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A RÚSSIA E AS SANÇÕES ECONÓMICAS

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A cooperação económica entre a Rússia e o ocidente, nomeadamente a Europa, é a principal vítima da guerra na Ucrânia, para além dos soldados que morrem nas trincheiras dos dois lados.

As sanções impostas contra a Rússia, a destruição de infraestruturas como o gasoduto Nordstream, são atitudes que a Rússia diz não ir esquecer tão depressa e que levará em conta quando o Ocidente, os europeus principalmente, se lembrar que o gás russo é muito mais barato que o americano.

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Nesta entrevista à RTP, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia lembrou que a guerra começou em 2014 e que não foi a Rússia a disparar o 1º tiro.

AÇORES, MEMBRO DO GOVERNO REGIONAL AMEAÇA ESCRITOR

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Os censores ao serviço do Governo Regional dos Açores não podiam prestar melhor serviço à comunidade. As ameaças proferidas contra o escritor Joel Neto não só o promovem a ‘figura nacional’ como nunca Joel foi antes, como também fizeram disparar as vendas do livro ‘Jénifer ou a princesa da França’.

António Bulcão é chefe de gabinete da Secretaria Regional da Educação e dos Assuntos Culturais, mas foi ele quem ‘puxou da pistola’ quando o livro de Joel Neto foi publicado e foi ele quem começou a disparar ameaças quando o escritor participou num Linha da Frente na RTP sobre os assuntos que a obra literária também aborda: a pobreza nos Açores.

Bulcão entrou em erupção quando confrontado com a realidade exposta. As ameaças ficaram escritas no telemóvel de Joel Neto que não hesitou em apresentar queixa no Ministério Público e, sabedor que o ataque é a melhor defesa, denunciou a situação nos media.

Nas redes sociais meio mundo tem manifestado espanto e indignação perante o sucedido, solidariedade com o escritor. Joel sabe que não está sozinho nesta situação, embora em termos práticos só a polícia pode garantir a segurança de um cidadão sob ameaça de um membro do Governo. Mas a polícia tem demasiadas pontes com a direita e extrema-direita para se poder acreditar no profissionalismo e ética das forças de segurança. O Governo Regional dos Açores é de direita e tem o apoio parlamentar dos dois deputados do Chega.

É por isso que Joel não nega ter receio, por ele e pela família. O ódio turva facilmente o pensamento de mentes mais débeis.

Perante a denúncia e a queixa apresenta por Joel Neto, o autor das ameaças já apresentou a demissão do cargo para o qual tinha sido nomeado em despacho de abril de 2022. Se o PSD , o CDS ou o Chega não lhe arranjarem outro tacho, lá terá de voltar a dar aulas no próximo ano letivo. Temos pena das crianças que o tenham como professor.

Quando perguntámos a Joel Neto se pensava sair dos Açores, para se proteger e à família, respondeu: “Era o que faltava. Esta é a minha terra, a terra do meu filhos e a terra da minha mulher.”

E O BURRO SOU EU…? QUEM ME DERA!

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Começo assim: “Quanto mais conheço o Homem, mais gosto do meu cão.” No meu caso, dos meus gatos.

… mas o Homem é que é o “Rei dos Animais”.

Quem disse isto? AH! O Homem. Ele próprio. Assim como Napoleão que se coroou a ele mesmo Imperador… ou quando Luís XIV proclamou “L’État C’est Moi!”. É assim. O Homem elege-se a si, independentemente da vontade de todas as outras espécies. Aliás, nem as questiona.

Ninguém perguntou ao imponente leão o que é que ele achava disso, à enorme girafa, ao búfalo, ao hipopótamo… nem sequer à formiga! O Homem é o “Rei dos Animais” e pronto! É o ser pensante; é o ser racional. Diria Descartes “Penso, logo existo”. Assim, se os animais não pensam… como é que existem?

Acho piada quando ouço na TV dizerem “Os macacos são mais parecidos connosco do que pensamos”. Como é que é…? Os símios estão neste planeta há mais tempo do que o Homem! A frase não deveria ser “O Homem é mais parecido com os macacos do que pensamos”?

Ora bem: o Homem é um ser racional. Um axioma. É isso. Portanto, todo o resto do universo animal é irracional?!

Tenho em casa duas gatas: uma branca e uma preta: nunca as vi digladiarem-se por causa da cor. Coitadas… são irracionais. Dormem abraçadas uma à outra, dividem o mesmo prato de comida, respeitam os espaços e as horas de dormida uma da outra. Pois… são irracionais.

