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SÓCRATES ARRASA COM BASTONÁRIO DA ORDEM DOS ADVOGADOS

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José Sócrates reclama o direito de escolher o seu próprio advogado e o direito de que este disponha do tempo necessário para preparar a defesa. Podendo ele pagar a esse advogado, não se vê como será possível negar-lhe esse direito de escolha. Já a segunda questão, depende dos pontos de vista. Até agora, a juiza que procede ao julgamento tem sido da opinião que dez dias chegam para estudar trezentas mil folhas escritas (duzentos volumes, cento e vinte e seis apensos, duzentas e catorze buscas e quatrocentas horas de escutas).

Numa carta dirigida ao bastonário da Ordem dos Advogados, divulgada por Sócrates nas redes sociais, o antigo primeiro-ministro diz que “a dimensão do processo não é da minha responsabilidade nem é minha a responsabilidade das sucessivas renúncias, que foram assumidas, em consciência, pelos próprios advogados” e, assim, critica o bastonário dos advogados pelo alinhamento com as teses da juiza. “Esta atitude do bastonário é uma vergonha para todos aqueles advogados que, ao longo da história do direito português, se bateram pelas garantias constitucionais do indivíduo como fundamento legitimador do processo penal democrático”, escreve Sócrates.

Este ataque de Sócrates deve-se à disponibilidade do bastonário para ajudar o tribunal a nomear um advogado oficioso que aceite as condições impostas, nomeadamente os tais 10 dias para “estudar” o processo. Sobre isto, Sócrates avisa sobre o que aí vem: “este prazo viola diretamente o artigo sexto da Convenção Europeia dos Direitos Humanos – o acusado tem como mínimo, o direito a dispor do tempo(…) necessário para a sua defesa”.

Para já, José Sócrates quer ser esclarecido sobre os critérios e o processo de escolha do novo advogado oficioso, nomeadamente, “se não houve uma qualquer ‘combinazione’ para escolher o advogado mais apropriado”, com o que levanta uma suspeita preocupante.

CONTRA A SUBMISSÃO DE PORTUGAL

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Está online uma petição contra a anuência de Portugal que permite a utilização de infraestruturas militares e do espaço aéreo nacional pela Força Aérea dos EUA no ataque ao Irão.

O texto da petição dirige-se ao Governo e à Assembleia da República, condena a agressão ilegal ao Irão e o apoio que este Governo português está a conceder aos agressores e constata que “a operação “Fúria Épica” constitui uma clara violação do direito internacional”.

A petição é promovida pelo Bloco de Esquerda, mas acaba por refletir posicionamentos de outros Estados europeus, nomeadamente a decisão do Governo de Espanha que não permitiu a utilização das bases norte-americanas em território espanhol. Como consequência, as forças militares dos EUA tiveram de sair das bases espanholas e foram transferidas para bases em territórios da França e Alemanha.

“Portugal fora da guerra de Trump e Netanyahu” é o título da petição lançada este domingo pelo Bloco de Esquerda e que pode ser assinada aqui.

“Apoiar a oposição democrática iraniana é o oposto de bombardear o seu país e o seu povo. Portugal deve tomar posição pela paz e contra o imperialismo dos Estados Unidos da América”, conclui o texto da petição.

30 ANOS 30 AUTORES

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Rever a icónica tapeçaria saída da Manufatura de Tapeçarias de Portalegre, que outrora nos saudava logo à entrada do – também icónico Hotel Atlântico, no Monte Estoril – é uma das boas surpresa que a exposição 30 anos 30 autores nos quer proporcionar.

Obra do saudoso Guilherme Camarinha (1912-1994), constituía, na verdade, motivo para o visitante parar uns bons momentos a apreciar a sua invulgar beleza. Teve Luís Athayde a mui generosa ideia de a oferecer – assim como outras obras de arte do hotel – para o espólio da Fundação D. Luís I. Desta sorte, a podemos voltar a admirar, em todo o seu esplendor, logo à entrada da exposição 30 anos 30 autores, com que  a Fundação quis assinalar o seu 1º trinténio de existência.

Mais do que mera retrospetiva no domínio das Artes Plásticas, apresenta-se uma seleção que, no dizer dos responsáveis, «não pretende oferecer uma síntese exaustiva da atividade expositiva de três décadas, mas traçar um retrato representativo da identidade cultural da instituição».

