Início Site Página 231

CONTESTAÇÃO ALASTRA NO INTERIOR DO SISTEMA PRISIONAL

0

Nunca uma amnistia foi tão contestada. Reclusos e familiares, constitucionalistas e juristas, ativistas pelos direitos humanos, gente de bom senso, todos estão contra a ideia de amnistiar crimes e infrações tendo como critério a idade do condenado.

O Governo aprovou uma proposta para amnistiar crimes e infrações cometidas por pessoas com menos de 30 anos de idade. E esse é o pomo da discórdia. Contra esta ideia que pretende honrar a visita do Papa Francisco a Lisboa, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, os que contestam o critério etário dizem que o próprio Papa estaria contra, se lhe fosse perguntado.

Nas cadeias, o ambiente é de profunda indignação. Depois dos reclusos do Estabelecimento Prisional de Aveiro terem divulgado um abaixo assinado com dezenas de assinaturas onde propõem alterações à proposta (que terá de ser discutida e votada na Assembleia da república), outros grupos de reclusos de outras prisões fizeram o mesmo.

No Estabelecimento Prisional da Carregueira (Ala A), reuniram 207 assinaturas. No Estabelecimento Prisional de Monsanto, 37 assinaturas. No Estabelecimento Prisional de Tires (Feminino), 111 assinaturas. Segundo a Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR), “há muitos mais Estabelecimentos Prisionais a fazer a recolha de assinaturas”.

Assistimos, portanto, a um movimento concertado, orgânico, que funciona apesar das dificuldades de contacto entre reclusos de diferentes prisões.

Misteriosa pedra com letras

1

A frase despertou-nos a curiosidade e lá fomos nós ao adro da referida igreja: lá estava a pedra, juntamente com outras passíveis de ter interesse arqueológico e histórico!

De facto, para ali se têm carreado, nos últimos anos, elementos arquitectónicos, como este sarcófago presumivelmente do período medieval.

Ou este conjunto: uma coluna, uma alminha e uma pia com carranca.

E quisemos ler o que escrevera o sacerdote, membro da Academia Portuguesa da História desde 1975, a quem o bispo D. João da Silva Neves encarregara de fazer a referida história (escreveu 8 volumes, dos quais 6 estão publicados). Achávamos estranha a referência a classificação de ‘ara votiva’ a uma pedra com aquela forma e dimensões e custava-nos crer que Gonçalves da Costa tivesse cometido esse lapso. De facto, a frase é bem diferente:

«Aqui e além descobrem-se pedras esculpidas de carrancas, uma delas escavada para servir de pia de água benta e que pertenceu a uma ara votiva. Uma outra, proveniente do muro da igreja, apresentava a inscrição E xo Dulcit».

Mostra a nossa terceira figura essa pia – em que a pedra com torneira não pode ter sido de ara romana. E, por outro lado, o redactor da ficha do SIPA fez da passagem uma leitura basto… apressada!

Por seu turno, António Monteiro, correspondente em S. Romão do jornal Notícias da Beira-Douro, referiu-se, no nº 547, de 10 de Maio de 2015, às pedras trabalhadas expostas no adro da igreja e transcreveu, sem comentários, o que o Padre Gonçalves da Costa escrevera acerca da epígrafe. Será, porém, no nº 574, de 10 de Agosto de 2017, que, entre as notícias de S. Romão, dá, sob o título «achados históricos», circunstanciada informação acerca da pedra:

«S. Romão é um povo muito antigo e, de vez em quando, surgem mais elementos que o provam, servindo de acréscimo ainda mais à sua história.

Desta vez foi uma pedra com uma inscrição romana – Ex.o Dulcit – que estava colocada numa parede no início da Av. José Cardoso Lopes, lugar da Lampaça.

Esta pedra era mesmo de preservar, porque ela é referenciada em livros de um historiador da Diocese da Lamego, e que ela devia pertencer ao adro da igreja.

Como este adro noutros tempos serviu de cemitério […], pensa-se que esta pedra seria uma das peças de um jazigo identificado.

