Imaginara-o a história de alguém atravessar essas fases da vida: o romantismo juvenil (e lembrava-me do Devagar, Coração! que eu tivera a veleidade de escrever aos 18 anos); depois, a época de assentar ideias e fazer programação; a desembocar já numa idade quase provecta, em que os prazeres sentimentais e intelectuais cederiam passo às guloseimas concretas.
Baseado (diz) nos apontamentos biográficos de Silvestre da Silva («Tenho debaixo dos olhos, mal enxutos da saudade, três volumes escritos da mão de Silvestre»), compraz-se Camilo em descrever o autêntico mariposeio sentimental do seu Silvestre (sete mulheres, número cabalístico, sem dúvida), no ambiente sofisticado (diríamos hoje) de uma Lisboa em que um provinciano endinheirado mergulha e diariamente sonha com delírios sentimentais, amiúde transformados em poemas.
Ele são as serenatas, os buquês de flores enviados às escondidas através de uma empregada, os bilhetinhos, os olhares, nomeadamente de uma tribuna para outra do S. Carlos, o ambiente preferido para essas trocas furtivas. Um S. Carlos onde não há referência a peças que estejam a ser representadas, porque o que interessa é a assistência, a maneira como se vestem, com quem estão… Tal como hoje, antes de eventos solenes, o fotógrafo não perde pitada para mostrar como vai a Helena, a Manuela, como está a passadeira vermelha, o desfile de celebridades…
Um romance em que, de cabo a rabo, o vocabulário é vernáculo, como não podia deixar de ser, que parece sair natural, a denunciar perfeito domínio da língua. Uma lição, se atendermos à grande pobreza vocabular vigente nos nossos dias, em que – ainda por cima! – cada vez mais as frases e as palavras são substituídas por emojis.
Seria maldade minha se não garantisse que, de todo o romance, o que mais me encheu as medidas, do ponto de vista literário, foi o diálogo entre a virginal morgada, Tomásia, e o Silvestre já de muitas vidas vivido e que, perante a novidade, nem sabe bem como há-de reagir. Ouso dizer que poderia ser, com muito proveito, escolhido para ser representado em aulas de teatro, pela importância que se me afigura ter:
«– Almocei contra o meu costume. Estou afeito a almoços leves de café ou chá.
– Credo! vossemecê bebe chá por almoço?!
– Pois então!
– Ora essa! Cá em casa há chá, que o compra meu tio padre João, mas é para as dores de barriga».
Não resisto a transcrever ainda, num registo completamente diferente, o pedaço dum discurso judicial, digno, também ele, de antologia:
«Vinde a mim, hipócritas!
Vinde ao sevo do escândalo, celerados que andais nas encruzilhadas assalteando a honra dos infelizes descautelosos!
Aqui tendes charco para vos rebalsardes, cerdos!
Aqui está um dos vossos, que apunhalou a alma dum marido, crucificou uma esposa ao madeiro de eterno opróbrio e sovou aos pés uma coroa virginal».
Rasgo impossível de ouvir, hoje, em qualquer discurso parlamentar, porque… a sabedoria vocabular jamais chegaria lá…
E, a propósito (ou não), dir-se-á que o protagonista, tendo-se metido na política, lhe aconteceu o que era de esperar: os jornais do Porto acoimaram-no «de desviar os dinheiros do Município em benefício das suas propriedades». Então e sempre!
Eis o Silvestre da Silva. «Ao terceiro ano de casado, Silvestre formava com o peito e abdómen um arco. A gordura embargava-lhe a acção e abafava-lhe o peito nas enxúndias!».
Não admira, pois, que o incógnito autor da apresentação da edição deste romance por Publicações Europa-América, assim a tenha querido terminar:
«Obra de uma ironia mordaz, quase contundente, que nos faz pensar muito seriamente, entre dois sorrisos, na inversão de valores que em todos os tempos tão amargamente sentem os que prezam demasiado o coração e a cabeça, e por isso falam e escrevem de estômago vazio».



















