Início Site Página 24

O MARIPOSEIO SENTIMENTAL DO SILVESTRE

7

Imaginara-o a história de alguém atravessar essas fases da vida: o romantismo juvenil (e lembrava-me do Devagar, Coração! que eu tivera a veleidade de escrever aos 18 anos);  depois, a época de assentar ideias e fazer programação;  a desembocar já numa idade quase provecta, em que os prazeres sentimentais e intelectuais cederiam passo às guloseimas concretas.

Baseado (diz) nos apontamentos biográficos de Silvestre da Silva («Tenho debaixo dos olhos, mal enxutos da saudade, três volumes escritos da mão de Silvestre»), compraz-se Camilo em descrever o autêntico mariposeio sentimental do seu Silvestre (sete mulheres, número cabalístico, sem dúvida), no ambiente sofisticado (diríamos hoje) de uma Lisboa em que um provinciano endinheirado mergulha e diariamente sonha com delírios sentimentais, amiúde transformados em poemas.

Ele são as serenatas, os buquês de flores enviados às escondidas através de uma empregada, os bilhetinhos, os olhares, nomeadamente de uma tribuna para outra do S. Carlos, o ambiente preferido para essas trocas furtivas. Um S. Carlos onde não há referência a peças que estejam a ser representadas, porque o que interessa é a assistência, a maneira como se vestem, com quem estão… Tal como hoje, antes de eventos solenes, o fotógrafo não perde pitada para mostrar como vai a Helena, a Manuela, como está a passadeira vermelha, o desfile de celebridades…

Um romance em que, de cabo a rabo, o vocabulário é vernáculo, como não podia deixar de ser, que parece sair natural, a denunciar perfeito domínio da língua. Uma lição, se atendermos à grande pobreza vocabular vigente nos nossos dias, em que – ainda por cima! – cada vez mais as frases e as palavras são substituídas por emojis.

Seria maldade minha se não garantisse que, de todo o romance,  o que mais me encheu as medidas, do ponto de vista literário, foi o diálogo entre a virginal morgada, Tomásia, e o Silvestre já de muitas vidas vivido e que, perante a novidade, nem sabe bem como há-de reagir.  Ouso dizer que poderia ser, com muito proveito, escolhido para ser representado em aulas de teatro, pela importância que se me afigura ter:

«– Almocei contra o meu costume. Estou afeito a almoços leves de café ou chá.

 – Credo! vossemecê bebe chá por almoço?!

 – Pois então!

 –  Ora essa! Cá em casa há chá, que o compra meu tio padre João, mas é para as dores de barriga».

Não resisto a transcrever ainda, num registo completamente diferente, o pedaço dum discurso judicial, digno, também ele, de antologia:

«Vinde a mim, hipócritas!

Vinde ao sevo do escândalo, celerados  que andais nas encruzilhadas assalteando a honra dos infelizes descautelosos!

 Aqui tendes charco para vos rebalsardes, cerdos!

 Aqui está um dos vossos, que apunhalou a alma dum marido, crucificou uma esposa ao madeiro de eterno opróbrio e sovou aos pés uma coroa virginal».

Rasgo impossível de ouvir, hoje, em qualquer discurso parlamentar, porque… a sabedoria vocabular jamais chegaria lá…

E, a propósito (ou não), dir-se-á que o protagonista, tendo-se metido na política, lhe aconteceu o que era de esperar: os jornais do Porto acoimaram-no «de desviar os dinheiros do Município em benefício das suas propriedades». Então e sempre!

Eis o Silvestre da Silva. «Ao terceiro ano de casado, Silvestre formava com o peito e abdómen um arco. A gordura embargava-lhe a acção e abafava-lhe o peito nas enxúndias!».

Não admira, pois, que o incógnito autor da apresentação da edição deste romance por Publicações Europa-América, assim a tenha querido terminar:

«Obra de uma ironia mordaz, quase contundente, que nos faz pensar muito seriamente, entre dois sorrisos, na inversão de valores que em todos os tempos tão amargamente sentem os que prezam demasiado o coração e a cabeça, e por isso falam e escrevem de estômago vazio».

