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FRANÇA REVOLTA

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Cinco dias e cinco noites depois, a revolta contra a polícia está a fazer tremer a França. Cidades como Paris, Nanterre, Lyon, Bordéus ou Marselha estão mergulhadas no caos e alguns bairros assemelham-se a zonas de guerra.

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RECLUSOS CONTRA AMNISTIA DISCRIMINATÓRIA

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Um grupo de reclusos do Estabelecimento Prisional de Aveiro divulgou um abaixo assinado contra a proposta do Governo sobre perdão parcial de penas e amnistia de infrações. A proposta do Governo já aprovada em Conselho de Ministros incide em crimes e infrações cometidas por pessoas com menos de 30 anos de idade. E esse é o pomo da discórdia.

Depois da Associação Portuguesa de Apoio aos Reclusos (APAR) ter manifestado desagrado por uma medida que discrimina os reclusos, que “ofende o princípio de igualdade dos cidadãos perante a lei”, como disse em comunicado divulgado em 20 de junho, este abaixo assinado dos reclusos de Aveiro vem revelar o mal estar que grassa pela população reclusa.

Diz o abaixo assinado que “não sendo este perdão e amnistia extensível a qualquer cidadão, independentemente da sua idade, entendemos que não é justo. Discrimina.”

Os reclusos apresentam a sua própria proposta de emenda do projeto lei aprovado pelo Governo:

1- Que apenas sejam excluídos da amnistia, crimes cometidos contra menores de idade.

E, com alguma ironia, sarcasmo, acreditamos…

2- Crimes cometidos por cidadãos no decurso de cargos políticos e públicos, governamentais, nacionais ou municipais.

O abaixo assinado, que reproduzimos na íntegra, foi assinado por 85 reclusos do Estabelecimento Prisional de Aveiro (se não nos enganámos a contar).

A RÚSSIA E A GUERRA NUCLEAR

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A entrevista de Evgueny Mouravitch a Sergey Lavrov foi um bom exercício de jornalismo. Pela primeira vez desde que teve início a guerra na Ucrânia, ouvimos as razões e os pontos de vista dos russos.

Foi uma entrevista longa, cerca de 50 minutos. Destaque para o impacto das sanções na economia russa e a possibilidade de um ataque nuclear. Lavrov atribuiu responsabilidades pela eventual ocorrência de uma catástrofe dessa ordem aos líderes políticos do ocidente.

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Até hoje, apenas um país recorreu a uma arma tão poderosa de destruição. Foram os Estados Unidos que, em agosto de 1945, apenas para abreviar o fim da guerra, lançaram dois ataques com bombas atómicas sobre duas cidades japonesas: Hiroshima e Nagasaki. Morreram entre 90 mil e 166 mil pessoas em Hiroshima e 60 mil a 80 mil em Nagasaki, no momento das explosões. Nos dias, meses e anos seguintes, milhares de outras vítimas acabaram por morrer devido aos efeitos secundários desses ataques. A maioria dos mortos foram civis.

Pelas palavras de Lavrov, não andamos longe de repetir a dose, mas desta vez não será no Japão.

Hiroshima arrasada pela bomba atómica
Nagasaki arrasada pela bomba atómica

CRISTIANO RONALDO VAI COMPRAR MICROFONES PARA CMTV

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Cristiano Ronaldo entrou na “loja” e perguntou quanto custava. O dono da loja perguntou o quê, Cristiano respondeu-lhe “tudo”. E comprou 30% do capital da Cofina SGPS.

Nas “prateleiras” da loja, alguns bonecos tremem de susto e surpresa e temem pelo futuro. Todos eles se lembram daquele momento inusitado, quando Cristiano Ronaldo em vez de responder à questão do repórter da CMTV, tirou-lhe o microfone da mão e arremessou para o lago.

CR7 em 2016 quando arremesa o microfone da CMTV ao lago

A relação do jogador com os meios da Cofina nunca foi grande coisa. Já em 2014, CR7 nem respondia a perguntas colocadas por repórteres da CMTV ou do Correio da Manhã, nas conferências de imprensa. Uma vez disse: “Não tenho nenhum respeito por esse jornal (CM), porque anda constantemente a inventar notícias e polémicas.”

Numa conferência de imprensa em 2014

E agora, de repente, ele torna-se acionista de referência do grupo. Será que se lembra dos azedumes do passado? Será que vai querer limpar a casa? Será que vai comprar microfones novos para todos?

Também se pode dar o caso de Cristiano ter feito apenas mais um investimento financeiro. É verdade que a comunicação social, nomeadamente a televisão, pode ser uma área interessante de investimento. Mas o mais certo é não ser…

Todos os grupos de media estão mais ou menos falidos, os que se aguentam melhor são os que têm acionistas com rendimentos noutras áreas, como é o caso da Cofina, por exemplo. Paulo Fernandes, o patrão da Cofina, é um dos principais nomes da industria de papel e celulose e o grupo que dirige nessa área teve lucros record em 2022, num montante superior a 152 milhões de euros. Nem se percebe para que quer ele novos acionistas… só se for para dividir as despesas com microfones, de facto.

