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TER LIBERDADE

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Neste meu entardecer, não é definido nenhum grau para a minha liberdade, mas devo dizer que não foi sempre assim; passou algum tempo por mim, até descobrir que a espera pela liberdade não era justificada, afinal, descobri-a por tê-la dentro de mim. Todos a temos, mais ou menos oculta. É só querer e sobretudo, ter a vivência suficiente para detectar a sua porta de entrada.

A liberdade, tal como a concebo, é conferir a outra pessoa, o direito de escolher um percurso, connosco, ou não, dentro dos nossos ideais, das nossas escolhas, ou não. Ao respeitarmos a escolha dessa pessoa, estamos a fruir plenamente da nossa liberdade interior e a garantir que ninguém nos poderá acusar de subjugarmos esse alguém.

Fui sempre pensador livre, que não diz tudo que pensa, mas sempre pensei, seguramente, em tudo que digo, porque aqui, a nossa maior liberdade, é sermos nós. Em tempos, essa forma de ser livre, custou-me a mudança de “arma”, de Engenharia para Infantaria. Malhas que o império tecia. Alguns querem esses tempos de volta…

Sempre chorei, sorri, libertei e liberto uma gargalhada franca, de coração livre e o pensamento cheio de paixão de viver. A liberdade, a minha, tem asas e o seu voo não entra em rota de colisão com nenhuma das outras que ao redor e ao largo de mim, se espraiam. Nunca fui atrás de um poder qualquer, para ter que perder a liberdade, porque o poder cerceia a liberdade.

Assim, possuir a liberdade como eu a entendo, não é viver subjugado ao dinheiro, escravo de opiniões, de comunhões clubistas ou a não ajuda ao nosso semelhante. É sim, continuar a luta pelos nossos sonhos sem colidir com os dos outros, sempre que possível, “voar” em conjunto, cada um com as suas asas. Também é pela luta que se aprende onde estão as portas do nosso interior, as que dão entrada na liberdade. 

Ser livre, então, é poder escolher o que interessa a um conjunto de pessoas que vivem numa rua, num bairro, numa vila, numa cidade, num distrito, ou num ermo…

Ser livre não é sorrir sobre o que outros nos informaram estar correcto sem verificar primeiro. Ser livre não é bater palmas a atitudes governativas que acabaram por não beneficiar o que quer e quem quer que seja, e foi, simplesmente um nada, dito tudo, para resolver problemas na comunidade.

Ser livre não é deixar de cumprir a obrigação de escolher quem melhor nos representa.

Ser livre é analisar, estudar, reconhecer que ditadores são os que sujeitam milhões de pessoas aos seus “instintos”, subordinando-os a seres que começaram a perder a dignidade de humanos, sem o saberem. Sofrem da síndrome do “sequestrador”. Destes, 99% estão convencidos que a verdade desses governantes, será sempre a sua bandeira. Seres que podiam, livremente, viajar por todo o planeta, viver uma vida digna e conviver com todos os seres humanos livres, estão condenados a viver numa mentira que não os dignifica e os leva a concordar com atitudes assassinas. Incrível, mas os ditadores, disfarçados, é o que fazem à liberdade dos povos que dirigem.

Apetece-me gritar: “Acordemos! Sejamos livres”! Sejamos sempre livres! Vamos em frente. É o momento para uma análise definitiva sobre o que é ser povo: “donde se vem, o que se é e o que se tem, e definitivamente, o que queremos ser, e ter.

PROIBIDO DE PASSEAR EM SINTRA

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Durante sete anos, um homem sem casa permaneceu num largo de Sintra com cartazes na mão. Não bloqueava a passagem, não liderava multidões, não incendiava nada. Estava ali. Todos os dias. Sentado num muro. À vista de todos. À vista do poder.

Chama-se Manuel Ildefonso. Protestava contra a autarquia porque entendia ter direito a habitação social. Pedia ajuda. Não a teve. Ficou. Foi pressionado a acabar com o protesto. Foi levado para para esquadras, muitas vezes algemado, magoado. Resistiu e voltou sempre para prosseguir o protesto.

Sete anos depois, a resposta do Estado não foi uma casa, foi uma condenação penal e uma ordem: não pode aproximar-se num raio de 1,5 quilómetros da Câmara Municipal. Formalmente, tudo parece encaixar nos códigos. Houve resistência à autoridade. Houve o que consideraram ter sido desobediência. Houve confrontos (nunca iniciados por Ildefonso). A lei prevê consequências, está tudo escrito. O tribunal aplicou-as.

