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AS FARRAS DE TRUMP

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Nos arquivos deste site temos já uma coleção de fotografias que indiciam esse tipo de comportamento criminoso. Em algumas dessas imagens, Trump está junto de Epstein, em outras está apenas com meninas bonitinhas e muito jovens. Quando dizemos jovens é porque parecem jovens adolescentes, não porque tenhamos visto o seu bilhete de identidade. Mas as coisas são o que parecem, incluindo as meninas com que Trump se deixou fotografar.

Juntamos agora mais três fotografias à coleção.

Pelo que se pode observar a olho nu e sem intervenção de qualquer software, não há indícios de que sejam montagens digitais grosseiras. Poderão ser montagens digitais sofisticadas… A análise visual não revela cortes mal disfarçados, incongruências de iluminação (as sombras são consequentes), artefactos típicos de colagem, nem deformações associadas a geração por IA (duas mãos esquerdas, seis dedos, etc). A textura do grão, a coerência das sombras e a interação espacial entre os corpos são compatíveis com fotografia analógica dos anos 80 ou 90 posteriormente digitalizada e comprimida para circulação online. Estamos a falar de fotografias com décadas, algumas são fotografias de publicações onde estas imagens foram mostradas primeiro. Isto não prova autenticidade documental absoluta, mas afasta com alguma segurança a hipótese de fabricação recente e amadora.

Tentámos constituir uma linha de tempo, onde estas fotografias se pudessem incluir. A aparência física dos protagonistas nas imagens é coerente com o período em que ambos frequentavam intensamente os círculos de elite de Nova Iorque e Palm Beach. Nos anos 80 e 90, Trump era um magnata mediático em ascensão; Epstein movia-se entre milionários, académicos e figuras públicas. A convivência social entre ambos é historicamente documentada. Há muitos registos fotográficos e vídeos de eventos onde surgem juntos, com uma aparência semelhante à que exibem nestas imagens.

Estas imagens mostram  homens de meia-idade em ambientes festivos ou íntimos acompanhados por jovens mulheres. Eram os “anos loucos” do enriquecimento e da ostentação, da promiscuidade entre negócios, celebridades e poder. Não era raro que festas privadas reunissem modelos aspirantes, empresários e figuras mediáticas num mesmo espaço. Isso corresponde ao que sabemos de certeza absoluta sobre um deles. Epstein foi julgado por pedofilia, condenado por esse crime. Cumpriu pena de prisão. Sabemos como acabou, morto na cela. Mas não sabemos ao certo se se matou ou se foi morto.

As fotografias não demonstram crime, mas são sugestivas… Não provam as idades das jovens. A mera aparência juvenil não é evidência jurídica. Em tribunal, seriam irrelevantes sem identificação e contexto verificável.

Mas no domínio das perceções públicas, a lógica é outra. E quando o nome de alguém surge repetidamente ao lado de um indivíduo condenado por exploração sexual de menores, instala-se aquela dúvida que dá corpo ao velho ditado “onde há fumo há fogo”. Não é critério jurídico, mas é um mecanismo psicológico coletivo.

Em rigor, até ao momento, não houve acusação criminal formal contra Trump relacionada com os crimes pelos quais Epstein foi condenado. Houve processos civis, alegações, declarações contraditórias e disputas judiciais ao longo dos anos, mas nenhuma condenação nesse âmbito específico. Isso é factual.

Portanto, o que estas imagens fazem é alimentar uma zona cinzenta: não provam, mas perturbam; não condenam, mas insinuam. Para uns, confirmam suspeitas latentes. Para outros, são imagens descontextualizadas de uma época excessiva. A ausência de indícios fortes de manipulação, não resolve o impasse moral ou político.

EUA EXPORTAM ARMAMENTO PARA CARTÉIS DE DROGA MEXICANOS

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Armamento "made in USA" dos cartéis de droga, apreendido pela polícia do México

Segundo as autoridades do México, há mais de dez anos que metralhadoras pesadas e munição de calibre 50 estão a ser usadas pelos bandidos em ataques contra forças policiais e edifícios governamentais.

Segundo as autoridades mexicanas, o arsenal dos cartéis é de fabrico norte-americano e vendido livremente em armeiros por todo os EUA. Apesar dos compradores terem de se identificar quando adquirem uma arma dessas ou esse tipo de munição, de alguma maneira os membros dos cartéis conseguem fintar esse filtro fiscalizador.

