PRIMEIRO MENTEM, DEPOIS MATAM

Tulsi Gabbard, diretora dos serviços secretos dos EUA, disse no Congresso que "o Irão não está a construir um arma nuclear e o líder supremo não autorizou o programa de armas nucleares". Apesar disso, Trump continua alinhado com Netanyahu, segundo o qual o Irão estaria à beira de possuir ogivas nucleares. Netanyahu anda há cerca de 20 anos a dizer que o Irão está prestes a ter uma bomba atómica. O tempo passa, a bomba não aparece, mas as acusações de Netanyahu repetem-se ciclicamente. Até que chegámos aqui. Como é que isto é possível?

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Em 2003, os Estados Unidos invadiram o Iraque com base numa mentira: a existência de armas de destruição massiva que nunca chegaram a ser encontradas. A narrativa foi imposta à comunidade internacional com convicção e teatralidade. Lembram-se de Colin Powell na ONU? Era tudo mentira. O tempo encarregou-se de mostrar que não havia ameaça real. Mas, entretanto, destruiram um Estado soberano, mataram centenas de milhares de civis (algumas estimativas apontam para mais de um milhão) em bombardeamentos de que o Iraque não se conseguia defender, provocaram o caos geopolítico que ainda hoje marca o Médio Oriente, com destaque para o nascimento do Daesh.

Duas décadas depois, a história ameaça repetir-se. O alvo agora é o Irão.

Uma ameaça fabricada

Há mais de vinte anos que Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita, afirma que o Irão está “a meses de ter a bomba atómica”. Mas o tempo passou, a ogiva nuclear nunca apareceu, não há evidências sobre a existência de um programa de armamento nuclear no Irão. Pelo contrário: tudo indica que, embora o Irão tenha capacidade técnica para enriquecer urânio, o líder supremo não autorizou o desenvolvimento de armas nucleares.

Netanyahu em 2012 nas Nações Unidas com o desenho de uma bomba nuclear iraniana a tentar convencer o mundo de que estava quase pronta

Ainda assim, a narrativa permanece. Donald Trump alinhou com Netanyahu, rasgou o Acordo Nuclear de 2015 (JCPOA), que tinha como principal objetivo justamente evitar este cenário de crise e devolveu o Irão ao isolamento. A desinformação voltou a prevalecer sobre os factos.

O perigo de repetir o erro

O paralelismo com o Iraque é tão claro quanto preocupante. No caso iraquiano, a mentira serviu para justificar uma guerra total contra um país enfraquecido e incapaz de se defender. O resultado foi a destruição do Estado e a instabilidade generalizada que dura até hoje.

O Irão de hoje não é o Iraque de 2003. Tem capacidade de resposta, se conseguir manter organização e disciplina nas forças armadas. Tem mísseis balísticos, drones, aliados regionais (como o Hezbollah e as milícias xiitas no Iraque e na Síria), tudo junto podem não conseguir derrotar uma coligação formidável de inimigos como a que já se vislumbra, mas poderão resistir o suficiente para evitar a derrota. Uma ofensiva total contra Teerão dificilmente será uma “guerra relâmpago”. Mas será mais uma carnificina. Seria bem melhor se Trump deixasse de ser tão arrogante e pensasse como um conflito regional prolongado poderá afetar o resto do mundo.

Por exemplo, uma guerra com o Irão pode bloquear o estreito de Ormuz, travar o fluxo de petróleo mundial, incendiar as capitais vizinhas, provocar colapsos económicos e arrastar as potências ocidentais para um novo atoleiro militar.

A retórica “porque não há alternativa”

Tal como no caso do Iraque, o que se passa com o Irão não é uma questão de provas, mas de perceção. A ideia de uma ameaça iminente funciona sempre bem junto da opinião pública. Neste caso, a mentira serve os interesses estratégicos de Israel que com a destruição da vizinhança acredita que pode conquistar territórios e concretizar o seu sonho imperial e colonialista.

A bomba pode nunca aparecer, tal como as armas de destruição massiva (ADM) no Iraque também nunca apareceram, mas só o argumento é suficiente para Israel e EUA tentarem legitimar a agressão. E nesse sentido, a narrativa tornou-se uma profecia autoalimentada: repete-se, reforça-se, impõe-se… até que se torne inevitável agir “porque não há alternativa”.

A história julgará demasiado tarde

Em 2003, quando se tornou evidente que o Iraque não representava uma ameaça real, os responsáveis pela guerra não foram punidos. Nenhuma comissão internacional obrigou Bush,  Blair, Aznar ou Durão Barroso a responder pelos crimes cometidos. A máquina seguiu em frente. O mesmo está prestes a acontecer com o Irão.

da esquerda para a direita: Durão Barroso, Tony Blair, Bush e Azar, na Cimeira das Lajes, Açores, antecâmara da invasão do Iraque em 2003

As consequências poderão ser terríveis. A destruição de um país com 90 milhões de habitantes não será o fim do conflito, poderá ser o início de algo ainda mais perigoso.

Como europeu, tenho vergonha destes líderes ocidentais que cavalgam mentiras e aceitam genocídios. Deveriam escutar menos as vozes que pedem guerra. Não podem fingir que não percebem as reais intenções de Netanyahu e de Trump.

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