prontamente. Reúnem-se os sábios do regime em tertúlias gastronómicas altamente qualificadas, pagas com o IVA do teu pacote de massa. O objetivo? Estudar de forma profunda e exaustiva a melhor forma de empurrar o problema com a barriga até às férias de verão.

A estrutura é estéril, mas a máquina é fértil. Num passe de mágica burocrático, a secretária de um gabinete qualquer ganha uma nova gaveta. Não para guardar processos, mas para alojar o novo assessor, o consultor júnior e o afilhado do secretário de Estado, garantindo que o nepotismo nacional continua a ser o maior motor de emprego jovem do país.

Ato II: O Mistério da Pista Sem Fim

O segundo ato é uma coreografia cómica dedicada à aviação nacional. O Aeroporto de Lisboa transformou-se num artefacto arqueológico vivo. Há meio século que os sucessivos elencos estudam se os aviões devem aterrar em Alcochete, no Montijo, na Ota, ou nas traseiras da casa da avó de um influente deputado.

A humanidade já mapeou o genoma humano, enviou robôs para Marte e inventou a inteligência artificial, mas o decisor político português continua perplexo, de bússola invertida na mão, sem saber onde raio há de colocar uma tira de asfalto. É a nossa vadiagem burocrática elevada a património imaterial da UNESCO.

Ato III: A Contabilidade Criativa e os Dez Euros da Salvação

Quando a economia cresce uns míseros milímetros devido ao turismo desenfreado, os senhores do fato cinzento sobem ao palco com o peito inchado, reivindicando para si o mérito do “milagre económico”. No entanto, se o país afunda no barómetro europeu, a culpa é subitamente do vento, da conjuntura internacional ou, claro, do “pesado legado” deixado pelo bando anterior.

A ópera atinge o seu clímax dramático na conferência de imprensa. Confrontado com o sumiço de fundos comunitários, o governante saca da sua melhor cartada populista. Com uma lágrima ao canto do olho e a voz trémula de falsa compaixão, anuncia: “Aumentámos dez euros à pensão da vossa velhota!”

O público aplaude, o idoso faz contas à vida e percebe que os dez euros não chegam para nada, enquanto nos bastidores, o amigo mafioso de colarinho branco limpa o suor da testa com uma nota de quinhentos, vinda diretamente do milhão desviado do orçamento de Estado.

Epílogo: A Teta Sagrada

A cortina desce, mas o espetáculo nunca termina. A verdade nua e crua é que Portugal não pode dar-se ao luxo de funcionar. Se os problemas fossem realmente resolvidos, os doutores do assento vitalício morreriam de tédio. A ineficácia é o oxigénio desta classe. Afinal, para que serve um salvador da pátria se a pátria, por milagre, deixar de precisar de ser salva? A teta nacional continuará a dar leite, a plebe continuará a pagar o espetáculo e a ópera da inação garantirá, por muitos e bons anos, o seu merecido aplauso.

Imagem real de autor desconhecido (disponível na net) de sala de espetáculos em Portugal

O VELHO HOSPITAL DE VISEU

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Viseu. Fachada principal do antigo Hospital da Misericórdia (séc. XVIII-XIX)

Quem olhar de longe esse gigante alcandorado num vizinho morro da velha cidade – onde havia dantes, plantado, um olival – quem olhar das bandas de nascente há-de pensar que ali se levanta, desde há anos sem conto, uma fidalga moradia.

Quem olhar logo repara na larga escada de acesso, que conduz a um terreiro resguardado; logo repara na nobreza de um pórtico sobre o qual pousa, solene, um varandim, um brasão no tímpano e as alegóricas figuras de eleição postadas na cimalha.

Mas não é assim.

Ali pousa, e mais de dois séculos já lá vão, ali pousa o Hospital que a Santa Casa da Misericórdia de Viseu mandou levantar, obediente ao seu Compromisso, outorgado à boca do século XVI, assim cumprindo a missão de Assistir aos enfermos, como lhe ditava o Catecismo.

Obra ingente que esta obra foi, requerida em sentida exposição dirigida ao Rei, a 22 Maio de 1793, quando havia já sido solicitada ao renomado arquitecto portuense, Teodoro de Sousa Maldonado, a planta que já fora aprovada em Sessão da Mesa de 19 de Maio desse mesmo ano.

Estava decadente o velho Hospital das Chagas, os tempos eram novos, a ciência e a técnica já se uniam, emergentes, para cumprir esse humanístico desígnio de sarar feridas dos homens, de alongar as suas vidas.

Iniciada a obra, logo teve de suspender-se, em 1810, devido às dificuldades trazidas pelas invasões napoleónicas. Retomar-se-á em 1825, avançando depois ao ritmo dos recursos alcançados e, em 1842, receberá os primeiros doentes, ainda que as obras estivessem longe do seu termo.

Fizeram-se, mais tarde, alterações à planta desenhada e delas resultou esse excepcional corpo de quatro pisos, que a despojada fachada principal de clássica matriz não nos mostra. A uni-los uma ampla escadaria, que dá acesso aos serviços instalados naquelas nobres alas, que circuitam esse jeito de claustro, onde entra a luz do sol e o saudável ar que vem da serra.

Cumpriu sua missão esta casa que, em 1963, ficou sob a titularidade de S. Teotónio quando, em 1997, abriu na cidade, cuja geometria se alargava, o moderno Hospital Distrital de Viseu. E o hospital que, ao tempo, o Estado governava, voltou à inteira posse da Santa Casa da Misericórdia, que outro destino lhe consente. Um ambicioso projecto levado a cabo pelo arquitecto Gonçalo Byrne transfigura a casa, adequa-lhe os espaços, alteia-lhe um piso e, no ano do Senhor de 2005, o Grupo Pestana inaugura ali a luxuosa Pousada que mantém, salvaguardada, a dignidade da fachada, honrada a velha missão, respeitados os sonhos de quem a inicial casa levantou.

VISEU. Pousada. Grupo Pestana. Fachada principal.