MAIS UMA DIVERSÃO PARA MILIONÁRIOS

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Os ricos é que sabem como se divertir. Depois das viagens ao espaço da Blue Origin de Jeff Bezos, depois das escapadelas da Ocean Gate ao cemitério do Titanic, agora temos as viagens quase espaciais da Virgin Galactic, de Richard Branson.

O 1º voo comercial da Virgin Galactics aconteceu agora, levou três turistas italianos. E trouxe-os de volta, inteiros. O que nem sempre acontece quando alguém se mete em aventuras.

O voo da Virgin Galactics é uma espécie de rapidinha, num instante tiram os pés do chão e atingem os 85 kms de altitude, o suficiente para poderem gozar a sensação da imponderabilidade. Logo a seguir aterram.

Cada lugar nisto custa entre 250 mil e 450 mil dólares (230 mil a 415 mil € aproximadamente). Não sabemos quais os critérios para se obter desconto. A companhia diz que já tem uma lista de espera com 800 nomes.

Portanto, milionários tugas, têm que se despachar se querem ir antes do natal de 2057.

A CASA DA BONECA BARBIE

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A boneca Barbie é um dos mais bem sucedidos produtos de marketing, em todo o mudo. Alavancada pela publicidade, a boneca já passou dos 64 anos de idade e continua a render muito dinheiro à empresa Mattel, não só pela venda direta da boneca nas lojas de brinquedos, mas também os filmes e séries de televisão que passam em todas as plataformas existentes.

E não é só a boneca, são os acessórios, os animais de estimação, os bonecos amigos, o boneco do namorado, outra bonecada associada e, agora, a casa da Barbie.

Só que, a casa da Barbie é em tamanho real. E quem quiser, pode pagar para passar lá a noite. Só não sabemos se haverá alguma barbie insuflável a ornamentar a casa… mas, o resto, estará lá tudo.

A casa é em Malibu, com vista de mar para o Oceano Pacífico, rodeada de verdura. A maioria dos utensílios e bibelots da casa são de plástico, mas do bom.

Em cor de rosa berrante, a casa tem três andares, vários quartos, não lhe falta nada, mas cuidado com as imitações, porque há coisas que são a fingir, como é o caso dos nacos de carne na grelha do barbecue.

O negócio de aluguer dos quartos desta casa parece estar nas mãos da Airbnb, uma plataforma que gere AL em todo o mundo. No site da Airbnb já se anuncia a disponibilidade para reservas mas ainda sem indicar preços.

A Mattel já vendeu mais de mil milhões de Barbies, desde 1959.

FRANÇA EM PÉ DE GUERRA

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“Ele viu a cara de um árabe, de um miúdo, quis tirar-lhe a vida… Espero que ele pague… e que a sentença dele seja igual à minha.” Palavras da mãe de Nahel, um miúdo de 17 anos morto à queima roupa por um idiota vestido de polícia.

a mãe de Nahel, na manifestação por justiça pelo fuzilamento do filho

Um idiota empoderado por uma lei permissiva que permite à polícia francesa disparar sem remorso. A culpa é do idiota e de todos os outros idiotas que o recrutaram e lhe deram licença para matar.

Nahel, o último instante de vida

O adolescente conduzia um carro, não tinha licença para tal, tentou evitar a multa e acabou morto. O disparo do agente da polícia foi feito a meio metro de distância. Nahel estava desarmado. Não ameaçou a integridade física do agente da polícia.

Agora e durante uns tempos, a França vai estar em sobressalto. Não é só Nanterre, subúrbio de Paris, em estado de sítio. Depois de dois dias de distúrbios, a manifestação de hoje terminou com mais violência e muitos danos patrimoniais pelas ruas de Nanterre.

A GUERRA CONTINUA

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Disparar mísseis contra restaurantes é um ato horrível. O que aconteceu naquela pizaria em Kramatorsk foi uma tragédia. Homens, mulheres e crianças vitimas de uma loucura, dizem os ucranianos. Um ato legítimo de guerra, respondem os russos.

Nos meios russófonos circulam indícios sobre a realização, naquele local, de um encontro de altas patentes militares ucranianas e estrangeiras. O ataque foi lançado para eliminar esses comandantes e operacionais militares.

Entre os vários indícios, o facto de haver registos vídeo de estrangeiros que verificam o estado de algumas vítimas.

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Os russos garantem ter identificado alguns desses estrangeiros, dão o exemplo de dois: Alex Gallant e Levi Johnson, mercenários ao serviço da Ucrânia.