Já nós, o Homem, escravizámos povos por causa da cor; incendiámos meio planeta sob a égide de “Black Lives Matters”, unimo-nos por “Je Suis Charlie”; criámos a Ku Klux Klan. Sim. Somos seres racionais!

“…e o Burro sou eu?” – disse Scolari. Quanto a mim, às vezes tenho pena de não ser…

Seres selvagens, os animais. Matam-se uns aos outros. Infelizes. É horrível assistir a isso no National Geographic. Pois. Aquando daquelas jantaradas comemorativas do “sei lá o quê”, esquecemos o pojadouro, a rabadilha, o entrecosto, a entremeada, as febras ou as costeletas e donde elas vieram. É tão conveniente… Eu até sou omnívoro: como carne, como vegetais, como aquilo que a minha espécie é suposta comer. Até como a carne do peixe (nunca entendi essa coisa de se comer peixe na Sexta-Feira Santa porque não se pode comer carne.  Afinal, não comemos a carne do peixe?). A Natureza é a nossa Mãe, independentemente da racionalidade que persistimos em enaltecer … Uma alface é um ser vivo. Nasce, vive e morre. Apenas não ouvimos os seus lamentos. Cada mordida liberta-nos a consciência da culpa de não nos estarmos a alimentar de um ser de origem animal… Treta!!! Será que só a espécie animal é que tem o direito a ser apelidada de ‘Ser Vivo’?

Agora a sério:

Somos seres racionais. Fazemo-nos explodir num metro em Madrid em hora de ponta por questões religiosas… Que animal faria isso?

Raptamos crianças para fazermos delas escravas sexuais. Que animal faria isso?

Sim, também tenho um gato. Imagino-o a obrigar as minha duas gatas a usar ‘burka’ e a impedi-las de usarem a mesma areia do que ele por serem… gatas! Fêmeas! Apenas por isso. Mas não. Afinal, são seres irracionais. ‘Tadinhos… não têm ‘racio’… não são inteligentes…

Sempre me questionei: é fácil fazer um cão aprender “deita”, “dá a pata”, “fica”, “rola”… meia dúzia de vezes, umas recompensas e… já está! Se fosse ao contrário, quantas vezes um cão necessitaria de me dizer “ão, ão” até eu perceber o que ele queria? Afinal…. qual é o mais esperto? Eu … ou o cão? Qual de nós é, afinal, o mais racional?

Vejamos a guerra entre a Rússia e a Ucrânia: é assim como se o Urso Branco decidisse conquistar o território do Urso Pardo. Mas não, tal não acontece. Porquê? Porque o Urso Branco é branco e não bronco e o Urso Pardo é pardo e não parvo. Coitados… Temos de desculpá-los. Afinal, são irracionais.

Imagino o Presidente Leoputin (…só porque sim) enviar o seu exército de leopardos conquistar o território dos leões. Iriam? Lógico que não. Talvez porque eles sejam leopardos e não ‘leoparvos’… Coitados… são irracionais!

E que animal destruiria o território que necessita para viver? Pois é… selvagens.

Mas, felizmente, nem todos nos enquadramos nesta espécie de ‘espécie’. Vejo a ‘coisa’ assim: uma escada que chega ao Céu, ao Nirvana, à Plenitude, como lhe queiram chamar. “Stairway to Heaven” é giro. Uns, mais evoluídos, estão, obviamente, em degraus superiores. Outros, longe disso, em degraus inferiores. Infelizmente, tivemos poucos líderes ao longo da história que foram capazes de dar a mão e fizeram outros (os que os quiseram ouvir) subir uns quantos degraus. Hoje, pergunto-me: estarão os nossos dirigentes em degraus assim tão rasteiros que não consigam ver o óbvio?

Diria Claude Chabrol: “A estupidez é infinitamente mais fascinante do que a inteligência. É que a inteligência tem limites…”.

FRANCISCO NÃO VAI A TOURADAS

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colagem fotográfica

O Papa Francisco não gosta de ver animais sofrer e, portanto, o PAN acredita que o Papa não gosta de touradas.

No parlamento, o PAN está a promover uma iniciativa em que apela ao Governo para cancelar todas as touradas durante a visita de Francisco, em agosto.

