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ISALTINO EM ISRAEL

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fotomontagem

Isaltino Morais foi a Israel e justificou a deslocação com uma visita a uma feira empresarial. Ao que tudo indica, Oeiras mantém relações com empresas israelitas, porventura empresas estatais, seja através da política municipal de atração de investimento, seja por contratos de prestação de serviços.

Apesar dos crimes de guerra que Israel comete, percebe-se que uma autarquia não rompa de um dia para o outro todos os seus laços económicos com esse Estado. Existem contratos, interesses instalados e compromissos assumidos. Mas também é verdade que nenhuma relação económica é politicamente neutra. Quando um representante institucional português escolhe deslocar-se a Israel para participar numa iniciativa de promoção empresarial, fá-lo num contexto em que o Estado israelita enfrenta acusações de crimes de guerra, crimes contra a Humanidade e genocídio sobre a população palestiniana. Ou seja, acaba por contribuir para transmitir uma imagem de normalidade, como se nada de excecional estivesse a acontecer.

Os gestos institucionais têm sempre algum significado. Ao reforçar relações económicas com Israel num momento em que cresce o isolamento político e moral do Estado israelita em várias partes do mundo, um autarca português acaba por participar no processo de branqueamento internacional das políticas do governo israelita.

Esta posição torna-se ainda mais difícil de compreender quando vem de Isaltino Morais. Ao longo dos anos, construiu a imagem de um político irreverente, pouco dado ao pensamento de rebanho e frequentemente crítico da ascensão da extrema-direita em Portugal. No entanto, nesta matéria, o seu comportamento aproxima-se do discurso daqueles que têm sido os mais incondicionais defensores de Israel na política portuguesa, designadamente dirigentes e deputados do Chega. A contradição é evidente.

A VISITA ENVERGONHADA

Há mais um pormenor que merece atenção. Isaltino Morais sempre revelou grande habilidade na utilização das redes sociais como instrumento de comunicação política. Desta vez, porém, a visita a Israel praticamente passou despercebida. Ficou reduzida a um único vídeo, curto, tremido e pouco esclarecedor sobre a presença na feira industrial. Se a deslocação constituía motivo de orgulho político e institucional, por que razão foi comunicada de forma tão discreta? Os políticos raramente escondem aquilo de que verdadeiramente se orgulham.

Também seria interessante perceber quem pagou a deslocação: a Câmara Municipal de Oeiras? A Organização da feira? Algum Ministério israelita? Alguma empresa? Esta informação pode ser obtida através de um pedido de acesso a documentos administrativos dirigido à Câmara. Fica aqui a dica aos jornalistas dos média institucionais ou outros que se queiram dar ao trabalho de esperar pela resposta.

MAS QUE FEIRA É ESTA?

O próprio programa da feira em questão, a MUNIEXPO mostra que não se trata de uma simples feira comercial. É um grande evento organizado pela Federação das Autoridades Locais de Israel, onde se cruzam autarcas, membros do Governo, ministros, responsáveis pela segurança nacional e empresas. O tema central da edição de 2026 é, aliás, a “parceria vencedora”, enquadrada na realidade da guerra, da segurança e da resiliência nacional.

No meio de tantas empresas, muitas delas trabalham para a segurança do Estado, no fornecimento do exército israelita, com responsabilidades concretas na repressão violenta, ocupação de territórios e genocídio dos palestinianos. Fonte Muni Expo – EN – MUNIEXPO – פרס החדשנות

O programa inclui intervenções do ministro da Defesa, do ministro da Segurança Nacional, de antigos responsáveis pela segurança e encerrou com um discurso do Presidente de Israel. Além disso, a própria organização apresenta a conferência como um espaço para construir parcerias entre o poder local, o Governo central e o setor empresarial, afirmando que a MUNIEXPO é “o lugar onde se constrói a resiliência nacional de Israel”.

A VIAJANTE DO TEMPO

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Dir-se-á, desde logo, que se trata de um livro normal: tem um enredo que prende do princípio ao fim; está bem escrito; gramaticalmente bem redigido; a autora faz bom uso da pontuação; os diálogos são introduzidos por dois pontos, parágrafo, travessão; a descrição da paisagem é ligeiro apontamento, aqui e além, só para enquadrar a acção; é um livro sem gralhas.

