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BUDANOV, A CORUJA QUE MATA MORCEGOS

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A agência Reuters publicou uma entrevista com o chefe da espionagem ucraniana, Kyrylo Budanov. Nos meios russófonos falava-se na hipótese de Budanov ter sido ferido ou mesmo morto num dos ataques com mísseis russos. A última vez que tinha sido visto em público foi no final de maio. Entretanto, tinha aparecido num vídeo com Zelensky, numa incursão que o Presidente da Ucrânia fez em data incerta à famosa ilha das Cobras. Esta entrevista vem por cobro às especulações sobre o estado de saúde do chefe da espionagem ucraniana. Está vivo e fala. Os russos lamentam que ele não tenha ido para junto de Hitler como esperavam que tivesse acontecido e se viu nas redes sociais com imagens como esta…

imagem partilhada da rede Telegram

E o que diz Budanov? Diz que a Ucrânia aprendeu com os próprios erros, no que diz respeito à guerra da (des)informação. Aprendeu quando perdeu a Crimeia para a Rússia, em 2014. E a prova disso é que “a Rússia está a perder a batalha da informação”, garante Budanov.

Sobre o que se passou com o Grupo Wagner, na Rússia, Budanov diz saber que os amotinados tentaram capturar uma arma nuclear, localizada numa base militar. E garantiu que o líder do Grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, tem apoios dentro da Rússia. Sobre os apoios que poderá ter na Ucrânia, não foi questionado.

Perito em espionagem e contrainformação, sabendo que dificilmente alguém conseguirá confrontar as declarações que faz, não hesita em dizer coisas como: “Temos as nossas próprias fontes. Nos escritórios mais próximos de Putin, por assim dizer. É por isso que geralmente sabemos o que está acontecendo.” Não é possível desmenti-lo, ele não precisa de o provar, as palavras podem fazer tanta mossa quanto balas. Mas com o tempo, algumas coisas que Budanov tem dito tardam a acontecer…

Na fotografia que a Reuters publica com a entrevista, temos Budanov sentado no seu gabinete de paredes acinzentadas, debaixo de um quadro de gosto duvidoso, mas que é o símbolo dos GUR, os serviços de espionagem da Ucrânia: uma coruja com as garras cravadas num morcego.

Segundo os relatos do jornalista (não há imagens), as janelas deste gabinete estão completamente tapadas com sacos de areia e pelo chão há armas e um colete à prova de balas. Um homem sempre pronto a reagir.

Na Ucrânia dizem que se Zelensky sair de cena, Budanov assumirá o poder. Nessa eventualidade, talvez os russos prefiram preservar Zelensky.

fonte: Reuters

A Comédia dos Burros

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Há idas ao teatro que são mais do que apreciar uma peça teatral, o desempenho dos atores ou a cenografia.  Mais do que o espetáculo, ir ao Teatro Romano de Lisboa é uma experiência lúdica original.

Atores e público dão de novo vida a uma casa construída há cerca de 3 mil anos para a cena teatral. Durante todo o mês de julho, o Teatro Romano de Lisboa tem em cena uma comédia de Plauto, autor que viveu no século II a.C. e de quem temos, ainda hoje, cerca de uma vintena de obras preservadas. As comédias de Plauto foram adaptadas ao longo dos séculos por autores como Shakespeare, Moliére e até Camões.

Uma dessas obras é A Comédia dos Burros. Uma história de costumes onde entram esposas enganadas, cortesãs astutas, amores frágeis e relações sociais numa sociedade esclavagista como era a dessa época. Tem tudo para uma boa hora e meia de divertimento cultural: sexo, mentiras e luta de classes.

Ide ao teatro, gente. A Comédia dos Burros vale muito a pena. A encenação é de Joaquim Horta, o elenco tem Catarina Requeijo, Hugo Narciso, Marina Cardoso, Raúl Oliveira, Vicente Wallenstein, Vítor Costa e Silva. O bilhete é barato, 6 € apenas, a sala é espetacular.

