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CARANTONHAS FEIAS E ANTIGAS

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Não é rara – antes sedutora – para arquitectos e proprietários a intenção de ornarem edifícios com figurações humanas, inclusive retiradas da mitologia greco-romana.

Notáveis, por exemplo, as casas – sobretudo urbanas – das nossas vilas de primórdios do século XX a ostentarem nos ângulos dos telhados uma estátua de Minerva ou de Marte, amiúde de barro esmaltado, num apelo (dir-se-ia) ao classicismo que não queriam mesmo enjeitar. Tem sido difícil preservar esses toques de antiguidade, perante a onda avassaladora de tendências iconoclastas, segundo as quais nada disso interessa aos nossos tempos, mas algumas ainda vão resistindo.

Certo é, porém, que – aqui e além – nos surpreende ver, ainda bem preservadas, estranhas carantonhas, cujo real significado acabamos por desconhecer. Na verdade, são carantonhas; porventura, isso quereriam apenas significar, nada mais. Um pormenor estético, a que cada qual daria a interpretação que lhe aprouvesse. Pode gostar ou não. Pode, até, ficar indiferente, o que, no entanto, se nos afigura difícil. Diferente é o que vemos nas gárgulas de templos medievais, na cachorrada das cornijas e nas voltas dos arcos de entrada das igrejas românicas: aí, o simbolismo torna-se bem patente e habitual o recurso à representação de seres imaginários. Toda uma panóplia de invenções a obrigar a reflexão.

Por isso também quisemos dar a conhecer carrancas estranhas recentemente encontradas nas nossas deambulações por vetustas aldeias do concelho de Armamar, no distrito de Viseu, integradas em fachadas de edifícios habitacionais viradas para a via pública. 

Na povoação de Cimbres, a carranca entrou tanto no domínio público, decerto pelo seu carácter misterioso, que deu nome à rua – Rua da Carranca – onde se mostra. A casa é tipicamente beirã, de paredes com pedra à vista; de dois pisos, fazendo-se por escadaria exterior o acesso ao piso superior.

Tem no lintel duma das janelas (que são de guilhotina, à maneira tradicional) a data de 1782.

A carantonha (fig. 3) está na esquina e apresenta características da raça negra, atendendo ao desenho das arcadas supraciliares, às fossas nasais largas e à grossura dos lábios. Terá sido pensada mesmo para utilização como elemento decorativo arquitectónico, na medida em que é plana na face posterior.

Em Fontelo, duas cabeças, de traços pouco afeiçoados, estão adossadas, sobre o tubo de escoamento das águas pluviais dos telhados, entre duas casas. Estas são de três pisos, tendo o telhado triangular próprio para dar guarida às águas-furtadas e apresentam-se com um ar deveras senhorial, sugerido pelas amplas varandas de guardas de ferro forjado trabalhadas.

É bem possível que eventualmente tenham sido retiradas dalgum pelourinho, de que poderiam ser o remate. Fontelo teve-o; hoje foi mui singelamente restituído, em linhas geométricas, humildemente encostado a uma parede (quando o pelourinho tinha, por norma, posição central na praça maior da localidade), apenas ostentando uma ‘cabeça’ meio disforme, também ela de feitura antiga.

Aliás, nesse aspecto, não deixa de surpreender a que lobrigámos na localidade de S. Romão, do mesmo concelho de Armamar: ali foi colocada, sozinha e triste, na parede, a olhar para os fios eléctricos que lhe passam ao pé. Donde terá vindo e porque a puseram ali?

Retiradas, pois, dos locais para que foram pensadas, estas carantonhas quiçá mereçam não apenas serem preservadas, mas também um estudo que permita o seu melhor enquadramento no espaço e no tempo. Até lá, continuarão… a despertar curiosidade!

Artigo em co-autoria com José Carlos Santos

MAIS SACRIFÍCIOS PARA NÓS, DECIDIRAM ELES

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Vão continuar a subir as prestações de dívidas bancárias, nomeadamente na compra de habitação.

