ESTAMOS NUS NAS REDES SOCIAIS E NÃO DAMOS POR ISSO

Quando uma empresa privada acumula mais informação sobre cidadãos do que muitos Estados, influencia eleições, molda debates públicos e contorna decisões judiciais através de recursos intermináveis, a questão que devemos discutir deixa de ser a privacidade individual. Passa a ser a qualidade da democracia.

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As redes sociais deixaram há muito de ser espaços de convivência digital. São hoje infraestruturas globais de vigilância, propaganda e censura, controladas por um punhado de empresas privadas sediadas nos Estados Unidos. A Meta é o exemplo mais acabado desse poder concentrado.

Estas plataformas recolhem dados pessoais em escala industrial: hábitos, relações, opiniões políticas, preferências ideológicas. Sabem quem somos, o que pensamos e como reagimos. Mas o seu poder não termina na vigilância, decidem o que pode ser visto, partilhado ou silenciado no espaço público digital.

A censura privada das redes sociais e a política externa dos EUA

Sob a retórica vaga da “defesa da comunidade”, a Meta pratica censura privada, sem transparência, sem contraditório e sem escrutínio democrático. Essa censura não é neutra. Alinha-se, de forma sistemática, com os interesses geopolíticos dos Estados Unidos, onde a empresa está sediada e a cuja legislação e pressão política está sujeita.

O caso da Palestina é paradigmático. Conteúdos que denunciam o genocídio em curso em Gaza, expõem crimes de guerra ou criticam o Estado de Israel são frequentemente ocultados pelos algoritmos da Meta, têm o seu alcance drasticamente reduzido ou são simplesmente apagados. Contas são suspensas, publicações desaparecem, vozes são silenciadas. Não por violarem regras claras, mas por contrariar uma narrativa dominante protegida por interesses estratégicos.

Os Estados Unidos são o principal aliado político, militar e diplomático de Israel. Financiam, armam e defendem o Estado israelita em todas as instâncias internacionais relevantes. Não é coincidência que as principais plataformas digitais norte-americanas funcionem como extensões privadas dessa política externa, filtrando o que o mundo pode ver, discutir ou questionar.

São condenados mas não pagam as multas

É neste quadro que a iniciativa de Pedro Sánchez assume particular importância. Ao anunciar uma comissão parlamentar de inquérito às práticas da Meta, o governo espanhol reconhece algo essencial: estas empresas não são meros intermediários tecnológicos, são atores políticos globais, com poder para moldar consciências e condicionar o debate democrático.

Rastreiam praticamente tudo o que diz respeito aos utilizadores. Recolhem números de telefone, moradas, hábitos de consumo, gostos pessoais, preferências ideológicas, relações sociais, opiniões políticas e padrões de comportamento. Sabem quem somos, com quem falamos, do que gostamos e, muitas vezes, em quem votamos. E esse conhecimento não é guardado por altruísmo tecnológico: é vendido, explorado e cruzado com interesses comerciais, governamentais e partidários.

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Estamos, literalmente, nus nas redes sociais e a maioria das pessoas não tem consciência disso. A Meta já foi multada em milhares de milhões de euros pela União Europeia por violar regras de concorrência e proteção de dados. Na maioria dos casos, recorre, adia e não paga. As multas tornaram-se custos operacionais. O abuso, estrutural.

Regular este poder não é censura. Censura é o que estas plataformas fazem diariamente, em nome de interesses que não são os dos cidadãos europeus nem os da democracia. Enquanto aceitarmos que empresas privadas decidam quais mortes merecem visibilidade e quais devem ser ocultadas, estaremos a abdicar do direito à verdade e ao debate público.

1 COMENTÁRIO

  1. OS TEMPOS SÃO DE ATALAIA

    “HÁ UM PODER TÃO ORGANIZADO, QUE NOS QUER ACORRENTADO, TÃO COMPLETO, TÃO OMNIPRESENTE, QUE É MELHOR QUE NINGUÉM ERGA A VOZ ACIMA DO MURMÚRIO QUANDO FALAR PARA CONDENÁ-LO”.

    O GIGANTE QUER ENGOLIR O PEQUENINO…

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