Francesca Albanese recusa a linguagem eufemística que tem servido para anestesiar consciências. Não fala em “excessos”, fala em genocídio. E fá-lo apoiada em relatórios, números, padrões de conduta e declarações públicas de responsáveis israelitas que configuram uma campanha deliberada de destruição de um povo, a morte de todo um povo, o aniquilamento dos palestinianos, uma espécie de “solução final” para o que tem atrapalhado a concretização do chamado Grande Israel..
O que torna a sua posição particularmente incómoda não é apenas a acusação dirigida a Israel. É o facto de estender a responsabilidade aos Estados que financiam, armam e oferecem cobertura diplomática à ofensiva. Ao fazê-lo, transforma aliados confortáveis em cúmplices constrangidos. E isso, no sistema internacional, paga-se caro.

As sanções de que foi alvo, incluindo bloqueios financeiros que limitam a sua autonomia pessoal (hoje é difícil viver sem cartões de crédito, sem contas bancárias, sem pagamentos eletrónicos), não são apenas uma retaliação individual. São uma mensagem: denunciar tem custos. O recado não é só para ela; é para qualquer funcionário internacional que ouse atravessar as linhas vermelhas traçadas pelas potências ocidentais.
O outro Albanese atua num plano diferente. Anthony Albanese recebeu em visita oficial o Presidente israelita, Isaac Herzog, mas exigiu responsabilização criminal pelo ataque que matou sete trabalhadores humanitários da World Central Kitchen, entre eles a australiana Zomi Frankcom. Pediu também explicações pela destruição do cemitério de Gaza onde repousam soldados australianos da Segunda Guerra Mundial. Não é uma rutura diplomática. Mas é um incómodo político. E Israel prefere um mundo sem incómodos.

A diferença entre os dois Albanese é estrutural. Um é chefe de governo e responde ao seu eleitorado. Na Austrália, as manifestações de rua mostram que a questão palestiniana deixou de ser distante. O cálculo político impõe-lhe pelo menos o gesto da exigência pública de responsabilidades.

Já Francesca Albanese não tem eleitorado. Tem mandato técnico. E é precisamente por isso que é mais vulnerável às pressões. Vários governos europeus têm alinhado no coro que pede a sua remoção. O secretário-geral da ONU, António Guterres, tem resistido, mas a chantagem diplomática intensifica-se.
Agora foi o Governo francês a acusá-la de antissemitismo, alegando que teria culpado o “povo de Israel” e não apenas o governo. A acusação é grave e, no contexto europeu, carrega peso histórico, mas também se tornou um instrumento recorrente para silenciar críticas estruturais ao Estado israelita. A fronteira entre combater o antissemitismo e proteger um governo do escrutínio internacional está a ser manipulada. Neste caso, por exemplo, o argumento do Governo da França é falso. Francesca Albanese não proferiu uma só palavra contra o povo israelita. No final deste artigo, podem ler o discurso dela na íntegra.
Do meu ponto de vista, o que está em curso em Gaza corresponde à definição jurídica de genocídio: destruição massiva, sistemática, acompanhada de desumanização pública e de condições de vida incompatíveis com a sobrevivência coletiva. Perante isso, não há neutralidade honesta possível.
A atuação do governo israelita é condenável a todos os títulos. Se o direito internacional ainda significasse alguma coisa, os responsáveis políticos e militares iriam responder perante tribunais internacionais, tal como outros responderam em Nuremberga quando o mundo decidiu que certos crimes ultrapassavam qualquer justificação estratégica. A questão é saber se essa arquitetura jurídica vale para todos, ou apenas para os derrotados. É uma questão retórica, não precisam de responder…
Na íntegra (para se avaliar do antissemitismo) o discurso de Francesca Albanese. Primeiro, em vídeo:
Agora, em texto escrito:
“Passámos os últimos dois anos a analisar o planeamento e a execução de um genocídio. E o genocídio ainda não terminou. O genocídio enquanto destruição intencional de um grupo enquanto tal está agora claramente revelado.
Tem estado no ar há muito tempo e agora está plenamente exposto. Tem sido difícil relatar o genocídio. A Al Jazeera sabe-o melhor do que qualquer outro meio de comunicação social, devido a todas as perdas que sofreu enquanto empresa mediática.
Mas ninguém o sabe melhor do que os próprios palestinianos. Os palestinianos continuaram sempre a reportar o dilúvio de violência que se abateu sobre eles de forma implacável. E isto constitui um desafio.
O facto de, em vez de travar Israel, a maior parte do mundo o ter armado, lhe ter dado justificações políticas, proteção política, apoio económico e financeiro, é um desafio. O facto de grande parte dos meios de comunicação social no mundo ocidental ter amplificado a narrativa pró-apartheid, a narrativa genocida, é um desafio. E, ao mesmo tempo, é aqui que também reside a oportunidade.
Porque, se o direito internacional foi apunhalado no coração, também é verdade que nunca antes a comunidade global tinha visto com tanta clareza os desafios que todos enfrentamos. Nós, que não controlamos grandes volumes de capital financeiro, algoritmos e armas, vemos agora que, enquanto humanidade, temos um inimigo comum.
E as liberdades, o respeito pelas liberdades fundamentais, são o último caminho pacífico, o último conjunto de instrumentos pacíficos de que dispomos para recuperar a nossa liberdade. Mas precisamos de nos erguer. Precisamos de fazer o que está certo.
Todos nós, na nossa esfera individual — sejamos advogados, jornalistas, educadores, estudantes ou cidadãos comuns, em casa — temos um papel a desempenhar. E esse papel passa por mudar os nossos hábitos. Desde aquilo que escolhemos comprar, consumir e ler, até à forma como nos posicionamos perante o poder.
Precisamos de ser capazes de falar. Precisamos de ter a força de olhar uns para os outros e ver os nossos irmãos e irmãs e reconhecer neles aliados. E, a este respeito, penso que a Al Jazeera tem um desafio maior do que outros, porque tem de permanecer fiel aos seus valores fundamentais, à missão que a tornou conhecida em todo o mundo: a sua capacidade de relatar factos verdadeiros e de marchar em direção à justiça com esses factos nas mãos.
Acredito verdadeiramente que a Palestina será livre. Acredito verdadeiramente que todos seremos livres, porque demasiada consciência dos direitos humanos está hoje enraizada no mundo, após anos de pregação e ensino dos direitos humanos. Mas precisamos de agir.
E o momento é agora. Assim, por um 2026 de pleno compromisso com a responsabilização e a justiça.”