Será uma das consequências de mais uma subida das taxas de juro, anunciada agora mesmo pela presidente do BCE, Christine Lagarde.

As políticas do BCE não são apenas culpa de Lagarde. As decisões são tomadas por um sindicato de banqueiros e de investidores em bolsas financeiras. Um grupo de pessoas a quem lhes é permitido controlar a economia na parte ocidental do mundo, com grande influência também na outra parte. Lagarde fala por eles.

NÃO OS DEIXAREI MORRER

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Alice Marques com Agostinho da Silva. Colagem fotográfica

Foi há muitos, muitos anos. Num dia 22 de Maio. Eu colaborava então num semanário marinhense, O Correio, onde comecei por escrever crónicas, um género mais de opinião e menos jornalístico. Primeiro as Crónicas de Maldizer, uma espécie de olhar crítico sobre o quotidiano nacional, depois as Crónicas da Revolução Francesa, por altura do 200º aniversário da revolução, em 1989. Entre a história e o jornalismo, estes últimos textos valeram-me a elevada estima do então diretor do semanário, o advogado e político, Osvaldo de Castro, que viu neles uma promessa de grande jornalismo. Mas arrancar-lhe um elogio era mais improvável do que cair-me um meteorito em cima da cabeça. Meia dúzia de anos a trabalhar com ele deram direito, apenas, a um quase rogado “excelente”, a propósito da crónica sobre Robespierre, depois eu a rever e corrigir meia dúzia de vezes, à atitude insólita de publicar uma nota pessoalíssima que o filósofo Agostinho da Silva escrevera para mim. E também à promessa de escrevermos, a quatro mãos, as nossas memórias do 25 de Abril. A sua morte precoce aos 67 anos (em 20 de Junho de 2013) inviabilizou este projeto.

A insólita atitude deste exigente diretor, que me ofereceu o meu primeiro livro de jornalismo, começa, como disse, a 22 de Maio dum ano longínquo, dia da cidade de Leiria. Comuniquei na redação que o professor Agostinho da Silva estaria em Leiria , a propósito das comemorações do dia  da cidade e, embora soubesse que notícias do distrito estavam fora do nosso âmbito, eu iria até lá, e, se fosse importante, escreveria qualquer coisa. Fui. Havia um batalhão de repórteres dos jornais locais e regionais, como era de esperar.  Agostinho da Silva tinha sido recentemente redescoberto pelo faro apurado de Miguel Esteves Cardoso, que fez com ele uma série televisiva, “Conversas Vadias”, e o filósofo, até então menor, tinha-se tornado, em poucas semanas, uma TV Star.

Vi-o chegar, sair de um carro preto, acompanhado, ou melhor, amparado, por dois “seguranças”, entrar no Teatro José Lúcio da Silva e dirigir-se ao palco. Pisava o chão com cautela. De fato preto e camisa branca, um rosto miúdo desaparecendo entre os cabelos de neve, ele subiu ao palco como quem pede desculpa por existir. Aquela figura, quase insignificante, no meio de um friso de notáveis (o bispo, o comandante da região militar, o presidente da câmara), começou então a falar. Lembro-me vagamente: uma conversa completamente “vadia”. Saltava do reinado de D. Dinis para Fernando Pessoa e Eduardo Lourenço, da ponta de Sagres para o Brasil, a tentar dar consistência à tese do Quinto Império. Mas recordo-me bem do que pensei: “agora ele está mesmo perdido, não vai encontrar o fio da meada”. Mas qual quê? Habituado ao pensamento caótico, mas abrangente e conceptualizado, mesmo quando parecia totalmente perdido, ele voltava sempre ao ponto de onde partira, tecendo um discurso coerente, consistente, poético e fascinante. Foi assim que o vi. Cá fora falei com dois jornalistas que conhecia. Estavam decepcionados. Não sei muito bem o que esperavam, mas eu, que não esperava nada, só estava decepcionada com eles. Vim para casa e pus-me imediatamente a escrever. À noite, fui ao jornal e entreguei a peça ao diretor. Ele leu e, sem um único comentário, limitou-se a dizer: “pomo-la na última página, não temos mais espaço e não vou desmanchar a maquete para inserir isso noutro sítio”.