Enfim, trata-se de mais uma oportunista colagem político partidária a um evento que está a marcar a atualidade. Tem o mérito de voltar a chamar a atenção para a questão das touradas, uma prática cruel que visa apenas manter costumes medievais e modos de vida bárbaros.

Em comunicado, o PAN diz que “Portugal estaria a dar um sinal ao mundo de respeito pela dignidade dos animais, da natureza e até pelos direitos humanos, se aprovasse a suspensão da atividade tauromáquica durante a visita papal, já para não falar no avanço civilizacional que daria se, finalmente, desse passos firmes no sentido de erradicar definitivamente as touradas.”

O PAN lembra que na encíclica ‘Laudato Si’, o Papa Francisco frisa que «é contrário à dignidade humana fazer sofrer inutilmente os animais e dispor indiscriminadamente das suas vidas».

FRANCISCO DE ASSIS

Este Papa adotou o nome de Francisco em homenagem a Francisco de Assis, o fundador da Ordem dos Franciscano, a que o padre Jorge Mário Bergoglio pertence. Agora que é Papa, não deixa de seguir os bons exemplos de Francisco de Assis, o santo da ICAR considerado “padroeiro dos animais”.

Reza a tradição católica que Francisco de Assis, depois de fundar a Ordem dos Francisco, isolou-se na floresta, na companhia dos animais até ao fim dos seus dias. No dia em que é celebrado (4 de outubro) há igrejas em várias partes do Mundo que recebem animais para serem abençoados.

Portugal e a Liberdade

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Fustigam-nos sem honestidade, aqueles que deveriam honrar os graus académicos que ostentam ou os palcos que pisam, para confundir o seu semelhante ou ainda tentar dividir para reinar e instalar a dúvida e o medo.
Portugal é um país com futuro desde que inverta o ciclo negativo da demografia. Com políticas únicas e arrojadas. Políticas de limite, de estado de guerra.

Portugal é governado por um partido que se chama Socialista mas tal não significa que estejamos a caminho do socialismo. Para evitar a queda na “desgraça” do socialismo não é preciso mudar de governo e aceitar a fatalidade de uma aliança com o fascismo. Porque Portugal não caminha para o socialismo.
Nem o PS é socialista, nem o PSD é social-democrata. São nomes cunhados na história política da democracia portuguesa. As políticas económicas do PS são todas elas caucionadas por entidades europeias supra nacionais e facilmente fariam parte das medidas do PSD se este fosse governo.

As democracias na europa têm políticas liberais e neo-liberais onde o estado é chamado a intervir quando os privados falham na sua missão e têm que ser resgatados, como no caso da banca. Pagam os contribuintes a alquimia económica.

Portugal não tem uma elite cultural fiável, tem um conjunto de retransmissores que em dado momento se orientaram e foram recuperar um ex-Presidente da República para uma tarefa na qual enterrou aquilo que lhe restava em credibilidade e bom senso.

Os portugueses são capazes do melhor e do menos bom sendo que quando necessário alcançam o lugar mais alto porque há uma enorme capacidade de adaptação a novas situações e um sentimento genuíno de país independente.
Portugal tem outras contas para ficar em paz com a sua História e para dar paz à História daqueles povos cuja natureza moldou. Com dignidade e com honra mas também com justiça e humildade.
Portugal vive eternamente à espera de um salvador porque não há uma mudança de paradigma na escola que acentue a importância de trabalhar em grupo, de incentivar os alunos a respeitar e estimar o bem comum, o bem que é de todos. A ideia de comunidade e colectivo é sempre maior do que a sua soma individual.

Estaremos sempre no grau zero da autonomia, no culto da personalidade, na incapacidade de tomar decisões e, em abstracto, a deixar que outros as tomem por nós.
A liberdade é antes de mais poder escolher. Eu só sou livre se puder e tiver por onde escolher. Se tiver capacidade para escolher. Se tiver propostas diferentes e souber ler e distinguir as diferenças entre elas.

O caminho para a liberdade faz-se na diversidade, na escola pública, na solidariedade, no cultivo dos valores universais, no respeito pelo outro.
A liberdade é a igualdade de oportunidades à partida mas também a solidariedade enquanto expressão do princípio da génese do próprio estado.
A liberdade é ensinar a pensar, é correr o risco de ousar pensar diferente, estimular o não igual e aceitá-lo.
A Liberdade é perceber que até 24 de Abril de 1974 mais de metade da população era invisível e desde essa data aquiriu direitos, teve aspirações, vontade própria, carreiras, vidas. Eram as nossas avós, mães e irmãs.
Deixemo-nos guiar pela inocência de uma criança, pela imaginação de Alice.
Pela Liberdade de votar.