E a visita vai, na verdade, proporcionar – além da referida – outras surpresas, de que me apraz realçar quatro, não esquecendo o título da exposição em que a obra figurou, porque desse título ressuma, em geral, um halo poético, a emprestar ainda mais beleza à singular beleza das obras expostas.

jarro

Assim, o invulgar «Jarro», escultura de Maria Leal da Costa, esteve na exposição Mãos que Falam (2017).

Embuste

Esse estranho amontoado negro pelo chão esparramado, uma rena morta, da autoria de Pedro Valdez Cardoso, tem o intrigante título de «Embuste» e foi galardoado, em 2005, com o V Prémio de Escultura City Desk.

Lugares

«Lugares», de Sobral Centeno, integrou a exposição Viajar de uma Viagem,  em 2004.

E nós?

Este aparente retrato de senhora pretende ir mais além, dado que pergunta, no título, «E nós?». Foi o que o autor, Luís Herberto – seguindo ancestral costume – quis deixar à Fundação, como penhor da exposição Nós e Todos os Outros.

Caminando por la calle

Finalmente, Nélio Saltão cedeu «Caminando por la calle», um óleo da exposição Pintura adentro (2023).

Patente até 3 de Maio, constitui a mostra rico e bem variegado repositório de um acervo deveras revelador do «compromisso da Fundação com a valorização da produção artística nacional, sem perder o propósito de abertura ao contexto internacional». A Arte, acentua-se, «enquanto espaço de reflexão e de partilha».

O IMPÉRIO LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA

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Os Estados Unidos mantêm centenas de bases e instalações militares espalhadas pelo mundo. Nenhuma outra potência da História da humanidade construiu uma rede semelhante de projeção permanente de força. Trata-se de arquitetura de poder.

Desde 1945, Washington estruturou uma presença global que lhe permite intervir rapidamente e condicionar regimes. A maioria dos golpes de Estado que acontecem no mundo têm o dedo da CIA. A malha militar global criada pelos EUA foi tão normalizada (pelos média, pela propaganda) que deixou de ser questionada.

Durante a recente campanha eleitoral, Donald Trump prometeu o contrário dessa lógica: menos guerras externas, mais foco interno, reindustrialização, emprego, recuperação do mercado doméstico. A mensagem era clara: “America First”, significava olhar para dentro.

Mas a máquina estratégica americana não funciona apenas por impulso eleitoral. O complexo industrial-militar, as alianças militares, a cultura de hegemonia, a necessidade de manter o negócio a fluir, criaram uma política externa de inércia própria. Muda o presidente, mas as políticas permanecem.

O intervencionismo é sistémico. O problema não é defender interesses estratégicos. É a tendência para transformar tudo em interesse vital dos EUA. Essa lógica conduz a uma mobilização militar permanente.

As narrativas política e moral (democracia, direitos humanos, segurança internacional) surgem como legitimação. Mas são de aplicação seletiva. O que é mau no Irão é bom na Arábia Saudita. O que é mau na Venezuela é bom na Argentina. O que é mau na Noruega é bom em Israel. Os princípios variam conforme a conveniência. O dinheiro que os EUA gastam em desenvolvimento militar não gastam em segurança social.

Nas atuais circunstâncias, só o eleitor norte-americano que votou na recuperação da indústria automóvel do seu país e não percebe a prioridade de lançar novas guerras no outro lado do mundo e se sente enganado pelas falsas promessas, é que poderá mudar alguma coisa quando chegarem novas eleições.

O intervencionismo americano é o funcionamento normal de uma potência hegemónica. A luta contra esse Império é obrigatoriamente violenta. Agora, os EUA têm um inimigo formidável pela frente: a China.

TEATRO “PINTERESCO”

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Em primeiro plano, Luiz Rizo. No mezzanino, Elsa Galvão.

O Carlos desceu, cuidadosamente, os degraus. Eu esperava-o cá em baixo. «Ainda bem que não tenho de escrever sobre isto! Não percebi nada!». «Eu também não!» – retorqui. Mas não era mesmo para perceber, porque Arnold Pinter é o mestre do absurdo e o absurdo não se compreende.