Quando o jornal apareceu nas bancas, dei-me conta de que valorizara a peça ao mandar publicá-la em negrito. O texto teve algum impacto entre o escasso clube de fãs do filósofo “menor” Agostinho da Silva. Mas eu estava tão orgulhosa dele (tinha lido tudo o que saíra nos jornais de Leiria e eram todas peças breves, noticiosas, com destaque fotográfico e pouco mais, sinal evidente de que o discurso não fora compreendido, ou, no mínimo, não fora possível aos repórteres transformar aquele delírio numa peça jornalística interessante) que considerei a hipótese de enviar a minha ao filósofo. 

E assim fiz. Escrevi uma pequena nota, dizendo quem era e com as breves palavras: “Professor, ouvi-o em Leiria e fiquei fascinada. O senhor é um visionário”, e enviei-lha com o jornal.

Na semana seguinte recebi um cartão escrito e assinado pela mão de Agostinho da Silva, cujas palavras nunca esqueci:

“Minha senhora: recebi o artigo que publicou sobre mim no jornal da sua cidade. Foi a coisa mais inteligente, mais verdadeira e sensível que alguém escreveu sobre mim. Feliz o jornal que a tem, feliz a escola que a tem, feliz o país que a tem”.

Inchei de orgulho, como podem imaginar. E, embora com algum receio, não resisti a mostrar o cartão ao diretor Osvaldo de Castro. Com aquele sorriso entre a ironia e o sarcasmo, que o caracterizavam e que nunca consegui distinguir muito bem, ele pegou no cartão, fotocopiou-o e afixou na parede. Era um louvor e dignificava o jornal, disse. E, na semana seguinte, sem que nada o fizesse prever, dou de caras com o cartão reproduzido no jornal, acompanhado de uma pequena nota elogiosa. Discutimos, acusei-o de violação de privacidade, mas ele, com o seu traquejo de advogado e político, neutralizou-me em segundos, como sempre acontecia quando discutíamos.

Começou assim uma relação entre mim e Agostinho da Silva, que havia de prolongar-se até à sua morte, uns anos depois (3 de Abril de 1994). Trocámos muita correspondência e visitei-o várias vezes na sua casa no Príncipe Real.

Lembro-me da primeira vez que o procurei. Recebeu-me à porta uma vizinha, cujo nome não recordo, que, quando ouviu o meu nome, abriu o rosto num sorriso franco, dizendo:

– Entre, o senhor professor está à sua espera.

Lá dentro, numa sala abarrotada de livros e papéis, e onde dois gatos enormes encavalitados numa estante, pareciam prestes a atacar-me, o professor olhava o Tejo através da janela. Fez menção de se levantar, mas eu acudi dizendo: “deixe-se estar, professor, eu sento-me aí ao seu lado”. Disse-lhe quem era, puxei uma cadeira para junto dele, peguei-lhe nas mãos e ficámos os dois em silêncio durante uns breves minutos. Depois ele acariciou-me o cabelo e começou a falar: – eu sei quem você é, você é uma menina muito inteligente. (Eu já não era propriamente uma menina!). Veja o Tejo ali ao fundo. Quantos séculos a olhar o Tejo, ali onde ele se encontra com o mar?! Os sonhos nascem assim. Os homens sentam-se em frente ao mar e sonham.

Falámos dele, dos grandes projetos que concretizou (a Universidade da Baía, a Universidade Popular em S. João do Campo, perto de Ançã), do que já não sonhava fazer: – já há pouco que eu possa fazer, mas há por aí um batalhão de gente que vai fazer muito comigo.