Apesar de haver várias fábricas de armas e uma imensa rede de retalho, 47% de todas as armas e munições que têm sido apreendidas pela polícia mexicana provêem da fábrica Lake City, em Kansas, nos EUA.

imagem da fábrica de armamento Lake City

A Lake City é um grande fornecedor do Exército dos EUA. Seria interessante que o Governo de Trump mandasse investigar como é possível que armamento e munições de calibre 50 chegam ao retalho e acabam a servir os traficantes de droga no México. Afinal, Trump que já mandou sequestrar o Presidente da República da Venezuela, acusado de traficar droga para solo norte-americano, não vai querer saber das armas “made in USA” que garantem a segurança da droga mexicana que passa a fronteira com os EUA?

As autoridades mexicanas há muito que lamentam que o fluxo ilegal de armas provenientes dos EUA para o México seja um fator importante para a violência no país, permitindo aos cartéis realizar ataques de estilo militar contra as autoridades, com centenas de mortos e feridos ao longo dos últimos anos.

As metralhadoras pesadas tornaram-se populares entre os cartéis mexicanos, que as utilizam para abater helicópteros, assassinar funcionários do governo, disparar contra forças policiais e militares e massacrar civis. Nos últimos 87 ataques, desde 2003, mataram 121 pessoas, de acordo com dados oficiais do Governo do México.

10 DIAS

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A sucessão de incidentes processuais é conhecida: morte de advogado, renúncias sucessivas, nomeações oficiosas. A mais recente renúncia, da advogada Sara Leitão Moreira, após apenas 15 dias no processo, trouxe novamente à tona o problema central. O tribunal mantém um prazo de 10 dias para que um novo mandatário estude um processo com centenas de milhares de páginas.

Aqui deixa de estar em causa a estratégia defensiva de um arguido específico. A questão é estrutural. Exigir que um advogado assuma a responsabilidade técnica de um julgamento desta dimensão após 10 dias de preparação não é rigor processual, é ficção. Nenhum profissional sério pode, nesse intervalo, dominar a prova documental, os despachos, os recursos intercalares, as decisões instrutórias e a teia de factos imputados a 21 arguidos.

A advogada afirmou em tribunal que não é “figurante” e que “fazer justiça não é fazer número”. A frase é mais do que retórica. O patrocínio forense não é uma formalidade administrativa para cumprir calendário. É um direito fundamental de defesa consagrado constitucionalmente. Transformá-lo num ritual apressado compromete não apenas o arguido, mas a própria legitimidade da decisão que venha a ser proferida.

Ao insistir num prazo manifestamente inexequível, o tribunal corre o risco de produzir um paradoxo: em nome da celeridade, cria-se nova instabilidade. Porque, perante condições impraticáveis, o mais provável é que novas renúncias ocorram. E cada renúncia gera mais atraso.

O processo Marquês será estudado no futuro não apenas pelo conteúdo das acusações, mas como exemplo das dificuldades do sistema em gerir megaprocessos. Entre o direito à defesa efetiva e a necessidade de evitar expedientes dilatórios, a justiça não pode optar pela solução mais frágil: fingir que 10 dias bastam para compreender centenas de milhares de páginas.

Este tipo de decisão de uma juiza não deixa de ser estranho, num sistema que nunca antes teve pressa para nada. Neste caso, até parece que a pressa não se destina a produzir justiça, apenas nulidades.

alguns volumes do processo Marquês

A VONTADE FABRICA E A IMAGINAÇÃO GOVERNA

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Recentemente, o programa televisivo público ZDF-heute journal alemão, custeado pelos cidadãos, exibiu vídeos gerados por inteligência artificial, retratando operações brutais da agência ICE nos Estados Unidos contra migrantes. O detalhe mais inquietante não foi a existência dessas imagens, mas o facto de terem sido transmitidas sem serem identificadas como artificiais, como se a própria ilusão pudesse vestir a máscara do acontecimento.

O presidente regional da Renânia-Palatinado exigiu “máxima transparência”. Mas este episódio não é um acidente isolado, porque usado tanto nos media tradicionais como nas redes sociais. É antes de tudo um sintoma, uma rachadura visível na estrutura do nosso tempo que mostra apenas a ponta visível de um icebergue muito mais vasto e que atravessa a Europa considerada séria.