Acabámos por escrever esta crítica a quatro mãos. Uma primeira versão minha, a contribuição do Carlos Narciso depois. Ora, aqui está uma experiência nova, neste âmbito da crítica teatral.

Ir ver a peça O Quarto, de Arnold Pinter, em cena no Teatro Mirita Casimiro até ao dia 29 de março, poderá parecer um absurdo. Mas não é. Porque não é absurdo o que nós vemos no dia-a-dia: a tempestade que destrói casas num ápice, a guerra que destrói casas num ápice, o amante que esgana o amado…

A sinopse da montagem do Teatro Experimental de Cascais enfatiza esta linha: “o texto revela a fragilidade das relações humanas e o medo”, num contexto em que o “conforto” do quarto se torna instável à medida que a rotina é perturbada por quem chega.

Vamos ver esta peça para apreciar a forma como Fernando Alvarez imaginou e engendrou o espaço (a cenografia, como se diz) e os trajes a envergar por cada uma das personagens (os figurinos). Que voltas terá dado à cabeça!…

Mas vamos, de modo muito especial, para manifestar uma admiração enorme por dois profissionais que, nesta peça, ocupam um papel fundamental: o homem que trata do desenho de som e da sonoplastia (Sérgio Delgado) e o homem que trata das luzes (Tasso Adamaopoulos). Tudo tem de estar rigorosamente certo, exacto, porque cada movimento dos personagens deve equivaler a um som e isso está extraordinariamente bem pensado, rigorosamente definido e há que admirar!

Admirável, o trabalho dos atores. As cenas decorrem em diferentes palcos, porque há um mezzanino que traz dois planos para as mesmas cenas. Os diálogos entre os que estão no chão e a senhora do mezzanino parecem desencontrados, umas vezes, coincidentes, outras vezes.

Elsa Galvão

Elsa Galvão desempenha um papel (sra. Rose), seguramente um dos mais importantes da sua carreira, até agora. E depois temos dois “bonecos” muito bem conseguidos, não só pelo guarda-roupa, pela caracterização, mas sobretudo pelas atuações de Hugo Narciso (sr. Sands) e  Teresa Faria (sr. Kidd). 

Na imagem anterior, Teresa Faria no papel de sr. Kidd e nesta imagem, Hugo Narciso e Joana Castro (sr. e sra. Sands).

Temos ainda em palco Igor Regalla (no mais enigmático desempenho de todo o elenco), Joana Castro (sra. Sands) e Luiz Rizo (sr. Hudd). Todos eles, conseguem transmitir-nos aquilo que é absolutamente importante, termos nós consciência, hoje, do absurdo de muitos aspetos da vida: tudo pode vir a ser destruído em breve ou por uma depressão violenta ou porque o drone sobre ele descarregou bombas incendiárias…

Igor Regalla

¿Se é de ir ver o espetáculo que está no Mirita Casimiro, até dia 29, de 4ª a sábado às 21 h, aos domingos às 16, a 188ª produção do Teatro Experimental de Cascais, integrada nas comemorações dos 30 anos da Fundação D. Luís I? Claro que é!

Para aplaudir actores e técnicos que tiveram a coragem e souberam levar à cena um texto absurdo (eu também não percebi nada…), que torna bem visíveis os muitos absurdos e medos do nosso cotidiano.

O Teatro Experimental de Cascais tem uma longa história de aproximação a dramaturgias desafiantes e à formação de atores, remontando a mais de 45 anos de atividade no panorama teatral nacional. Aliás, todos os mais jovens atores deste elenco saíram da Escola Profissional de Teatro de Cascais.

(texto em co-autoria com Carlos Narciso)

GAIOLA ABERTA

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Trago hoje à memória a apresentação de um curioso livro, que foi, em tempos, apresentado no pátio recoberto pela sombra das tílias que Aquilino Ribeiro plantou fronteiras à morada de seu pai e que dele herdou, na aldeia de Soutosa, esse umbilical pouso das Terras do Demo, hoje Sede da Fundação Aquilino Ribeiro.

Trata-se de um precioso audiolivro – N.º 01 da Colecção Ciência e Arte da Editora Boca – paciente e sábia recolha antológica da bióloga Ana Isabel Queiroz, que, de há muito, mantém apaixonada relação com a obra de Aquilino e nos traz, acompanhado de excelente texto introdutório, das treze obras consultadas, todas atinentes às Terras do Demo, menção das 67 aves que o escritor inventaria, de seu jeito, vivas descrições das plumagens, do habitat, registo magistral da onomatopeia das suas vozes e da comparsaria que elas mantêm com os humanos.

