Encostava a porta do quarto depois do pequeno-almoço e descia, decidida a deambular pelas ruas estreitas da cidade velha, onde os meus trisavós tinham morado.
A Igreja de S. Bartolomeu, que a todos vira baptizar, continuava fechada e triste. Antes de cruzar o portão, virava à esquerda para o beco da espesssura de um risco que levava ao Largo do Romal a ser requalificado.

Lá estava, no topo do edifício ainda de pé, a janela onde o velho José Maria cofiava o bigode e namorava, por gestos e piscadelas de olhos, todas as senhoras das casas vizinhas sem que a mulher reparasse, julgava ele…
Tinha-lhe uma estima respeitosa. Era ela quem sustentava a família de seis filhos com ajuda de uma empregada de meia-idade, em negócios inovadores das sete da manhã às Trindades. Até cambiava dinheiro numa banca colocada junto à Igreja de Santa Cuz!
A empregada ia ajudá-la a montar a mesa articulada, ajoelhava a pedir ajuda aos santos e voltava para trás, ligeira. Tinha que abrir a loja de doces na Praça Velha, feitos por ambas até de madrugada. Ao almoço ia apanhá-la para voltarem à loja, abrirem o cesto da refeição improvisada pela filhaTeresa e terminarem com um doce, para repor calorias…
Em casa ficavam as raparigas a organizar as divisões do r/chão, com o cubículo dos banhos, até às águas furtadas. Os três rapazes, todos com nomes bíblicos, trabalhavam e tiravam o 5º. ano, porque o fermento da instrução, dizia a mãe, faria levedar o futuro alimento da alma. Só o marido era deixado à vontade: cofiava o bigode hirsuto, amolecia as nádegas no cadeirão de verga, lia os jornais ilustrados que os filhos, a mulher e os clientes residuais lhe traziam. E namorava.
Alfaiate de prestígio, passava a costureiro por determinação da sua Emília Benedita, mulher alta, bela e sábia que devia ter sido ministra… O que ele acabara de arranjar por ser madraço! Levava tanto dinheiro aos maiorais da cidade, que um dia se via sem clientes, como afinal era a secreta intenção. Estava farto de dores nas cruzes, dizia, curvado a riscar o tecido caro dos fatos na mesa onde todos cabiam. Só não contava que a mulher lhe traçasse o plano de vida mais depressa do que ele riscava um fato.
Obrigações determinadas naquela manhã de domingo: fazer a roupa toda de homens e mulheres da casa, mas como a ocupação não lhe traria rendimento, tinha que dar lições da sua arte duas vezes por semana. Sem protestos. Um dos aprendizes era o poeta Adelino Veiga, já latoeiro de profissão e morador numa rua próxima hoje com o seu nome.
Esse acabaria por não pagar. Era Amigo do filho Benjamim e ambos animavam os arraiais no Romal com poesia depois musicada. Está registado esse feito, como estava o do velho José Maria em ceroulas a despejar, altas horas, o vaso da urina e mais…na latrina pública ali perto, por continuar namoradeiro. Nem a filha Isabel conseguiria evitar a humilhação!
Depois da breve conversa com uma moradora local, que fixava o meu rosto à procura de vestígios do passado, que obrigações me prendiam ali que não me deixassem livre para fazer o que queria? E continuava a explorar a Praça Velha, hoje chamada do Comércio, que tantas histórias antigas de família me fazia evocar.

A veneranda Igreja de Santiago, passagem obrigatória para Compostela, ainda se mantinha como bastião do Românico. Mutilada para alargar a Rua Visconde da Luz ao cimo da escadaria lateral, teve como decisor da obra António Agusto Gonçalves, mais preocupado com as ameaças ao estilo. O tio Benjamim e o irmão, meu bisavô Adriano, já trabalhavam com ele na recuperação de alguns monumentos, todos mentores da criação da Escola Livre das Artes do Desenho (ELAD) para aperfeiçoamento artístico e a funcionar na Torre da Almedina. O meu bisavô chegaria a membro da Comissão Directora.