Havia um tempo em que as imagens apenas mostravam, hoje, porém as imagens muitas vezes já não mostram mas substituem e encobrem.

O mundo moderno entrou num território estranho, onde o real se dissolve lentamente na espuma de uma fantasia tecnicamente produzida. Vivemos entre dois pólos, ou seja, o da realidade vivida e o da realidade criada, como quem caminha sobre uma ponte suspensa entre a experiência e a invenção.

A simulação como novo mundo

O que foi mostrado não foi o que aconteceu. Foi uma simulação. Uma fantasia gerada por uma máquina ao serviço de interesses movidos pela vontade humana.

A técnica, que deveria ser instrumento, torna-se demiurgo: cria realidades paralelas, molda emoções, orienta indignações. Já não se trata de informar, mas de fabricar percepções.

A imagem deixa de ser janela e torna-se espelho deformante. E o espectador, sem o saber, começa a habitar um mundo de sombras cuidadosamente desenhadas.

O pós-factual e a moral tardia

Chegámos ao tempo em que a pergunta decisiva já não é se é verdade, mas se serve.

Num mundo pós-factual, a moral surge depois da utilidade. O que conta é que a história transmitida seja “adequada”, que se ajuste ao clima ideológico e aos interesses dominantes, económicos, políticos ou institucionais.  O verdadeiro e o falso perdem peso porque a mensagem se torna mais importante do que a realidade. A moral vem depois. A realidade torna-se secundária diante da mensagem. E o ser humano, privado do chão firme dos factos, flutua num relativismo onde tudo pode ser ajustado, recortado, encenado no sentido de servir a narrativa, o interesse e a vontade institucional.

Critica-se a manipulação em regimes distantes, mas tolera-se uma manipulação subtil em casa, normalizando-se assim uma forma de fabricação da realidade em democracias mediáticas que se apresentam com um rosto civilizado e uma linguagem correcta.

A tentação universal de distorcer o real

É certo que cada indivíduo carrega dentro de si a tentação de construir um mundo à medida das suas convicções. O que não se encaixa é ignorado e o que incomoda é distorcido.

Quando essa tentação se instala nos meios que deveriam servir a verdade pública, o perigo torna-se estrutural.

As estações públicas, os grandes canais da informação, parecem por vezes ajustar as velas ao vento das forças gerentes, para que o barco da narrativa não vire. A verdade factual, incómoda, é lançada ao mar para aligeirar a viagem e assim ajustar o relato ao “politicamente correto” dominante evitando assim o peso incómodo da verdade factual.

A destruição da confiança e o vazio interior

Assim se destrói lentamente a confiança e com ela, destrói-se a comunidade.

Quando já nada é seguro, quando tudo pode ser simulação, a pessoa perde orientação. E uma sociedade sem verdade partilhada torna-se um conjunto de ilhas desconfiadas, presas entre rebeldia e desespero.

Paradoxalmente, enquanto se afirma o globalismo económico, dissolve-se a identidade cultural, desfazem-se colunas antigas, desintegram-se estruturas interiores transmissoras da identidade necessária. O ser humano fica suspenso num mundo sem raízes, sem realismo, sem consciência da sua própria limitação e a consequência é uma sensação de guerra difusa entre cidadãos e instituições.

O que não aparece no ecrã não existe

A nova metafísica do nosso tempo é simples e brutal e resume-se nisto: o que não passa no ecrã, nem no enquadramento mediático, não existe e o que passa no ecrã, existe, mesmo que nunca tenha acontecido.

A realidade torna-se aquilo que é exibido e o invisível desaparece, é lançado ao mar como se nunca tivesse sido para que a narrativa criada navegue sem turbulência.

Entre lucidez e abismo

A tarefa do cidadão moderno não é cair na revolta cega, nem no desespero estéril. A sua tarefa é outra, muito mais difícil. Para tal é preciso empregar o crivo mais fino da inteligência, distinguir entre realidade vivida e realidade criada e reconhecer que realidade vivida e realidade criada coexistem e que a liberdade interior depende dessa distinção.

Pelo que se observa depois das guerras mundiais e em especial depois da queda da União Soviética, o mundo futuro poderá não ser dominado por quem controla as armas, mas por quem controla as imagens.

Quando a imaginação técnica substitui a verdade, resta ao homem a coragem silenciosa de mesmo assim procurar o real.