Falei-lhe também de alguns projetos meus (ser uma jornalista a sério era então o meu projeto) e fomos ficando, ocupando as horas como quem suspende o tempo. E a tarde foi caindo, mansa, sobre a cidade, sobre nós. Veio a vizinha, trouxe-nos um chá e os gatos, confiantes, acasalaram em cima da estante, apesar da censura do professor “não se faz isso diante das visitas”.

Perguntei-lhe se os livros eram tudo o que tinha para se manter ligado ao mundo, pois não vira sinais de um rádio, uma televisão ou um simples gira-discos. Respondeu-me que não precisava de nada disso, porque as notícias lhas levavam os jornalistas que o visitavam e a música… ouvia-a dentro dele e em todos os sons da cidade quando abria a janela. Quando me despedi dele, prometendo voltar em breve, ele chamou-me pelo nome e disse-me: Alice, não faça planos para a vida, para não atrapalhar os que a vida tem para si.

Este conselho de um velho sábio havia de bailar na minha cabeça durante muitos anos. Voltei algumas vezes àquele apartamento no Príncipe Real, ouvi-o muito, sempre fascinada com aquele contar como quem pede desculpa. Custou-me vê-lo partir. Um funeral mediático para um homem que a televisão tinha tornado uma estrela. A sua obra foi quase toda publicada imediatamente após o seu desaparecimento. Digo quase toda, porque eu mesma sou depositária de dezenas de cartas, que qualquer jornalista abutre teria incluído num volume.

Nestes meus dias de silêncio, pensando nos mortos da semana, os anónimos e os que foram tratados pelos nomes, tenho recordado algumas vezes aquelas tardes a olhar o Tejo, aqueles voos nas asas da imaginação do filósofo da liberdade. E compreendi que a sua profecia se cumpria: quando deixei de fazer planos para a vida, a vida presenteou-me com muitas surpresas.  Nem todas boas, mas é uma honra  poder recordar estes encontros e partilhá-los, nesta crónica que é a memória da ausência.

UM LETREIRO EM LÍNGUA POR DECIFRAR

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A questão é a seguinte, bem compreensível: quando os Romanos conquistaram a Lusitânia, os povos autóctones tinham nomes próprios, individuais, e veneravam divindades próprias que invocavam – como nós, hoje, aos Santos e ao próprio Deus – nas mais variadas circunstâncias do quotidiano. Falavam entre si e escreviam. Prova disso são, por exemplo, as estelas, que consideramos funerárias, achadas no Sudoeste hispânico. Estelas que ostentam signos, para nós, por enquanto, indecifrados, pois não sabemos se são fonéticos (cada signo, um som), ideográficos (cada signo, uma ideia, uma abstracção ou um símbolo) ou pictográficos (por exemplo, o Sol ser representado por um círculo com raios).

Parece-nos fácil de compreender o fascínio que terá sido para os indígenas verem os primeiros romanos, com os quais haviam entrado em contacto, mandarem gravar epitáfios em homenagem aos seus mortos ou altares com letras em honra dos seus deuses. E tê-los-ão querido imitar, inclusive latinizando – mais ou menos acertadamente – os antropónimos e os teónimos, ou seja, os nomes das pessoas e os das divindades. A sintaxe (ligação entre as palavras) e a morfologia (a mudança de terminação da palavra consoante a sua função na frase) terão sido, sem dúvida, bem difíceis de entender a princípio.

Ora, a inscrição de Arronches mostra isso mesmo: a tentativa dos indígenas de redigirem um texto à maneira romana, não estando ainda aptos para o fazer.

Como se conhecem mais testemunhos em que essa tentativa está bem patente, a comparação entre esses textos permitiu que ficássemos com uma ideia – ainda que aproximada – da mensagem que então nos quiseram transmitir, perpetuada numa gravação em pedra. Acresce que, na realidade, algumas das palavras aqui exaradas (oilam, por exemplo, ‘ovelha’), nomeadamente as das divindades, já se haviam encontrado noutras epígrafes, pelo que a tarefa, embora não resolvida por completo, nos surgiu facilitada.