O Dr. José Rego, proprietário do muro, tendo conhecimento […] da minha intenção de que ela devia voltar ao adro, logo se prontificou a cedê-la no momento mais oportuno.

Assim, no dia 6 de Julho, ela regressou novamente ao adro».

Desconhece-se, pois, de momento, o contexto original da pedra, ainda que se saiba que se encontrou (em reutilização?) nos anos de 1997 / 1998, por ocasião das obras de recuperação geral do imóvel. No capítulo ‘cronologia’ da referida ficha do SIPA se dá conta, efectivamente, de que o templo foi sofrendo alterações: «1694 – data sobre a porta travessa indicia obras; 1893 – datação no exterior da sacristia; 1928 – desmoronamento da nave; 1977 – data na zona superior da torre, correspondendo ao aumento da mesma».

Um doce segredo milenar

De granito amarelo, de grão médio, é grosseiramente um paralelepípedo. A face lateral esquerda faz ângulo recto com a face anterior epigrafada; a face inferior será direita, enquanto a superior, plana, ‘desce’ para a direita, quase a assumir, no conjunto, a forma de cunha, tendo, do seu lado esquerdo, dois orifícios, vestígio de uma das suas reutilizações. Mede a face inscrita 31 a 15 cm de altura e 104 de comprimento.

O letreiro EXoDVLCIT, atendendo à progressiva diminuição do módulo dos caracteres, poderá ter sido pensado mesmo para esse fragmento na sua configuração actual. Medem as letras: E = 17,5; X = 16,5; D = 16,5; V e L = 14,5; C = 13; I = 12,5; T = 10. Afigura-se-nos que o O antes do D (com 7 cm de diâmetro) não é uma letra, mas sim um sinal de pontuação, para separar duas palavras.

Na verdade, dulcit pode ser a 3ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo dulcere¸’ser doce’, ‘adoçar’. Ex é, por seu turno, uma preposição que reforça aqui o significado do verbo, como quem diz «torna ainda mais doce». Vem-nos à mente, de imediato, a frase «Quem meus filhos beija minha boca adoça» – mas não foi, decerto, nesse contexto familiar que a frase terá sido aplicada.

Por conseguinte, não parece lógico que a expressão tenha vivido por si, mesmo que correspondesse a identificar um lugar onde a pessoa se sentisse mui agradavelmente. Nesse âmbito, duas suposições se poderiam adiantar: lápide a colocar num aprazível recanto, em jeito do que encontramos, por exemplo, num jardim em Cascais: «Deus nobis haec otia fecit» – ‘Deus para nós preparou este descanso’; ou parte de um versículo bíblico, destinado a identificar o lugar sagrado, cuja serenidade, na vizinhança da divindade ou dos santos, subtilmente perpassasse, em deleite, para o crente fiel…

Exígua é, muito exígua mesmo, a frase que a pedra nos mostra. Nada sabemos também, como se viu, donde é que poderá ter vindo, informação que nos incitaria a procurar o resto da frase, porque há a sugestão de pedra de jazigo, mas a nota do SIPA vai no sentido de que terá sido retirada do templo.

Ainda se não dispõe, por outro lado, de exaustivo rol de palavras latinas quer da Bíblia na sua versão Vulgata quer dos poetas latinos (que também daí poderia ter vindo esta frase). Não quisemos, todavia, deixar de dar a conhecer este deveras misterioso letreiro, na expectativa de que alguém possa vir a desvendar o segredo que ele oculta.

Importa, no entanto, esclarecer: esta pedra não é «uma ara votiva», ou seja, não é nem faria parte do altar dedicado a uma divindade, como se deu a entender; e, seguramente, não é da época romana (António Monteiro escreveu ‘romana’, mas queria dizer ‘latina’)!

Trata-se, porém, de uma pedra epigrafada antiga, que, mais não seja por a sua inscrição em língua latina esconder um mistério, merece ser preservada.

Artigo em co-autoria com José Carlos Santos

Representar a sério…

0

Este ano, mais de 50, na Trilogia do Teatro Impossível que Miguel Graça reformulou e actualizou, a partir do que já Federico Garcia Lorca reunira de três das suas peças: O Público, de 1930, Assim que Passarem Cinco Anos, de 1932, e Comédia Sem Título, 1936!