DUAS “PEDRAS NO SAPATO” DE ISRAEL

0

Francesca Albanese recusa a linguagem eufemística que tem servido para anestesiar consciências. Não fala em “excessos”, fala em genocídio. E fá-lo apoiada em relatórios, números, padrões de conduta e declarações públicas de responsáveis israelitas que configuram uma campanha deliberada de destruição de um povo, a morte de todo um povo, o aniquilamento dos palestinianos, uma espécie de “solução final” para o que tem atrapalhado a concretização do chamado Grande Israel..

O que torna a sua posição particularmente incómoda não é apenas a acusação dirigida a Israel. É o facto de estender a responsabilidade aos Estados que financiam, armam e oferecem cobertura diplomática à ofensiva. Ao fazê-lo, transforma aliados confortáveis em cúmplices constrangidos. E isso, no sistema internacional, paga-se caro.

Francesca Albanese diz: “Não há cessar-fogo em Gaza; o mundo normalizou o genocídio de palestinianos”

As sanções de que foi alvo, incluindo bloqueios financeiros que limitam a sua autonomia pessoal (hoje é difícil viver sem cartões de crédito, sem contas bancárias, sem pagamentos eletrónicos), não são apenas uma retaliação individual. São uma mensagem: denunciar tem custos. O recado não é só para ela; é para qualquer funcionário internacional que ouse atravessar as linhas vermelhas traçadas pelas potências ocidentais.

O outro Albanese atua num plano diferente. Anthony Albanese recebeu em visita oficial o Presidente israelita, Isaac Herzog, mas exigiu responsabilização criminal pelo ataque que matou sete trabalhadores humanitários da World Central Kitchen, entre eles a australiana Zomi Frankcom. Pediu também explicações pela destruição do cemitério de Gaza onde repousam soldados australianos da Segunda Guerra Mundial. Não é uma rutura diplomática. Mas é um incómodo político. E Israel prefere um mundo sem incómodos.

Austrália recebe o Presidente de Israel mas pede explicações sobre crimes de guerra em Gaza

A diferença entre os dois Albanese é estrutural. Um é chefe de governo e responde ao seu eleitorado. Na Austrália, as manifestações de rua mostram que a questão palestiniana deixou de ser distante. O cálculo político impõe-lhe pelo menos o gesto da exigência pública de responsabilidades.

Já Francesca Albanese não tem eleitorado. Tem mandato técnico. E é precisamente por isso que é mais vulnerável às pressões. Vários governos europeus têm alinhado no coro que pede a sua remoção. O secretário-geral da ONU, António Guterres, tem resistido, mas a chantagem diplomática intensifica-se.

Agora foi o Governo francês a acusá-la de antissemitismo, alegando que teria culpado o “povo de Israel” e não apenas o governo. A acusação é grave e, no contexto europeu, carrega peso histórico, mas também se tornou um instrumento recorrente para silenciar críticas estruturais ao Estado israelita. A fronteira entre combater o antissemitismo e proteger um governo do escrutínio internacional está a ser manipulada. Neste caso, por exemplo, o argumento do Governo da França é falso. Francesca Albanese não proferiu uma só palavra contra o povo israelita. No final deste artigo, podem ler o discurso dela na íntegra.

Do meu ponto de vista, o que está em curso em Gaza corresponde à definição jurídica de genocídio: destruição massiva, sistemática, acompanhada de desumanização pública e de condições de vida incompatíveis com a sobrevivência coletiva. Perante isso, não há neutralidade honesta possível.

A atuação do governo israelita é condenável a todos os títulos. Se o direito internacional ainda significasse alguma coisa, os responsáveis políticos e militares iriam responder perante tribunais internacionais, tal como outros responderam em Nuremberga quando o mundo decidiu que certos crimes ultrapassavam qualquer justificação estratégica. A questão é saber se essa arquitetura jurídica vale para todos, ou apenas para os derrotados. É uma questão retórica, não precisam de responder…

Na íntegra (para se avaliar do antissemitismo) o discurso de Francesca Albanese. Primeiro, em vídeo:

Agora, em texto escrito:

DESABAFO

0

Vendo e ouvindo as lamúrias dos “politiqueiros” nos noticiários da televisão, não posso calar um grito de desabafo! Facto é que uma faixa de rodagem da A-1 desabou e deixou lá um grande buraco. Ora, tais buracos conheço eu muito bem da minha juventude. Chamavam-se “impacto de bomba de 500kg” caídas do céu! Quando tal acontecia numa pista da aviação, estrada ou ponte, que muita falta faziam, vinham viaturas militares e, em poucas horas, tapavam tudo e erguiam uma ponte substituta. Portanto, UM DIA CHEGAVA PARA FORÇAS MILITARES resolveram tal questão!

