GAIOLA ABERTA

A propósito da apresentação do livro “Guia das Aves de Aquilino Ribeiro”

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Trago hoje à memória a apresentação de um curioso livro, que foi, em tempos, apresentado no pátio recoberto pela sombra das tílias que Aquilino Ribeiro plantou fronteiras à morada de seu pai e que dele herdou, na aldeia de Soutosa, esse umbilical pouso das Terras do Demo, hoje Sede da Fundação Aquilino Ribeiro.

Trata-se de um precioso audiolivro – N.º 01 da Colecção Ciência e Arte da Editora Boca – paciente e sábia recolha antológica da bióloga Ana Isabel Queiroz, que, de há muito, mantém apaixonada relação com a obra de Aquilino e nos traz, acompanhado de excelente texto introdutório, das treze obras consultadas, todas atinentes às Terras do Demo, menção das 67 aves que o escritor inventaria, de seu jeito, vivas descrições das plumagens, do habitat, registo magistral da onomatopeia das suas vozes e da comparsaria que elas mantêm com os humanos.

O livro, ilustrado com suaves tons de aguarela, acompanha-se de um CD, onde dá gosto ouvir a leitura de alguns textos, ancorados numa encantatória composição musical fortemente inventiva, onde o som do bem escolhido instrumento se associa ao real gorjeio do passaredo.

E eu, lendo os excertos, escutando os sons antigos, redivivos, volto à minha infância na margem oriental das Terras do Demo e ali encontro, como se para ali tivesse voado da Arca de Noé, um bando fugidio daquele vário passaredo.

Boieirinhas catando bichos atrás do arado; corvos e milhafres voando nas alturas de verão; peneireiros de asas abertas, suspensos no céu; e os gaios no pinheiral espenujando-se; e os ovos das rolas em ninhos de frágil arquitectura; e o ninho da carriça na sebe de buxo do quintal da madrinha; e o buraco que ainda sei com um ninho de ferreiro; e o cantar do cavalinho a anunciar breve trovoada; e o melancólico canto do mocho; e o augurento canto da noitibó e das corujas, ao anoitecer, sobre os outeiros e de que, ainda hoje, me lembro, ao passar lá no caminho; e o azeite que as corujas iam beber à lamparina da igreja, se dizia; e o voo rasteiro da perdiz e as milheiras que eu enxotava dos campos de milho painço batendo num caldeiro; e os pardais que pousavam, no inverno, na varanda; e as andorinhas na mina da Quinta do Valbom, onde nasceu a minha mãe; e o cuco que a gente se punha a escutar no mês de Abril; e os tordos a bater as oliveiras; e os estorninhos, a poupa, a codorniz, o melro, a cotovia e os ninhos que a gente gostava de achar; e os versos de Afonso Lopes Vieira que a gente lia no livro da Segunda ou da Terceira, já não sei. E a Senhora Professora a ralhar connosco, porque andávamos sempre a espreitar os ninhos.

Arca de Noé dos Nossos Sonhos!…

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