O Mestre e lente viria a ser padrinho do meu primo Plínio Ventura, filho de Benjamim, que havia de integrar o 23 de Infantaria de Coimbra no CEP – Corpo Expedicionário Português – na Iª. Grande Guerra como tenente médico. Voltaria pouco são, mas salvo, para alegria de pais e irmãs, para desolação da mulher que nunca gostara dele. E amava ele tanto a sua Esther!
A manhã estava fresca. As ruas pedonais davam espaço de sobra aos transeuntes. À falta de outros planos, voltava atrás à Ferreira Borges junto ao Arco da Almedina, confundia a sapataria António com a antiga Romeu no bom gosto e elevado preço, mas não tinha reparado naquela loja moderna, quase em frente, cheia de chocolates e torrão de Alicante onde, à entrada, uma das sócias jovens fazia experiências que ia oferecendo aos clientes.

Sim, eu era uma potencial cliente a pedir uma barra de torrão menos duro para o caminho, ainda que o pequeno-almoço tivesse sido consistente. Sabores a España, um espaço a visitar sempre que for a Coimbra e passar na Ferreira Borges. Nem preciso de atravessar a fronteira para trazer sucedâneos. Ali há qualidade garantida e moderado preço.

Descia depois a Visconde da Luz até à esplanada do Café Santa Cruz, parte do Mosteiro feminino de S. João das Donas. Subia a Rua das Figueirinhas para captar o edifício pelas traseiras, como dantes, mas as memórias pregavam-me ao chão da infância. Ali ainda soavam ecos da voz de uma mulher de cabeleira farta e negra, a cantar dramas minuciados na gazeta tipo Borda d’Água, enquanto o marido vendia a banha da cobra.
Com um breve adeus à Saudade, passava ao lado dos Correios para entrar no Mercado D. Pedro V. Poucas coisas, mas todas a pedirem um almoço com legumes frescos, cebolinho miúdo e verde, tomates carnudos sem herbicidas. A carne dos talhos laterais só podia ser nacional. Cada um tinha uma cadeira do lado de fora para o cliente esperar. Havia escadas rolantes até ao andar de cima, rumo à peixaria de pescado vivo. Não fora o cheiro das caras de bacalhau em salmoura, antes de entrar, e apetecia um grelhador ali mesmo.

Ainda percorria parte da Sá da Bandeira à procura, do outro lado, daquele portão que dava entrada à casa de planta em L onde os meus bisavós tinham morrido. Nada…O Teatro Avenida, onde a prima Marly tocara piano com16 anos para uma plateia encantada (diziam, porque eu tinha menos 12) lá permanecia ao lado, muito decadente por fora.

E voltava atrás para subir o funicular e fazer a imagem já publicada, até percorrer a Rua Padre António Vieira e encontrar, no ponto onde desagua a Couraça dos Apóstolos, a Real República dos Corsários das Ilhas, a lembrar o 25 de Abril daí a dias. Até que entrava no Pátio das Escolas, tirava mais uma fotografia à estátua de D. João III a olhar o Paço que cedera para transferência da Universidade. E chegada ao varandim de ferro, registava um trecho lindo do meu Mondego por sobre os telhados do casario.

Regressava então quase ao ponto de partida à procura do Rui Manel dos Ossos onde comia como um trolha, ou um académico com igual apetite: ossos cozidos temperados divinamente, acompanhados de batata salteada e couve cozida. Por sobremesa mousse de amêndoa no ponto, antes do café de boa qualidade.

Não, não mostro os ossos. Mostro a casa com abundância de escolhas e recomendo uma visita! Vão! E não se esqueçam de tomar o lanche na Briosa, ao largo da Portagem, mesmo pegada à Bertrand. É lá que podem encontrar os melhores pastéis de Tentúgal, de Coimbra, de Portugal e do Mundo.
É verdade…não sabia que ainda tantos laços me prendiam à minha cidade e que bem podia voltar a morar por ali, agora até ao final dos tempos.