E se, de facto, não podemos ficar indiferentes ao texto que Miguel Graça preparou; se continua a agradar-nos sobremaneira o jeito com que Fernando Alvarez concebe o cenário e os (sempre originais!) figurinos; se consideramos bem apropriadas a música original de Pedro Jóia (um bom achado) e as (nada fáceis de executar!) coreografias de João Lara – magistral é, não há dúvida, a forma como Carlos Avilez consegue pôr toda aquela gente no palco, adestrando-os nos mais diversos aspectos da representação teatral: a movimentação, a atitude, o gesto, a dança, o canto, tudo!… Um palco cheio, em que o mínimo pormenor conta e é tido em consideração.

Neste aspecto – e vemo-lo pelos resultados, quantos artistas, hoje com nome já, passaram pela EPTC?! Largas centenas! – neste aspecto, o labor, nem sempre fácil, levado a cabo pela Escola Profissional de Teatro de Cascais, não padece comparação, situa-se ao nivel do que melhor se faz. Há que aplaudir!

Largo encómio ao valor do Teatro como veículo de informação, de consciencialização, de… murro no estômago da indiferença e do ‘laisser faire, laisser passer’ (‘deixar fazer, deixar passar’), que tão impunemente caracteriza os nossos dias – esse, o grito de alerta desta representação. Teatro-vida, teatro-revolução, teatro-manifesto! Sentimo-lo no decurso de toda a peça, mormente no ‘sermão’ da «directora» que, à boca de cena, no princípio e no fim, expressamente se dirige aos espectadores – e até há um casal que reage às suas falas. Aliás, este espicaçar os espectadores é permanente, eficaz.

Escreve-se na folhinha do programa (onde continuam a faltar as informações de quem é que faz de quem, um ‘anonimato’ que, pessoalmente, me constrange, confesso…), escreve-se aí que «a liberdade do Amor, o Tempo, as Máscaras e a Revolução são os grandes temas dos textos». São. Numa roupagem espanhola, para homenagear García Lorca. Por isso, há um toque de ‘nuestros hermanos’ em pormenores dos figurinos e há, sobretudo, aqueles vibrantes sapateados em que os estudantes, bem aprumados, acabam por saber mostrar quanto aprenderam.

Participam os actores Renato Pino, Luiz Rizo, Sérgio Silva e Teresa Côrte-Real, do TEC.

O espectáculo, estreado, com vibrantes aplausos de pé, na noite do passado dia 4 deste mês de Julho, vai estar em cena, no Mirita Casimiro, até ao próximo dia 27.

ZELENSKY E A CORRUPÇÃO

0
colagem fotográfica, imagem ilustrativa

Segundo a Newsweek, “uma série de casos anticorrupção na Ucrânia contra funcionários amplamente respeitados”, a maioria deles, membros do Governo de Petro Poroshenko, o antecessor do presidente Volodymyr Zelensky.

O próprio Poroshenko já esteve proibido de sair do país, sujeito a medidas de coação sem nunca ter sido formalmente acusado seja do que for.

Outros funcionários acusados de corrupção e sumariamente demitidos, embora sem acusação formal: Oleksiy Symonenko (vice Procurador Geral); Vyacheslav Shapovalov (vice ministro da Defesa); vários governadores regionais como, por exemplo, o de Kherson, Zaporizhzhia, Kyiv, Dnipropetrovsk e Sumy e, o mais surpreendente, o próprio chefe de gabinete de Zelensky, Kyrylo Tymoshenko.

Segundo a Newsweek, há suspeitas de que este afã persecutório seja motivado pela luta política e, ainda, para encobrir verdadeiros casos de corrupção que existam entre os membros do atual Governo ucraniano.

O paradoxo ucraniano é estar em guerra e, ao mesmo tempo, a nadar em dinheiro ou em bens e produtos que valem fortunas nos meandros do tráfico de armamento mundial. E sabemos pelo que tem acontecido noutras latitudes, há uma forte competição entre multinacionais de vários setores para ocupar um lugar de destaque na Ucrânia pós-conflito. Nestes ambientes existe corrupção.

