O ex-primeiro-ministro quer regressar ao lugar que lhe foi ‘roubado’, numa concepção idêntica à de Trump, nas eleições presidenciais norte-americanas de 2020, e sabe, porque tem elementos concretos, que pode avançar, atacar e iniciar a reconquista do poder no PSD, como forma de atirar borda fora o seu ex-líder parlamentar e regressar ao lugar, para o qual acredita estar predestinado.
As intervenções de Miguel Relvas, na CNN, já antecipavam este regresso. Relvas, sistematicamente, mostrava o ‘desprezo’ por Montenegro e pela acção do governo, dando sinais de que Passos Coelho estaria, mais dia menos dia, de volta. E o momento escolhido seria após as presidenciais, antes da tomada de posse do novo Presidente da República, aproveitando um vazio noticioso que permitiria um reaparecimento mais vocal. A estratégia resultou e obrigou um dos elementos mais próximos de Montenegro, Hugo Soares, a cometer o primeiro dos erros na resposta a Pedro Passo Coelho. Ele não veio defender a acção do governo ou do primeiro-ministro, veio afirmar que “não seria qualquer acção judicial que derrubaria Montenegro”, ou seja o líder parlamentar foi directo à questão, insinuando que Passos Coelho estaria a contar com uma intervenção judicial que derrubasse Montenegro. Ora, Hugo Soares sabe que não é isto que está em causa, mas sim, na perspectiva de Passos Coelho, a inacção do governo e as reformas estruturais, que o ex-primeiro-ministro defende e que entende que este governo e este primeiro-ministro não têm capacidade para implementar.
Foi bem curiosa a reacção dos meios de comunicação social ao serviço do governo, que se apressaram a entrevistar André Ventura, enquanto um leque imenso de comentadores elogiou Hugo Soares e a acção do governo, acentuando que o aparelho está com Montenegro.
Na perspectiva destes órgãos de comunicação social, afinal, o ‘desejado’, já não é tão ‘desejado’ como isso pelo partido e nem se constitui como uma reserva moral e política do PSD.
E, por sua vez, André Ventura, que já percebeu o que lhe irá acontecer, garante que o eleitorado do Chega já não lhe foge e que Passos Coelho até “seria um bom vice-primeiro-ministro”.
A disrupção no PSD e na direita atingiu um ponto de não retorno, uma vez que Passos Coelho nunca admitirá perder a face e só descansará quando mandar, “borda fora”, Luís Montenegro e colocar no ordem André Ventura. E, quer um, por interpostas pessoas, quer o outro, provocaram-no de uma forma que ele não tolera, nem perdoa.
A partir de agora, será uma luta sem regras, para destruir o ainda primeiro-ministro, reconquistar o poder no PSD e engolir o Chega, para obter uma maioria absoluta que lhe permita colocar em prática tudo o que sempre quis fazer, e as circunstâncias (ou a geringonça, melhor dizendo) o impediram: entregar a saúde, educação e a gestão de alguns dos serviços essenciais aos privados, reduzindo o Estado ao mínimo. Passos Coelho é um ultraliberal, conservador, que se considera predestinado e que anseia por colocar em prática esse projecto. Por razões que se desconhecem, atribuem-lhe qualidades que, creio, não possui. Mas uma coisa é certa, não vai parar até correr com esta “tropa fandanga” que se interpõe entre ele e o poder.