O Tribunal da Relação confirmou a sentença da 1ª instância, incluindo a proibição de circular num raio de 1500 metros à volta do Largo Virgílio Horta.

Mas a justiça não se esgota na legalidade. O que está em causa não é apenas a mera transposição de normas. O que deveria ter sido importante seria ter definido que conflito estava realmente ali a ser julgado. Isso não foi feito, mesmo se um juiz pode, querendo, não se limitar a aplicar as normas.

Um sem-abrigo que protesta persistentemente contra o poder local é um criminoso reincidente, ou é um cidadão desesperado cuja única arma é a presença incómoda?

A força pública confrontou-o repetidamente. Ele resistiu. Durante anos. A narrativa judicial lê essa persistência como afronta à autoridade. Outra leitura possível é ver nisto teimosia cívica, talvez imprudente, talvez excessiva, mas nascida de exclusão social.

A lei é cega, repete-se muitas vezes como se fosse virtude. Mas quando a cegueira impede ver a desproporção de forças entre um aparelho municipal e um homem que dorme na rua, a neutralidade transforma-se em indiferença. Há quem diga que passa a ser obediência.

Um raio de 1500 metros não é apenas uma medida técnica. É uma expulsão do centro político da vila. É a mensagem de que certos protestos deixam de ser toleráveis quando se tornam persistentes.

O Estado tem o dever de manter a ordem pública. Mas também tem o dever de suportar o incómodo do dissenso, sobretudo quando esse dissenso vem de quem nada tem. Numa democracia madura, o poder deve ser suficientemente robusto para tolerar um homem com cartazes à porta. Quando deixa de o ser, o problema já não é o protesto. É a fragilidade do poder perante a crítica.

E quando a resposta a um pedido de habitação social acaba num afastamento judicial do espaço público, convém perguntar se a lei serviu para proteger a comunidade, ou para proteger o conforto do Presidente da Câmara. Serviu, pelo menos, para impedir uma manifestação de protesto.

Entretanto, há um novo Presidente de Câmara. Antes de ser eleito, foi um apoiante do direito de Ildefonso a protestar. Criticou de viva voz, mais de uma vez, o comportamento da Polícia Municipal e do anterior autarca. Há, portanto, uma esperança.

VIOLÊNCIA CONTRA PROFISSIONAIS DE SAÚDE

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A violência física e verbal contra médicos e enfermeiros está a aumentar de forma preocupante na Alemanha. De acordo com um recente inquérito do Jornal Médico Alemão, dois terços dos médicos inquiridos reportaram já ter sido vítimas ou assistido a violência física ou verbal, no local de trabalho. Os episódios são particularmente frequentes em serviços de urgência e consultórios, tornando-se um risco ocupacional crescente. A crise no sistema de saúde e degradação do tecido social são apontadas como causas.

Especialistas vinculam este surto de agressividade a frustrações profundas no sistema de saúde. Pacientes enfrentam dificuldades para marcar consultas, seja com médicos gerais ou especialistas como ortopedistas e cardiologistas, sendo a situação mais crítica nas urgências. A percepção de que utentes particulares têm acesso facilitado agrava a sensação de desigualdade e desamparo entre a população geral.

O problema, no entanto, parece refletir uma erosão mais ampla do respeito na sociedade. Num país que faz propaganda da guerra, procurando tornar pessoas ‘aptas para a guerra’, o aumento significativo da disponibilidade para usar violência é uma consequência visível. O clima de agressão aumenta especialmente em relação a empregados do serviço público. O assassinato de um revisor de comboios perto de Kaiserslautern é um exemplo extremo desta tendência.

A mentalidade do “é meu direito”, aliada a uma crescente impaciência e a uma resistência diminuída em procurar ajuda de forma civilizada, está a colocar em risco os profissionais na linha da frente. Numa sociedade em que as pessoas são vistas mais como objetos funcionais, o respeito diminui e a violência aumenta, também como efeitos negativos de certas políticas se fazem sentir na base da sociedade.