Há, neste momento, três principais acusados de corrupção, pessoas consideradas como competentes, adeptos da implementação de profundas reformas políticas no país, membros do anterior Governo. São eles, Volodymyr Omelyan e Andriy Pivovarsky, ambos ministros das Infraestruturas, e o ex-chefe da empresa estatal de gás Naftogaz, Andriy Kobolyev.

Estas pessoas estão a ser acusadas publicamente, nos media e redes sociais ucranianas, depois de se saber que o Gabinete Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU) os considerava suspeitos de corrupção. Mas, segundo a Newsweek, não há acusações formais. No entanto, a suspeição é suficiente para acabar com qualquer veleidade política ou de carreira no Estado. Os suspeitos estão em prisão domiciliária, obrigados a usar pulseira eletrónica.

“Ainda existem redes de clientelismo corruptas em toda a Ucrânia, em todos os níveis, e esses parecem alvos mais apropriados para investigação e processos”, lê-se na Newsweek, que cita Josh Rudolph, alemão especialista financeiro e que dirige uma equipa de investigação sobre corrupção internacional.

No Twitter, Josh Rudolph publicou um momento particularmente embaraçoso para o Procurador ucraniano responsável por estas investigações. Vejam bem:

O artigo é extenso, acessível apenas em língua inglesa, mas dele extraímos ainda mais um elemento: o gabinete de Zelensky não respondeu aos pedidos de comentários da Newsweek.

INDIGNAÇÃO POLICIAL

0

A vida de cartoonista não é fácil. Os criativos do Charlie Hebdo que o digam. Desculpem-nos se vamos logo para o exemplo mais extremo, mas tudo tem um princípio e, neste caso, o princípio está na extrema-direita que ameaça e incentiva os apaniguados a exercer intimidação sobre os cartoonistas da equipa Spam Cartoon.

Em causa um desenho animado que passou na RTP, onde se vê um polícia em exercícios na carreira de tiro. Quando nos mostram os alvos, o boneco branco não tem nenhum tiro e o boneco escuro está todo furado pelas balas.

André Ventura não podia perder uma ‘deixa’ tão apetitosa, lá veio ele exaltar as massas e pedir pena de morte para os criminosos. De nada servirá ao Spam Cartoon dizer que era uma sátira. E uma sátira à polícia francesa (no caso Nahel), nada tendo a ver com a PSP ou a GNR.

Toda a gente sabe que os agentes da PSP quase nunca têm oportunidade de ir para a carreira de tiro. E na GNR não deve ser muito diferente. Portanto, é evidente que o cartoon não tem nada a ver com as forças de segurança portuguesas. Já quanto ao racismo e violência policial, se a PSP quer enfiar a carapuça é porque lhe serve.

colagem a partir dos fotogramas do vídeo original

Foi assim que um sindicato dos polícias apresentou queixa-crime contra os autores do cartoon e contra a RTP por ter emitido tamanha afronta. Claro que é uma perda de tempo, não há aqui nenhum crime, mas o tribunal dirá se, entretanto, a queixa não for arquivada.

PARECE PROPAGANDA

0

Há um vídeo que tem tanto de engraçado como de intrigante, circula nas redes sociais como sendo, eventualmente, mais um exemplo de encenação política com fins propagandísticos.

O presidente dos Estados Unidos terminou um discurso e dirigiu-se para uma pequena multidão de populares que estavam a assistir. Os políticos sempre gostaram de parecer próximos do povo.

Toda a gente munida de telemóveis para as fotografias da praxe, para registar o vídeo of a life time… mas, na imagem que alguém gravou, atrás da multidão, todos os telemóveis parecem estar desligados. Os écrans estão negros. Não há qualquer imagem.

vídeo

A ser assim (e admitimos que podemos estar a assistir a uma manipulação digital do vídeo), a multidão é composta por figurantes, talvez figurantes pagos, para mais um vídeo de propaganda.