O livro, ilustrado com suaves tons de aguarela, acompanha-se de um CD, onde dá gosto ouvir a leitura de alguns textos, ancorados numa encantatória composição musical fortemente inventiva, onde o som do bem escolhido instrumento se associa ao real gorjeio do passaredo.

E eu, lendo os excertos, escutando os sons antigos, redivivos, volto à minha infância na margem oriental das Terras do Demo e ali encontro, como se para ali tivesse voado da Arca de Noé, um bando fugidio daquele vário passaredo.

Boieirinhas catando bichos atrás do arado; corvos e milhafres voando nas alturas de verão; peneireiros de asas abertas, suspensos no céu; e os gaios no pinheiral espenujando-se; e os ovos das rolas em ninhos de frágil arquitectura; e o ninho da carriça na sebe de buxo do quintal da madrinha; e o buraco que ainda sei com um ninho de ferreiro; e o cantar do cavalinho a anunciar breve trovoada; e o melancólico canto do mocho; e o augurento canto da noitibó e das corujas, ao anoitecer, sobre os outeiros e de que, ainda hoje, me lembro, ao passar lá no caminho; e o azeite que as corujas iam beber à lamparina da igreja, se dizia; e o voo rasteiro da perdiz e as milheiras que eu enxotava dos campos de milho painço batendo num caldeiro; e os pardais que pousavam, no inverno, na varanda; e as andorinhas na mina da Quinta do Valbom, onde nasceu a minha mãe; e o cuco que a gente se punha a escutar no mês de Abril; e os tordos a bater as oliveiras; e os estorninhos, a poupa, a codorniz, o melro, a cotovia e os ninhos que a gente gostava de achar; e os versos de Afonso Lopes Vieira que a gente lia no livro da Segunda ou da Terceira, já não sei. E a Senhora Professora a ralhar connosco, porque andávamos sempre a espreitar os ninhos.

Arca de Noé dos Nossos Sonhos!…

MORTE NA PRISÃO DO LINHÓ

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Um recluso de 28 anos está acusado de matar um colega de cela, no Estabelecimento Prisional do Linhó. O acusado de homicídio está referenciado, há anos, como esquizofrénico e consumidor de droga.

Os serviços prisionais sabiam da situação clínica do recluso. Segundo um comunicado da Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR), este recluso deveria estar internado num hospital psiquiátrico e não numa penitenciária.

A família do suspeito alertou para o perigo, durante anos, incansávelmente, através de dezenas de emails e até mesmo numa reunião da diretora-adjunta do EP com o avô do recluso. “A Senhora Directora foi muito simpática, mas desvalorizou os meus receios garantindo que tinha a situação sob controle e que nada de mal poderia acontecer, mesmo quando eu lhe reafirmei que conhecia o meu neto e que não ficava tranquilo”, lemos no comunicado da APAR quando cita o familiar do recluso.

O relato deste avô transposto para o comunicado da APAR é pungente: “Estou angustiado, por ter recebido um telefonema do meu neto Hugo em desespero, dizendo que o companheiro de cela está dizendo que hoje mata o meu neto… (…)… Por favor, sabendo que o meu neto é bipolar e esquizofrénico… (…)… não estou tranquilo com a situação.”  

A terrível doença do neto e a angústia deste avô não foram acauteladas pelo sistema prisional.

BORDA FORA

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O ex-primeiro-ministro quer regressar ao lugar que lhe foi ‘roubado’, numa concepção idêntica à de Trump, nas eleições presidenciais norte-americanas de 2020, e sabe, porque tem elementos concretos, que pode avançar, atacar e iniciar a reconquista do poder no PSD, como forma de atirar borda fora o seu ex-líder parlamentar e regressar ao lugar, para o qual acredita estar predestinado.