Ambos apresentam-se como membros da empresa privada dos EUA que presta serviços de guerra, a Universal Guardian.

Ainda e sempre nas redes sociais, há vídeos onde estes dois funcionários da Universal Guardian surgem a dispensar treino a militares ucranianos ou a treinarem-se eles mesmo a sacar mais rápido que a própria sombra.

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No caso de um deles, os serviços russos dizem ter detetado uma tatuagem que coloca o homem como militar do Terceiro Batalhão Ranger, cujo símbolo é um losango com um 3 ao centro.

Há ainda a intercepção de comunicações e mensagens nas redes sociais que parecem confirmar que no local estaria a decorrer uma reunião militar.

Nesta publicação, está dito que havia uma reunião no local com a participação de muitos militares, incluindo mercenários estrangeiros. Afirma-se aqui que a informação sobre o evento foi passada para os militares russos porque a população detesta esses mercenários. E os mísseis foram disparados.

Do modo como o acontecimento tem estado a ser relatado pela imprensa ocidental, os russos alvejaram o restaurante por pura maldade, queriam mesmo era matar crianças. E é isto que Zelensky festeja, em Kiev.

A tática populista de Marcelo já chegou a Kiev.

O BICHO PAPÃO

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Agora, finalmente, vou poder ganhar qualidade de vida, porque essas 8 horas não letivas me vão permitir: mais tempo para preparar aulas; corrigir testes (aliás, “instrumentos de recolhas de informação para efeitos classificatórios”, (sim, agora é muito “chique”. Isso de “testes” era uma coisa muito brega e do passado); elaborar esses mesmos “instrumentos de recolhas de informação para efeitos classificatórios”; classificar composições; frequentar ações de formação sem correr o risco de acumular serviço; fazer o trabalho de Direção de Turma de forma tranquila; preencher as picuinhas informações intercalares; conseguir dar resposta ao que pedem hoje para estar pronto anteontem… sei lá! Enaaaa! Estou tãããão feliz! Agora, em vez de viver para trabalhar como fiz até aqui, vou, finalmente, poder trabalhar para viver!!!

Ah! Espera!… Esqueci-me de um pormenor que se calhar é importante… O meu grupo de docência é o 200. Dou Português. Sou daqueles ‘coitados’ a quem castigam e obrigam a usar essas supostas “horas de redução da componente não letiva” para dar… aulas de apoio. Com alunos. Sim, porque parece que estar com alunos em aulas de apoio não é trabalho letivo. Afinal, o meu amigo art.º 79.º do ECD revela-se um “Amigo da Onça”. (Não disse “Amigo de Peniche”, pois calculo que muitos colegas de Peniche estejam na mesma situação e não quero ofender ninguém).

Portanto, deixa-me pensar:

Deixo de estar com uma turma onde dou uma aula curricular, para estar com 8 alunos escolhidos a dedo pelas suas dificuldades (pelo menos na minha escola é assim). A “Fina-Flor”. “A Espuma das Canções” como diria Rui Veloso. Aí, em vez de preparar uma aula para todos os alunos, preparo 8 aulas individualizadas em que tenho de me dividir (qual Deus omnipotente e omnipresente que consegue atender a todos) e descortinar os mais diversos elementos de trabalho destinados aos mais diversos alunos que se debatem com as mais diversas dificuldades de aprendizagem. Um tem dificuldades de leitura; outro de compreensão; outro de interpretação; outro de gramática; outro é disléxico; outro, simplesmente, não quer “fazer nenhum”; outro não é capaz de escrever um texto, por mais simples que seja; outro “caiu neste país de para-quedas” e está completamente fora de contexto; outro não fala português (sim, porque uma ou duas horas de Português Língua Não Materna por semana não permitem a compreensão das 13 disciplinas que estes alunos têm de frequentar ao longo do ano. Estar 100 minutos numa aula a ouvir um professor sem compreender ‘patavina’ da língua… é obra. Quem vem, por exemplo, do Nepal, da Ucrânia ou da China… desenrasque-se! E ainda por cima, nem os brasileiros percebem português!

E diz a Lei que esses apoios marcados em horas de redução da componente letiva são individualizados…

Mas porque será que sobre este assunto não se fala nas contestações sindicais? Ah!… Talvez porque os sindicalistas não deem aulas e não passem por este problema… Assim também eu!… É muito mais conveniente implorar pela passagem de escalão. Pois a mim, apesar de ‘preso’ no 6.º escalão, com 34 anos de serviço e sem vislumbrar o topo da carreira, preferia, antes, livrar-me deste ‘estorvo’ que são as aulas de apoio….

