O PODER DA LEALDADE

António José Seguro ganhou de forma clara, as eleições presidenciais.

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Começo por fazer três declarações: apenas falei com Seguro uma única vez, há cerca de vinte anos, mais precisamente no dia 9 de Agosto de 2006, nos corredores de uma maternidade de Lisboa, enquanto aguardávamos o nascimento, eu da minha neta e ele de uma sobrinha (uma conversa de circunstância). Sei que ele nasceu no dia 11 de março, dia de aniversário de meu Pai e, por último, quando lançou a sua candidatura nunca pensei que a mesma fosse vencedora, tendo alterado a minha opinião com a campanha eleitoral, em que ele mostrou que estava ali para ganhar.

Do leque dos potenciais vencedores anunciados, Gouveia e Melo e Marques Mendes, António José Seguro era o que tinha menos possibilidades de chegar ao Palácio de Belém.

A pouco e pouco, foi-se afirmando e não embarcou no jogo sujo que Ventura e Gouveia e Melo trouxeram para a campanha, nem na “pós-modernidade, pseudo-liberal” de Cotrim de Figueiredo, mantendo uma pose de Estado.

André Ventura iniciou o seu ataque a António José Seguro, invocando a luta contra o socialismo, o que era ridículo e, perante os apoios dos mais diversos sectores da direita portuguesa, passou à tese “dele contra o Mundo”, tendo voltado à ideia da vitória do socialismo, no discurso de derrotado, em que se posicionou para salvar os portugueses dessa doença terrível, desrespeitando o voto de três milhões e quinhentos mil portugueses.

No dia em que a extrema-direita deixar de usar o mantra do socialismo, sem perceber que o socialismo acabou há muito, fechado numa gaveta, por todo o lado do Mundo e que, mesmo as exceções, não passam de estados autocráticos, supressores dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, (aqueles com quem essa extrema-direita se identifica), quando deixar de sonhar com conspirações maçónicas,  tendo no grupo de apoiantes do Chega a Opus Dei, ao lado dos evangélicos, a mentira ainda se torna mais evidente. O silêncio amedrontado de muitos em clarificar estas coisas, alimenta a “besta”. Talvez seja tempo de parar de a alimentar.

Quanto a Montenegro, violou, logo, ao começo da noite, um dos princípios básicos da relação institucional, a lealdade. A situação em se colocou, a incompetência generalizada deste governo, com a  excepção da Ministra do Ambiente, o receio de ser apeado, internamente, obrigou-o a uma jogada arriscada. Fez uma comunicação ao País (ridícula), mas com o objectivo de condicionar o novo Presidente da República. A coisa saiu-lhe mal, demonstrou fragilidade e atingiu o grau zero da política.

Antes das eleições presidenciais escrevi que Luís Montenegro estava metido ‘numa camisa de onze varas’, porque o seu candidato iria perder. Acabou por ter mesmo um péssimo resultado, por culpa exclusiva do governo liderado por Montenegro.

Luís Montenegro é o exemplo claro do ‘Princípio de Peter’: um fraco líder parlamentar, que  deu um mau primeiro-ministro, o que o obriga a recorrer à arrogância bacoca, para disfarçar a sua inaptidão para o cargo.

A vitória de António José Seguro irá impedir a disrupção do sistema político e a queda do PSD nas mãos do Chega (mesmo com a radicalização de André Ventura), mas não impedirá a queda de Luís Montenegro, o único responsável pela degradação do governo, por ‘normalizar’ o Chega e permitir que algumas almas caridosas considerem que este partido se insere no quadro da democracia.

O resultado das eleições presidenciais foi claro, ganhou a decência contra a mentira. Como escreveu Luís Sousa, um dos homens da campanha de António José Seguro: ganhou “uma visão progressista, humanista e democrata para Portugal”. O candidato que sai derrotado destas eleições, pode agarrar-se às interpretações alternativas, pode colocar a bandeira nacional que muitos juraram e muitos por ela morreram à volta do pescoço como se tratasse de um cachecol do seu clube de futebol, pode pôr a mãozinha no coração ao cantar o hino, mas um perdedor é sempre um perdedor quando não percebe, ou não quer perceber, porque perdeu. Perdeu porque o POVO escolheu a democracia, porque o POVO escolheu a decência. Nem há espaço nem tempo para rancor; há, isso sim, uma janela de oportunidade para que os partidos democratas façam o seu trabalho e recuperem a confiança deste eleitorado que moureja indignado”

Esta é a questão-chave de tudo, como venho escrevendo há anos, a resposta aos problemas dos cidadãos, da classe média, do jovens, dos idosos, a necessidade de um País verdadeiramente solidário. E é aqui que o Presidente António José Seguro tem de ser implacável com o governo, obrigá-lo a governar bem, a fazer opções e a pensar no interesse dos cidadãos. E é aqui que este governo irá falhar.

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