Aqui os nossos “responsáveis” avisam , nem sei baseados em quê, que solucionar isto vai levar muitas semanas… sabendo nós que tal afirmação, na realidade, significa diversos meses!

Será que o país todo vai agora ter de ficar à espera para uns empreiteiros enviarem os seus orçamentos? Por que razão não se pede às nossas Forças Armadas para resolverem este problema? Tenho a certeza de que eles são os primeiros a saber exatamente o que há a fazer. Perdoem-me este desabafo. Sou apenas um sobrevivente da 2ª Guerra Mundial, mas sei do que falo!

GUINÉ-BISSAU REAGE A CRÍTICAS DE TIMOR-LESTE

0

Em Bissau, há quem classifique Xanana Gusmão de ingrato. Opiniões de guineenses, publicadas nas redes sociais, rejeitam impulsos paternalistas de líderes estrangeiros.

Há gente com memória que sabe bem que situações semelhantes também foram vividas em Dili. Em 2006, por exemplo, houve uma rebelião contra o Governo, quando centenas de militares comandados pelo tenente Gastão Salsinha e o major Alfredo Reinado tentaram o derrube do Governo. Durante semanas viveram-se cenas de grande violência, principalmente na capital, Dili. O regime sobreviveu com a ajuda da GNR portuguesa e de uma brigada do Exército australiano.

A REAÇÃO DE BISSAU

O Governo da Guiné-Bissau reagiu, de forma contida. Um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros refere a  “profunda indignação e veemente repúdio pelas declarações”, antes de aludir a percursos controversos de Xanana Gusmão, o atual primeiro-ministro timorense e, também, do Presidente da República, Ramos Horta.

O comunicado não menciona qualquer caso concreto, mas é possível que remeta para os tempos da luta armada contra a Indonésia, quando Xanana foi capturado quando visitava uma namorada, em Dili. Durante os anos de cativeiro surgiram suspeitas de que Xanana teria negociado a sua libertação, mas nunca se confirmou esse hipotético acordo com o inimigo. O comunicado também aflora o surgimento de “controvérsias” sobre a conduta de Xanana, sem especificar quais.

Mas, nas redes sociais guineenses, já há publicações que lembram casos de abusos sobre mulheres e subalternos, textos e vídeos, que indiciam Xanana como autor de atos indignos de um líder democrático. Temas que, aqui, também foram publicados no tempo oportuno.

fontes: JORNALISMO CONTRA A INDIFERENÇA e PRIMEIRO-MINISTRO AGREDIU ASSESSOR

A CPLP EM RISCO

No Whatsapp, Óscar Barbosa “Cancan” (que também publica no Duas Linhas), lembra que as afirmações de Xanana Gusmão abrem “um precedente perigoso” e que constituem um “erro político”. Lembra que “amanhã, qualquer país da CPLP poderá ser alvo do mesmo tipo de discurso, em função das suas próprias crises internas”.

Parece evidente que este comentador da política guineense tem razão quando diz que “a comunidade (CPLP) só sobreviverá se todos os seus membros forem tratados com respeito”.

MANUEL

2

Aos sábados ele acordava às sete horas, eu às onze. As minhas viagens nocturnas pelas azinhagas de um livro, varavam a madrugada. Precisava de compensar o sono.

Ele despertava-me mais cedo, com uma maçã minúscula esmagada contra a persiana com a precisão de um raio. E eu lá tinha de apear-me à pressa do cavalo do sonho, quando atingia a orla das praias e desertos que queria atravessar.