A combinação fatal de um sistema de saúde sob pressão, com longas esperas e escassez de profissionais e um clima social onde a coesão se degrada, está a criar um ambiente perigoso para quem trabalha no setor e em outros sectores públicos. As associações médicas alertam para a necessidade urgente de medidas que protejam os seus profissionais e que ataquem as causas de fundo desta crise, que é tanto de saúde pública como social.

SEGREDOS A SETE CHAVES

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fotomontagem de imagens da rua D. Sancho I, Guarda

Dá gosto entrar ali, porque António José Morgado Bandarra, o proprietário do estabelecimento desse nº 15 da Rua D. Sancho I, no coração da urbe, deu também em colecionar chaves de todos os tamanhos e feitios! E fez ele muito bem! Casa de Chaves chaves deve guardar!

Poderá alguma das velhas fechaduras, a adornar esse arco gótico do século XIV, no interior do estabelecimento, esconder segredos, como as profecias do profeta sapateiro de Trancoso? Roídas pelo caruncho estarão as portas que guardaram (que chaves enormes, senhores!…) e nós que nos contentemos com outros mistérios.

A essoutros já vamos, porque importa esclarecer esse de haver um arco de entrada… dentro! De facto, numa grande quantidade de edifícios antigos, sobretudo com fachadas dos séc. XVI e XVII, que hoje nos é dado observar, sempre que os seus interiores foram intervencionados nas últimas décadas, aparecem as fachadas iniciais, dos séc. XIII e XIV, que é o caso. A entremear estas fachadas e as posteriores, existe sempre a calçada da rua. Umas vezes, os proprietários mantêm os vestígios da calçada; outras, tapam-na com novo pavimento. Esta evidência denuncia que o urbanismo medieval primitivo foi sendo alterado, dando a entender que os edifícios se ampliavam para o espaço público (rua), o que parece contrariar a ideia de as ruas da cidade terem sido de largura reduzida (2 a 4 metros).

Vamos, então, aos mistérios – que, afinal, também os há por ali!

Comecemos pelo mais simples e deveras elegante, na arquivolta do lado direito de quem olha! Em requintados caracteres góticos, de primórdios do século XVI (como Mário Barroca amavelmente nos esclareceu), representa as habituais siglas jhs, cujo desdobramento é, como se sabe, Jesus Hominum Salvator, «Jesus salvador dos homens». Adoptado como sigla pela Companhia de Jesus, depressa se vulgarizou, de modo que não se estranha a sua ocorrência aqui. De salientar o invulgar esmero do canteiro que a gravou.

Anote-se ser bem diferente, a esse respeito, a opinião de Adriano Vasco Rodrigues, que, na  história da cidade da Guarda, no capítulo «Testemunhos dos Cartyros,dos Tabeliões ou Notários», vê aí a sigla do nome Johanes (João), que identifica com «Johan Dominguez tabalyõ dellRey na dicta cidade», como leu num documento antigo.

Em cima, na pedra de fecho da ogiva, à esquerda, os riscos aí gravados poderão interpretar-se como a representação esquemática de um animal de carga (muar ou burro): a cauda em forma de ípsilon (Y) deitado para trás, as patas em jeito de elipses oblongas.

Pode ser, depois, fantasia de crédulo observador; imagina-se, todavia, por cima, estilizada figura humana, de chapéu em bico, saco na ponta de um pau ao ombro. Encanta-nos chamar-lhe «almocreve», a nossa homenagem aos que, Idade Média afora, iam de terra em terra, mensageiros e vendedores, suas mercadorias levando às povoações mais remotas. Acrescente-se que também essas gravações Adriano Vasco Rodrigues interpretou como identificativos de um tabelião, a exercer actividade na casa de cuja entrada o arco faria parte. A meia altura, do lado esquerdo, os riscos não terão decerto significado concreto.

Na fachada do edifício anexo, datável também, muito possivelmente, do século XVI, a moldura das portas é biselada; no lado direito de uma das portas, há uma cruz identificada como sendo marca de cristão-novo; no andar superior, uma janela, “dita” manuelina, tem lintel de arco trilobado. Orgulhosas, mantêm-se, no alto, da chamada Casa do Rabi duas gárgulas estriadas de canhão. «Casa do Rabi»? – É que o edifício está em pleno centro histórico, à ilharga de uma porta da Judiaria, na confluência das duas principais artérias medievais, que atravessavam a cidade de N/S e de E/O. Daí a (fantasiosa) designação, assim como as frequentes tentativas de ligar estas inscrições à comunidade judaica!