(nota da redação: a reportagem em questão foi, entretanto, eliminada)

A CONSTITUIÇÃO É PARA LEVAR A SÉRIO

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O Chega não respeita a Constituição e, portanto, deve ser extinto. Quem o diz é o  advogado António Garcia Pereira que apresentou um requerimento na Procuradoria-Geral da República pedindo que o Ministério Público promova, junto do Tribunal Constitucional, a extinção do Chega. Não é uma provocação política nem um gesto simbólico. É um pedido formal sustentado em fundamentos jurídicos concretos.

A questão que coloca é simples e desconfortável: se a Constituição proíbe organizações racistas ou que perfilhem ideologia fascista, e se a Lei dos Partidos prevê a extinção de formações que violem disposições imperativas, o que impede o Ministério Público de agir?

O requerimento assenta em três pilares.

O primeiro é jurídico-formal. O Chega não terá apresentado, durante mais de seis anos, lista atualizada de dirigentes nacionais regularmente eleitos, em violação do disposto na Lei Orgânica n.º 2/2003. Trata-se de uma causa de extinção expressamente prevista na lei. Não estamos perante uma nuance técnica. Estamos perante uma obrigação legal clara. Se partidos de menor dimensão já foram extintos por incumprimentos formais (exemplo do Ergue-te) por que motivo não se aplica o mesmo critério aqui? A lei é igual para todos ou apenas para os irrelevantes?

O segundo pilar é substancial: a natureza racista do discurso e da prática política do partido. Durante a pandemia, André Ventura defendeu um confinamento específico para comunidades ciganas. Não para zonas geográficas com maior incidência epidemiológica, mas para um grupo étnico. A proposta não era sanitária; era identitária.

Mais recentemente, na campanha presidencial, cartazes com a frase “os ciganos têm de cumprir a lei” espalharam-se pelo país. Uma decisão judicial determinou a sua retirada, considerando que a mensagem ultrapassava os limites do debate democrático e fomentava discriminação.

O padrão é consistente: imigrantes apresentados como ameaça; muçulmanos demonizados; ciganos retratados como problema sistemático. Segundo Garcia Pereira, o Chega  dedica-se à construção sistemática de um inimigo social, definido pela etnia ou religião. É isso que configura o racismo político moderno, um discurso mais  sofisticado na forma, brutal no efeito.

O terceiro pilar é ideológico. O requerimento descreve os traços clássicos do fascismo: nacionalismo exacerbado, culto do líder, desvalorização das garantias individuais, legitimação da violência estatal, demonização permanente do adversário.

O discurso recorrente contra “os últimos 50 anos”, isto é, contra o período democrático não é inocente. A referência elogiosa a Salazar, a defesa de soluções penais extremas, a retórica de “limpeza” moral do sistema, a invocação permanente de “Deus, Pátria e Família” compõem um imaginário político que não nasceu ontem.

Por fim, a promiscuidade com meios neonazis. O grupo 1143, dirigido por Mário Machado, surgiu em investigações recentes relacionadas com atividades extremistas, de índole terrorista. O requerimento realça as ligações públicas, os apoios declarados e as presenças cruzadas em manifestações. Não é necessário que exista fusão orgânica para que exista afinidade política operacional. A história europeia ensina que partidos institucionalizados e milícias radicais muitas vezes caminham lado a lado antes de formalizarem qualquer união.

Ninguém duvida que será preciso coragem para decidir a extinção de um partido com a dimensão eleitoral do Chega. Talvez seja menos difícil esquecer a Constituição da República Portuguesa que proíbe partidos armados ou conspirativos, organizações racistas e fascistas.

O requerimento de Garcia Pereira não é ideológico; é jurídico. O Ministério Público tem de executar a lei. Não pode escolher quando aplica a lei. Ou se a aplica dependendo da dimensão eleitoral do visado.

A democracia não é um regime suicidário obrigado a tolerar quem trabalha sistematicamente para a sua deslegitimação. A questão, no fundo, não é gostar ou não gostar do Chega. É saber se as regras constitucionais são aplicáveis a todos. Se a lei só vale quando não cria embaraços políticos, então deixamos de ter um Estado de Direito para passar a ter um Estado de conveniência.

O MAIOR CAROÇO DO MUNDO

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Jorge Paiva realça, mui sabiamente, a narrativa de viagem de Vasco da Gama à Índia, explicando, por exemplo, o significado das palavras aí consignadas relativas a plantas.

