LUÍS “POUCOCHINHO”

Os noticiários televisivos, radiofónicos, online, despejam uma catadupa de relatos da destruição provocada pelas condições meteorológicas, vemos e ouvimos lamentos das populações e dos autarcas e ficamos com a perceção de que o Governo está à espera que deixe de chover, na crença de que depois do temporal vem sempre a bonança.

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É curioso observar como o Estado reage com prontidão sempre que uma greve ameaça perturbar o funcionamento normal do país. Quando médicos ou enfermeiros param, quando os transportes suspendem atividade, quando setores estratégicos cruzam os braços, há rapidamente serviços mínimos definidos, há requisição civil preparada, há um discurso firme sobre a necessidade de proteger o interesse público. O Governo mostra-se resoluto, invoca a lei, mobiliza instrumentos excecionais.

Mas quando o país é fustigado durante dois meses por uma sucessão de temporais devastadores, a determinação parece dissolver-se na chuva. Há milhares de casas destruídas ou destelhadas, pontes colapsadas, estradas arrancadas pelas águas, empresas paralisadas. Há populações inteiras sem água, sem comunicações, sem condições mínimas de habitabilidade. O cenário é de emergência prolongada que corrói o quotidiano de milhares de pessoas. E, no entanto, não se vislumbra a mesma energia política.

O Estado dispõe de instrumentos legais para situações excecionais: pode declarar estados de calamidade, pode requisitar bens e serviços, pode mobilizar recursos públicos e privados de forma coordenada e centralizada. Pode, se houver vontade política, assumir a liderança da reconstrução com autoridade e rapidez. O que se vê, porém, é uma resposta fragmentada, mesmo se as condições climatéricas estão a afetar quase todo o país. Parece que o Governo está a contar mais com o natural empenho das autarquias, com a solidariedade entre vizinhos e com a resiliência das comunidades, do que com as suas próprias ideias e convicções.

Alguns militares distribuem sopa, outros ajudam em deslocações por zonas inundadas. É meritório, mas é manifestamente insuficiente perante a escala do desastre. O país não precisa apenas de gestos, precisa de comando.

Quando os trabalhadores suspendem funções, o Estado reage para garantir a continuidade. Quando a natureza suspende a normalidade do país, o Governo parece resignar-se a gerir danos.

Este primeiro-ministro utilizou, quando estava na oposição, a expressão “poucochinho” para qualificar a ação governativa de então. Uma expressão que regressa, agora, como um boomerang e que o atinge em cheio. Numa crise desta dimensão, espera-se liderança clara, coordenação firme e mobilização efetiva de todos os meios disponíveis. Precisavamos de um líder capaz de enfrentar tormentas. Não temos.

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