Misteriosa pedra com letras

No Sistema de Informação para o Património Arquitectónico (SIPA), temos a ficha da Igreja Paroquial de São Romão / Igreja de São Romão”, a que foi atribuído o nºIPA.00020644. Após as exaustivas descrições habituais da igreja nos seus variados aspectos, vem exarada, em “Observações”, a seguinte informação, colhida na página 172 do II volume (Lamego, 1979) da obra História do Bispado e Cidade de Lamego, da autoria de Manuel Gonçalves da Costa: «Foi encontrada uma ara votiva proveniente do muro da Igreja, que apresentava a inscrição "E Xº Dulcit"».

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A frase despertou-nos a curiosidade e lá fomos nós ao adro da referida igreja: lá estava a pedra, juntamente com outras passíveis de ter interesse arqueológico e histórico!

De facto, para ali se têm carreado, nos últimos anos, elementos arquitectónicos, como este sarcófago presumivelmente do período medieval.

Ou este conjunto: uma coluna, uma alminha e uma pia com carranca.

E quisemos ler o que escrevera o sacerdote, membro da Academia Portuguesa da História desde 1975, a quem o bispo D. João da Silva Neves encarregara de fazer a referida história (escreveu 8 volumes, dos quais 6 estão publicados). Achávamos estranha a referência a classificação de ‘ara votiva’ a uma pedra com aquela forma e dimensões e custava-nos crer que Gonçalves da Costa tivesse cometido esse lapso. De facto, a frase é bem diferente:

«Aqui e além descobrem-se pedras esculpidas de carrancas, uma delas escavada para servir de pia de água benta e que pertenceu a uma ara votiva. Uma outra, proveniente do muro da igreja, apresentava a inscrição E xo Dulcit».

Mostra a nossa terceira figura essa pia – em que a pedra com torneira não pode ter sido de ara romana. E, por outro lado, o redactor da ficha do SIPA fez da passagem uma leitura basto… apressada!

Por seu turno, António Monteiro, correspondente em S. Romão do jornal Notícias da Beira-Douro, referiu-se, no nº 547, de 10 de Maio de 2015, às pedras trabalhadas expostas no adro da igreja e transcreveu, sem comentários, o que o Padre Gonçalves da Costa escrevera acerca da epígrafe. Será, porém, no nº 574, de 10 de Agosto de 2017, que, entre as notícias de S. Romão, dá, sob o título «achados históricos», circunstanciada informação acerca da pedra:

«S. Romão é um povo muito antigo e, de vez em quando, surgem mais elementos que o provam, servindo de acréscimo ainda mais à sua história.

Desta vez foi uma pedra com uma inscrição romana – Ex.o Dulcit – que estava colocada numa parede no início da Av. José Cardoso Lopes, lugar da Lampaça.

Esta pedra era mesmo de preservar, porque ela é referenciada em livros de um historiador da Diocese da Lamego, e que ela devia pertencer ao adro da igreja.

Como este adro noutros tempos serviu de cemitério […], pensa-se que esta pedra seria uma das peças de um jazigo identificado.

O Dr. José Rego, proprietário do muro, tendo conhecimento […] da minha intenção de que ela devia voltar ao adro, logo se prontificou a cedê-la no momento mais oportuno.

Assim, no dia 6 de Julho, ela regressou novamente ao adro».

Desconhece-se, pois, de momento, o contexto original da pedra, ainda que se saiba que se encontrou (em reutilização?) nos anos de 1997 / 1998, por ocasião das obras de recuperação geral do imóvel. No capítulo ‘cronologia’ da referida ficha do SIPA se dá conta, efectivamente, de que o templo foi sofrendo alterações: «1694 – data sobre a porta travessa indicia obras; 1893 – datação no exterior da sacristia; 1928 – desmoronamento da nave; 1977 – data na zona superior da torre, correspondendo ao aumento da mesma».

Um doce segredo milenar

De granito amarelo, de grão médio, é grosseiramente um paralelepípedo. A face lateral esquerda faz ângulo recto com a face anterior epigrafada; a face inferior será direita, enquanto a superior, plana, ‘desce’ para a direita, quase a assumir, no conjunto, a forma de cunha, tendo, do seu lado esquerdo, dois orifícios, vestígio de uma das suas reutilizações. Mede a face inscrita 31 a 15 cm de altura e 104 de comprimento.

O letreiro EXoDVLCIT, atendendo à progressiva diminuição do módulo dos caracteres, poderá ter sido pensado mesmo para esse fragmento na sua configuração actual. Medem as letras: E = 17,5; X = 16,5; D = 16,5; V e L = 14,5; C = 13; I = 12,5; T = 10. Afigura-se-nos que o O antes do D (com 7 cm de diâmetro) não é uma letra, mas sim um sinal de pontuação, para separar duas palavras.

Na verdade, dulcit pode ser a 3ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo dulcere¸’ser doce’, ‘adoçar’. Ex é, por seu turno, uma preposição que reforça aqui o significado do verbo, como quem diz «torna ainda mais doce». Vem-nos à mente, de imediato, a frase «Quem meus filhos beija minha boca adoça» – mas não foi, decerto, nesse contexto familiar que a frase terá sido aplicada.

Por conseguinte, não parece lógico que a expressão tenha vivido por si, mesmo que correspondesse a identificar um lugar onde a pessoa se sentisse mui agradavelmente. Nesse âmbito, duas suposições se poderiam adiantar: lápide a colocar num aprazível recanto, em jeito do que encontramos, por exemplo, num jardim em Cascais: «Deus nobis haec otia fecit» – ‘Deus para nós preparou este descanso’; ou parte de um versículo bíblico, destinado a identificar o lugar sagrado, cuja serenidade, na vizinhança da divindade ou dos santos, subtilmente perpassasse, em deleite, para o crente fiel…

Exígua é, muito exígua mesmo, a frase que a pedra nos mostra. Nada sabemos também, como se viu, donde é que poderá ter vindo, informação que nos incitaria a procurar o resto da frase, porque há a sugestão de pedra de jazigo, mas a nota do SIPA vai no sentido de que terá sido retirada do templo.

Ainda se não dispõe, por outro lado, de exaustivo rol de palavras latinas quer da Bíblia na sua versão Vulgata quer dos poetas latinos (que também daí poderia ter vindo esta frase). Não quisemos, todavia, deixar de dar a conhecer este deveras misterioso letreiro, na expectativa de que alguém possa vir a desvendar o segredo que ele oculta.

Importa, no entanto, esclarecer: esta pedra não é «uma ara votiva», ou seja, não é nem faria parte do altar dedicado a uma divindade, como se deu a entender; e, seguramente, não é da época romana (António Monteiro escreveu ‘romana’, mas queria dizer ‘latina’)!

Trata-se, porém, de uma pedra epigrafada antiga, que, mais não seja por a sua inscrição em língua latina esconder um mistério, merece ser preservada.

Artigo em co-autoria com José Carlos Santos

1 COMENTÁRIO

  1. O Doutor Rui Cascão sugeriu que se interpretasse «e Christo dulcit», sendo Xo (o ‘o’ sobrelevado a indicar abreviatura) interpretado como Christo, o que não é nada anormal.
    Não parece, de facto, ser má ideia, sugerindo a frase como que uma profissão de fé, ou seja, numa tradução livre, «de Cristo emana a doçura». – JdE.

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