Irritada abria a janela, mas o sol de Setembro entrava-me pelo quarto com o perfume das videiras recém-amputadas dos cachos. Alguns já secavam em pratos rasos de vime ao lado das passas de figo, sobre a cobertura do tanque, a nossa piscina de 20 m2.

Depois eram os talhões de flores divididos por aromáticas, jardins de plantas diferentes, cada qual com sua árvore dominante bem no centro. Tudo como nos livros que comprava, para saciar a vontade de terra e plantas que a cidade onde nascera lhe negava.

Talvez nunca mais tenha comido grelhados tão saborosos como aqueles, antes do sino fazer soar as doze badaladas sob o telheiro de apoio a essas actividades do quintal ajardinado.

Ainda não gosto de passas, nem de compota de marmelo. Gosto dos cheiros de Setembro com o sol lá dentro, a festa simples do dia 23 com o Verão a derramar almudes de luz adocicada ao cair da tarde. E ainda gosto mais da projecção dessa luz na pantalha da memória.

Era quando as nossas conversas, em voz baixa, congregavam o silêncio receptivo dos pássaros, já aninhados nos cotovelos dos ramos. Falávamos de tudo, mais ainda de Geografia, quando se lhe ampliava na memória o desejo de correr mundo.

Faltava lá o senhor Francisco Lobo para anotar o momento num poema ao seu jeito. Mas tinha acabado de partir… E desajeitados, alinhávamos nós versos com rima e muita desconexão desatada em gargalhadas.

Que importava que não fizessem sentido, se tudo o resto fazia?

Lisboa havia de afastar-nos pelo que ele dizia um capricho e eu baptizava de liberdade de escolha. Não queria o curso que me propunha. Ele queria ver-me no caminho da autonomia para poder realizar o sonho de partir…

O sonho foi-lhe interdito. Outro tinha ocupado o seu lugar. O mais longe que ousaria era Lisboa, pela necessidade imperiosa de encontrar o ”amigo” que lhe ficara, pela segunda vez, com o capital para abrirem uma empresa em conjunto.

Ninguém mais sabia desse fracasso. Fora educado para vencer. Podia um homem de 1.85, cheio de vivacidade, ser enganado por alguém, ou traído pelos sonhos?

Muitos invernos caudalosos ainda haviam de correr, mas Setembro ficaria salvo na memória pelo manto da saudade daquelas manhãs e tardes em Coimbra.

Os aromas do amor incondicional ainda repetem as estações que os anos vão baralhando: Setembro e os cheiros bons, Janeiro e a minha festa, um Verão em que nem estava presente para corresponder ao meu adeus.

Talvez lhe desse hoje um beijo pelo dia do Pai, pelo seu ou pelo meu aniversário, menos destemperada pela suavidade dos anos. Talvez lhe dissesse que nenhum afastamento tem de ser uma ruptura.

O amor não morre, só se deixa esmaecer sob as vestes das desilusões que os anos vão sobrepondo, Manuel.

LUÍS “POUCOCHINHO”

0

É curioso observar como o Estado reage com prontidão sempre que uma greve ameaça perturbar o funcionamento normal do país. Quando médicos ou enfermeiros param, quando os transportes suspendem atividade, quando setores estratégicos cruzam os braços, há rapidamente serviços mínimos definidos, há requisição civil preparada, há um discurso firme sobre a necessidade de proteger o interesse público. O Governo mostra-se resoluto, invoca a lei, mobiliza instrumentos excecionais.

Mas quando o país é fustigado durante dois meses por uma sucessão de temporais devastadores, a determinação parece dissolver-se na chuva. Há milhares de casas destruídas ou destelhadas, pontes colapsadas, estradas arrancadas pelas águas, empresas paralisadas. Há populações inteiras sem água, sem comunicações, sem condições mínimas de habitabilidade. O cenário é de emergência prolongada que corrói o quotidiano de milhares de pessoas. E, no entanto, não se vislumbra a mesma energia política.