Que os deuses gostavam de determinadas plantas e flores já nós tínhamos uma ideia, porque as narrativas mitológicas gregas e romanas no-lo haviam contado. Agora que, estando no Oriente, um se tenha querido ‘vestir’ de uma planta que é da Europa… isso, se calhar, ainda se não havia pensado.

Esse foi o enorme e deveras cativante trabalho a que Jorge Paiva lançou mãos: miudamente anotar esses dados, para que nos consciencializemos, de vez, da enorme capacidade que o poeta tinha de mostrar o seu saber “de experiências feito”.

Jorge Paiva, no deserto de Namibe 08.08.2007

De alguns animais se diz, por vezes, que tudo se aproveita: a carne, a pele, os ossos, os chifres, a bexiga, as tripas… Agora, idêntico aproveitamento total em relação a uma planta quiçá não seja tão comum. Por isso me seduziu particularmente o que Jorge Paiva conta, em pormenor, acerca do coco-do-mar ou coco-das-maldivas, “pomo” lhe chama Camões no canto X d’Os Lusíadas, quando trata da Ilha dos Amores, porque se lhe dão atributos afrodisíacos.

«Fruto de uma palmeira endémica do Arquipélago das Seychelles e não das Maldivas»,  tem um caroço que lembra a zona púbica da mulher, sendo, por isso, também designado coco-das-nádegas e coco-indecente.

Acrescenta Jorge Paiva: «É o maior caroço (30-50 por 25-28 cm) e mais pesado (15-20 kg) que se conhece. Tem uma só semente que também é a maior e mais pesada semente conhecida».

Quando seco e perde a semente, pode flutuar e facilmente as correntes marítimas o levam mar afora até às Maldivas e ao Oriente; por esse motivo, os navegadores europeus, quando por essas paragens o viram, lhe chamaram também coco-das-maldivas e chegou mesmo a pensar-se que, devido ao seu invulgar tamanho, era de uma palmeira que vegetava no oceano profundo.

Ora acontece que esse coco assumiu tal importância que, nas Maldivas, «o direito de propriedade de todos os cocos-do-mar que apareciam nas praias eram pertença dos soberanos das mesmas e qualquer pessoa que não entregasse algum desses achados era condenada à morte ou era-lhe decretada a ablação das mãos».

Sabe-se que «a Rainha Catarina da Áustria tinha vários desses cocos, alguns deles encastoados em peças de metais preciosos; em museus europeus existem alguns cobertos a ouro ou prata e ornamentados exteriormente com figuras decorativas, que serviam, geralmente, de vasilhas ou copos».

E porque é que se começou a falar dos animais de que tudo se aproveita? É que isso mesmo acontece com esta verdadeiramente extraordinária planta!

De facto, conta Jorge Paiva, que, para além da sua fama afrodisíaca e virtudes medicinais e místicas, «o grande limbo flabeliforme das folhas é utilizado para cobertura de habitações, para fabrico de esteiras, leques, cestos, caixas, estojos, chapéus, ramos de noiva e outros artigos de artesanato; a madeira e pecíolos foliares, para tabiques, paliçadas e bebedouros para o gado; os caroços para pratos, vasilhas, copos, caixas, artigos de adorno e produção de marfim vegetal; os pêlos da parte inferior dos pecíolos das folhas jovens para encher almofadas e travesseiros».

Dir-se-á, ainda, que a amêndoa (a semente) é normalmente congelada, para depois ser servida «aos turistas como guloseima e, até, para produzirem uma bebida alcoólica, licorosa, que, como não podia deixar de ser, tem a designação de licor de coco d’amour, vendida em garrafas com a forma sugestiva do caroço».

Quem diria?

“FICHEIROS EPSTEIN” SÃO CORTINA DE FUMO

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O que está solidamente estabelecido é isto: Jeffrey Epstein foi condenado em 2008 por crimes relacionados com prostituição envolvendo uma menina menor, beneficiou de um acordo judicial extraordinariamente favorável e, anos depois, voltou a ser detido sob acusação federal de tráfico sexual de menores. Morreu numa prisão federal em 2019, oficialmente por suicídio. A sua colaboradora próxima, Ghislaine Maxwell, foi condenada por tráfico sexual de menores e cumpre pena neste momento.