Assim, em estreita colaboração com três professores de História da Universidade de Évora – André Carneiro, Jorge Oliveira e Cláudia Teixeira –fez-se um primeiro estudo, o mais exaustivo possível, do monumento, estudo que está acessível neste link.

ORAÇÃO AOS DEUSES

Pode, pois, afirmar-se, em síntese que o texto documenta o sacrifício de animais, designadamente de dez ovelhas, a divindades indígenas – Banda, Reva, Munis, Broeneia… – cujos nomes se fazem acompanhar de epítetos, um dos quais repetido com grafias diferentes (Haracui, Aharacui, Harase), passível de relacionar-se com o topónimo actual, Arronches, na medida em que às divindades se atribuíam, amiúde, características locais, como hoje acontece, nomeadamente com os nomes de Nossa Senhora.

Numa segunda parte, os três dedicantes, que poderão identificar-se como criadores de ovelhas, suplicam às divindades que lhes aceitem os sacrifícios.

Considera-se, por conseguinte, muito viável a hipótese de relacionar esta e as outras epígrafes em língua lusitana – de Lamas de Moledo e Cabeço das Fráguas – com as rotas da transumância logo nos primórdios da dominação romana. Em locais estratégicos para a pausa na caminhada, aproveitava-se o ensejo para, de novo e de modo bem concreto e duradoiro, gravar na pedra o memorial dos sacrifícios feitos para obter as graças divinas.

à esquerda, a pedra do Cabeço das Fráguas, à direita a pedra de Lamas de Modelo

Por curiosidade, transcreve-se a primeira leitura que foi feita, para melhor se perceber do carácter ainda quase exotérico de que essa mensagem se revestia:

A pedra – pela sua importância – foi cedida ao Museu Nacional de Arqueologia.

AS PORCARIAS QUE NOS QUEREM VENDER

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Num futuro próximo, quando quiser ter a certeza de que vai comer um bife de frango, vai querer ver o animal vivo antes.

Nos Estados Unidos, acaba de ser autorizada a produção de carne de frango a partir de células animais. Em Singapura já se produz carne deste modo e sabemos como estes negócios se espalham globalmente, quando o lucro é apetitoso.

Ou seja, a partir de agora, já não é preciso haver frangos no aviário. Basta que se faça a colheita de células de um frango. Depois, em laboratório, procede-se ao cultivo dessas células, à sua multiplicação, até se formar um naco de “carne”. Depois corta-se em bifes, peitos ou fazem-se salsichas. E vende-se.

Para já é frango, mas depressa será vaca e porco, perus e robalos. Qualquer animal de que se possa tirar células para cultivo.

A esta atividade chama-se “cultivar carne”. Parece uma coisa nojenta, mas o ser humano come qualquer coisa.

fonte: Associated Press

A CULPA É DE ISRAEL

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Nestas horas de brasa onde o futuro da Rússia, da Ucrânia e do mundo estão em jogo, escutámos a versão dos radicais muçulmanos sobre os acontecimentos na Rússia, com a rebelião do Grupo Wagner contra o regime de Putin.

A tese muçulmana desloca o conflito para o expansionismo sionista. Tese sustentada pela origem étnica de Prigozhin e Zelensky, ambos judeus. Outro pilar desta tese é o apoio de Putin à resistência palestiniana, a parceria da Rússia com o Irão, a aliança militar e política com o regime da Síria, tudo a provocar imenso desagrado em Israel.

Segundo a Global Resistance News, o primeiro erro de Putin depois de ter lançado a guerra na Ucrânia foi ter aceite poupar a vida de Zelensky, acordo que terá sido estabelecido com o antigo primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett.

Naftali Benneth com Vladimir Putin

Outro argumento a juntar a esta lógica expansionista do sionismo, alegadamente para instaurar na Ucrânia um segundo Estado judeu, está no apoio dos chechenos a Putin. Os chechenos são muçulmanos. São uma das minorias étnicas e religiosas na Federação Russa e, sob este ponto de vista, só faz sentido lutar a favor de Putin se for contra o judaísmo.