Nesse frontispício, nos chamaram, todavia, particular atenção os ‘arabescos’ preservados junto de uma das portas, em pedra emoldurada a preceito. Não ousamos atribuir-lhe significado; alicia-nos, contudo, ver nos dois sulcos verticais, à direita, a representação da vara e do côvado, como há na Porta da Ravessa da vila alentejana de Redondo e na célebre Porta Nova de Sortelha, concelho do Sabugal, a representação das medidas-padrão da época medieval, utilizadas para aferição prática de mercadorias e controlo comercial à entrada da povoação.

Porta da Ravessa da vila alentejana de Redondo e na célebre Porta Nova de Sortelha, concelho do Sabugal

A vara portuguesa valia aproximadamente 1,10 metros, 5 palmos; em contextos medievais, o côvado era equivalente a 3 palmos, ou seja, cerca de 66-68 cm – teoricamente, no antebraço humano, a distância desde o cotovelo até à ponta do dedo médio. A fotografia que se apresenta de Sortelha está na pág. 95 do livro Sortelha: Segredos por Desvendar (Sabugal, 2012), onde o autor, Marcos Osório, explica que, neste caso, o sulco que representa o côvado mede 67 cm e o da vara 109.

Minudências, estas, de visionários! – objectar-se-á. Serão. Quiçá dessas minudências se possa entretecer a História. Revelá-las é forma de as valorizar e preservar.

(em colaboração com Dulce Helena Borges)

O GRANDE PEP GUARDIOLA

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Num futebol que se ajoelha perante patrocinadores, mercados e conveniências políticas, Pep Guardiola continua a ser uma exceção incómoda. Nunca escondeu o apoio à causa palestiniana e nunca se refugiou na neutralidade confortável que domina o discurso oficial do desporto. Num tempo em que a palavra “genocídio” parece proibida nos estádios europeus, nos palcos da Eurovisão, na maioria dos grandes eventos públicos, Guardiola não a evita.

Agora, o treinador do Manchester City aceitou ser nomeado treinador honorário da seleção palestiniana de futebolistas amputados, a Gaza Al-Irada, nome que significará “Vontade Inquebrantável de Gaza”. O nome não é metáfora literária: estes jogadores perderam membros em bombardeamentos israelitas. Jogam com próteses e muletas.

O agradecimento dos jogadores está neste vídeo:

vídeo

Num universo onde federações se apressam a punir braçadeiras solidárias mas fecham os olhos a massacres, o gesto de Guardiola tem um peso que vai além do simbolismo. É um embaraço. Lembra que o silêncio não é neutralidade, é alinhamento. E lembra que o futebol, tão rápido a iluminar monumentos com as cores certas quando convém, sabe ser estranhamente daltónico quando a bandeira é palestiniana.

jogadores amputados do Al-Irada em treino com bola
equipamento do Al-Irada
treino sem bola

Guardiola não vai travar bombas nem alterar a geopolítica do Médio Oriente. Mas recusa a anestesia moral. E, num futebol que prefere não ver, isso já é uma forma de resistência.

MANUEL BENTO, PROFESSOR

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Enquadrou-se a visita nas comemorações anuais do Dia Local do Antigo Aluno Salesiano. Houve assembleia geral e almoço de confraternização, no fim do qual se prestou homenagem ao antigo aluno Manuel Bento, presenteado que já fora, de manhã, pelo descerramento de uma placa a identificar, com o seu nome, uma das salas de aula da Associação.

sala manuel Bento na creche da Associação dos Antigos Alunos Salesianos do Estoril

De 93 anos, Manuel Bento nasceu na povoação da Queimada, freguesia de Nossa Senhora da Lapa, na ilha de São Nicolau, em Cabo Verde. Aos 16 anos, veio para Portugal, tendo-se preparado para ingressar na Congregação Salesiana, o que viria a ocorrer em 1954. Esteve como professor salesiano até 1961, tendo lecionado nas escolas do Estoril, Vendas Novas e Évora.

A partir de 1962, inicia nova fase na sua vida, optando pelo ensino por conta própria, preparando alunos para a quarta classe e para o exame de admissão. Formou turmas com alunos de todas as idades, na sua própria casa, no Monte Estoril, tendo apresentado a exame de 4ª classe cerca de 1200 alunos, muitos deles trabalhadores da indústria hoteleira, que necessitavam de completar habilitações escolares inclusive para prosseguir estudos.