Leitura fácil, agradável, fluente – sem precisarmos de estar sempre a ir ao dicionário ver o significado de uma palavra ou expressão. Cansa-nos, por outro lado, se temos dificuldade em distinguir as falas dos personagens da descrição de ambientes.

Um romance tem, necessariamente, muito de autobiografia. Neste caso, a protagonista é arqueóloga no Algarve, o que corresponde à realidade: Ana Alexandra aí está, gerente duma empresa de Arqueologia. E, tal como a protagonista, foi estudante na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Há ainda dois aspectos que não faltam: o primeiro, o triângulo amoroso, o colega de curso e um professor com todos os ingredientes habituais (a sedução fulminante, de um lado, e a serena ternura permanente, do outro); o segundo, a progressiva tónica de romance policial, de caça ao criminoso, que a narrativa vai assumindo.

Ingrediente maior é o recurso à regressão. Eça de Queiroz, n’A Relíquia, muda de cronologia sem aviso: chegado a Jerusalém, Teodorico Raposo, o protagonista, retrocede de repente 1800 anos e passa a viver no tempo de Cristo. No caso de A Viajante do Tempo, Maria consubstancia-se em Tanit, a filha de um vizir egípcio e vive obcecada por um dos amuletos que lhe foi roubado pelo professor.

Não deixa de ser curioso verificar, nesse aspecto, esse paralelismo com a relíquia que Teodorico Raposo vai buscar à Terra Santa para a Titi (https://duaslinhas.pt/2025/02/o-safado/).

Movimentamo-nos no realismo mágico, que, afinal de contas, deixa transpirar muito do nosso cotidiano. Apressados como andamos sempre, há vozes, há sinais, há gestos que amiúde nos passam despercebidos e que, depois, consciencializamos ao declarar «Eu tive um pressentimento», vocábulo que nada mais significa do que essa voz realmente preexistente à qual não ligáramos a devida importância.

Ana Resende sabe discerni-lo e, por isso, é sabiamente anotada a nossa íntima relação com o ambiente atmosférico. Nós, pela manhã, não deixamos de ouvir com a maior atenção o Boletim Meteorológico; mas, se calhar, até nem consciencializamos a sério o que significa essa preocupação matinal: é que nos influencia grandemente o ar que respiramos!

Na apresentação do livro com a autora

QUANDO A EXPERIÊNCIA DEIXA DE CONTAR

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imagem construída com recurso a IA

A experiência, que durante séculos foi considerada uma fonte de sabedoria e um fator de prestígio social, parece hoje ter perdido parte do seu estatuto. A velocidade tornou-se mais importante do que a profundidade. A novidade passou a valer mais do que a memória. A juventude é frequentemente apresentada como sinónimo de capacidade, enquanto a idade é muitas vezes associada a uma ideia de ultrapassagem. Trata-se de uma visão simplista e perigosa.

A experiência não é apenas a acumulação de anos. É a acumulação de situações vividas, problemas resolvidos, decisões tomadas, erros corrigidos e conhecimentos testados pela realidade. É um património construído lentamente, muitas vezes ao longo de décadas. Uma pessoa experiente não sabe apenas o que fazer. Sabe também o que não fazer. Conhece os riscos escondidos por detrás das soluções aparentemente fáceis. Reconhece sinais de alerta que os menos experientes ainda não aprenderam a identificar. Compreende as consequências de decisões que, à primeira vista, podem parecer irrelevantes. Esse conhecimento não se encontra facilmente em manuais nem em motores de pesquisa. Nasce da prática.

Contudo, muitas organizações e instituições continuam a cometer o erro de tratar a experiência como um recurso secundário. Quando um profissional atinge determinada idade, começa frequentemente a ser visto através de um filtro burocrático. A idade passa a pesar mais do que a competência. O currículo deixa de ser analisado pela riqueza do seu conteúdo e passa a ser avaliado pela data de nascimento. Perde-se assim uma parte significativa da inteligência acumulada da sociedade.
É um paradoxo particularmente evidente numa época em que a esperança média de vida aumenta e os níveis de saúde e capacidade intelectual se mantêm elevados durante mais tempo. Milhares de pessoas chegam à reforma em plena posse das suas capacidades. Continuam capazes de ensinar, orientar, criar, liderar e inovar. Mas a sociedade raramente lhes oferece canais estruturados para continuar a participar.