Ramzan Kadyrov, Presidente da República da Chechénia

LUÍS ALELUIA partiu

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A morte de Luís Aleluia deixou toda a gente perplexa. Uma surpresa horrível, uma espécie de traquinice insuportável. Quando já se anunciava para setembro um novo espetáculo no Casino de Lisboa, Luís Aleluia não quis esperar e foi-se embora.

Pelo que se sabe da vida deste ator, ele estava num bom momento da carreira. Participava numa telenovela da TVI, tinha o tal espetáculo aprazado para o Casino de Lisboa, talvez não tivesse problemas financeiros. Mas todos temos alguns monstros que vivem nas cavernas do pensamento.

Ficou mais conhecido do público como comediante em programas de televisão. As Lições do Tonecas é a grande referência de que todos falam. Mas para ganhar o pão ao longo da vida ele foi autor, encenador e produtor de espetáculos. Corre-se muito, fica cansativo.

O SUBMARINISTA

Nunca antes Paulo Portas teve tanta concorrência no comentário televisivo, mas a verdade é que ele tem muito mais experiência em submarinos que o próprio almirante Gouveia e Melo. Portas saberia dizer quase tudo sobre submarinos, ou não tivesse sido ele o ministro da Defesa português que encomendou os Trident à Alemanha.

E se Portas soube escolher os Trident é porque estudou a fundo todas as questões que envolvem submarinos.

Ele próprio não escapou às suspeitas (nunca confirmadas) de ter andado a “submarinar” num oceano de comissões corruptoras que, na Alemanha, levaram gente para a cadeia e que, em Portugal, foram ao fundo num instante.

Lembrando o caso, resumidamente, tudo  começou num concurso público para aquisição de dois submarinos da classe Tridente realizado em 2004 pelo XV Governo português. Coisa para 880 milhões de euros. As investigações da polícia alemã foram motivadas pelo alegado pagamento aos decisores portugueses de comissões ilegais, através de um esquema de falsos serviços de consultoria, num montante de 30 milhões de euros. Foi mais ou menos isto, se a memória não nos falha.

A coisa teria envolvido o próprio ministro Portas, o BES (estava em todas), o partido político CDS (que mais tarde também foi ao fundo), entre outros. Nunca se provou nada mas, em Portugal, a opinião pública sempre estranhou haver corruptores condenados a penas de prisão na Alemanha e nenhum corrompido em Portugal…

cartoon de Hélder Dias

PROCURA-SE PATRÃO PROFISSIONAL

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Entrevistador: Boa tarde Senhor, Doutor, Engenheiro, Mestre, Guru, Todo o Poderoso, Príncipe das Trevas, Antônio. Pronunciei corretamente?

Entrevistado: Se pronunciou bem? Esse não é o seu trabalho?! Santa incompetência! Disse Mestre?

Entrevistador: Sim

Entrevistado: Então talvez esteja correto. Mas que não se volte a repetir! Caso contrário irei assegurar-me que amanhã, já não estará a entrevistar candidatos, nem para este cargo, nem para qualquer outro cargo! Mencionou Príncipe das Trevas?

Entrevistador: Creio que sim.

Entrevistado: Crê?! Disse ou não disse?! Você precisa ter uma conversa com o seu patrão, porque isto assim não pode continuar! Venho eu para aqui, gastar o meu tempo e a minha genialidade, para me candidatar a um trabalho altamente bem renumerado e prestigiado e ainda assim, tenho que levar com gente burra!

Entrevistador: Peço imensa desculpa! Peço perdão pelas minhas falhas. Sabe, este é o meu segundo trabalho na área do recrutamento…ainda estou verdinho! Comecei por entrevistar candidatos para Limpadores de Retretes e como não me correu bem, olhe fui despromovido!