OK. Fiz 60 anos e começo agora a ter medo do Bicho Papão. Parece que cheguei mesmo à segunda infância…

Doem-me as articulações, odeio aquele relógio que insiste em despertar às 7 e um quarto; detesto as quantidades de remédios que ingiro que, pelos vistos, são essenciais à minha existência e, sobretudo, detesto acordar daquele sonho em que estou com a minha mulher em férias, na praia, num mar de 30 e tal graus para, de repente, ao som do malfadado despertador, saltar da cama, ir dar aulas e repetir a história que relato há 30 e tal anos… Um dia destes estou a ponderar ir dar aulas vestido de telemóvel… Talvez assim…

… Decididamente. Este país de gente velha não é (mesmo!) para velhos.

O PIROPO

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Todos ouvimos frases de elogio que podemos enquadrar neste conceito, mas eu não me lembro senão daquela fracção de tempo gravada como memorando.

Esqueci o resto das palavras arquivadas, das tiradas obscenas aos delicados madrigais, e volto sempre ao piropo que me dizem que não é.

Tinha acabado de chegar a Lisboa, ainda embalada pelo bucolismo dos choupais e pelo recato sonhador dos quase 18 anos. Para mim o homem ideal devia ser alto, de cabelos negros e olhos verdes. Os louros de olhos azuis chegariam pouco depois.

Aquele que descia uma perpendicular à Rua Luís Fernandes, a mesma que eu subia depois da aula no Instituto Britânico, não era nada do que eu concebera. Era alourado de cabelo curto e meio encaracolado, elegante no seu fato completo cor de mel, camisa muito branca e pasta castanha na mão direita a condizer com os sapatos. Ah, e tinha óculos de aro fino metálico que lhe davam um ar distinto na aparente ingenuidade.

Não estava enquadrado nos parâmetros de eleição do presente, não preenchia os requisitos que haviam de me fascinar meses depois.

Bem sei…não querendo dar nas vistas, ia reparando sorrateiramente nos detalhes enquanto um grãozinho de areia caía na barriga da ampulheta. Em minha defesa devo dizer que tinha uma razão de peso: antes de chegar a meio da ladeira, o indivíduo de cerca de trinta anos, um bocadinho velho para mim nesse tempo, não tirava os olhos de um ponto qualquer abaixo da minha cintura…

Teria eu a bainha do vestido descosida, alguma linha pendurada? Àquela distância só  uma linha de comboio se poderia avistar. Mas ele olhava para lá com uma fixação tão consternada, que eu começava a corar de olhos pregados no chão, ou mais ou menos… Admito que de vez em quando mirava pelo canto do olho, para ver se ele notava o rubor.

Tinha esperança que desistisse de fixar o pormenor desconhecido no meu mapa corporal, mas ele parava a  cerca de metro e meio, à espera que eu passasse, sempre a olhar para o mesmo ponto…qual? E quando eu já me cruzava com ele, ouvia-lhe a voz encorpada num lamento magoado que me deixava quase em lágrimas:

“Oh…que pena, já agora podia ter também uns joelhos bonitos…”

Foi o piropo mais lindo que alguma vez me disseram ao longo da vida toda. Que não, insistiam as pessoas a quem eu tinha a coragem de contar. Que grande indelicadeza…

Mas qual quê! O meu coração e cabeça ficavam rendidos à genuína tristeza daquele a quem hoje chamo jovem. E ia direitinha ao espelho grande mal chegava a casa, para confirmar: estava coberto de razão, só me restava usar calças.

Enquanto subia a rua não lhe ouvia os passos na laje escorregadia, devia continuar lá parado a seguir os contornos do corpo e a lamentar em silêncio o desajuste do pormenor, mas a minha cabeça ia sendo dominada por um pensamento: ali estava uma pessoa que me poderia levar!

Sem ter cabelos negros e olhos verdes, nem louros e olhos azuis, era um indivíduo assim, tão profundamente rendido aos meus desencantos, que me encheria os dias de felicidade. Talvez de mais, mas isso remediava-se. E bem podia colocar-me a jeito de uma primeira conversa, em vez de escolher a rua paralela logo no dia seginte à mesma hora. De calças compridas e menor encanto, não queria ouvir nada que estragasse a bela recordação.

Passei a gostar de homens mais velhos. E até apareceu um alto de cabelos negros e olhos verdes a perseguir-me todos os dias no autocarro, o corpo colado ao meu, a empurrar a minha coxa com a dele até ficar lugar para mais uma pessoa no banco. Mas eu permanecia lá atrás, no meu perfeito termo de comparação, a tecer o pensamento crítico e adulto.

Nesta bolha onde me fecho e permaneço a olhar o mundo, a hipocrisia de um mundo que não se consertará sem uns abanões, reforço a ideia de que não vale a pena esboçar perfis e situações ideais. A vida é o que é. Tem mais força do que a nossa determinação.