Quando o silêncio institucional cala os factos

No Largo Doutor Virgílio Horta, em Sintra, há vários anos que um homem chamado Manuel Ildefonso mantém uma presença constante e pacífica. Todos os dias, Manuel está naquele espaço público, tranquilo, educado, sem incomodar ninguém. Não grita, não protesta em voz alta, mas insiste em existir ali — um protesto contra a invisibilidade a que são relegadas muitas pessoas que vivem à margem.

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Enquanto trabalhava perto da praça, cruzava-me com Manuel Ildefonso quase todos os dias no caminho para a estação de comboios. A sua presença era discreta e digna, um corpo que resistia à pressão invisível de um poder que não parece aceitar quem não se enquadra na imagem turística ou institucional de Sintra.

Foi por isso que, quando assisti à forma como Manuel foi removido da praça, num dia de chuva intensa em março deste ano, fiquei alerta para o caráter desproporcional da ação. Levantei-me, aproximei-me, apanhei do chão o telemóvel e os papéis do manifestante, coloquei-os dentro da sua mala, afastei-me e comecei a filmar o que se passava: vários agentes rodeando um homem só, encostado ao muro, imóvel, sem qualquer resistência. A força aplicada era evidente e claramente exagerada face à situação que presenciava.

Não foi a primeira vez. Numa outra ocasião, eu e uma pessoa que trabalhava comigo assistimos e tentámos intervir numa remoção semelhante na mesma praça. Os agentes não tinham identificação visível e o cenário era o mesmo: pressão, imposição, zero diálogo.

Na ocasião em que filmei, um dos agentes aproximou-se para me impedir de gravar. Expliquei calmamente que tinha o direito de o fazer, desde que não interferisse. A resposta foi um pedido sem base legal: “Então não filme as caras.” Um reflexo do desconforto em ser observado enquanto se exerce autoridade.

Mais tarde, fui chamada a testemunhar em tribunal. Descrevi exatamente o que vi: como me levantei, aproximei-me, e presenciei Manuel ser agarrado por trás, contra o muro, sem qualquer sinal de agressividade. Ainda assim, a sentença declarou que eu não teria condições para ver o que aconteceu, ignorando a minha testemunha direta.

Manuel Ildefonso acabou por ser acusado de ter mordido um agente. Nenhuma testemunha viu esse ato, e o vídeo captado também não o confirma. Mesmo assim, a acusação prevaleceu. O que começou como uma remoção forçada transformou-se num caso de violência supostamente cometida por quem, na realidade, nunca foi agressivo.

Este caso não se trata apenas de um incidente isolado. Trata-se do percurso de alguém que insiste em permanecer, de quem não abdica do direito de existir no espaço público. A Justiça, neste caso, protegeu mais a narrativa oficial do que a verdade dos factos e os testemunhos civis.

Sintra é uma vila que recebe milhares de visitantes por semana, que vêm para ver os seus palácios e jardins cuidadosamente preservados. Mas a realidade que não cabe nesta imagem é empurrada para as margens: pessoas sem casa, vivendo em condições precárias, tratadas como perturbações e invisíveis. Esta invisibilidade é agravada pela ausência de habitação social suficiente e digna, deixando muitos numa situação de exclusão e abandono que parece não incomodar as autoridades.

A democracia revela-se também na forma como protege os mais vulneráveis, especialmente quando não há câmaras, jornalistas ou ruído mediático. E revela-se na coragem de ouvir quem viu — mesmo quando o que se viu incomoda.

Este silêncio institucional não é exclusivo deste caso ou deste lugar. É um espelho que se reflete em outros contextos, como o silêncio dos governos perante o genocídio na Palestina. Um silêncio que convida à reflexão sobre até que ponto estamos dispostos a ignorar a vida e os factos, quando estes não se alinham com os interesses do poder.

A democracia começa nas pequenas praças, nos lugares onde o poder é testado e o silêncio pode transformar-se numa forma de resistência. Ver é também uma forma de estar presente. E quem escolhe estar, mesmo quando se tenta torná-lo invisível, está a afirmar que existe.

4 COMENTÁRIOS

  1. Concordo plenamente que em diversos casos o Sr. Manuel Ildefonso, foi removido de forma desproporcional, com força excessiva… no entanto convém também esclarecer todos os leitores que este protesto continua a existir porque o Sr. Manuel rejeitou uma casa que lhe foi oferecida existindo videos que o demonstram, de antigos apoiantes do Sr. Manuel e que ele tratou “abaixo de cão” quando o confrontaram com a verdade… também já assisti inumeras vezes o Sr. Manuel a ser mal educado com pessoas que o abordam o que não abona em seu caso… convém também referir que o Sr se encontra no largo com musica aos altos berros quase todos os dias já não se tratando em si de uma manifestação e que no meio de se manisfestar também pede esmola às pessoas que por ali passam…
    Em resumo, nenhuma força policial ou de ordem deve tratar um ser humano como já se viu tratar o Sr Manuel, mas teremos de reconhecer que o sr. se encontram ainda em manisfestação porque rejeitou uma casa… o que deixa todos sem perceber o que realmente se passa…

    • A casa em questão, pelo que sabemos, não foi rejeitada. O sr Ildefonso pediu que fossem feitas algumas pequenas reparações e a Câmara Municipal de Sintra não quis ter esse trabalho. A casa nunca foi entregue. Normalmente não aceitamos comentários anónimos. Se quiser voltar a comentar terá de o fazer em nome próprio e não escondido sob um pseudónimo.

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