CRISE NA GUINÉ-BISSAU, MERCENÁRIOS DIGITAIS, DEGRADAÇÃO DO DEBATE DEMOCRÁTICO

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Numa democracia autêntica, a pluralidade de opiniões e de posicionamentos políticos não é apenas tolerada: é condição essencial da liberdade. Todavia, essa pluralidade só subsiste quando assente no respeito mútuo, na dignidade da pessoa humana e na aceitação do contraditório. Fora desses limites, a liberdade de expressão degenera em insulto, intimidação e violência simbólica.

Infelizmente, a vida política guineense conheceu, nos últimos anos, uma degradação profunda do debate público. Essa degradação não surgiu de forma espontânea nem acidental. Ela acompanha a ascensão de uma lógica política marcada pelo personalismo extremo, pela intolerância interna e pelo uso sistemático da agressão verbal como método de ação política.

Com a centralidade assumida por Domingos Simões Pereira na arena política nacional, instaurou-se uma cultura de confronto permanente que banalizou o insulto, legitimou a provocação e normalizou campanhas de ódio, sobretudo através das redes sociais. A política deixou de ser espaço de ideias para se transformar, demasiadas vezes, em arena de linchamento moral.

Desse ambiente emergiram os chamados mercenários digitais: grupos organizados, disciplinados e frequentemente telecomandados, cuja missão não é debater propostas ou projetos para o país, mas vigiar, intimidar, insultar e silenciar cidadãos guineenses que ousam pensar diferente. O que começou como agressividade verbal evoluiu para práticas ainda mais graves: perseguições pessoais, tentativas de agressão física e a construção de uma perigosa lógica de classificação dos cidadãos segundo a sua fidelidade política.

Muitos desses agentes operam a partir de capitais europeias, vivendo uma relação ambígua com a Guiné-Bissau: afastados fisicamente do país, mas profundamente envolvidos numa militância tóxica. Incapazes — ou indispostos — a regressar, optam por transformar a frustração pessoal em hostilidade política, colocando-se ao serviço de campanhas de intimidação contra compatriotas que, por razões profissionais, institucionais ou pessoais, circulam entre a Guiné-Bissau e a Europa.

Os factos são públicos e preocupantes. Personalidades guineenses com percurso conhecido e contributo efetivo para o país tornaram-se alvos de insultos, ameaças e tentativas de agressão. O seu único “pecado” foi nunca terem abdicado de pensar com autonomia nem de servir a pátria fora das lógicas de submissão política.

Este comportamento não é um fenómeno isolado. Ele reflete uma cultura política mais profunda, cuja origem está na crise interna do PAIGC e na forma como este foi progressivamente capturado por uma liderança que passou a confundir partido histórico com projeto pessoal.

Pela lógica estratégica adotada pelos correligionários de Domingos Simões Pereira, a Guiné-Bissau deveria aceitar a existência de cidadãos de primeira, de segunda e até de terceira categoria. Na sua ótica, tudo começa e termina nele: depois dele, é o dilúvio. Esta visão excludente traduziu-se na apropriação do PAIGC, na expulsão sistemática de opositores internos e na eliminação de qualquer espaço real de debate democrático dentro do partido.

Mais grave ainda, Domingos Simões Pereira nunca prestou contas de forma clara, regular e transparente aos órgãos estatutários do partido. A ausência de prestação de contas — princípio elementar de qualquer organização política séria — tornou-se regra. A isso somam-se denúncias recorrentes, nunca devidamente esclarecidas, sobre a alienação de bens do partido, incluindo viaturas alegadamente vendidas por familiares próximos. Independentemente da conclusão factual, o silêncio e a opacidade constituem, por si só, uma falha ética e política grave.

É essa mesma lógica — autoritária no interior do partido e agressiva no espaço público — que explica a intolerância face a qualquer iniciativa cívica que escape ao controlo do seu círculo político. Recentemente, um grupo de cidadãos guineenses solicitou audiência ao Presidente da República de Transição com o objetivo de discutir um plano que viabilize o regresso ao país do ex-Presidente Umaro Sissoco Embaló. O simples exercício desse direito constitucional desencadeou uma avalanche de insultos e ataques pessoais promovidos pelos mesmos circuitos digitais organizados.

Colocam-se, por isso, questões fundamentais para qualquer Estado de Direito: é ilegítimo que cidadãos defendam publicamente a libertação de Domingos Simões Pereira? Pode um ex-Presidente da República ser privado do direito elementar de regressar à sua pátria? É crime lutar politicamente pelo regresso ao país de um cidadão que exerceu legitimamente o cargo de Presidente da República?

Numa democracia, a resposta só pode ser negativa. O que é ilegítimo não é defender posições políticas, mesmo divergentes ou controversas, mas sim recorrer ao insulto, à intimidação e à perseguição como método de ação política.

A Guiné-Bissau enfrenta hoje um desafio central: restaurar a ética do debate público. Sem respeito pelo pluralismo, sem aceitação do contraditório e sem rejeição clara da violência verbal e simbólica, não haverá reconciliação nacional nem futuro institucional estável. Partidos históricos não podem ser transformados em propriedades privadas, e a política não pode continuar refém de projetos pessoais travestidos de causas nacionais.

Sem ruptura com estas práticas, não haverá democracia plena, apenas conflito permanente e degradação institucional.

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