PEDRAS QUE GUARDAM SEGREDOS

O reaproveitamento de pedras antigas nas construções posteriores é expediente comum, nomeadamente nos centros urbanos há muito tempo habitados. Não se considera estranho em Évora, Lisboa ou Faro, que, no decorrer de obras de reconstrução, se encontrem pedras romanas. No entanto, a atenção do arqueólogo não deixa também de ser atraída em antigos lugarejos rurais, sobretudo se próximos de sítios arqueológicos identificados.

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Assim, afigurou-se-nos digno de reparo o bloco de granito, paralelepipédico, que serve de lintel da janela de um edifício rústico na Rua do Polameiro, em Sendim, concelho de Tabuaço, por apresentar a face almofadada, que é uma característica da época romana, pormenor mostrado, em 6 de julho de 2025, por José Manuel Correia Alves na sua página do Facebook.

Também na fachada voltada a noroeste da Antiga Casa da Colegiada, em Barcos, do mesmo concelho, descortinámos, embutida na parede, uma outra pedra, de granito, que apresenta faces almofadadas, conforme Fernando Moreira nos mostrou. Mede, na face dianteira, 26 cm de comprimento na parte superior, 31,5 cm na inferior e tem 39 cm de largura.

Seguramente, porém, o achado mais significativo será o bloco de granito, identificado igualmente na freguesia de Sendim, à beira da Estrada Nacional nº 323, por nos mostrar restos de uma inscrição. Mede cerca de 43 cm de largura e 76 cm de comprimento.

De forma retangular, a pedra teve um sulco chato (não em bisel) a rodear o que pensamos ter sido o seu campo epigráfico, na medida em que cerca de 1/3 da sua superfície poderia ostentar uma inscrição, de que as primeiras duas linhas desapareceram totalmente por acção do ponteiro.

Há claros vestígios de três linhas depois, sem que seja possível, devido à irregularidade quase total dos traços, adiantar a identificação de qualquer letra que forme sentido. A nossa ‘vontade’ de aí ver antigo epitáfio romano destruído levou-nos, inclusive, a imaginar HSE no fim de penúltima linha, o que, a ser real, seria a habitual fórmula funerária romana H(ic) S(itus) E(st), «aqui jaz». Há letras soltas porventura identificáveis, aqui e além, como sendo do alfabeto latino: O na segunda metade da suposta linha 3; AVI na penúltima com o A e o V em nexo…

Que mistério ali se esconderá?

Curioso, o facto de se haver aproveitado o espaço entre o bloco e a pedra de baixo, ao nível do canto inferior direito, para aí se inserir uma ferradura, decerto para servir de argola de prisão para rédea de muar. Isso nos leva a pensar que as garatujas na pedra não terão, seguramente, passado despercebidas.

Será que, a seu respeito, alguma lenda se inventou? Haverá na tradição oral local algo que nos permita saber mais?

Para já, aqui fica a informação, no desejo de que, embora esteja praticamente ilegível, a inscrição não venha a sofrer danos, até porque, hoje, com novos métodos de leitura, se conseguem verdadeiros milagres! Oxalá!

Recorde-se, aliás, que, como se viu durante a elaboração da Carta Arqueológica, apresentada no dia 29 de outubro de 2025, Sendim, a mais extensa freguesia do concelho tabuacense, é, de longe e até ao momento, a que revela mais vestígios arqueológicos do período romano, mormente em Fontelo, em Vale de Vila, em Eira do Monte, nas imediações da Capela da Senhora do Bom Despacho, em Estercada Velha, em Vale de Igreja e na Pala. E… ainda não há notícia de monumentos epigráficos!

(em co-autoria com José d’Encarnação)

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