A narrativa de diabolização do regime iraniano está montada e a funcionar em pleno. Parte de um dado real: o Irão é um regime teocrático, autoritário e por vezes brutal. Mas rapidamente se expande para relatos de dimensão quase mítica, como o alegado massacre de milhares ou dezenas de milhares de manifestantes, números que circulam abundantemente sem verificação independente credível.
Essa narrativa encaixa-se na perfeição nos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Donald Trump chegou a “prometer” apoio aos protestos no Irão, incentivando explicitamente a ida às ruas. O apoio, porém, nunca chegou. É legítimo perguntar se não estaremos perante uma armadilha deliberada: para os manifestantes, empurrados para um confronto desigual; e para o próprio regime, que seria previsivelmente repressivo. Trump sabia que haveria vítimas, possivelmente muitas, e essas mortes (reais ou imaginárias) servem agora como argumento moral para justificar um ataque ao Irão e uma nova tentativa de mudança de regime.
Trata-se de um velho desejo do imperialismo norte-americano, reforçado pelo incentivo permanente de Israel. Aqui reside a grande ironia, ou hipocrisia, do discurso dominante: o regime israelita apresenta traços teocráticos e práticas brutais que pouco diferem, na substância, daquilo que é apontado ao Irão. O que se passa em Gaza e na Cisjordânia é prova disso: dezenas de milhares de mortos entre a população palestiniana, expulsões sistemáticas de comunidades inteiras, destruição de meios de subsistência, pessoas transformadas em errantes sem casa, sem terra e sem futuro.
Assistimos, assim, a um fenómeno perturbador. Narrativas não fundamentadas propagam-se com enorme rapidez nos media tradicionais e nas redes sociais sempre que servem para legitimar ações militares norte-americanas e israelitas, frequentemente com o apoio tácito da Europa. Em contrapartida, as narrativas das vítimas palestinianas, documentadas, reiteradas, visíveis, são sistematicamente desvalorizadas, remetidas para a categoria de “informações não confirmadas” ou tratadas como ruído de fundo.
A história repete-se, mais uma vez. Vai ser um massacre.
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