O Estado dispõe de instrumentos legais para situações excecionais: pode declarar estados de calamidade, pode requisitar bens e serviços, pode mobilizar recursos públicos e privados de forma coordenada e centralizada. Pode, se houver vontade política, assumir a liderança da reconstrução com autoridade e rapidez. O que se vê, porém, é uma resposta fragmentada, mesmo se as condições climatéricas estão a afetar quase todo o país. Parece que o Governo está a contar mais com o natural empenho das autarquias, com a solidariedade entre vizinhos e com a resiliência das comunidades, do que com as suas próprias ideias e convicções.

Alguns militares distribuem sopa, outros ajudam em deslocações por zonas inundadas. É meritório, mas é manifestamente insuficiente perante a escala do desastre. O país não precisa apenas de gestos, precisa de comando.

Quando os trabalhadores suspendem funções, o Estado reage para garantir a continuidade. Quando a natureza suspende a normalidade do país, o Governo parece resignar-se a gerir danos.

Este primeiro-ministro utilizou, quando estava na oposição, a expressão “poucochinho” para qualificar a ação governativa de então. Uma expressão que regressa, agora, como um boomerang e que o atinge em cheio. Numa crise desta dimensão, espera-se liderança clara, coordenação firme e mobilização efetiva de todos os meios disponíveis. Precisavamos de um líder capaz de enfrentar tormentas. Não temos.

PEDRAS QUE GUARDAM SEGREDOS

0

Assim, afigurou-se-nos digno de reparo o bloco de granito, paralelepipédico, que serve de lintel da janela de um edifício rústico na Rua do Polameiro, em Sendim, concelho de Tabuaço, por apresentar a face almofadada, que é uma característica da época romana, pormenor mostrado, em 6 de julho de 2025, por José Manuel Correia Alves na sua página do Facebook.

Também na fachada voltada a noroeste da Antiga Casa da Colegiada, em Barcos, do mesmo concelho, descortinámos, embutida na parede, uma outra pedra, de granito, que apresenta faces almofadadas, conforme Fernando Moreira nos mostrou. Mede, na face dianteira, 26 cm de comprimento na parte superior, 31,5 cm na inferior e tem 39 cm de largura.

Seguramente, porém, o achado mais significativo será o bloco de granito, identificado igualmente na freguesia de Sendim, à beira da Estrada Nacional nº 323, por nos mostrar restos de uma inscrição. Mede cerca de 43 cm de largura e 76 cm de comprimento.

De forma retangular, a pedra teve um sulco chato (não em bisel) a rodear o que pensamos ter sido o seu campo epigráfico, na medida em que cerca de 1/3 da sua superfície poderia ostentar uma inscrição, de que as primeiras duas linhas desapareceram totalmente por acção do ponteiro.

Há claros vestígios de três linhas depois, sem que seja possível, devido à irregularidade quase total dos traços, adiantar a identificação de qualquer letra que forme sentido. A nossa ‘vontade’ de aí ver antigo epitáfio romano destruído levou-nos, inclusive, a imaginar HSE no fim de penúltima linha, o que, a ser real, seria a habitual fórmula funerária romana H(ic) S(itus) E(st), «aqui jaz». Há letras soltas porventura identificáveis, aqui e além, como sendo do alfabeto latino: O na segunda metade da suposta linha 3; AVI na penúltima com o A e o V em nexo…

Que mistério ali se esconderá?

Curioso, o facto de se haver aproveitado o espaço entre o bloco e a pedra de baixo, ao nível do canto inferior direito, para aí se inserir uma ferradura, decerto para servir de argola de prisão para rédea de muar. Isso nos leva a pensar que as garatujas na pedra não terão, seguramente, passado despercebidas.

Será que, a seu respeito, alguma lenda se inventou? Haverá na tradição oral local algo que nos permita saber mais?

Para já, aqui fica a informação, no desejo de que, embora esteja praticamente ilegível, a inscrição não venha a sofrer danos, até porque, hoje, com novos métodos de leitura, se conseguem verdadeiros milagres! Oxalá!

Recorde-se, aliás, que, como se viu durante a elaboração da Carta Arqueológica, apresentada no dia 29 de outubro de 2025, Sendim, a mais extensa freguesia do concelho tabuacense, é, de longe e até ao momento, a que revela mais vestígios arqueológicos do período romano, mormente em Fontelo, em Vale de Vila, em Eira do Monte, nas imediações da Capela da Senhora do Bom Despacho, em Estercada Velha, em Vale de Igreja e na Pala. E… ainda não há notícia de monumentos epigráficos!