Estes são factos judiciais. O resto move-se num território mais ambíguo.

Epstein, proxeneta e pedófilo, cultivou durante décadas uma rede social composta por políticos, empresários, académicos e celebridades. Fotografias ao lado de figuras públicas, registos de presença em eventos ou mesmo nomes inscritos em agendas não equivalem, por si, a prova de envolvimento criminal. No universo das elites globais a que chamamos “jet7”, o convívio faz  parte dos negócios, tal como o sexo, mas isso não significa que a proximidade social seja sinal de cumplicidade em crimes.

Dois nomes surgem repetidamente no debate público: Donald Trump e Prince Andrew. No caso do príncipe britânico houve um acordo extrajudicial com uma das vítimas, sem admissão formal de culpa.

O príncipe André com a menor de idade Virginia Giuffre e Ghislaine Maxwell em 2001. Fonte:US Department of Justice/PA

No caso de Trump existem registos de convivência social, mas até ao momento não houve acusação criminal relacionada com o processo Epstein.

Mas é claro que as percepções tambem contam. E toda a gente estranha que um esquema de prostituição de menores desta dimensão a funcionar durante anos, num meio saturado de poder político e financeiro, tenha sido ocultado tão eficazmente. A indulgência judicial de 2008, a continuidade das relações sociais após a primeira condenação e as falhas graves na vigilância prisional em 2019 são elementos que alimentam teorias e justificariam escrutínio sério.

O que os “ficheiros” divulgados até agora mostram é que Epstein conhecia meio mundo. Mas nada prova a existência de uma conspiração generalizada. Isso não significa que cúmplices não existam. Existem, certamente, mas a sua identificação exige provas. Tudo indica que existem vídeos e fotografias comprometedoras, mas ainda ninguém viu esses documentos fora do círculo de juristas e de políticos que controlam a investigação.

O que está a acontecer, provavelmente de forma planeada, é a transformação de um escândalo real numa névoa onde tudo parece possível e nada é demonstrável. Ergueram uma cortina de fumo. Ninguém pode ser acusado de ocultação, mas a saturação informativa impede distinguir a responsabilidade concreta entre os que, por diferentes razões, estiveram junto de Epstein ao longo dos anos.

SOBRE O GOLPE DE 26 DE NOVEMBRO

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A análise da crise na Guiné-Bissau não pode ser feita de forma seletiva. O 26 de Novembro de 2025 não surgiu no vazio. Foi precedido por um clima político altamente inflamado, por discursos de crescente radicalização identitária e por uma polarização que ameaçava transbordar para além do plano institucional.

Um país à beira da fratura

A Guiné-Bissau não vive apenas crises políticas; vive crises acumuladas de legitimidade institucional. No período pré-eleitoral observavam-se sinais claros de instrumentalização de fatores étnicos e religiosos, com tentativas evidentes de mobilização segmentada no seio das Forças de Defesa e Segurança.

Num país onde a classe castrense sempre teve peso estrutural, qualquer sinal de alinhamento político identitário dentro dos quartéis constitui fator de risco sistémico. Ignorar este contexto é produzir uma leitura incompleta da realidade.

A estratégia de polarização

Não se pode escamotear que setores ligados a Domingos Simões Pereira e a Fernando Dias foram acusados de recorrer a uma narrativa identitária como instrumento de mobilização política.

A tentativa de transformar maiorias sociológicas em maiorias militares teria consequências imprevisíveis. A história recente da Guiné-Bissau demonstra que fraturas dentro das Forças Armadas raramente terminam de forma pacífica. O risco de confrontação era real.

Suspeitas que agravaram o ambiente

Circularam amplamente imagens e relatos associando figuras da campanha da oposição a indivíduos referenciados em investigações sobre narcotráfico. Não cabe aqui substituir tribunais. Contudo, num Estado frágil, a perceção pública de infiltração criminosa no processo político agrava exponencialmente a instabilidade.

O silêncio sobre estes elementos distorce o debate.

O 26 de Novembro como contenção

É legítimo defender que a democracia se constrói com eleições. Contudo, eleições realizadas num ambiente de fratura institucional profunda podem funcionar como detonador, e não como solução. Para muitos setores da sociedade, o 26 de Novembro representou uma contenção de emergência destinada a evitar um confronto aberto entre fações políticas e segmentos armados. A alternativa poderia ter sido um cenário de violência generalizada, com consequências catastróficas.