A consequência é dupla. Por um lado, os mais velhos sentem-se progressivamente afastados dos espaços onde poderiam continuar a contribuir. Por outro, os mais novos ficam privados de um património de conhecimento que poderia acelerar a sua aprendizagem e evitar muitos erros.
Uma sociedade madura não opõe gerações. Liga-as. Compreende que a energia da juventude e a experiência da maturidade não são forças concorrentes, mas complementares. Uma traz impulso. A outra traz direção. Uma desafia o futuro. A outra ajuda a compreendê-lo.

Quando a experiência deixa de contar, todos perdem. Perde quem é afastado prematuramente da vida ativa. Perde quem deixa de beneficiar desse conhecimento. Perdem as organizações. Perde a economia. Perde a sociedade.

O verdadeiro progresso não consiste em substituir a experiência pela juventude nem a juventude pela experiência. Consiste em criar pontes entre ambas. Porque uma comunidade que ignora os seus experientes está a desperdiçar um dos seus recursos mais valiosos. E porque há uma verdade simples que o tempo confirma repetidamente: a experiência pode não garantir todas as respostas, mas ajuda quase sempre a formular as perguntas certas.

PADRE JOÃO FELGUEIRAS

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Não morreu apenas o português mais velho em Timor-Leste (tinha 105 anos de idade), morreu alguém a quem Portugal deve muito por aquilo que fez na antiga colónia asiática. O Estado português sabe da obra cultural erguida pelo padre Felgueiras pela língua portuguesa, pela dignificação de uma presença pós-colonial, pagou-lhe com medalhas e condecorações, embora todos saibamos que o padre Felgueiras teria preferido dinheiro para construir escolas.

Sempre foi uma pessoa discreta, despojada, não gostava de publicidade e era preciso ter algum engenho e sorte para conseguir que aceitasse ser entrevistado.

Consegui fazê-lo em 2012, quando produzi e realizei um documentário no âmbito de um projecto do Instituto Camões que deveria ter sido exibido na RTTL (televisão pública de Timor-Leste) e nunca foi, como não foi nenhum dos que foram feitos para essa série documental.

Os idiotas que na altura dirigiam a RTTL eram tipos que não gostavam que Portugal andasse por ali a gastar dinheiro com eles. Aceitavam carros e equipamentos comprados pela Cooperação portuguesa, mas conteúdos informativos para a rádio e televisão em língua portuguesa eram rejeitados.

Mas se quiserem conhecer o padre Felgueiras, um homem com uma história que se confunde com a história de Timor-Leste, o documentário está visível no YouTube, neste link.

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OLHAR O PAPEL

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grafismo e fotomontagem

Ler não é um ato passivo de decifração; é uma rutura com a imanência do mundo quotidiano. Quando o leitor vira as páginas “com calma e vagar”, ele opera uma suspensão da consciência temporal comum. O papel que “sussurra segredos” funciona como um portal fenomenológico. Nele, o espaço físico da sala dissolve-se para dar lugar ao “mar infinito do pensamento”.

Esta transição demonstra que a literatura é um terreno de transcendência. O sujeito que lê liberta-se das amarras da sua contingência histórica e espacial. Ele “voa sem qualquer destino”, mas esse desígnio não é uma fuga vazia. É a busca por um valor intrínseco que reside na palavra. A narrativa oculta funciona como um espelho da própria alma. O “reino distante” de que os poetas falam  não é um lugar geográfico, mas sim o território da pura possibilidade existencial.

A Literatura como Resposta à Angústia Existencial

A “ansiedade viva” descrita no texto remete diretamente para a inquietação existencial — a Angst heideggeriana. É o peso de existir e a consciência da finitude que geram o cansaço e a incapacidade de “ficar no lugar”. Perante o absurdo do quotidiano e o desgaste do tempo, o livro surge como o “abrigo perfeito”.

Esta cura ocorre porque a literatura funde o sonho e a realidade na “velha fonte” do mito e da narrativa. Ao beber dessa fonte, o leitor suspende a rigidez da sua própria identidade. Os heróis do passado e as personagens enfadas na sua rotina não são meras ilusões. Eles ganham “carne e voz” na mente de quem lê. Operam como alter egos que partilham o peso da existência sob o “mesmo céu”. A leitura cura a solidão ao povoar a sala com sombras que sofrem, choram e falam. O leitor descobre que a sua aflição é universal.