PSD SOB SUSPEITA

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A investida judiciária que colheu de surpresa o PSD foi certamente motivada por denúncia. Alguém foi dizer à Procuradoria-Geral da República que o PSD usava indevidamente dinheiro público. Ouvida a denúncia, foram feitas investigações preliminares e, agora, desencadeou-se a ação policial de busca de indícios e apreensão de equipamentos. É assim que age a justiça portuguesa, todos estamos fartos de saber.

Mas nunca antes a coisa tinha sido feita contra um partido político. O PSD pode gabar-se de ter ‘inaugurado’ as investigações policiais a partidos políticos. Nem todos os dias se ‘corta uma fita’ destas.

Como a denúncia devia estar circunscrita ao tempo em que Rui Rio comandou o partido, a casa dele foi invadida e desarrumada pela polícia. Rio ficou sem telemóvel, apreendido. Uma medida dura. E depois foi a sede nacional. Mais de uma centena de operacionais, entre agentes da Polícia Judiciária e procuradores estiveram em ação.

O presidente do partido, Luís Montenegro, acusou a Procuradoria de exagero. Montenegro considerou não ser “proporcional e adequado que se desarrumem sem aparente critério as casas de cidadãos, que se proceda indiscriminadamente à devassa da sua vida privada, à clonagem e apreensão dos seus aparelhos eletrónicos, designadamente telefones, no âmbito de uma investigação como a que está em causa”. Uma coisa assim, estamos acostumados a ver nas rusgas na Cova da Moura. Não no Bairro da Lapa.

O que está em causa são suspeitas de uso indevido de dinheiros públicos, através de verbas da Assembleia da República definidas para a assessoria dos grupos parlamentares e que seriam utilizadas para pagar funcionários do partido que não trabalhariam no parlamento. Uma espécie de financiamento encapotado, mais conhecido por peculato (em termos jurídicos).

Aparentemente, no PSD consideram isto um formalismo. Se o dinheiro é deles, eles usam-no como bem quiserem. Se fosse com outro partido político, diriam o contrário. Assim, dizem que todos os partidos (do Chega ao PCP) fazem o mesmo. Será isto suficiente para despoletar investigações similares a todos os partidos políticos?

30 Dias em Oeiras

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Raros são os municípios que mantêm, em papel, uma agenda cultural mensal. Quase todos se renderam, submissos, ao digital, na expectativa, primeiro, de que em todas as casas haja acesso à Internet, depois, que todos saibam orientar-se no labirinto – que labirinto é sempre! – da página de uma autarquia. Por mais que se lhes diga o contrário, o peso dos técnicos é grande, o custo do papel assusta e… a agenda em digital é outra coisa, dizem os seus apaniguados, em cujo número eu me não situo.

Aplaudo, pois, a continuidade dada ao pequeno livrinho de bolso que é como se apresenta 30 Dias em Oeiras, a agenda cultural do município de Oeiras, distribuída pontualmente, no início de cada mês, nas caixas do correio de quem oportunamente a solicitou.

Tenho presente a de Julho/Agosto (excepcionalmente bimensal), em que ressaltam os logótipos Oeiras Cultura e Oeiras Valley, que foi, esta, uma das recentes denominações com que Oeiras – para se enquadrar no panorama linguístico da estranja – não hesitou em se baptizar, mormente para sublinhar que, sim, há prédios, há arranha-céus (construídos e a construir!), mas o mais importante é o ambiente, o vale, o do Jamor, por exemplo.

Neste número, destaque-se a entrevista ao conjunto Club Makumba e às meninas d’As Três da Manhã. E, para os melómanos, a rica programação do VI Festival Internacional de Piano (o FIPO!) – porque música é o que não vai faltar!

O EQUÍVOCO

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“Houve, seguramente, um momento de mal-entendido visto que a declaração, obviamente, resulta de um convite que existe, e a reafirmação de todos que a Ucrânia possa ser membro logo que possível, pressupõe naturalmente um convite”, afirmou António Costa, em declarações aos jornalistas no final da Cimeira da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), em Vilnius, na Lituânia.

No entanto, o primeiro-ministro ressalvou que a adesão da Ucrânia à NATO só vai ser possível “quando as condições estiverem reunidas”.

