Tento ler Olga Tokarczuk neste dia cinzento de Lisboa, deixando de lado todas os testes por corrigir porque só um leitor sabe o papel de um bom livro na sua saúde emocional.
Escolho “Viagens” , o título desta autora premiada com o Nobel em 2019, por razões que quem me conhece saberá óbvias. Mas o livro não me surpreendeu sobremaneira.
Tirando algumas ideias dispersas que me deixaram a pensar, tudo o resto são fragmentos de experiências de quem viaja, que nem sempre atingem o leitor: O mundo na cabeça;a cabeça no mundo; sete anos de viagem; aeroportos; viagem em busca das próprias raízes; cosméticos de viagem; psicologia da viagem; o tempo certo e o lugar certo entre tantos outros..
Tal como a autora, também eu me dei conta várias vezes de que, apesar de todos os perigos inerentes a quem viaja sem rede, tudo o que está em movimento é sempre melhor do que aquilo que está parado, em repouso. Embora discutível, vejo mudança sempre mais nobre do que a imobilidade, a ventura mais enriquecedora do que a estabilidade pois embora todos venhamos a sofrer do mesmo fenómeno de decomposição final, aquilo que teve movimento consegue durar eternamente.
Também eu, como Olga Tokarczuk, não herdei o gene que faz com que as pessoas criem raízes quando permanecem sempre no mesmo lugar. As minhas raízes, se surgirem, apodrecem. Já tentei várias vezes mas as minhas raízes são sempre superficiais e “qualquer brisa é capaz de me arrancar à terra”. Tal como as plantas, também eu não sou capaz de germinar. A minha energia vital provêm do movimento, mais especificamente da oscilação dos comboios e dos barcos, da trepidação dos carros e da descolagem dos aviões.
Temos em comum, eu e autora, essa inevitabilidade que é pormo-nos a caminho pelo mundo fora. “Quando viajo desapareço do mapa. Ninguém sabe onde estou. Se estou ainda no ponto de partida ou se já estou no ponto de chegada.”
Como diz Torga, em qualquer viagem, o que importa é partir, não é chegar.