CONTA-ME HISTÓRIAS

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Deixa-me aninhar no teu colo e ouvir as tuas histórias de criança. Fala-me daquele menino que vejo quando olho dentro dos teus olhos. Diz-me a cor do teu primeiro triciclo, conta-me quantas vezes caíste, mostra-me os teus joelhos esmurrados, as calças rasgadas, os “galos” na cabeça. Deixa-me ver a tua primeira bicicleta reluzente, leva-me pelos caminhos por onde andaste. Mostra-me as ruas onde brincaste na tua primeira infância. Conta-me o teu primeiro dia de escola, deixa-me espreitar a tua mochila, os teus lápis, os teus livros, os teus cadernos, as tuas primeiras letras, o teu nome escrito pela primeira vez. Diz-me como era a primeira prenda que deste à tua mãe no dia da mãe e ao teu pai no dia do pai. Apresenta-me a tua irmã, fala-me das brigas que tiveram, dos brinquedos que partilharam, do quarto onde dormiam, dos teus carrinhos, do teu primeiro bibe. Mostra-me os teus retratos de família em cima da cómoda, o da tua primeira namorada, aquele que guardas numa carteira velha. Diz-me a que sabia o teu primeiro beijo, quão forte foi o teu primeiro desejo, o que sentiste na tua primeira vez. Deixa-me ver os retratos que guardas em caixas de sapatos, aqueles em que estás de mão dada com uma das namoradas, aqueles em que estão os dois estendidos na areia da praia. Deixa-me ler as cartas de amor que te escreveram e as que lhes escreveste, e elas, zangadas, te devolveram. Deixa-me cheirar as pétalas de rosa que puseste a secar dentro dos livros, vasculhar as tuas gavetas, tocar os destroços dos objectos que amaste.

Conta-me, com a memória que te deu a tua mãe, quando te nasceu o primeiro dente, quando pegaste sozinho na colher, quando deste o primeiro passo, qual foi a primeira palavra que disseste.

Quando te ouço falar da tua vida antes de mim, dou-me conta de quão pouco sei de ti! Como eram o teu pai, a tua mãe, os teus avós? Já morreram? Onde estão enterrados? Que sonhos sonharam para ti? Conta-me as histórias que um teu avô te contava.

Nas memórias destes momentos de partilha, eu não sei nomear o que sinto, olho para dentro de mim e mal consigo distinguir o que vejo. Lembro-me vagamente de ser menina, de alguns dias de escola, do meu vestido do dia do exame da 4ª classe, do que sonhava ser: artista de circo, depois hospedeira de aviões, depois escritora, depois jornalista! Lembro-me do meu avô materno. Ele queria que eu fosse escritora, por isso, ainda menininha, já eu ia com ele requisitar livros à biblioteca itinerante. Deu-me um mundo fantástico a descobrir, com heróis que se chamavam Ulisses e Aquiles e outros mais estranhos, como Agamémnon, Eneias e Ajax, e com a sua infinita sabedoria foi-me deixando penetrar nos romances de amor de Camilo Castelo Branco, antes de os professores de português torturarem na escola os versos de Camões. Já não estás cá para saber, avô, mas ainda assim deixa-me dizer-te: eu tornei-me uma jornalista, mas continuo a querer ser escritora e ensaio grandes romances nestes fragmentos de discurso amoroso. Sinto-me iluminada por uma luz que me guia na memória da minha vida distante, onde recupero aquilo que tu me dizias: “não percas a capacidade de sentir”. Por isso este texto que agora escrevo é para homens que amei e também para ti.