“Houve, seguramente, um momento de mal-entendido visto que a declaração, obviamente, resulta de um convite que existe, e a reafirmação de todos que a Ucrânia possa ser membro logo que possível, pressupõe naturalmente um convite”, afirmou António Costa, em declarações aos jornalistas no final da Cimeira da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), em Vilnius, na Lituânia.

No entanto, o primeiro-ministro ressalvou que a adesão da Ucrânia à NATO só vai ser possível “quando as condições estiverem reunidas”.

VOLTAR A TIMOR

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Escapando a uma comissão perigosa na Guiné nos últimos anos da Guerra Colonial, o meteorologista Manuel Costa Alves acabava por perceber a violência dessa mancha mesmo em Timor, em 19 meses de comissão civil no Serviço de Meteorologia daquela parcela do “império” português.

O livro, uma montagem alternada entre passado, presente e futuro ainda em construção convulsiva, está dividido em duas partes, a primeira com 19 capítulos, a segunda disposta ao longo de 14.

Ainda apresenta um posfácio esclarecedor, mas não podemos deixar de referir que antes da sua hábil estruturação, conta com um curto prefácio de José Ramos Horta e uma consistente apresentação de Adelino Gomes, ele também profundamente envolvido na causa timorense nos anos de luta pela independência, como em tantas outras causas justas.

Manuel Costa Alves teria ocasião de apresentar-nos muitos heróis da resistência Maubere, entre eles Xanana Gusmão, feito jovem herói na liderança pelo povo timorense (povos, ou grupos etno-linguísticos) até à vitória final. O livro termina com um posfácio deixando pelo caminho da leitura muita matéria para reflexão.

O autor acabaria por entregar-se à causa de tal modo, que Adelino Gomes sugere, na sua apresentação, que estamos perante um “poema de Amor” à Natureza sublime, à doçura e capacidade de resistência das gentes, apercebidas em leituras que o autor fizera antes de partir, para não ser surpreendido.

Mas era. Concluía que o seu país, o colonizador, nada sabia das paisagens naturais e humanas da parte oriental da ilha perdida no Pacífico, nem as particularidades climatéricas, nem as necessidades reais das populações. Pois se nem conhecia as carências dos lugares mais remotos do Minho ao Algarve!

Estamos a falar de um Portugal que tentava libertar-se das amarras do antigo regime e também da passividade do Portugal pós-Revolução perante os esforços de Timor para conseguir a autodeterminação. O primeiro perdera, em tempos remotos, a oportunidade de fazer de Timor Oriental “um paraíso” na Terra. Logo a seguir ao descobrimento e posse, interessava-lhe vender o sândalo, mais importante para os orientais do que para os europeus, e fornecer o café, de grande qualidade, aos exploradores da outra metade da ilha, os holandeses, para eles enriquecerem os seus lotes.

O Portugal de Abril debatia-se com os problemas próprios de quem se vê forçado a arrumar a casa, mas em matéria de apoios políticos e diplomáticos, pouco fazia. Era a sociedade civil que se movimentava, desdobrada em manifestações que atraíam instituições não governamentais do mundo inteiro e que pressionavam os poderes internacionais mais influentes para o esforço dos jovens timorenses, muito activos na década de oitenta do século XX.

Nem a sedução pela beleza natural e humana de Timor oriental chegaria para fazer o autor esquecer os vícios e a violência da marca colonial, também ali impressa com ferro em brasa. As suas manifestações de protesto valer-lhe-iam amargos de boca, como poderão perceber se vierem a conseguir este livro em algum alfarrabista. Diferenças abissais separavam colonizador e “colonizados”, começando pela barreira da língua. E o desespero fazia com que Manuell Costa Alves escrevesse que não pertencia àquele mundo.

Mas pertencia. Ficaria irremediavelmente ligado ao destino dos homens que conhecera, alguns torturados até à morte pela Indonésia de Suharto. Evocaria as memórias que guardara da sua experiência pessoal, fazendo a comparação inevitável com as marcas do passado, considerando o incalculável custo de vidas humanas da brutal invasão japonesa em 1942. E a violência repetia-se diante dos olhos do mundo, na construção de um futuro incerto a caminho da independência.