TURISMO, SALÁRIOS BAIXOS

0

O atual boom turístico não significa melhores salários para os trabalhadores. A hotelaria continua a pagar mal, mesmo confessando ter dificuldades em encontrar mão-de-obra. Outro exemplo, é o da aviação. Na TAP, subsistem questões relacionadas com os cortes salariais decretados no tempo da pandemia. Nas empresas de aviação low cost a realidade é confrangedora, com tripulantes de cabine a ganhar salário mínimo nacional.

Na Ryanair, por exemplo, os trabalhadores do chamado “handling” (assistência em terra) estão a convocar uma greve para os dois últimos dias de julho e outros dois dias na 1ª semana de agosto.

INJUSTIÇAS VOAM ALTO

O Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroportos (Sitava) diz que a empresa não quer agora assinar um acordo negociado ao longo de anos, pelo que a greve se torna inevitável.

Os tripulantes de cabine, vulgo assistentes de bordo, também vivem uma situação algo surreal. Os novos contratados, depois de terem passado por uma seleção feita pela empresa e depois de terem ultrapassado 6 semanas de formação, são confrontados com contratos a 6 meses, não com a Ryanair mas com uma empresa de trabalho temporário. O salário garantido nesses contratos é o SMN.

No caso dos tripulantes de cabine, a Ryanair não exige licenciatura, mas escolhe os candidatos com melhor curriculum académico, pelo que a grande maioria são jovens licenciados e que dominam a língua inglesa.

Não se percebe como empresas como a Ryanair querem paz social.

AMÉRICA SEMPRE EM GUERRA

0

Ninguém sabe quem é Robert F. Kennedy. O nome de família talvez esteja na memória de alguns, mas a maioria não saberá quem é, até porque não se fala nele nas notícias.

Robert Francis Kennedy Júnior tem 68 anos e é candidato à nomeação pelo Partido Democrata às eleições presidenciais nos Estados Unidos em 2024.

O que faz dele um candidato especial são as suas declarações políticas, completamente contra a corrente dominante, nomeadamente no que diz respeito à guerra na Ucrânia.

A política dos EUA é feita em sound bytes, declarações curtas e tão estrondosas quanto possível. Não se deve falar muito para não provocar confusão naquelas cabecinhas. As redes sociais são, por isso, bons ambientes para disseminar ideias. Fomos espreitar o Twitter deste político. Alguns exemplos dos sound bytes de Robert F. Kennedy Júnior:

I

Como presidente, vou acabar com as guerras sem fim, limpar o governo, restaurar a classe média e dizer a verdade aos americanos.

II

O banco JP Morgan, a multinacional financeira BlackRock e o establishment neoliberal salivam pelos lucros que vão obter na Ucrânia do pós-guerra. “A guerra é claramente boa para os negócios: na verdade, quanto maior a destruição, maiores as oportunidades de reconstrução.”

III

“Estes chulos de guerra envolvem-nos num conflito atrás do outro com narrativas lisonjeiras que nos pintam como salvadores do mundo.” (citando o jornalista Chris Lynn Hedges).

IV

A Ucrânia é nada menos do que uma guerra por procuração contra a Rússia (concordando com Cornel West, comentador político).

V

Lembrando Martin Luther King, segundo o qual a violência no exterior gera violência, pobreza e opressão em casa. Como seria hoje a nossa nação se não tivéssemos travado 60 anos de guerras sem parar?

É claro que este tipo de declarações não são bem recebidas pelas corporações industriais dos EUA, nem pela banca, muito menos pelo complexo industrial militar.

Biden não poderia ter adversário mais crítico dentro do seu próprio partido. Os candidatos estão em campanha, quem vencer as eleições internas (chamadas primárias) será o candidato do partido. Não temos dúvidas de que lado estão os donos do dinheiro que hão de pagar as campanhas e a propaganda. Resta ver como o sobrinho do Presidente John F. Kennedy consegue lutar contra esses moinhos de vento. E se não lhe acontece o mesmo que ao tio.

