O que está solidamente estabelecido é isto: Jeffrey Epstein foi condenado em 2008 por crimes relacionados com prostituição envolvendo uma menina menor, beneficiou de um acordo judicial extraordinariamente favorável e, anos depois, voltou a ser detido sob acusação federal de tráfico sexual de menores. Morreu numa prisão federal em 2019, oficialmente por suicídio. A sua colaboradora próxima, Ghislaine Maxwell, foi condenada por tráfico sexual de menores e cumpre pena neste momento.
Estes são factos judiciais. O resto move-se num território mais ambíguo.
Epstein, proxeneta e pedófilo, cultivou durante décadas uma rede social composta por políticos, empresários, académicos e celebridades. Fotografias ao lado de figuras públicas, registos de presença em eventos ou mesmo nomes inscritos em agendas não equivalem, por si, a prova de envolvimento criminal. No universo das elites globais a que chamamos “jet7”, o convívio faz parte dos negócios, tal como o sexo, mas isso não significa que a proximidade social seja sinal de cumplicidade em crimes.
Dois nomes surgem repetidamente no debate público: Donald Trump e Prince Andrew. No caso do príncipe britânico houve um acordo extrajudicial com uma das vítimas, sem admissão formal de culpa.

No caso de Trump existem registos de convivência social, mas até ao momento não houve acusação criminal relacionada com o processo Epstein.

Mas é claro que as percepções tambem contam. E toda a gente estranha que um esquema de prostituição de menores desta dimensão a funcionar durante anos, num meio saturado de poder político e financeiro, tenha sido ocultado tão eficazmente. A indulgência judicial de 2008, a continuidade das relações sociais após a primeira condenação e as falhas graves na vigilância prisional em 2019 são elementos que alimentam teorias e justificariam escrutínio sério.
O que os “ficheiros” divulgados até agora mostram é que Epstein conhecia meio mundo. Mas nada prova a existência de uma conspiração generalizada. Isso não significa que cúmplices não existam. Existem, certamente, mas a sua identificação exige provas. Tudo indica que existem vídeos e fotografias comprometedoras, mas ainda ninguém viu esses documentos fora do círculo de juristas e de políticos que controlam a investigação.
O que está a acontecer, provavelmente de forma planeada, é a transformação de um escândalo real numa névoa onde tudo parece possível e nada é demonstrável. Ergueram uma cortina de fumo. Ninguém pode ser acusado de ocultação, mas a saturação informativa impede distinguir a responsabilidade concreta entre os que, por diferentes razões, estiveram junto de Epstein ao longo dos anos.



