A ESCOLHA DAS PALAVRAS

As palavras têm peso. Têm intenção. Têm política. Quando um jornalista escreve “Houthis apoiados pelo Irão” ou “hospital controlado pelo Hamas”, mais do que informar,  está a enquadrar o mundo segundo um código de leitura muitas vezes invisível ao leitor apressado. Porque raramente se diz, por exemplo, “soldados israelitas apoiados pelos EUA” ou “Netanyahu, acusado de crimes de guerra”? Porque certas relações são constantemente nomeadas e outras, não?

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Estas questões são velhas e reaparecem ciclicamente. A reflexão que agora partilho, surgiu na sequência de uma publicação no grupo Jornalistas e antigos jornalistas do Facebook, que reproduzo aqui:

O grupo Jornalistas e antigos jornalistas é um grupo fechado e só os membros podem ver e publicar. Inscrevam-se que vale a pena.

“Houthis apoiados pelo Irão” e “hospital controlado pelo Hamas” são expressões que imediatamente associam os sujeitos a atores considerados hostis ou ilegítimos no discurso dominante ocidental: o Irão e o Hamas. São, portanto, fórmulas que reforçam a narrativa da ameaça ou do perigo.

Por contraste, raramente (nunca) se lê “soldados israelitas apoiados pelos EUA”, embora isso seja objetivamente verdade, ou “Netanyahu, acusado de crimes de guerra”, apesar de haver investigações e denúncias nesse sentido. Essa omissão tende a normalizar ou branquear a posição de Israel e dos seus aliados.

Ou seja, a linguagem jornalística não é apenas um espelho do real, é também um instrumento de construção da realidade. A propaganda pode estar dentro da notícia, disfarçada de neutralidade. É por isso que a análise crítica do discurso e o chamado “letramento mediático” são tão importantes num tempo de guerras assimétricas e disputas narrativas globais.

Este desequilíbrio não é acidental. Faz parte do modo como o discurso mediático dominante constrói uma geopolítica das palavras, onde certos atores são apresentados como ameaças e outros como legítimos, mesmo quando os factos exigiriam equilíbrio. Dizer que um hospital está “controlado pelo Hamas” é semear a suspeita: será ainda um hospital? Já dizer que soldados israelitas são “apoiados pelos EUA” seria pôr em causa o aliado principal, o padrão moral da “guerra contra o terror”.

Assim, no interior de muitas notícias alegadamente neutras esconde-se um tipo de propaganda: mais sofisticada, mais implícita, mas nem por isso menos eficaz. O leitor comum lê, aparentemente informado, mas sem saber que já lhe foi dado um mapa com os caminhos já traçados. Um único caminho, sem opções.

Como e porque razões os jornalistas chegam a isto? Na minha opinião, a maioria das vezes, por mimetismo, ouviram outros dizer assim, o editor corrigiu-lhes anteriormente algum texto nesse sentido, etc. As razões podem ser várias e a ideologia também pode estar presente na escolha das palavras.

A crítica ao modo como se escreve é, por isso, uma forma de resistência ética. Nunca se esqueçam que quem controla a linguagem, molda a realidade.

EU PECADOR ME CONFESSO

Digamos que aprendi isto à minha própria custa, ao longo de dezenas de anos de prática profissional. Umas vezes senti as críticas como elogio, outras vezes como censura.

Lembro-me bem quando Baptista Bastos escreveu na revista do Clube de Jornalistas que eu era o “menos americano dos repórteres no Paquistão”, no decorrer da invasão americana do Afeganistão, na sequência do 11 de setembro. Fui assim “eleito” o mais independente dos repórteres. E gostei de ler isto, não só porque vinha de um admiravel camarada de trabalho, mais velho, mais sabedor, mas porque era verdade.

Anos antes tive a experiência contrária. Estava em Angola, no final da década de 90, na dobragem do século, fazia reportagens sobre a guerra civil e, com frequência, usava o chavão “o governo de Luanda”. Um dia, um oficial do exército angolano perguntou-me se havia algum outro governo en Angola, porque eu falava como se houvesse algum  “governo do Huambo” ou o “governo da Jamba”. Pois, não havia. O que havia era uma guerra entre o governo e um partido político armado, um grupo guerrilheiro que, episodicamente, chegou a controlar boa parte do território angolano.

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