(em co-autoria com José d’Encarnação)

PALESTINA

2

O drama dos palestinianos emudeceu. Não porque as matanças tenham cessado, mas porque foram reduzidas à escala que permite continuar o genocídio sem provocar grande alarme mediático. Apesar do cessar-fogo proclamado por Israel, os palestinianos continuam a ser mortos diariamente, a tiro e à bomba.

Na Cisjordânia, intensificaram-se os assaltos e a ocupação de propriedades palestinianas, as vendas forçadas, a expulsão de comunidades inteiras. Nesta parte da Palestina, os principais centros urbanos estão cercados por muros altos que confinam populações, estrangulam a economia e transformam cidades em prisões a céu aberto.

Nada disto é desconhecido. O que hoje acontece é a continuação do que tem acontecido todos os dias há mais de 70 anos. Mas continuamos a assistir à inutilidade e à falência da política e do direito internacionais. O que se passa é inaceitável: a impunidade de quem executa a morte lenta de um povo e o compadrio de quem se limita a lamentar e a “repudiar”, em declarações vazias, sem consequências, tão vergonhosas quanto cobardes.

Entretanto, o chinês vendeu o TikTok a um americano amigo de Trump; os algoritmos continuam a funcionar às mil maravilhas no Facebook, no X e noutras redes igualmente armadilhadas. A Palestina deixou de aparecer nos feeds. E, no mundo digital, o que não aparece fica esquecido.

O PODER DA LEALDADE

0

Começo por fazer três declarações: apenas falei com Seguro uma única vez, há cerca de vinte anos, mais precisamente no dia 9 de Agosto de 2006, nos corredores de uma maternidade de Lisboa, enquanto aguardávamos o nascimento, eu da minha neta e ele de uma sobrinha (uma conversa de circunstância). Sei que ele nasceu no dia 11 de março, dia de aniversário de meu Pai e, por último, quando lançou a sua candidatura nunca pensei que a mesma fosse vencedora, tendo alterado a minha opinião com a campanha eleitoral, em que ele mostrou que estava ali para ganhar.

Do leque dos potenciais vencedores anunciados, Gouveia e Melo e Marques Mendes, António José Seguro era o que tinha menos possibilidades de chegar ao Palácio de Belém.

A pouco e pouco, foi-se afirmando e não embarcou no jogo sujo que Ventura e Gouveia e Melo trouxeram para a campanha, nem na “pós-modernidade, pseudo-liberal” de Cotrim de Figueiredo, mantendo uma pose de Estado.

André Ventura iniciou o seu ataque a António José Seguro, invocando a luta contra o socialismo, o que era ridículo e, perante os apoios dos mais diversos sectores da direita portuguesa, passou à tese “dele contra o Mundo”, tendo voltado à ideia da vitória do socialismo, no discurso de derrotado, em que se posicionou para salvar os portugueses dessa doença terrível, desrespeitando o voto de três milhões e quinhentos mil portugueses.

No dia em que a extrema-direita deixar de usar o mantra do socialismo, sem perceber que o socialismo acabou há muito, fechado numa gaveta, por todo o lado do Mundo e que, mesmo as exceções, não passam de estados autocráticos, supressores dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, (aqueles com quem essa extrema-direita se identifica), quando deixar de sonhar com conspirações maçónicas,  tendo no grupo de apoiantes do Chega a Opus Dei, ao lado dos evangélicos, a mentira ainda se torna mais evidente. O silêncio amedrontado de muitos em clarificar estas coisas, alimenta a “besta”. Talvez seja tempo de parar de a alimentar.

Quanto a Montenegro, violou, logo, ao começo da noite, um dos princípios básicos da relação institucional, a lealdade. A situação em se colocou, a incompetência generalizada deste governo, com a  excepção da Ministra do Ambiente, o receio de ser apeado, internamente, obrigou-o a uma jogada arriscada. Fez uma comunicação ao País (ridícula), mas com o objectivo de condicionar o novo Presidente da República. A coisa saiu-lhe mal, demonstrou fragilidade e atingiu o grau zero da política.

