Está aberto o Museu da Misericórdia de Cascais

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Inaugurara-se a 10 de Abril de 2022, a concretização duma aspiração antiga: um museu para a Misericórdia de Cascais. A aspiração vinha de longa data, porque o espólio artístico e documental reunido na casa do que é uma instituição secular (a Santa Casa da Misericórdia de Cascais foi fundada em 1551) carecia de ser mostrado.

A necessidade de melhor proteger as imagens em exposição e a falta de condições logísticas, nomeadamente de pessoal (o que ora se conseguiu mediante acordo com a autarquia), acabaram por determinar atraso na efectiva abertura ao público, desiderato que acaba de se tornar realidade, uma vez que a reabertura do Museu ocorreu no passado dia 11, com idêntica pompa e circunstância como a que, em 2022, tivemos ocasião de assinalar aqui.

Uma diferença substancial: o Museu passa a estar aberto de terça a domingo, das 10 às 18 h, encerrando apenas das 13 às 14 h. para almoço.

Desta sorte, alfaias litúrgicas, esculturas e pinturas antigas, objectos de uso nas cerimónias, nomeadamente nas procissões, integram esse percurso museológico de grande riqueza e significado, que fará seguramente as delícias de todos os visitantes.

Três peças a realçar

Cada qual terá oportunidade de, segundo as suas predilecções, admirar com mais detença esta ou aquela obra de Arte ou testemunho do passado, não se esquecendo, por exemplo, de, ao entrar na sacristia, olhar para o singular tecto de madeira pintada, também ele uma obra de arte.

Da minha parte, escolhi, desta vez, três peças para que chamo a atenção.

A primeira relaciona-se com a tradicional Procissão das Endoenças, cotejo penitencial da noite de Quinta-feira Santa, no qual se poderia bater no peito em sinal de arrependimento e penitência, enquanto, por exemplo, na procissão dos Passos, em Sexta-Feira Santa, a Verónica, mostrando o rosto ensanguentado de Jesus gravado no sudário, cantava uma melodia dolente.

E o objecto é a tábua, que estaria afixada em lugar bem visível, com os seguintes dizeres:

«O provedor e mais irmãos não emprestarão cousa tocante ao enterro dos Irmãos e pursisão (procissão) dos Passos e Endoenças com pena de excomunhão nem para fora da vila».

Tal era o carinho e quase carácter sagrado de que estavam envolvidos todos os objectos relacionados com esse cerimonial, inclusive o do funeral de um Irmão.

O outro objecto que ora selecionei é a imagem de um anjo. Não tanto por se tratar de uma das «composições de grande efeito cenográfico e de fortes contrastes cromáticos», característicos das «produções pictóricas maneiristas do século XVII», como reza a legenda oficial, mas por, numa fita branca ondulante, estar a frase latina SVPRA DORSVM EIVS ARAVERVNT PECCATORES, que se traduz assim: «Por cima das suas costas lavraram os pecadores».

Trata-se de uma adaptação – aplicando a frase aos padecimentos de Cristo – do que vem consignado no salmo bíblico 128, dito o «cântico das peregrinações». Toda a fala é aí atribuída ao povo de Deus, que se lamenta, como se fora uma pessoa, do mal que lhe têm feito desde a juventude, garantindo, no entanto, que jamais o lograram vencer: «Sobre o meu dorso lavraram os lavradores, abriram longos sulcos; o Senhor, porém, é justo: cortou as cordas com que me afligiram os ímpios» (versículos 3 e 4).

A coluna com o cordame poderá simbolizar a coluna a que, segundo os Evangelhos, Jesus foi atado para ser açoitado, tendo o anjo na mão o chicote da flagelação.

Uma terceira peça me cativou: a colecção de ex-votos de latão dourado ou prateado com a representação de olhos.

Nada se explicita, a esse propósito, na respectiva ficha de inventário. Trata-se, no entanto, da oferenda habitualmente feita a Santa Luzia, que é a santa protectora das doenças de olhos.

Neste âmbito, há uma correlação que valerá a pena fazer: é que, no sítio arqueológico de Garvão, localizado no Baixo Alentejo, no concelho de Ourique, foi descoberto, em 1983, um depósito votivo da Idade do Ferro, constituído por dezenas de placas oculadas, algumas delas de prata. Ora, na sequência dos tempos, aí veio a ser edificada uma igreja cujo orago é precisamente Santa Luzia. É notória a semelhança entre as peças de Garvão e as da Misericórdia de Cascais – a cerca de cinco milénios de distância e duzentos quilómetros de distância! A devoção dos tempos pré-romanos persistiu na época romana, percorreu os séculos seguintes e chegou aos nossos dias!

Placas oculadas de Garvão

Pelos séculos dos séculos, poderia afirmar-se, as crenças conseguiram perdurar.

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