Como no passado, os timores continuavam abandonados pelo colonizador numa luta desigual. A Indonésia estava apoiada por países que, afinal, se relacionavam com Portugal. Teria sido possível negociar, não fossem os interesses conhecidos dos experts no petróleo do mar de Timor? Por tudo o que sabemos e pelo que ignoramos, lembra Manuel Costa Alves que na entrega do Nobel da Paz a Ramos Horta e Ximenes Belo em Oslo, o então presidente do Comité, Francis Sejersted, teria falado de um degradante cinismo da política internacional.

Lembremo-nos dos cinismos atuais e cada vez mais refinados, das manhosas ações bélicas para encobrir tantas fraquezas, para ambições tão desmedidas.

Afinal os timorenses tinham razão em quererem obter de jure, aquilo que sempre tinham sido de facto: independentes. Não passavam de uma peça marginal de um Império que colapsara. Tinham uma língua franca que os unia, os seus costumes que respeitavam, as entidades sagradas que nunca tinham deixado de venerar.

Se o massacre de 1991 no cemitério de Dili e as manifestações populares de total repúdio pelas ações dos mais fortes ajudaram, foram eles que fizeram tudo, que sofreram calados todas as agressões.

Eram uma realidade diferente, tanto em relação a Portugal como à Indonésia. Empreenderam sozinhos a luta, continuaram sozinhos entregues à sua sorte, em manifestações de resistência que fizeram do autor mais um adepto fervoroso da sua causa e um crítico acérrimo dos poderes dos regimes portugueses anterior e recente.

Impossível descrever aqui a riqueza humana e histórica desta narrativa que se aproxima do ensaio e da biografia, lidando com todos os discursos literários. É a revisitação de uma metáfora bíblica conhecida de todos; é possível David vencer Golias.

Lembro só mais um detalhe a comprovar empenhamentos inequívocos: todos os exemplares que sobraram deste livro, editado pela GRADIVA em Março de 1988, bem como os direitos de autor e o produto das vendas da editora, foram enviados para Timor, primeiro para a Resistência, depois para o Governo em exercício.

Espero que um dia o encontrem e percebam como os homens pouco mudam.

OEIRAS DESCONSIDERA VEREADORA DA OPOSIÇÃO

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No debate sobre o estado do município, que decorreu hoje na Assembleia Municipal de Oeiras, a vereadora Carla Castelo não teve cadeira para se sentar.

A Presidente da Assembleia Municipal, Elisabete Oliveira, justificou-se com falta de espaço para a cadeira da vereadora Carla Castelo. Um problema que teria sido resolvido antecipadamente com a escolha de outro tipo de cadeiras, como reconheceu implicitamente a senhora que dirige a Assembleia Municipal. Ou seja, foi assumidamente que se optou por não garantir lugar para todos os 11 vereadores da Câmara Municipal de Oeiras.

Quando o problema se colocou, nenhum outro vereador disponibilizou o seu lugar. Carla Castelo não foi tratada em pé de igualdade com todos os outros vereadores.

Num comunicado, a Coligação Evoluir Oeiras afirma que se tratou de “uma enorme falta de respeito” e “falta de isenção democrática”.

O caso chegou a gerar discussão na sala, mas a cadeira para a vereadora não apareceu.

Corte de Cabelo

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– E então querida como foi esse aniversário?

– Muito original…

– Conta!

– Passei a noite anterior a transpirar.

– Ohhh…

– Acordei cheia de dores de garganta, de corpo, e com o telemóvel desligado…

– Tadinha…

– Desmarquei o jantar de anos, desmarquei tudo, perdi a possibilidade de ver pessoas de quem gosto muito e não estou com elas há imenso tempo.

– Ficaram zangadas?

– Zangadas, acho que não, um pouco aborrecidas talvez. Compreendo.

– E depois?

– Depois o meu telemóvel, já semi carregado, ganhou vida própria e não me deixou fazer chamadas de vídeo…

– Epá!

– Fui para a cama às nove da noite. Por magia, apareceu, assim de surpresa, a amiga de sempre, aquela que raramente vai a um aniversário, diz que não gosta de grupos, mesmo que sejam só três pessoas. Desta vez o aniversário foi ela. Único! Minis pretas para cá, gargalhadas para lá (as minhas a custo). Dentro do caos, houve um final feliz.