Antes das eleições presidenciais escrevi que Luís Montenegro estava metido ‘numa camisa de onze varas’, porque o seu candidato iria perder. Acabou por ter mesmo um péssimo resultado, por culpa exclusiva do governo liderado por Montenegro.

Luís Montenegro é o exemplo claro do ‘Princípio de Peter’: um fraco líder parlamentar, que  deu um mau primeiro-ministro, o que o obriga a recorrer à arrogância bacoca, para disfarçar a sua inaptidão para o cargo.

A vitória de António José Seguro irá impedir a disrupção do sistema político e a queda do PSD nas mãos do Chega (mesmo com a radicalização de André Ventura), mas não impedirá a queda de Luís Montenegro, o único responsável pela degradação do governo, por ‘normalizar’ o Chega e permitir que algumas almas caridosas considerem que este partido se insere no quadro da democracia.

O resultado das eleições presidenciais foi claro, ganhou a decência contra a mentira. Como escreveu Luís Sousa, um dos homens da campanha de António José Seguro: ganhou “uma visão progressista, humanista e democrata para Portugal”. O candidato que sai derrotado destas eleições, pode agarrar-se às interpretações alternativas, pode colocar a bandeira nacional que muitos juraram e muitos por ela morreram à volta do pescoço como se tratasse de um cachecol do seu clube de futebol, pode pôr a mãozinha no coração ao cantar o hino, mas um perdedor é sempre um perdedor quando não percebe, ou não quer perceber, porque perdeu. Perdeu porque o POVO escolheu a democracia, porque o POVO escolheu a decência. Nem há espaço nem tempo para rancor; há, isso sim, uma janela de oportunidade para que os partidos democratas façam o seu trabalho e recuperem a confiança deste eleitorado que moureja indignado”

Esta é a questão-chave de tudo, como venho escrevendo há anos, a resposta aos problemas dos cidadãos, da classe média, do jovens, dos idosos, a necessidade de um País verdadeiramente solidário. E é aqui que o Presidente António José Seguro tem de ser implacável com o governo, obrigá-lo a governar bem, a fazer opções e a pensar no interesse dos cidadãos. E é aqui que este governo irá falhar.

Proteger-se da subida da Euribor com a consolidação de créditos

0
imagem gerada por IA

Com a constante subida da Euribor a impactar os encargos mensais de muitos portugueses, é natural que cada vez mais famílias procurem soluções que aliviem o peso do orçamento. De entre as estratégias mais eficazes, consolidar créditos destaca-se como uma opção vantajosa para quem possui vários empréstimos e sente dificuldades em geri-los. Além de simplificar a vida financeira, esta solução pode ser uma forma inteligente de proteção contra a volatilidade das taxas de juro.

Neste artigo, exploramos como funciona a consolidação de créditos, quando pode ser vantajosa, de que forma a Euribor influencia essa decisão e que outras alternativas existem.

O que é a consolidação de créditos e como é que funciona?

A consolidação de créditos é um processo que permite agregar vários empréstimos num único contrato. Em vez de gerir diferentes prazos, juros e entidades financeiras, o cliente passa a ter apenas uma única prestação mensal, muitas vezes com um valor inferior ao total das anteriores.

Este novo crédito consolidado cobre os montantes ainda em dívida dos créditos pessoais, cartões de crédito, linhas de financiamento, entre outros. Com esta unificação, o prazo de pagamento pode ser alargado, permitindo uma redução da mensalidade. Apesar de poder resultar num custo total mais elevado a longo prazo, representa um alívio imediato para quem procura equilíbrio financeiro no presente.

Adicionalmente, muitos contratos de consolidação oferecem taxas mais competitivas e condições ajustadas ao perfil do cliente, o que pode traduzir-se numa solução sustentável a médio e longo prazo.