O circo e os livros foram as minhas primeiras paixões. Percorrendo as veredas e encruzilhadas da memória, revejo-me ainda criança, correndo atrás dos comediantes, o circo dos pobres da minha aldeia, que de tempos a tempos vinha instalar-se no largo da capela da Senhora da Saúde. Fascinavam-me os comedores de fogo, as trapezistas de fatos brilhantes, muito mais do que os palhaços, que nunca me fizeram rir. Gostava do perigo de ser incendiada, do risco de trabalhar sem rede. Nos dias de circo, perder-me a achar-me era na casa do meu avô, ali mesmo no largo, sempre tentando escapulir-me ao seu zelo de professor para me ensinar as contas de multiplicar, aquelas grandes, enormes, que ocupavam a folha inteira do caderno quadriculado e me faziam chorar baba e ranho se a prova dos nove não desse certo. E quando o circo levantava arraiais e partia para outras paragens, era eu que, às escondidas da minha mãe, me pendurava numa escada ou na cancela que dava para o pátio, treinando os exercícios de trapezista, perante o olhar inquieto das ovelhas e o cacarejar das galinhas. Foi num exercício de equilibrismo mal sucedido – guiar uma bicicleta sem mãos – como tantas vezes vira fazer no circo, que parti gravemente a cabeça e fui parar ao hospital. No regresso, as semanas de convalescença proporcionaram-me a descoberta dos livros. Nem o saco de gelo na cabeça, nem a incómoda posição em que me mantinha durante horas, me dissuadiam de mergulhar nos romances de cordel, a literatura sempre disponível lá por casa. Lembro-me de chorar muito com o romance da Ceguinha, um livro em fascículos que a minha mãe guardava longe dos meus olhares indiscretos, mas que eu sempre soube onde estava. Ficava horas a fio, devorando as páginas, até que a sua voz viesse despertar-me daquele torpor ou a noite me impedisse de ver as letras.

-Vem jantar, Alice, deixa o livro – chamava ela.

Mas quando à noite regressava à cama, num quarto sem luz elétrica e num tempo em que o magro salário do meu pai mal dava para o petróleo, regressava também aos caminhos ermos da vida da triste ceguinha que, por nunca ter podido ver o mundo, inventou um para ela, onde todas as pessoas a amavam sem compaixão.

O meu avô, adivinhando em mim um desmesurado gosto pelas letras, continuava a orientar as minhas leituras e a acalentar a esperança de que eu pudesse vir a ser uma escritora, daquelas que ganhavam prémios e tinham a fotografia nos jornais. Só me contou este sonho no leito de morte, tinha eu vinte anos, mas enquanto viveu e eu fui menina, foi-me dando livros emocionantes, para alimentar os meus sonhos e os dele. Foi com os olhos do meu avô que aprendi a ver mundos imaginários e, com a sua voz, que comecei a entender o poder mágico das palavras, que ainda hoje me espanta. Não fiz promessas quando o ouvi contar o sonho que tinha para mim. Mas quando senti a vida dele escoar-se por entre os últimos murmúrios, quando as suas mãos largaram as minhas e eu, já debulhada em lágrimas, só consegui dizer-lhe “adeus avô”, quando senti o arrepio da morte percorrer-lhe o corpo, reentrei, em silêncio, dentro de mim e pensei: não sei se realizarei o teu sonho, mas vou continuar a sonhá-lo.

Depois eu cresci, tornei-me uma jovem rebelde, tive uma primeira vez que não foi, e fiquei grávida, fui mãe aos dezoito anos e fui perdendo o que o meu avô me tinha pedido para não perder – a capacidade de sentir. Nada mais me interessava a não ser ler e aprender, para ter ldeias com I grande, fui-me afastando da terra, da alegria de acordar de manhã, abrir a janela e ver o canavial.

Estive, há algum tempo, sentada num degrau da escada exterior que dava acesso ao sótão da velha casa, onde, às vezes, às escondidas, devorava páginas do romance da Ceguinha. Como me pareceu pequena aquela casinha! E o canavial … afinal meia dúzia de canas da Índia à beira do fio de água que corre ao fundo do quintal. Mas à volta parece que nada mudou – as terras de castanho profundo, num verão ardente. as árvores cheias de frutas, pêras, maçãs, ameixas, pêssegos, que convidam a comer debaixo da sua generosa sombra.

Há quantos anos não me sentava ali? Passaram 40? 50? O que andei a fazer durante todo esse tempo? A ensinar a ler, a pensar, a escrever? A esquecer-me de mim?