– Mas porque é que ficaste assim? Andaste à chuva? É que não choveu…

– A noite anterior foi uma noite de verão brutal. Fiquei horas no Mac com a ventoinha virada para mim. O clássico resfriado… A clássica nabice!

– Que aniversário…

– Mas recebi muitos telefonemas de amigos (o telemóvel autorizou chamadas “normais”) e muitos parabéns pelo Face.  De resto dispenso bolos e velas, mas os parabéns, seja de que forma for, são sagrados, a melhor parte. Esses as dores de garganta não roubaram!

– E planos para este ano novo?

– Muitos.

– Uau!

– Já conseguiste mudar alguma coisa?

– Sim.

– O quê?

– O cabelo, tenho um novo corte de cabelo.

– Yap… blá blá blá, bonita, blá blá blá, mais nova e blá blá, blá vaidosa!

– Não tem tanto a ver a com a vaidade (um pouco, vá lá) mas só corto o cabelo uma vez por ano. A cabeleireira “Amy Winehouse” é maravilhosa. Corta, o cabelo cresce, o corte aguenta um ano. Até um pouco do cabelo rapei!

– Radical!

– No dia seguinte cortei o medo pela raiz e deixei crescer a força enterrada num jardim abandonado. Não a perdi, tinha-me perdido dela.

– Continuo a achar tudo muito poético. E se um destes dias eu te roubar a mala com tudo o que precisas e prezas? E no dia seguinte te enfeitiçar e levar-te a cortar o passe social com uma tesoura? Ah, e se te estatelares na calçada e ficares com uma ferida tão grande no joelho que mal possas andar? Como vais conseguir refazer-te de volta ao optimismo? Eu cá te espero! Ah ha ha ha!  Venho logo a correr para te ver cair!

– Talvez. Se tanta desgraça acontecer, digna de um filme comercial decadente, não choro. Talvez parta alguma loiça! Depois, desligo o telemóvel, encomendo um menu do McDonald’s, vejo filmes com tubarões na cama e adormeço. Se for preciso, repito o ritual no dia seguinte (aí peço um menu de frango assado) mas ao terceiro salto da cama quer esteja triste ou contente. Ai o buraco da Alice no País das Maravilhas! Não quero dar de caras com a Rainha de Copas ou com o Gato das Botas. Quero usar o laçarote e os sapatinhos vermelhos da Judy Garland, quero ser a “Pretty Woman” com o sorriso rasgado da Júlia Roberts. Quero ser feliz!

– Um final feliz com um milionário! Caramba!

– Sei que não é bem assim. Como diz a Maria Bethânia numa canção, “Felicidade se encontra em momentos de descuido”. Hei-de encontrá-la, perdê-la e voltar a encontrar. Não vou morrer na praia.

– Isso passa pelos príncipes encantados, aposto…

– Estou farta de príncipes encantados, a correrem para mim a galope, como se não houvesse amanhã…

– Há?

– Não… caem todos do cavalo antes de me alcançarem…

– E que tal embarcares no Titanic?

– Credo, claro que não. Só fizeram amor uma vez e ele morreu logo a seguir.

– Desististe do amor, portanto.

– Não. Nunca hei-de desistir do amor.

– Pretendes encontrá-lo num bar…

– Também não. Pretendo encontrá-lo dentro de mim.

– Masturbação?

– É algo…higiénico e saudável, claro. Mas o que quero dizer é que pretendo colocar-me a mim em primeiro lugar, defender-me das más vibrações e das pessoas amargas. Pretendo fugir de tudo o que me faz mal. Ser o meu primeiro amor.

– Que bonito….

– É assim que vou encontrar alguém de quem gosto e poderá vir a gostar de mim. Pode ser alguém que me atropele na passadeira (só um bocadinho) e fique uma semana no meu leito do hospital. Ou então alguém que a meu lado se deslumbre com o quadro do Malhoa no Museu do Fado, alguém que não consiga tirar os olhos da minha nova mini-saia, se calhar até alguém que já conheço. Mas… mas… espera um pouco, ainda não percebi. Estou aqui a “despir-me” para ti, dizes que fazes coisas más, maldosas, nem sequer sei quem tu és, embora a tua cara me seja familiar…

– Não te lembras? Sou a tua bruxa Ataraxia. Sou os teus defeitos, as tuas fraquezas, a tua tristeza, os teus falhanços, a tua rendição à dor. Sou o teu comodismo, a tua preguiça, o teu lado melodramático, o pior que há em ti. Sou o teu lado negro. Mas… por agora… vou embora sem sequer te picar. Estás quase imune. Sei que vou voltar a ver-te… ou… talvez não. Acredita em ti e prometo que vou ficar longe. Mais longe, pelo menos… Ah, e sim, o corte de cabelo é de arrasar. Até parece que tens 51 anos!