Sinais de que consolidar pode ser vantajoso

Nem todas as pessoas com créditos em curso precisam de consolidar; aliás, tal só é possível quando o mesmo contribuinte contrai um mínimo de dois créditos ao consumo e cai em situação de incumprimento. No entanto, há sinais claros de que esta solução pode ser a mais indicada, tais como:

  • Dificuldade em cumprir prazos: se os pagamentos em atraso forem recorrentes, a consolidação pode evitar penalizações e ajudar a reequilibrar o orçamento;
  • Vários créditos em simultâneo: ter mais de três créditos ativos com diferentes datas e juros pode ser confuso e penalizador a nível financeiro;
  • Taxas de juro elevadas: se algum dos seus créditos tiver uma Taxa Anual de Encargos Efetiva Global (TAEG) significativamente elevada, substituí-lo por uma taxa mais baixa num crédito consolidado pode gerar poupança;
  • Procura de estabilidade: para quem pretende uma prestação fixa e previsível, consolidar créditos pode ser a resposta certa, sobretudo se o contrato for a taxa fixa.

Antes de avançar, é importantíssimo analisar o custo total do novo crédito, incluindo comissões, seguros e encargos associados. Só assim é possível perceber se a consolidação representa, de facto, uma vantagem real.

O impacto da Euribor na sua decisão

Nos últimos anos, a Euribor, a taxa de referência (ou indexante) utilizada no cálculo da maioria dos créditos em Portugal, tem registado oscilações significativas. A instabilidade recente confirma esta tendência: segundo um artigo do jornal ECO, as taxas Euribor a três e a seis meses voltaram a subir, enquanto a taxa a 12 meses registou uma ligeira descida, o que demonstra que o mercado continua volátil e imprevisível.

Para quem possui créditos com taxas variáveis, este cenário representa um risco acrescido, uma vez que qualquer subida da Euribor se reflete diretamente na mensalidade a pagar.

Neste contexto, consolidar créditos com taxa fixa pode ser uma forma eficaz de se proteger. Ao trocar vários empréstimos com taxas variáveis por um único com taxa fixa, o cliente ganha previsibilidade e evita surpresas desagradáveis com futuras subidas da Euribor.

É verdade que os créditos com taxa fixa podem, à partida, ter uma TAEG ligeiramente superior. No entanto, em cenários de instabilidade económica e subida das taxas de juro, essa diferença pode justificar-se rapidamente pela segurança que proporciona.

Alternativas à consolidação que também funcionam

Em muitos casos, a consolidação revela-se uma excelente solução, mas não é a única via.

Dependendo da situação financeira de cada pessoa, há alternativas que também merecem ser consideradas, nomeadamente:

1. Negociar com os credores

Antes de avançar para a consolidação, pode ser útil contactar diretamente as entidades com as quais tem créditos ativos.

Algumas instituições estão disponíveis para renegociar prazos ou taxas, sobretudo se o cliente apresentar dificuldades temporárias de pagamento.

2. Transferência de crédito

Outra opção é transferir um ou mais créditos para outra instituição que ofereça melhores condições.

Esta operação, semelhante à portabilidade, pode permitir poupanças significativas ao longo do tempo.

3. Rever despesas fixas e orçamento

Por vezes, a dificuldade em cumprir com as prestações não está apenas relacionada com os créditos, mas também com a gestão global do orçamento.

Reduzir gastos não essenciais, renegociar contratos de serviços (telecomunicações, seguros, etc.) e elaborar um plano financeiro são alternativas que podem ter um impacto significativo.

4. Fundo de emergência

Criar uma reserva financeira mensal, mesmo que modesta, pode ser decisivo para lidar com imprevistos.

Este fundo oferece uma margem de segurança e reduz a necessidade de recorrer a novos créditos para cobrir despesas inesperadas.

Consolidar ou não? A decisão certa para si

Consolidar créditos pode ser uma decisão transformadora, desde que tomada com ponderação.

É fundamental comparar propostas, simular o novo crédito com detalhe e, idealmente, consultar um especialista em finanças pessoais. Lembre-se de que o objetivo não é apenas reduzir a prestação mensal, mas também garantir estabilidade a longo prazo.

Se a Euribor continuar a subir, como muitos analistas preveem, a consolidação pode ser uma estratégia valiosa para mitigar o impacto direto no seu orçamento familiar. Avalie as suas opções com cuidado e escolha a que melhor se adequa ao seu perfil financeiro.