30 ANOS 30 AUTORES

Surpreendentes memórias

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Rever a icónica tapeçaria saída da Manufatura de Tapeçarias de Portalegre, que outrora nos saudava logo à entrada do – também icónico Hotel Atlântico, no Monte Estoril – é uma das boas surpresa que a exposição 30 anos 30 autores nos quer proporcionar.

Obra do saudoso Guilherme Camarinha (1912-1994), constituía, na verdade, motivo para o visitante parar uns bons momentos a apreciar a sua invulgar beleza. Teve Luís Athayde a mui generosa ideia de a oferecer – assim como outras obras de arte do hotel – para o espólio da Fundação D. Luís I. Desta sorte, a podemos voltar a admirar, em todo o seu esplendor, logo à entrada da exposição 30 anos 30 autores, com que  a Fundação quis assinalar o seu 1º trinténio de existência.

Mais do que mera retrospetiva no domínio das Artes Plásticas, apresenta-se uma seleção que, no dizer dos responsáveis, «não pretende oferecer uma síntese exaustiva da atividade expositiva de três décadas, mas traçar um retrato representativo da identidade cultural da instituição».

E a visita vai, na verdade, proporcionar – além da referida – outras surpresas, de que me apraz realçar quatro, não esquecendo o título da exposição em que a obra figurou, porque desse título ressuma, em geral, um halo poético, a emprestar ainda mais beleza à singular beleza das obras expostas.

jarro

Assim, o invulgar «Jarro», escultura de Maria Leal da Costa, esteve na exposição Mãos que Falam (2017).

Embuste

Esse estranho amontoado negro pelo chão esparramado, uma rena morta, da autoria de Pedro Valdez Cardoso, tem o intrigante título de «Embuste» e foi galardoado, em 2005, com o V Prémio de Escultura City Desk.

Lugares

«Lugares», de Sobral Centeno, integrou a exposição Viajar de uma Viagem,  em 2004.

E nós?

Este aparente retrato de senhora pretende ir mais além, dado que pergunta, no título, «E nós?». Foi o que o autor, Luís Herberto – seguindo ancestral costume – quis deixar à Fundação, como penhor da exposição Nós e Todos os Outros.

Caminando por la calle

Finalmente, Nélio Saltão cedeu «Caminando por la calle», um óleo da exposição Pintura adentro (2023).

Patente até 3 de Maio, constitui a mostra rico e bem variegado repositório de um acervo deveras revelador do «compromisso da Fundação com a valorização da produção artística nacional, sem perder o propósito de abertura ao contexto internacional». A Arte, acentua-se, «enquanto espaço de reflexão e de partilha».

2 COMENTÁRIOS

  1. Boa noite José D’Encarnação.
    É verdade que tendo sido cedidas à Fundação D. Luis, e fazendo hoje parte do seu espólio artístico, estas peças constituam parte da sua identidade.
    Já tinha visto algumas que me intrigaram, porque a Arte, desviando-nos do rame-rame do quotidiano, também tem a função de nos fazer questionar, reflectir, tentando que vejamos entre produto final e título, o fundamento da obra.
    Refiro dois que me deram alguma inquietação aos neurónios, coisa boa, porque obrigaram a uma actividade maior das sinapses.
    Esse “embuste”, que comecei po ver como uma instalação, foi uma experiência interactiva para mim. Tê-lo-ia sido para outras pessoas e sê-lo-á ainda para muita gente, porque a exposição ficará até Maio e eu conto ver o todo e partes do que fui vendo. É touro, é veado (pelos cornos) ou tão-só uma ruína do que foi, ou pretendeu ser e daí o título?
    O artista que me desculpe, e o júri que deliberou o prémio com base em alguma afinidade, se estou muito afastada neste meu deambular reflexivo.
    E por afastar-aproximar, o outro trabalho que me prendeu foi o “caminando por la calle”. Por supuesto no país vizinho, atirou o meu silêncio triunfante aos olhos brilhantes. E numa passadeira que partia de um fundo escuro e acabaria em escuridão, depois de um lapso de tempo de cores claras. E vi a passadeira da vida, talvez ousadia.
    Gostaria de conversar com os dois criadores. E depois talvez viesse com o prémio daquela que menos percebe de arte, mas nem por isso frustrada.
    Muito grata pela lembrança deste período de exposição, para preenchermos, como Nietzsche sugeria, o vazo da vida.

  2. Dois lapsos (não lhe chamo erros, porque a minha visão não esta famosa):
    Terceira linha: constituem (e não constituam)
    Última linha: o vazio ( e não vazo)

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