CASINO INVADIDO POR CABOVERDIANOS

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A III Grande Gala da Morna, numa iniciativa do grupo Carlos Silvestre & Amigos, com a colaboração da Estoril-Sol, celebrou, na noite do passado dia 5, o 48º aniversário da independência de Cabo Verde e homenageou o compositor-intérprete cabo-verdiano Antero Simas.

Esteve, por isso, presente Eurico Correia Monteiro, EmbaixadorExtraordinário e Plenipotenciário da República de Cabo Verde, que teve ocasião de subir ao palco para agradecer e se congratular com o brilhantismo da iniciativa. E até houve sorteio da estada de uma semana na Ilha do Sal, a fim de mais nos entusiasmarmos a ir visitar aquele encantador país irmão.

Património imaterial da Humanidade, a morna enleva-nos com a serenidade que dela dimana, uma «morabeza» infinda, penetrante…

E isso sentiu o público (muito originário daquele arquipélago que por aqui se fixou) que vibrou no Salão Preto e Prata, não apenas com as vozes dos intérpretes – que estiveram, numa mesa no palco, em jeito de mui descontraída confraternização, diante de umas garrafitas de tinto… – mas, de modo especial, com os magníficos arranjos, primorosamente executados pelos músicos. Aliás, em cada actuação, naquela imprescindível pausa do canto para dar lugar aos instrumentos, houve o cuidado de, em solo, cada um dos músicos, mostrar o seu primoroso virtuosismo. Parabéns!

Ana Azevedo, solene e sorridente, deu o mote. Zézé Barbosa, esquerdino e de longa cabeleira, trouxe uma voz quente. Ana Laíns, fadista, vestida a rigor, encantou-nos com a sua versão d’A Casa da Mariquinhas, casando, assim, o fado com a morna que interpretou a seguir. O veterano Leonel Almeida, cabo-verdiano, não parou quieto no palco e passeou-se por entre a plateia, cantando e cumprimentando. Duas interpretações cabiam a cada um. Lucibela, imponente, de ampla cabeleira e voz funda, de amplo vestido róseo, foi a morna em pessoa. Danny Silva – a gente conhece o seu enorme valor. Ana Firmino, testa alta, anciã sem pruridos no seu largo vestido vermelho, aumentou a «morabeza».

A terminar – antes do canto final em que todos participaram – a sedutora juventude de Inês Fonseca comungou muito bem com o nosso veterano Carlos Alberto Moniz: ela fizera a letra, num louvor às ilhas cabo-verdianas; ele deu à letra a forma musical – e ambos nos agradaram a valer.

Uma noite memorável? Sim. Passou-se num ápice e mais num ápice se passaria se o organizador-apresentador não tivesse cedido à tentação de falar tanto e de tanto elogiar toda a gente. Fez-me lembrar – que se me perdoe o desabafo – o dia em que, num congresso em Sófia (Setembro de 1987!), eu declarei ser «importante» o que estava a apresentar; no final da sessão, com malicioso sorriso no olhar, um colega meu comentou: «Ficámos todos bem cientes de que é importante o que estás a fazer!». Percebi o recado amigo: não era a mim que competia qualificar de ‘importante’. Que Carlos Silvestre o compreenda também futuramente.

Fotos gentilmente cedidas por Conceição Alves / Casino Estoril

Faleceu Edgardo Xavier (1946-2023)

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Esteve muitos anos ao serviço da Estoril-Sol, no âmbito da galeria de Artes Plásticas, em companhia de Nuno Lima de Carvalho, até se aposentar. Foi, também por isso, presença assídua, com obras suas de pintura, nas exposições colectivas dessa galeria. Pertencia, de resto, à Associação Internacional de Críticos de Arte, foi comissário da Bienal Internacional de Óbidos e integrou a direção das primeiras edições da Bienal Internacional de Cerveira.