Como é possível ter passado tanto tempo sem encontrar um homem que compreendesse o que se passava dento de mim? Um homem com quem pudesse falar de tudo com verdade: dos sonhos (ser isto, ser aquilo, quando for grande), das frustrações (o que não consegui ser), dos medos (de ficar sozinha, de envelhecer, de morrer), das esperanças (amar, ser amada, ser feliz). Mas eu sempre pensei que o tinha encontrado, naquele, no outro, em muitos deles. Dormi com eles, entreguei-lhes o corpo, mas fechei a alma. Apesar de ter gostado deles. Lembro-me de momentos de quase intimidade, de instantes breves de prazer. Quem sabe, de ter sido feliz! Lembro-me da cama, do sexo, umas vezes bom, outras mau, mas nunca senti que umas horas pudessem ser a eternidade. Queria que se fossem embora quando já não havia nada para partilhar. Satisfeito o desejo do corpo eu só queria ficar sozinha e foi assim que comecei a construir a tese do “podem vir, mas não podem ficar para o pequeno-almoço”, embora, de vez em quando até tenha acordado com eles em quartos estranhos de hotel.

Tu não és nenhum deles e contigo quero ser totalmente verdadeira: eu quis que viesses para a minha cama e que acordasses aqui todas as manhãs para o pequeno-almoço. Eu amei ir contigo ao cinema, ver filmes de mão dada e comer pipocas. Eu quis viajar contigo, mostrar-te os lugares que conheço, conhecer os lugares que tu conheces, descobrir contigo lugares desconhecidos.

Foste os meus olhos que de novo se espantaram, os meus dedos que reaprenderam a tactear. Quero viver para continuar a reescrever estas memórias.

Agora estou a lembrar-me dos momentos em que me sentei a olhar o canavial e me vieram à memória fragmentos daquele belo texto, a Nau Catrineta:

Mais enxergo três meninas debaixo dum laranjal

Uma sentada a coser

Outra na roca a fiar

E a outra?

Não me lembro.

Talvez seja eu

A escrever e a chorar.

A RÚSSIA NO XADREZ DA GEOPOLÍTICA

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A entrevista de Sergey Lavrov à RTP deu-nos a oportunidade de ouvir, em primeira mão, o pensamento dos dirigentes da Rússia.

E um dos pontos mais interessantes do que foi dito pelo ministro russo dos Negócios Estrangeiros foi o modo como a Rússia interpreta as movimentações no xadrez da geopolítica.

Lavrov admitiu que a Rússia não pretende disputar com a China a liderança no processo de retirar a hegemonia mundial aos Estados Unidos. E como as guerras se vencem quase sempre pelo lado da economia, o ministro russo lembrou que o PIB do países do G7 já é inferior ao PIB dos países BRIC, onde a Rússia se insere, e esse é o sinal de que o resto do mundo (Médio Oriente, Ásia, África) se está a livrar do neocolonialismo norte-americano e europeu.

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O TERROR DE SE VIVER NA AMÉRICA

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Nos Estados Unidos, mais um tiroteio na via pública provocou 2 mortos e 28 feridos (metade jovens entre os 13 e os 18 anos de idade). Tudo aconteceu na noite de domingo, em Baltimore, uma cidade na costa leste da América, a sul de Nova Iorque.

Uma festa familiar que decorria no quintal de uma moradia, foi interrompida tragicamente por pessoas armadas que dispararam para o grupo de pessoas. Os atiradores fugiram, depois de terem disparado entre 40 a 50 tiros, segundo testemunhos recolhidos no local. A polícia ainda não os localizou.

As vítimas mortais tinham 18 e 20 anos. Entre os 28 feridos hospitalizados, o mais jovem tem 13 anos de idade e o mais velho 32. Este tiroteio só por mero acaso não resultou num massacre de dimensões dantescas, dado o número de pessoas atingidas pelos disparos.

Em 2023, até hoje, registaram-se em Baltimore 140 homicídios consumados. Em 2022, a cidade contabilizou mais de 300 mortes violentas.

Nos Estados Unidos, este ano, este foi o 330º episódio de tiroteio de rua, uma espécie de atentados terroristas contra multidões que se generalizou sem que se perceba muito bem que tipo de doença é esta.

É estranho que, quando fora de casa, as pessoas não usem permanentemente coletes à prova de bala e capacetes militares.

LUSA JÁ PODE ATUALIZAR SALÁRIOS DOS TRABALHADORES

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Foi hoje publicado no Diário da República a resolução do Conselho de Ministros que define a atualização anual do valor da compensação financeira do Estado à Agência de Notícias Lusa, o que vai possibilitar a atualização atempada dos salários dos trabalhadores.

Assim, o valor total máximo (ao qual acresce IVA) da indemnização compensatória à Lusa é aumentado para 14.262.621 euros em 2023, 14.676.237 euros em 2024, 14.984.438 euros em 2025, 15.284.127 euros em 2026 e 15.589.809 euros em 2027, face aos 13.564.071 euros anuais inicialmente previstos no contrato de prestação de serviço celebrado em janeiro de 2022.