As intervenções de Miguel Relvas, na CNN, já antecipavam este regresso. Relvas, sistematicamente, mostrava o ‘desprezo’ por Montenegro e pela acção do governo, dando sinais de que Passos Coelho estaria, mais dia menos dia, de volta. E o momento escolhido seria após as presidenciais, antes da tomada de posse do novo Presidente da República, aproveitando um vazio noticioso que permitiria um reaparecimento mais vocal. A estratégia resultou e obrigou um dos elementos mais próximos de Montenegro, Hugo Soares, a cometer o primeiro dos erros na resposta a Pedro Passo Coelho. Ele não veio defender a acção do governo ou do primeiro-ministro, veio afirmar que “não seria qualquer acção judicial que derrubaria Montenegro”, ou seja o líder parlamentar foi directo à questão, insinuando que Passos Coelho estaria a contar com uma intervenção judicial que derrubasse Montenegro. Ora, Hugo Soares sabe que não é isto que está em causa, mas sim, na perspectiva de Passos Coelho, a inacção do governo e as reformas estruturais, que o ex-primeiro-ministro defende e que entende que este governo e este primeiro-ministro não têm capacidade para implementar.

Foi bem curiosa a reacção dos meios de comunicação social ao serviço do governo, que se apressaram a entrevistar André Ventura, enquanto um leque imenso de comentadores elogiou Hugo Soares e a acção do governo, acentuando que o aparelho está com Montenegro.

Na perspectiva destes órgãos de comunicação social, afinal, o ‘desejado’, já não é tão ‘desejado’ como isso pelo partido e nem se constitui como uma reserva moral e política do PSD.

E, por sua vez, André Ventura, que já percebeu o que lhe irá acontecer, garante que o eleitorado do Chega já não lhe foge e que Passos Coelho até “seria um bom vice-primeiro-ministro”.

A disrupção no PSD e na direita atingiu um ponto de não retorno, uma vez que Passos Coelho nunca admitirá perder a face e só descansará quando mandar, “borda fora”, Luís Montenegro e colocar no ordem André Ventura. E, quer um, por interpostas pessoas, quer o outro, provocaram-no de uma forma que ele não tolera, nem perdoa.

A partir de agora, será uma luta sem regras, para destruir o ainda primeiro-ministro, reconquistar o poder no PSD e engolir o Chega, para obter uma maioria absoluta que lhe permita colocar em prática tudo o que sempre quis fazer, e as circunstâncias (ou a geringonça, melhor dizendo) o impediram: entregar a saúde, educação e a gestão de alguns dos serviços essenciais  aos privados, reduzindo o Estado ao mínimo. Passos Coelho é um ultraliberal, conservador, que se considera predestinado e que anseia por colocar em prática esse projecto. Por razões que se desconhecem, atribuem-lhe qualidades que, creio, não possui. Mas uma coisa é certa, não vai parar até correr com esta “tropa fandanga” que se interpõe entre ele e o poder.

PÔR RECLUSOS A TRABALHAR

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Nestes dias em que o país está a tentar recuperar da violência meteorológica que arrasou milhares de casas, fábricas e empreendimentos agrícolas, e depois do Governo ter anunciado que vai colocar reclusos nos trabalhos de limpeza das florestas, a fim de tentar evitar mais desgraças no verão deste ano, a APAR avança com uma proposta mais alargada.

Em comunicado, a Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR) congratula-se com a decisão do Governo de dar trabalho aos reclusos. “É uma medida pela qual a APAR tem lutado há décadas e várias vezes abordada por diversos Executivos que a foram, depois, abandonando. Este é um dos inúmeros trabalhos que os reclusos dos 49 Estabelecimentos Prisionais podem fazer, com ganhos enormes para o Estado e, sobretudo, para a reabilitação e reintegração daqueles”, lê-se no comunicado.

Mas acrescenta a APAR que o Estado deveria ponderar a possibilidade dos reclusos trabalharem nas autarquias, uma vez que muitos deles são “profissionais competentes em várias profissões, o que poderia ser uma extraordinária mais-valia para, por exemplo, as autarquias.”

Além disso, a APAR propõe “o alargamento da medida, ainda que por um espaço de tempo limitado, a ex-reclusos em liberdade condicional, ou mesmo definitiva, que encontrem dificuldades em conseguir trabalho, muitas vezes pelo seu passado, evitando uma sempre indesejada reincidência no crime.” Um par de boas ideias, num único comunicado.