O mérito do seu trabalho foi amplamente reconhecido pelos professores oficiais, refletindo-se nas elevadas taxas de aprovação dos seus alunos, num período – recorde-se! – em que o exame da 4ª constituía etapa determinante no percurso escolar. Foi explicador de muitos ‘filhos’ do Estoril, provenientes de todas as classes sociais, apoiando alunos com dificuldades de aprendizagem.

Todos os anos o Professor Manuel Bento reúne colegas e amigos para a celebração do nascimento de Nossa Senhora, a 8 de setembro, ocasião em que partilha um bolo de aniversário com os convidados. Coincide esta data com a festa da sua paróquia de origem, de Nossa Senhora da Lapa, na sua Ilha de “Saniklau”, cuja igreja, construída em 1745, continua a apoiar, através da recolha e envio regular de donativos para a sua manutenção.

O cenário desta homenagem foi, pois, a sede dos Antigos Alunos Salesianos, onde funciona em pleno uma escola, que procura seguir a pedagogia salesiana: formar bons cristãos e honestos cidadãos! Não admira, portanto, ver como os estudantes ganham pelo santo fundador dos Salesianos, D. Bosco, uma devolução particular de que são provas desenhos expostos.

Todo um espírito de serviço à comunidade ressumbra daquelas paredes.

PERDER A DIGNIDADE É PERDER TUDO

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Porque votam os pobres à direita?, questionou – e bem- o Carlos Narciso, num texto escrito a poucos dias da segunda volta das presidenciais. A questão foi assertiva e justifica-se, uma vez que, não só em Portugal, como entre os emigrantes portugueses, verificou-se a tendência de alguns sectores mais desfavorecidos e com menor literacia, ter votado em André Ventura.

A iliteracia e a pobreza explicam, só, por si, esta tendência, ainda para mais quando o Chega tem como financiadores algumas das pessoas mais ricas do nosso País? O Carlos Narciso contribuiu para desmontar algumas destas dúvidas: “No atual combate ideológico, o racismo funciona como substituto da luta de classes. As pessoas deixaram de considerar a exploração económica de que são vítimas, aprenderam a encontrar novos bodes expiatórios. “Se eu trabalho e o salário não chega ao fim do mês, alguém me está a tirar alguma coisa.” Quem? O imigrante, o refugiado, o “subsidiodependente”, o “estrangeiro que vem para aqui viver à custa dos nossos impostos”. É falso, mas é emocionalmente convincente, porque dá um culpado visível. O capital é de difícil visualização. O imigrante é bastante visível. Este “racismo dos pobres” não cai do céu nem nasce espontaneamente da pobreza. É uma ideologia alimentada pelos media sensacionalistas, amplificada nas redes sociais, legitimada por discursos políticos que utilizam o velho truque de “com meia-verdade me enganas”.

Além das evidências e da desconstrução dos fundamentos para este voto, por parte das classes mais desfavorecidas, esta tendência, não podemos esquecer, tem raízes históricas, que não passam pela luta de classe, – até já se teorizou sobre o fim da luta de classes, ou o “fim da história” – um conceito desenvolvido pelos neoliberais, com o único objectivo de esconder o que está subjacente à tomada do poder pelos grupos e interesses económicos, mantendo a riqueza mundial concentrada em meia dúzia de pessoas, agravando o fosso entre ricos e pobres e simulando a existência do “elevador social,” que permitiria a classe média subir na “cadeia alimentar”.

Outra versão do mantra de André Ventura, é a criação “artificial” de o Chega ser o partido dos “descamisados” que se opõem às elites. Concepção amplamente derrotada pelos eleitores portugueses, ao darem a António José Seguro mais de três milhões e quinhentos mil votos, o que significa que o voto, no Presidente eleito, foi transversal a todos os sectores sociais.