A resolução do Governo produz efeitos desde a sua aprovação, no passado dia 22 de junho, em Conselho de Ministros, delegando nos membros do Governo responsáveis pelas áreas das Finanças e da Cultura “a competência para a prática de todos os atos subsequentes a realizar”.

Os trabalhadores da Lusa, que exigiam 100 euros de aumento, depois de uma primeira greve geral da empresa, aceitaram uma proposta da administração para aumentos de 83 euros no salário base, tendo desconvocado as greves que estavam previstas para junho e agosto, segundo um comunicado então divulgado pelos sindicatos que os representam.

INJUSTIÇAS QUE PREVALECEM

Há problemas que não desaparecem com esta decisão. Os falsos recibos   continuam, há décadas que assim é, mantendo trabalhadores na iminência constante de serem despedidos e sujeitos a todas as arbitrariedades e assédios por parte das chefias. O conflito laboral agora resolvido com sucesso não se destinava a resolver o problema maior e mais urgente dos precários de longa data da agência Lusa.

Há jornalistas na agência Lusa que vão continuar a levar para casa salários inferiores ao SMN. Salários (em forma de avença) na ordem dos 400 ou 500 euros por mês. Ora, a empresa, a administração, as chefias setoriais, têm obrigação ética de tudo fazer para acabar com situação de tamanha injustiça labora.

Como já relatamos antes, este é um problema que afeta principalmente as delegações regionais da agência noticiosa. A LUSA tem um contrato com o Estado que a obriga a assegurar a cobertura noticiosa em todo o território nacional e, ainda, dos acontecimentos relativos à União Europeia e às diversas comunidades de cidadãos portugueses da diáspora. É por isso que a LUSA tem correspondentes em todos os distritos de Portugal e em muitos países onde residem comunidades portuguesas relevantes. Ou seja, os correspondentes prestam uma função essencial para o cumprimento desse contrato. Merecem ser pagos por tal. Como todos nós, merecem uma vida digna.

ADOÇANTE ARTIFICIAL PROVOCA CANCRO

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Um dos adoçantes artificiais mais utilizados pela indústria alimentar é cancerígeno. A Agência Internacional de Pesquisa sobre Cancro (IARC) acaba de anunciar que vai classificar o aspartame como produto que pode provocar cancro. O aspartame é utilizado na fabricação de muitos refrigerantes artificais, nomeadamente a Coca-Cola dieta, pastilhas elástica “sem açúcar” e na confeção de bolos.

O IARC é um organismo do universo da Organização Mundial de Saúde (OMS), mas esta decisão não está isenta de controvérsia.  Por exemplo, os fabricantes de refrigerantes dizem que o aspartame será perigoso para a saúde se alguém beber mais de doze latas de refrigerante dieta, todos os dias, ao longo de muito tempo.

Depois de décadas de publicidade na promoção de refrigerantes “sem açúcar”, agora dizem-nos que afinal mais vale beber outra coisa.

Adivinhamos uma discussão pública inconclusiva, à semelhança do que se passa, por exemplo, com o glifosato, um químico utilizado em herbicidas e inseticidas agrícolas. Os cientistas dizem que o glifosato é “provavelmente cancerígeno”. Mas a indústria diz que não. E o glifosato continua a ser utilizado em larga escala.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a empresa química Bayer perdeu já vários recursos de decisões judiciais que a obrigam a pagar indemnizações a utilizadores de herbicidas com glifosato e que contraíram cancro.

A utilização de glifosato é prática comum na agricultura

Há outros exemplos de discussões onde as indústrias insistem em produzir, mesmo sob suspeita de perigo para a saúde pública, como são os casos, por exemplo, da carne processada (chouriços, salsichas, etc) ou do amianto muito utilizado, ainda, na construção civil.

O problema está na dificuldade em apresentar provas irrefutáveis sobre a perigosidade desses elementos químicos. Estamos a falar de investigações que levarão décadas a compilar dados que, só depois, poderão ser avaliados. Por isso, em vez de conclusões assertivas temos declarações sinuosas, onde as palavras “podem”, “talvez”, “provavelmente”, deixam espaço para a incerteza.

Na dúvida, a Pepsi abandonou o aspartame da receita da sua cola dieta, mas para já apenas nos Estados Unidos.

Fontes: Reuters, LiveScience