E neste caso, o fumo é espesso. Donald Trump está novamente no centro de uma polémica que envolve o velho “amigo” Jeffrey Epstein – o milionário condenado por tráfico de menores e abusos sexuais, que morreu na prisão em circunstâncias suspeitas. A revelação de uma carta alegadamente escrita por Trump e incluída num álbum de aniversário oferecido a Epstein pela cúmplice Ghislaine Maxwell, voltou a colocar o atual Presidente dos EUA sob suspeita.

O conteúdo divulgado pelo Wall Street Journal tem todos os ingredientes de uma bomba política: um desenho obsceno, alusões enigmáticas e uma troca de mensagens ambíguas entre “Jeffrey” e “Donald”, onde se fala de “coisas em comum” e “segredos maravilhosos”. Trump nega tudo, ameaça processar o jornal e exige que o tribunal autorize a divulgação de todos os documentos ligados ao caso. A verdade – ou aquilo a que nos deixarem chamar verdade – está, por agora, sob segredo de justiça, mas o que se sabe é o suficiente para incomodar.


A DIREITA PORTUGUESA CALADA
E é aqui que entra o silêncio. Ou melhor, o silêncio cúmplice de muitos que, noutras circunstâncias, estariam aos gritos. Em Portugal, por exemplo, André Ventura, líder do Chega e admirador declarado de Trump, ainda não comentou o caso. Ventura tem casos conhecidos e denunciados de pedófilos nas fileiras do Chega, talvez isso esteja a inibir a habitual rapidez no gatilho. Trump é uma espécie de inspirador de Ventura. Quando o ídolo da ultradireita global aparece associado a um caso de pedofilia, o ruído desaparece. Calam-se. Como ratos.
Um sistema político assim é tudo menos moral. Não tem ética, é culto. E não é por acaso que muitos destes políticos se dizem “anti-sistema” mas dependem do sistema – judicial, mediático e financeiro – para continuarem impunes, ou pelo menos intactos.
A carta de Trump pode vir a revelar-se falsa, como ele diz. Ou pode ser autêntica e ainda assim insuficiente para o condenar judicialmente. Há perguntas que ficarão para sempre, se entretanto não forem respondidas. Porque é que o atual presidente dos EUA frequentava a casa de um predador sexual e, alegadamente, lhe escrevia cartas sugestivas? Porque é que tantos dos seus aliados continuam a fingir que nada se passa? Quase sempre, em casos destes, o silêncio é suficientemente eloquente.
UMA MORTE CONVENIENTE
Apenas alguns trechos da carta foram divulgados publicamente, reproduzidos pelo Wall Street Journal. O suficiente para Trump mover um processo contra o jornal. O processo legal está em curso, o que significa que o conteúdo completo só pode ser revelado se o tribunal determinar a divulgação dos arquivos.

Do que já foi publicado, temos a descrição de um desenho feito com marcador preto, retratando o corpo de uma mulher nua, com a assinatura de Trump (Donald) sobre a área púbica. Como a reprodução dessa imagem foi proibida, entretanto, o que temos é desenhos que tentam seguir a descrição que os media fazem, mas não se trata da imagem original.

E há uma transcrição de uma conversa gravada:

Se Jeffrey Epstein fosse vivo, poderia responder a estas questões e explicar o eventual envolvimento do atual Presidente dos EUA como cliente das jovens prostitutas fornecidas por Epstein. Mas morreu na cadeia, uma semana depois de ter iniciado o cumprimento de uma pena superior a 20 anos de prisão, precisamente por gerir esse negócio de prostituição de menores. O “business” de Epstein envolvia comprovadamente a angariação de menores na Flórida e em Nova Iorque, para clientes ricos. Haverá uma lista com os nomes desses clientes, elaborada pelo próprio Epstein, mas nunca foi divulgada.