A Estética da Salvação e a Epifania da Frase

O ponto de viragem filosófico da leitura reside no toque “onde a lógica não sabe chegar”. A razão discursiva e a ciência explicam o mundo, mas não o justificam nem o confortam. A arte literária atua na dimensão do afeto e do espanto estético. A “frase perfeita” que o autor escreve funciona como uma epifania. Ela possui o poder de “fazer o pranto parar” e derreter o “inverno que em mim nasceu”.

Esta beleza formal devolve o sentido ao caos. A esperança é renovada a cada página virada porque o livro oferece algo que a vida real muitas vezes recusa: a promessa de um fechamento, de uma teleologia. Queremos saber se haverá perdão ou se o mistério vai prevalecer. Esta estrutura narrativa dá ordem à “contabilidade dos dias”. Transforma o tempo profano — muitas vezes frio e vazio — num tempo sagrado de refúgio.

Conclusão: Fugir de Si para se Encontrar

Em última análise, o ato de ler encerra um paradoxo profundamente filosófico. “Fugir de mim por escassos momentos” não é uma alienação da realidade, mas sim a condição necessária para a autodescoberta. Ao romper as amarras que prendem o corpo ao chão e ao “zortar o pensamento”, o sujeito liberta-se das pressões do seu ego imediato.

Nesse afastamento controlado, o leitor encontra a sua “própria salvação”. Ele regressa a si mesmo transformado, expandido pelas vidas que viveu nas entrelinhas e fortalecido pela certeza de que, enquanto houver uma folha por virar, o porto seguro da consciência estará garantido.

PARTIU PIÑEIRO NAGY

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Um amigo do peito.

Acompanhei bem de perto a actividade de Piñeiro Nagy, desde que, modesto, simples, nos apareceu a tocar guitarra clássica, um instrumento para nós ‘estranho’ nessa altura.

Lembro-me dos seus concertos simples, sem alarido, na Sala de música do Museu dos Condes de Castro Guimarães na década de 60 (se não erro). Pouco a pouco, Piñeiro Nagy foi conseguindo mostrar a importância da Música. A importância de um Festival de Música em Cascais. A importância de Cursos Internacionais, aqui, durante o Verão.

Joaquim Miguel de Serra e Moura, presidente da Junta de Turismo da Costa do Sol depressa apoiou a ideia. Abriu, sem medo, os cordões à bolsa, ainda que sabendo ficar sujeito a críticas dos que viam no turismo apenas sol e mar. Teimou Serra e Moura, teimou Piñeiro Nagy. A criação do Museu da Música Portuguesa teve também a sua mão.

Festival de Música de Cascais a rivalizar com o Festival de Sintra de mais longa tradição. Vinham mestres de reconhecidas escolas portuguesas e estrangeiras. Madalena Sá e Costa,  Maurice Eisenberg. Cito de cor os primeiros que me vêm à mente.

As audições no final dos Cursos, a euforia, um nervosismo, a recompensa pelo trabalho desenvolvido.

Muitos anseios partilhámos. Muitas linhas tive o gosto de escrever para mostrar como era do maior interesse turístico-cultural o que se estava a levar a cabo aqui nesta Costa do Sol, nesta antiga Costa do Sol. Não me arrependo de todo o apoio que dei.

Meu caro Piñeiro Nagy, descansa em paz! Este ano, parece, já não temos Festival. Mas eu acho que, em tua memória, alguém o irá ressuscitar, acredita!

Um abraço grande, Amigo!

JÁ NÃO BASTA SER DIFERENTE

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Durante demasiado tempo, muitas pessoas viveram sem compreender porque se sentiam diferentes, porque certas exigências do quotidiano pareciam exigir-lhes um esforço constante ou porque o mundo parecia funcionar segundo regras que nunca lhes foram explicadas. Para muitas delas, um diagnóstico trouxe clareza, pertença e acesso ao apoio de que precisavam. Nomear uma experiência pode ser profundamente libertador.

Mas talvez seja precisamente por isso que valha a pena parar e olhar para o que está a acontecer à nossa volta. Porque, ao mesmo tempo que assistimos a uma maior consciência sobre saúde mental e neurodivergência, assistimos também a outra coisa, a uma necessidade crescente de transformar a diferença em identidade.

Já não basta sentirmo-nos diferentes. Parece ser necessário saber porquê, explicar porquê, justificar porquê. Como se a diferença, por si só, tivesse deixado de ser suficiente.