Nunca deixou de se exprimir pela pintura, mas foi de modo especial pela senda poética que caminhou, sobretudo após a aposentação:  Amor (2007),  O Canto da Pedra (2009), Corpo de Abrigo ( 2011), Azul Como o Silêncio (2014) [que tive a honra de prefaciar e apresentar], Escrita Rouca (2016).

Tenho sobre a secretária, com dedicatória de Abril de 2021, Imagine Hominum e as marés ocultas do universo (edição de Mythus de Er, Lisboa, 2021), a aguardar pausa para leitura no decorrer deste Verão.

Um misto, este, de poesia e de prosa, como que a legendar as impressivas fotografias de Ernesto Matos. Fui adiando a leitura e não resisti, agora, em homenagem a este amigo do peito e decidi-me a abrir o livro ao acaso e caí em «Morreu o Homem viva o Poeta!» (p. 132-133). Transcrevo.

«Há quem, em vida dos Poetas, se honre honrando-os. Há os que, morto o Homem, lhe saprofitam a fama e ainda outros que, porque conheceram vivo o arquétipo e o visitaram no mais sombrio de suas sombras, se acham herdeiros únicos do direito de recordar, homenagear, prantear ou publicar a obra como quem canta um Requiem».

E, evocando aí Herberto Helder, escreveu «foi embora o homem tímido», «deixou a obra a todos».

A Edgardo Xavier me apraz, agora, aplicar essas palavras. Primeiro, porque era, de facto, tímido, não se punha em bicos de pés, falava-nos com uma delicadeza suma, uma atenção quase desmedida – e se ele sabia tanto!… -, apertava-nos a mão com a força de muita amizade e preferia ouvir a falar, embora muito gostasse que apreciássemos o que fazia. Depois, porque, na verdade, tanto os seus quadros como os seus livros aí estão para quantos os queiram apreciar.

Vale a pena também dar uma espreitadela à lombada desse Imagine Hominum:

«Escrever é outro ir. Recolho em mim os sons, os cheiros, as imagens e vou onde quero, até onde me leva a inquietação ou a necessidade de viver. Quem vai nunca regressa a mesma pessoa. Carrega-se de experiência, de factos, de forças que não sabia e volta para recomeçar com nova intensidade»

A propósito dos 81 contos deixados em Loengo – ressonância da sua Angola natal, exótica, de avassaladores cheiros fortes no final das tardes a prolongar noite adentro… – tive ocasião de escrever, a 03-10-2018:

«Explica o autor, logo no início, o que se passou: onde trabalhava deixou de ter trabalho; sentia-se como que ‘na prateleira’; daí ter começado a pensar, a inventar histórias, como que ‘para passar o tempo’:

“Algumas dessas histórias e breves contos recentes integram este livro. Não tenho compromisso com a realidade factual mas projectei-me nalguns destes contos.

Nem sempre sou rigoroso porque a magia e o sonho me arrastam para utópicas paragens onde gosto de ficar. Sinto-me poeta mas ficaria feliz se o leitor me aceitasse também como escritor”».

Poeta foi, todavia. Mormente em mui serenas divagações de um lirismo sem par, a ressumar de mui suave erotismo:

«Aprendi que era magnífico o ar com os aromas do prado; que o sabor da tua boca era de mar e frutos silvestres».

Um lirismo denso, intenso, sentido; sem paroxismos; num erotismo saboreado: «Fecho os olhos e, intencionalmente cego, guardo-me inteiro, para viver as tuas palavras»; «de pensar te faço corpo». O corpo, um corpo que se percorre. Sem pressas nenhumas: «A pressa apaga a paisagem e mata o encanto. Por isso te amo melhor em dias preguiçosos». [Apontamento que escrevi, a 10-12-2013, a propósito de Azul como o Silêncio].

Até sempre, Edgardo! Recordaremos a forte agressividade dos teus quadros; continuaremos a saborear o ritmo das tuas palavras. Descansa em paz!