O processo interrompido

Sob a liderança de Umaro Sissoco Embaló, o país registava sinais de reorganização institucional e de afirmação diplomática externa. Havia desafios estruturais, sem dúvida. Mas também existia um processo de estabilização em curso. A disputa eleitoral radicalizada ameaçava comprometer esse percurso.

O verdadeiro desafio

A questão central não é glorificar soluções de exceção. Nenhum patriota deseja que intervenções militares se tornem norma política.

O desafio consiste em transformar o episódio de 26 de Novembro numa oportunidade de auditoria transparente ao processo eleitoral, esclarecimento das alegações de instrumentalização identitária, garantias públicas de neutralidade das Forças Armadas, compromisso formal de todas as forças políticas com a paz civil e construção de um pacto republicano duradouro.

Sem resolver as causas estruturais da instabilidade, novas eleições poderão apenas reproduzir as mesmas tensões. A Guiné-Bissau esteve perigosamente próxima de uma fratura interna profunda. Reduzir o 26 de Novembro a uma leitura simplista ignora os fatores que precipitaram a crise.

A democracia exige mais do que eleições; exige instituições sólidas, cultura republicana e responsabilidade coletiva. O momento atual não deve ser explorado para polarizações adicionais, mas para uma reconstrução séria do consenso nacional.

O país precisa menos de narrativas parciais e mais de compromisso histórico. A alternativa é regressar ao ciclo vicioso que todos afirmam querer evitar.

FUTEBOL PAIXÃO E VIOLÊNCIA POLÍTICA

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Há cerca de 42 anos fui com a minha filha assistir, no velho Estádio de Alvalade, a um jogo do SCP e o comentário mais violento que se ouviu – e que a minha filha ainda hoje recorda – foi a de um adepto do SCP chamar ao fiscal de linha ‘aeroporto de moscas’, pois ele era calvo com dois tufos de cabelo a enquadrar a careca.

Este texto, que será sobre a violência no futebol, ou melhor sobre a violência à margem do futebol, começa por dois fait-divers, sendo um deles o mais importante, a ‘sessão de Carnaval’ da reunião do Conselho da Paz com a presença de Infantino, porque, na verdade, é esta estrutura do poder que reúne autocratas e líderes mundiais, subservientes a um poder que se quer transformar numa autocracia, que nos pode ajudar a perceber os movimentos dos chamados ultras ou casuals (a sub-secção dos hooligans, que teve origem, no final dos anos 70, no Reino Unido, e conhecidos por usarem roupas de griffe, por forma a não serem reconhecidos como adeptos de um clube).

No Reino Unido colocaram na ordem esta gente – cheguei a assistir, para aí em 1976, à forma dura e eficaz como a polícia os identificava e os impedia de actuar.

A extrema-direita viu nestes grupos e nas claques de futebol um campo fértil para captar adeptos e não a desperdiçou.  Há mais de 20 anos que grupos neonazis espanhóis aliciavam jovens das claques dos clubes portugueses para se inscreverem nesses movimentos. A Polícia Judiciária e o SIS têm conhecimento desses movimentos e vão monitorizando a sua actuação, embora seja cada vez mais difícil, porque aumentou o grau de violência e o número de membros dessas organizações terroristas.

Sabemos que o futebol gera paixões, emoções descontroladas e irracionais. Mas aquilo a que estamos a assistir é mais do que esse exacerbamento da paixão clubista, é um claro crescendo da violência que se instalou na sociedade, que se agravou com a radicalização de grupos ligados à extrema-direita, com um único objectivo: causar perturbação social e lançar o caos.

Cunha Rodrigues, ex-PGR, escrevia, há uns 15 anos, que a ‘sociedade estava doente’, e a verdade é que não só está doente como foi tomada de assalto por radicais de direita, que apenas pretendem causar perturbação social com o objectivo de justificar a necessidade de um aparelho repressivo, liderado, claro, por essas forças políticas.

O que se passou, há dias, à porta do Pavilhão João Rocha não foi um mero confronto entre adeptos, mas sim um confronto entre grupos terroristas, que têm de ser tratados como aquilo que são, sem receio de ‘chamar os bois pelos nomes’, terroristas à ordem de organizações de extrema-direita, com o objectivo de causar a desordem e o medo. 