Vivemos num tempo profundamente desconfortável com aquilo que não consegue categorizar. Tudo precisa de um nome, de uma definição, de uma explicação. E talvez isso não seja surpreendente. As categorias tranquilizam-nos. Organizam o caos. Dizem nos quem somos e, sobretudo, dizem nos que não estamos sozinhos.

Mas também simplificam. E, por vezes, simplificam demasiado. Porque nenhuma pessoa cabe inteiramente numa categoria. Nenhum diagnóstico esgota uma identidade. E, no entanto, parece existir uma pressão crescente para cabermos numa qualquer narrativa sobre nós próprios.

Quem sou eu. O que tenho. A que grupo pertenço.

Talvez porque, numa sociedade onde quase tudo se tornou individual, a pertença passou a ser um bem escasso. E quando a pertença se torna escassa, torna-se também um produto. Hoje, também a identidade se consome.

Talvez não seja por acaso. Durante muito tempo, o consumo prometeu conforto, estatuto ou felicidade. Hoje promete também autoconhecimento. Já não compramos apenas objetos. Compramos explicações para nós próprios. Compramos formas de nos entendermos, de pertencermos e, por vezes, de dar sentido àquilo que sentimos.

Como se a complexidade humana pudesse ser organizada através da categoria certa.

Consomem-se livros, podcasts, cursos, conteúdos, comunidades, percursos de autoconhecimento e explicações para aquilo que somos. Consomem-se formas de olhar para nós próprios. E, sem darmos por isso, começamos a consumir identidades da mesma forma que consumimos tantas outras coisas.

Como se existisse uma resposta definitiva para a complexidade humana.

As redes sociais aceleraram ainda mais este processo. Nunca foi tão fácil reconhecermo-nos num vídeo de trinta segundos. Nunca foi tão fácil ouvir alguém descrever um traço da sua experiência e pensar, sou exatamente assim.

Mas talvez um dos maiores problemas do nosso tempo seja a facilidade com que confundimos reconhecimento com diagnóstico.

Porque sentir-se diferente não é, por si só, um diagnóstico. Distrairmo-nos, sentirmo-nos deslocados, não corresponder às expectativas sociais, sentir dificuldade em adaptar-nos a determinados contextos ou ter formas particulares de sentir e estar no mundo fazem parte da experiência humana.

E talvez seja precisamente isso que se tenha tornado difícil aceitar. Talvez já não saibamos muito bem o que fazer com a estranheza.

Vivemos numa época obcecada pela melhoria contínua. Tudo pode ser otimizado, trabalhado, melhorado, transformado numa versão mais eficiente de si mesmo. E talvez por isso se tenha tornado tão difícil aceitar características que não podem ser corrigidas, produtivizadas ou transformadas em vantagem.

O desconforto, a diferença e até a singularidade passaram, muitas vezes, a ser entendidos como algo a identificar, enquadrar e gerir. Talvez tenhamos desaprendido a possibilidade de existir sem uma explicação para tudo aquilo que somos.

Isto não significa desvalorizar diagnósticos sérios, nem questionar o impacto profundamente positivo que podem ter na vida de tantas pessoas. Significa apenas reconhecer que nem todas as diferenças precisam de ser transformadas em categorias de consumo.

Porque existe um risco quando tudo passa a ser explicado através de uma linguagem diagnóstica. Começamos a olhar para a singularidade humana como uma sucessão de características a identificar, enquadrar e otimizar.

E talvez algumas diferenças não precisem de ser corrigidas, nem justificadas, nem sequer compreendidas na totalidade. Talvez algumas precisem apenas de ser acolhidas.

Porque uma sociedade verdadeiramente inclusiva não é aquela que consegue criar uma categoria para cada diferença. É aquela que consegue abrir espaço para a diferença antes mesmo de lhe dar um nome.

E talvez uma das perguntas mais difíceis seja esta: quando foi que deixámos de acreditar que era possível ser apenas diferente?

VOLTEMOS AO BÁSICO

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colagem fotográfica

Em Portugal, a tendência de imputar à imigração todas as desgraças do nosso País tem vindo a crescer, impulsionada pelo Chega e por alguns sectores do PSD. Veja-se a intervenção do novo porta-voz do PSD, um dos elementos radicais mais próximo do Chega, na senda de um populismo sem freio. Sebastião Bugalho disse que o PSD “quer chamar ao Parlamento os governantes do PS responsáveis pela entrada desenfreada de migrantes”.