Para se entender este “epifenómeno”, o votos das classes desfavorecidas em populistas, podemos ir até à Argentina, a de Juan Péron (líder do Partido Justicialista) e a de Javier Milei (líder do Partido Libertário), pois, quer um, quer outro, ancoraram a conquista do poder nos “descamisados” e, depois de chegar ao poder, abandonaram-nos ou usaram-nos a seu belo prazer. Quanto a Péron sabemos como acabou, quanto a Milei ainda não acabou porque Trump pagou cerca trinta mil milhões de dólares para evitar o colapso da economia Argentina, o que não está a impedir o agravamento da tensão social e o confronto com o poder político dos que se sentem enganados por Milei.

O mantra desta extrema-direita ou direita radical, é simples e constrói-se na iliteracia, no desânimo, na crise das democracias liberais e aponta os culpados, que são as elites corruptas, os emigrantes e a permissividade na luta contra o crime. De fora, ficam os grandes grupos económicos, que apoiam essa direita radical e as consequências do enorme fosso económico e social que existe, na generalidade dos países e em Portugal, o que provoca a pobreza e as diferenças sociais.

Como combater esse mantra? Não é fácil, mas passa, necessariamente, por uma mudança de políticos e de políticas que devolvam a esperança aos cidadãos, com respostas assertivas na saúde, na habitação, na educação, na inversão da disrupção a que se assiste na sociedade, com opções correctas no desenvolvimento económico e social. São propostas “redondas”, admito que sim, mas num tempo em que o Mundo está em convulsão, em que o Direito Internacional acabou, em que temos um “político transacional” a dirigir a maior potência do Mundo e a tentar transformá-la numa autocracia, em que a Europa continua a ser subserviente aos Estados Unidos, a opção só pode ser a de oferecer esperança, dando corpo a essa esperança com medidas e opções políticas que permitam aos cidadãos viver com dignidade. Dignidade é a pedra de toque para a sociedade destes tempos, em que se perderam valores, princípios e, fundamentalmente, se caminha para uma compressão dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Quando o homem perde a dignidade perde tudo e é esse o objectivo dos novos senhores do poder.

A ESPERANÇA SEM FIM

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O Hospital de Alfaces é um drama familiar construído em sucessão de cenas curtas, quase esboços cénicos, como se estivéssemos perante um guião de teatro ou cinema. Essa fragmentação imprime ritmo, cria tensão, empurra o leitor para a frente. Cada cena contém frases de impacto, uma sentença moral, uma verdade condensada, um aforismo pronto a ser sublinhado. É uma técnica eficaz: transforma a leitura numa sequência de pequenos clímax emocionais.

O eventual carácter autobiográfico da narrativa, a ideia de que o drama terá raízes na experiência pessoal do autor, reforça a carga afetiva. O leitor sente que pisa território íntimo, que participa numa dor real. E isso aproxima.

Mas há também uma dimensão simbólica que desloca a história do realismo para uma espécie de alegoria surreal: a alface imortal que se reproduz infinitamente, resistente a tudo, convertida em metáfora da persistência contra a dor, a doença, o ódio e o desamor. O símbolo é didático. A fantasia serve a mensagem.

É aqui que surge a ambivalência. O livro pode ser lido como um longo “poema escrito na horizontal”, prosa poética construída com paralelismos, enumerações, repetições rítmicas. Frases como: “A vida é uma frase mal escrita, mal pensada, mal planeada…” assentam numa cadência quase litúrgica. A repetição sincopada, quase como se fosse música, “há dor, há perdas, há sofrimento…” cria intensidade. O texto pede para ser citado, partilhado, recortado. Funciona.

Mas esse mesmo mecanismo, repetido ao longo de centenas de páginas, cansou-me um pouco. Cansaço mais psicológico, talvez. A frase lapidar, quando é permanente, deixa de surpreender. O impacto transforma-se em padrão. O que inicialmente seduz – a contundência emocional – acaba por soar a fórmula. Tenho medo de estar a ser injusto, confesso. E se tudo aquilo lhe saiu mesmo das entranhas?

É um relato de intensidade contínua. Não há zonas neutras, não há silêncios longos, não há espaços de respiração narrativa. Tudo é sentimento sublinhado. Tudo é significado declarado. Tudo é afirmativo.

No final, digo que o livro cumpre aquilo que o autor pretende: emocionar, confortar, oferecer frases que parecem verdades definitivas. Gostei. Mas também me cansei. E talvez essa tensão, entre adesão e saturação, seja a leitura mais honesta que posso fazer dele.