Robert Francis Kennedy Júnior em criança com o tio John F. Kennedy, Presidente dos EUA

EUSÉBIO E O ‘TÂMARA’

0

Foi no Tâmara que conheci o senhor Eusébio da Silva Ferreira, no final da década de oitenta do século passado,  num dos muitos almoços que ele organizava para os amigos. Telefonava antecipadamente ao senhor Zé e encomendava uma cabeça de garoupa ou de cherne, para cozer, com muitos grelos e hortaliça. Por vezes, quando havia na praça, lá vinha um robalo gigante para grelhar. O senhor Zé sabia escolher o peixe. Era a melhor casa de Lisboa para comer a cabeça de peixe.

Foi por aqui que começámos a conversar porque eu também era o organizador dos almoços de cabeça de peixe da Mafirol por delegação do grande companheiro Jorge Silva Lopes. Não raro coincidiam as duas mesas e não havia mãos a medir.

O Eusébio acompanhava com um bom vinho, sempre reserva ou colheita seleccionada e comia bem e devagar. No final da refeição o café e o Old Parr não podiam faltar e num ambiente mais descontraído surgia então a oportunidade para podermos conversar um pouco.

Restaurante Tâmara, sala de refeições

RECORDAR EUSÉBIO

Do futebol e da sua vida fui sabendo tudo mas retive das suas palavras a mágoa de nunca ter sido seleccionador nacional de Portugal. E ele explicava, com alguma razão dizendo que todos os grandes jogadores à excepção do Péle, que se tinha tornado político, todos tinham treinado a selecção do seu país. Franz Beckenbauer, Michel Platini, Kevin Keegan, Dino Zoff, Zagallo. Mas havia um aperto naquele coração, uma sentimento de alguma ingratidão. E eu concordava com ele porque à época tivémos alguns seleccionadores incompetentes e, se calhar, um vulto enorme como ele, talvez pudesse ter feito a diferença. Grande Eusébio! Viva o Benfica!

Os joelhos também o atormentavam muito, tudo por amor ao Benfica, o Benfica a quem deu tudo  e por quem contava histórias sem parar, uma delícia.

E estar perto dele só muito mais tarde percebi o privilégio, eu e todos os outros, e o mundo que dele se despediu numa noite de chuva para a glória eterna.

Obrigado Eusébio.

MANUEL ILDEFONSO VOLTOU AO LARGO

0

Manuel Ildefonso voltou ao local onde tem estado em manifestação permanente nos últimos 5 anos. Depois de algum tempo a recuperar de um problema de saúde provocado pelo bullying da Polícia Municipal, Ildefonso volta à luta por uma habitação social.

No local que ele gosta de chamar a sua ‘casa’, Ildefonso voltou a montar os cartazes de protesto e o chapéu de praia que o protege do sol, da chuva ou da geada, consoante os caprichos da meteorologia e das estações do ano.

Neste regresso, Manuel Ildefonso recebeu várias visitas e até correio. António Pedro Carvalho e Guilherme Leite foram dar-lhe as boas vindas. Guilherme entregou-lhe uma encomenda remetida da Irlanda, uma sofisticada bengala, extensível e dobrável. Uma coisa rara, mas que não substitui o ‘cajado’ que Ildefonso usa como auxiliar nas caminhadas e que, consoante as necessidades, pode ter diferentes usos.

A bengala vinha com um bilhete anexado, onde se pode ler o seguinte: “sou um amigo (de Lourel), residente na Irlanda. Este planeta está cheio de gente podre, como esse peido fedorento B. Horta (sic)”, fim de citação. A mensagem é mais extensa, fundamentalmente expressa solidariedade com Manuel Ildefonso, um sem abrigo a quem a Câmara Municipal de Sintra não presta assistência como ainda pretende expulsá-lo do local onde ele manifesta o seu protesto.

Com o edifício sede da autarquia em obras, o autarca mor deverá estar de férias, assim como o oficial de polícia que mantém às suas ordens. Pelo menos não foram vistos no largo Virgílio Horta, hoje. Ildefonso diz que “os agentes da GNR sorriem ao passar. Foi assim o dia de hoje e, espero, que seja assim amanhã.” Assim deveria ser todos os dias. O direito à manifestação não pode ser impedido.