CEIREIROS, A ARTE DE TRABALHAR A JUNÇA

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A Beselga, freguesia do concelho de Penedono, é hoje, como as demais freguesias que a envolvem numas poucas léguas de distância, uma aldeia cativa desse funesto destino que foi a emigração, de que retorno se não apercebe e o abandono se revela no casario fechado, nos chãos abandonados de onde vinha, antigamente, o pão que os lavradores carreavam para as eiras, pão de centeio na fartura das eiras ou de milho maís que alegrava a gente com as desfolhadas. Abandono que se sente, ao olhar os alpendres desertos, as ruas sem caminheiros, as lameiras sem gado, sem cantos de lavadeiras as margens da ribeira.

Pão que, verdadeiramente, não era bastante para matar a fome da gente, fome de pão que traçou um novo destino para tanta, tanta gente!…

Da terra vinha esse pão de um tempo de memória, do centeio, de algum trigo, do milhão, do linho, da castanha, do feijão, que assim ditam os corógrafos antigos, o Padre Manuel de Azevedo que escreve em 1758 e D. Joaquim de Azevedo, um pouco mais de cem anos mais tarde.

O primeiro, no relatório que integra as Memórias Paroquiais de 1758, não fala das ceiras, essa “indústria” caseira a que D. Joaquim de Azevedo, na História Eclesiástica da Cidade e Bispado de Lamego, datada de 1877, dá relevo maior:

«Tem fábrica de esteiras de esparto, ceirões e outras obras, que vendem para os engenhos de azeite e para esteirar as casas, ou para assentos, o que tem grande consumo nos lugares da comarca”.

Nessa época, e vai mais de um século e meio, os ceireiros moviam-se já por léguas, que iam do Minho à Estremadura, com seus burricos carregados de ceiras para as azenhas das redondezas e os demais artefactos com que se esteiravam chãos de cozinha, lojas de serão, capachos de alindar soleiras de porta de lavrador ou mais fidalgas, frios soalhos de quartos de dormir, bancos de igreja, assentos de confessor.

Voltavam, depois da carga vendida, avaras moedas e, algumas vezes, o pagamento em frutos da terra, medidas de milho ou de feijão.

Trabalhar a junça ainda hoje é um saber que resiste aos tempos, em Beselga, Penedono.

É por essa época, com o ofício já enraizado, que o bom do Padre Cristóvão de Nossa Senhora do Patrocínio, a aceitarmos a legenda, introduz na Beselga o culto de Nosso Senhor dos Passos, devoto desse Senhor da Paixão assim invocado, e estabelece-o na antiga Capela da Senhora da Encarnação ou da Lameira, a um tiro de pedra do centro da aldeia, como se dizia e daí se enraíza, como o ofício, a devoção.

Os passos dos ceireiros alargavam-se, entretanto, para além da comarca. Machitos tropeteiros, como o do Malhadinhas, lá arcavam com a carga. Azenhas apetrechadas, pregões à boca de uma rua, uma porteira aberta sobre o entardecer, o machito acolhido em casa de lavrador conhecido, a manjedoura com feno, duas mantas no cabanal, a malga de caldo, pão e vinho que trouxe a lavradeira, e a rota batida ao outro dia, até poder regressar, montado agora no machito.

E a mulher, que ficara rezando com os filhos pequenos, sobre a noite vazia – “Senhor dos Passos te guie!…”. E a promessa de fazer, de joelhos, as voltas à capela, verão findo e o óbolo na bandeja, que o ceireiro regressara em paz, duas moedas que foram juntando para comprar um chão, levantar sobrado. Esquecidos, por um tempo, os passos sofridos, feridas saradas, as da saudade e tantas outras, quem sabe!…

Talvez o ceireiro, mais esses vagamundos de caminho vário, sentissem o Senhor dos Passos como seu irmão. Feridas que demoravam a sarar, suor de sangue, as quedas repetidas, um cireneu que sempre há, uma promessa que Ele ouvia, a mão estendida sobre a mão calejada do irmão.

Talvez se tenham afeiçoado assim, os ceireiros e o Senhor dos Passos; talvez, por isso, o carreguem agora no andor, em procissão, poupando-lhe assim algumas dores.

Talvez por isso o tenham escolhido para patrono. Que ninguém mais os compreenderia assim!…

Procissão do Senhor dos Passos em Beselga, Penedono