“Há dor, há perdas, há sofrimento, há medo, há angústias, há uma quantidade interminável de merdas que só servem para dar cabo de nós. Raramente as coisas boas cobrem as outras. O que cobre as outras, o que nos faz superar as outras, é o que construímos com elas”.

Talvez tenhas razão, Pedro. Mas onde se aprende a fazer essa construção, não nos dizes tu neste livro que termina com um enigma…

VIAGENS

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Tento ler Olga Tokarczuk neste dia cinzento de Lisboa, deixando de lado todas os testes por corrigir porque só um leitor sabe o papel de um bom livro na sua saúde emocional.

Escolho “Viagens” , o título desta autora premiada com o Nobel em 2019, por razões que quem me conhece saberá óbvias. Mas o livro não me surpreendeu sobremaneira.

Tirando algumas ideias dispersas que me deixaram a pensar, tudo o resto são fragmentos de experiências de quem viaja, que nem sempre atingem o leitor: O mundo na cabeça;a cabeça no mundo; sete anos de viagem; aeroportos; viagem em busca das próprias raízes; cosméticos de viagem; psicologia da viagem; o tempo certo e o lugar certo entre tantos outros..

Tal como a autora, também eu me dei conta várias vezes de que, apesar de todos os perigos inerentes a quem viaja sem rede, tudo o que está em movimento é sempre melhor do que aquilo que está parado, em repouso. Embora discutível, vejo mudança sempre mais nobre do que a imobilidade, a ventura mais enriquecedora do que a estabilidade pois embora todos venhamos a sofrer do mesmo fenómeno de decomposição final, aquilo que teve movimento consegue durar eternamente.

Também eu, como Olga Tokarczuk, não herdei o gene que faz com que as pessoas criem raízes quando permanecem sempre no mesmo lugar. As minhas raízes, se surgirem, apodrecem. Já tentei várias vezes mas as minhas raízes são sempre superficiais e “qualquer brisa é capaz de me arrancar à terra”. Tal como as plantas, também eu não sou capaz de germinar. A minha energia vital provêm do movimento, mais especificamente da oscilação dos comboios e dos barcos, da trepidação dos carros e da descolagem dos aviões.

Temos em comum, eu e autora, essa inevitabilidade que é pormo-nos a caminho pelo mundo fora. “Quando viajo desapareço do mapa. Ninguém sabe onde estou. Se estou ainda no ponto de partida ou se já estou no ponto de chegada.”

Como diz Torga, em qualquer viagem, o que importa é partir, não é chegar.

CUBA CASTIGADA

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O termo “embargo” é enganador. O que existe é um sistema de asfixia financeira, comercial e energética que ultrapassa fronteiras e intimida bancos, empresas e governos terceiros.

O efeito não é teórico. Quando transferências são bloqueadas e contratos cancelados, não é uma abstração ideológica que sofre: são hospitais sem combustível, doentes sem medicamentos, equipamentos médicos parados por falta de peças. Sanções prolongadas com impacto previsível sobre civis têm um nome: punição coletiva.

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas condena anualmente o bloqueio por maioria esmagadora. A política mantém-se não por consenso internacional, mas pela força política.

Antes de 1959, no regime de Fulgêncio Batista, a ilha era economicamente dependente dos EUA e marcada por desigualdades profundas. A revolução liderada por Fidel Castro rompeu com esse modelo e afirmou soberania face aos Estados Unidos. O bloqueio nasce dessa ruptura.

Pode-se discordar de sistemas políticos. O que não se pode fazer é normalizar uma estratégia que, há sessenta anos, atinge uma população inteira sem alcançar o objetivo declarado. Quando uma política falha e o sofrimento permanece, não é instrumento diplomático, é um acto de guerra.

Neste momento, apenas o México está a tentar contrariar a prepotência dos EUA. O Governo mexicano enviou dois navios militares de apoio logístico carregados com cerca de 800 toneladas de bens de primeira necessidade, mas nenhum combustível. É alguma coisa, mas é insuficiente. Outros governos de países do Continente Americano, igualmente ameaçados pelos EUA (Canadá, Brasil, Nicarágua,Venezuela, entre outros), deveriam conjugar esforços com o México e organizar ações conjuntas, com meios militares, para apoiar Cuba, nesta luta demasiado desigual com o gigante americano.

recorte da página do site do Governo do México sobre envio de ajuda humanitária para Cuba