TEATRO “PINTERESCO”

Se saírem da sala com a sensação de “não percebi grande coisa”, isso é algo que acontece com frequência, no fim das peças de Arnold Pinter.

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Em primeiro plano, Luiz Rizo. No mezzanino, Elsa Galvão.

O Carlos desceu, cuidadosamente, os degraus. Eu esperava-o cá em baixo. «Ainda bem que não tenho de escrever sobre isto! Não percebi nada!». «Eu também não!» – retorqui. Mas não era mesmo para perceber, porque Arnold Pinter é o mestre do absurdo e o absurdo não se compreende.

Acabámos por escrever esta crítica a quatro mãos. Uma primeira versão minha, a contribuição do Carlos Narciso depois. Ora, aqui está uma experiência nova, neste âmbito da crítica teatral.

Ir ver a peça O Quarto, de Arnold Pinter, em cena no Teatro Mirita Casimiro até ao dia 29 de março, poderá parecer um absurdo. Mas não é. Porque não é absurdo o que nós vemos no dia-a-dia: a tempestade que destrói casas num ápice, a guerra que destrói casas num ápice, o amante que esgana o amado…

A sinopse da montagem do Teatro Experimental de Cascais enfatiza esta linha: “o texto revela a fragilidade das relações humanas e o medo”, num contexto em que o “conforto” do quarto se torna instável à medida que a rotina é perturbada por quem chega.

Vamos ver esta peça para apreciar a forma como Fernando Alvarez imaginou e engendrou o espaço (a cenografia, como se diz) e os trajes a envergar por cada uma das personagens (os figurinos). Que voltas terá dado à cabeça!…

Mas vamos, de modo muito especial, para manifestar uma admiração enorme por dois profissionais que, nesta peça, ocupam um papel fundamental: o homem que trata do desenho de som e da sonoplastia (Sérgio Delgado) e o homem que trata das luzes (Tasso Adamaopoulos). Tudo tem de estar rigorosamente certo, exacto, porque cada movimento dos personagens deve equivaler a um som e isso está extraordinariamente bem pensado, rigorosamente definido e há que admirar!

Admirável, o trabalho dos atores. As cenas decorrem em diferentes palcos, porque há um mezzanino que traz dois planos para as mesmas cenas. Os diálogos entre os que estão no chão e a senhora do mezzanino parecem desencontrados, umas vezes, coincidentes, outras vezes.

Elsa Galvão

Elsa Galvão desempenha um papel (sra. Rose), seguramente um dos mais importantes da sua carreira, até agora. E depois temos dois “bonecos” muito bem conseguidos, não só pelo guarda-roupa, pela caracterização, mas sobretudo pelas atuações de Hugo Narciso (sr. Sands) e  Teresa Faria (sr. Kidd). 

Na imagem anterior, Teresa Faria no papel de sr. Kidd e nesta imagem, Hugo Narciso e Joana Castro (sr. e sra. Sands).

Temos ainda em palco Igor Regalla (no mais enigmático desempenho de todo o elenco), Joana Castro (sra. Sands) e Luiz Rizo (sr. Hudd). Todos eles, conseguem transmitir-nos aquilo que é absolutamente importante, termos nós consciência, hoje, do absurdo de muitos aspetos da vida: tudo pode vir a ser destruído em breve ou por uma depressão violenta ou porque o drone sobre ele descarregou bombas incendiárias…

Igor Regalla

¿Se é de ir ver o espetáculo que está no Mirita Casimiro, até dia 29, de 4ª a sábado às 21 h, aos domingos às 16, a 188ª produção do Teatro Experimental de Cascais, integrada nas comemorações dos 30 anos da Fundação D. Luís I? Claro que é!

Para aplaudir actores e técnicos que tiveram a coragem e souberam levar à cena um texto absurdo (eu também não percebi nada…), que torna bem visíveis os muitos absurdos e medos do nosso cotidiano.

O Teatro Experimental de Cascais tem uma longa história de aproximação a dramaturgias desafiantes e à formação de atores, remontando a mais de 45 anos de atividade no panorama teatral nacional. Aliás, todos os mais jovens atores deste elenco saíram da Escola Profissional de Teatro de Cascais.

(texto em co-autoria com Carlos Narciso)

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