E a desorientação do PSD deriva da correcção do PIB, na sequência dos dados do INE, quanto à população residente em Portugal, uma vez que, com o aumento do número de habitantes, a riqueza per capita baixa e comprova-se que o crescimento económico do nosso País, apesar do contributo dos migrantes, não é o que o governo apregoava. Comprova-se, pois, que as opções tomadas de política económica são profundamente erradas. Fica, com esta redução, demonstrado que não crescemos em relação à média europeia e existe uma forte redução do investimento empresarial e público.

Em contraciclo destas posições radicais, o Fórum BCE, que reuniu em Sintra, vem dizer que os picos de imigração e políticas mais abertas têm impacto positivo na economia.

Por tudo isto, talvez tenha chegado o tempo de dizer ‘basta’. De dizer que não há cidadãos de primeira, os puros e imaculados, e os de segunda. Os puros, mas que anseiam por pecar, estão cada vez mais sequiosos de mergulhar nesse lado das trevas, que eles criaram para exorcizar os seus próprios fantasmas. Por isso, é primordial voltar aos princípios, back to basics, reconquistar a sociedade, os cidadãos e motivá-los. Revejam Casablanca. É tudo tão simples. Rick e Ilsa ainda tinham Paris. Nós, qualquer dia, não temos memória do passado, nem ideia do presente.

JARDIM DE CORES

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Deu-se-lhe o nome de Jardim de Cores. Foi, decerto, antes de as telas terem sido escolhidas. Sim, uma exposição coletiva de pintura é sempre jardim de cores, se os quadros ajudarem; no caso da exposição patente, até ao próximo dia 20, na galeria do Casino Estoril, não ajudam:

– Olga Costas ficou-se pelo negrume da tinta-da-china;

– João Feijó apresenta quatro aguarelas da série “Oriente”, cada uma de cor ténue e a 9250 € (aí, sim, fica-se, de facto, de todas as cores!…);

– A polaca Mariola Landowska,  radicada em Portugal desde 2004, tem saudades da paleta cromática das vestes da sua terra;

– Paulo Ossião deixou, por seu turno, o ténue azul do casario lisboeta e seduz com bem cativantes figuras femininas: um primor, a grávida, por exemplo; e a vivacidade daquele olhar azul – que lindo!…

– Filipa Oliveira Antunes foi a única que salvou a ideia de jardim colorido, não só porque nos deixa bem vermelho cravo sobre fundo azul, o vermelho de imponente crista de galo em fundo amarelo e até o branco casario alentejano de poderosos chupões altaneiros a desafiar o azul do céu não é jardim mas com ele casaria bem.

Não há, pois,  explosão de cor e o jardim… só imaginado! Quem, no entanto,  se dispuser a visitar a exposição não ficará descoroçoado, porque, logo à entrada, terá de imediato a sensação de que precisará de largos minutos para tudo saborear a preceito.

Quererá sentir de perto a serenidade a desprender-se da cativante solenidade do casario alentejano. Quererá admirar de perto a grávida e o olhar líquido, límpido, banhado (dir-se-ia) em sereno mar azul,  de uma das figuras femininas do Paulo Ossião.

Toda a arte deve ter por condão convidar-nos a encetar caminho pelas veredas da Beleza. Olga Costas preferiu agarrar-nos e não nos deixar partir; Mariola apontou a vivida garridice das vestes da sua Europa Central; João Feijó sugeriu a delicadeza dos arranjos florais do Extremo Oriente; Paulo Ossião sublimou feminismo; Filipa Oliveira Antunes fez-nos imaginar que, no seu branco recanto alentejano, há sempre um cravo vermelho e, em simbiose, o entrelaçar de dois cantares: esse, campestre, do galo e o sempiterno de Amália.

Em silêncio por ali me quedei minutos sem fim.

AMOR

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A frase de Neruda é sábia e provoca reflexão! Sugere que, embora o amor não possa vencer a inevitabilidade da morte, ele pode dar sentido, esperança e força para enfrentar a vida.

No entanto, a frase parece incompleta porque não é apenas o amor que nos “salva” da vida. Também a amizade, a fé, os sonhos, a arte, o conhecimento e os propósitos podem tornar a existência mais cheia.

Talvez o verdadeiro sentido da frase esteja em reconhecer que a vida, por si só, pode ser difícil, e que o amor é uma das experiências mais poderosas para a tornar suportável e significativa, sem ser a única.