Entrevistado: Guarde as suas lamúrias lá para o seu psicólogo e se faz favor, comece a fazer o seu trabalho imediatamente!

Entrevistador: Com certeza! Vamos lá começar. Onde se imagina daqui a dez anos?

Entrevistado: Daqui a dez anos? Daqui a dez anos não lhe sei responder, mas daqui a dez minutos, no fim de me contratar, estou a considerar colocá-lo no olho da rua, o que acha disto?!

Entrevistador: O que posso dizer…check check check! Preenche todos os requisitos atuais necessários para ser um excelente patrão.

Entrevistado: Aí sim? Que descoberta! Olhe preencha lá o que tem a preencher para a minha contratação, mas antes disso…traga me um café com duas colheres de açúcar e um maço de Ventil. O café é sem veneno por favor!

Entrevistador: O café é com ou sem cuspo de colaborador enraivecido?

Entrevistado: Apenas um pouco de cuspo, mas não abuse! Olhe devo dizer que me surpreendeu, o seu cuidado no detalhe do café… Talvez não tenha que o despedir!

Entrevistador: muito obrigado patrãozinho

Entrevistado: Se for capaz de aguentar com o meu mau caráter e prepotência tanto nos dias laborais, como nos fins de semana e feriados, até pode ser que no natal, lhe ofereça uma sandes de leitão, o que lhe parece?

Entrevistador: Parece-me que temos o homem certo para o cargo caro Senhor. Diga-me apenas uma coisa só entre nós, uma vez que estou a colaborar consigo e o vou contratar o patrãozinho não me vai deixar mal, pois não?

Entrevistado: deixá-lo mal?! Isso depende….com cuspo ou sem cuspo?

VIVER NA RUA, EM SINTRA

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São 4 pessoas. Pai, mãe, 2 filhos. Vivem na rua há 5 meses. A Câmara Municipal de Sintra, que terá perto de 200 milhões no banco, não consegue alojar em condições dignas uma família. Por isso vivem na rua.

Tudo aconteceu quando o senhorio lhes aumentou a renda. Não foram capazes de pagar os 900 euros que a casa passou a valer. O senhorio apenas fez o que a lei permite, certamente. A lei é que não presta.

Os serviços da Segurança Social, segundo relatou à SIC Carla Barreiras, a mãe desta família, apresentou uma alternativa à rua que não foi aceite. A família teria de ficar separada, filhos para um lado, pai para outro, mãe longe de todos. Não aceitaram. Antes a rua que tal sorte.

E assim continuam de tenda montada, ali bem perto da igreja de Belas. O inverno já passou e os dias estão amenos. As tendas estão armadas na sombra frondosa das árvores do jardim. Está-se bem, por ali. Até que o inverno volte.

AUTARQUIA INÚTIL

Este caso é mais um exemplo da inutilidade dos serviços da autarquia no apoio aos pobres e a quem fica sem casa. O acolhimento que disponibilizam é em albergues que as pessoas rejeitam, com frequência. Foi o que aconteceu, também, com Manuel Ildefonso. Há 5 anos que vive na rua ou em abrigos temporários em casa de quem não aguenta ver Ildefonso ser vítima constante do assédio violento exercido pela Polícia Municipal, a mando de quem manda.

E lembramo-nos do caso do actor José Lopes, encontrado morto em 2019, na tenda de rua onde vivia, em frente à estação de comboios de Sintra.

Há 5 anos que o decreto-lei 105/2018 regula “a gestão dos bens imóveis destinados a habitação social que integram o parque habitacional da administração direta e indireta do Estado, cuja propriedade é transferida para os municípios”.

Mas, pelo menos em Sintra, o sucesso desta lei não é evidente. Além disso, o município passa por ser um dos mais ricos do país, mas a redistribuição da coleta de impostos não se faz. O autarca prefere acumular riqueza em contas bancárias e depois gaba-se de “eficiência” financeira“. Mas os pardieiros e as tendas montadas na via pública não diminuem.