Aqui na redação do Duas Linhas, pensamos que faltam abordar dois pormenores desta questão de pôr reclusos a limpar florestas. Um é esclarecer se se trata de trabalho voluntário, a outra questão é saber quanto pretende o Estado pagar aos reclusos por esse trabalho. Já houve quem dissesse que “o trabalho liberta”, mas esperemos que este primeiro-ministro não se atreva a tanto.

NO MUNDO E NO PAÍS

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Sinto que não podemos sair do País. Viajamos e quando voltamos, nas notícias internacionais continua tudo na mesma. Trump a achar que somos todos marionetas e a fingir que faz pela Paz, sem nada fazer; Putin julga que somos parvos enquanto arrasa a Ucrânia; Israel continua, agora mais traiçoeiramente, a destruir a Palestina. Enfim, as guerras continuam, de permeio com Trump e o caso Epstein, mais a realeza detida e acusada. Nada de novo… Mas quando olhamos para o burgo, logo percebemos muitas diferenças: a primeira (e sempre) são os erros de português, muitos dados até por políticos e jornalistas. Só não sei quem vai atrás de quem. Mas alguém deveria dizer a ambos que ‘sobre influência de’ não existe. É sob Influência… E, já agora, também não é ‘há 50 anos atrás’. Há 50 anos já é passado. E não me alongarei em mais explicações.

Depois encontro uma notícia absolutamente extraordinária: o Presidente da República dá-se ao luxo de desafiar António José Seguro para escolher Espanha como primeiro destino de viagem, depois de tomar posse como PR. É verdade que Marcelo e outros assim o fizeram, alegando a proximidade geográfica com o país vizinho. Eu, em todo o caso, sempre preferia que fosse seguido o exemplo de Ramalho Eanes, que deu primazia aos países lusófonos. Mas o que me espantou foi o facto de Seguro ainda não ter tomado posse e já ter Marcelo a condicionar-lhe a agenda. Marcelo Rebelo de Sousa, num almoço no Palácio Real de Madrid, anunciou que o Presidente eleito ‘virá certamente’ a Espanha ‘em primeiro lugar para reafirmar a nossa fraternidade’. O Presidente eleito nada respondeu…

Por outro lado, não vou mencionar a questão da geografia de Portugal, o rio Mondego e Luís Montenegro. Nada me admira de um primeiro-ministro que, num debate sobre o estado da nação, em 2025, quis citar a escritora Sophia de Mello Breyner Andresen, mas usou um verso de José Saramago.

Mas gostaria de saber em que pé está a situação da Base das Lajes, sendo que o Governo já confirmou o seu ‘uso mais intensivo’ pelos EUA nas últimas semanas. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, diz que está tudo bem e estão a ser cumpridas as regras previstas no acordo entre EUA e Portugal, adiantando que os Estados Unidos podem usar a ilha Terceira para uma operação militar contra o Irão sem avisar Portugal.

Todavia, o acordo de Portugal com os EUA prevê que, em operações unilaterais e sem cobertura da NATO ou de outras organizações internacionais, é mesmo preciso uma ‘autorização prévia’ governamental, que Rangel diz ter sido automática.

E, por último, nas notícias do burgo, que as do estrangeiro nem variaram tanto, a ida do ex-director Nacional da Polícia Judiciária para o Ministério da Administração Interna (MAI). Espero e confio que, desta vez, Montenegro tenha acertado. Que mais não seja porque Luís Neves o merece. Pode Pedro Passos Coelho dizer o que quiser ou Fernando Negrão ter grandes manifestações, seguramente de inveja (será que queria ter sido ele o escolhido?), que Luís Neves é um polícia, um homem de carreira numa instituição respeitada em que ajudou a fazer uma reforma para criar uma maior eficácia e agilização de processos.

Foi nomeado e mantido por ministros do Partido Socialista e do PSD. E quem pretende dizer que o cargo lhe foi dado por ter, de algum modo, protegido o primeiro-ministro nas embrulhadas da Spinumviva, naturalmente não conhece Luís Neves.

Todos podem especular ou criar teorias da conspiração. Não me parece que o titular da pasta da Administração Interna esteja preocupado com isso. Neste caso, por uma só vez, será útil utilizar o slogan ridículo que o PM quis imprimir à sua liderança. ‘Deixem o Luís (Neves) trabalhar’.