UM LETREIRO EM LÍNGUA POR DECIFRAR

A laje de grauvaque com letras recolhida no vale da Ribeira da Venda, a norte da vila de Arronches (distrito de Portalegre, Alto Alentejo, Portugal), em 2008, na propriedade designada “Monte do Coelho” constitui um daqueles documentos a que pode atribuir-se valioso interesse histórico. De facto, redigido o texto numa língua que, por facilidade, se tem designado de «lusitana», elevou para cinco o número desses testemunhos singulares.

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A questão é a seguinte, bem compreensível: quando os Romanos conquistaram a Lusitânia, os povos autóctones tinham nomes próprios, individuais, e veneravam divindades próprias que invocavam – como nós, hoje, aos Santos e ao próprio Deus – nas mais variadas circunstâncias do quotidiano. Falavam entre si e escreviam. Prova disso são, por exemplo, as estelas, que consideramos funerárias, achadas no Sudoeste hispânico. Estelas que ostentam signos, para nós, por enquanto, indecifrados, pois não sabemos se são fonéticos (cada signo, um som), ideográficos (cada signo, uma ideia, uma abstracção ou um símbolo) ou pictográficos (por exemplo, o Sol ser representado por um círculo com raios).

Parece-nos fácil de compreender o fascínio que terá sido para os indígenas verem os primeiros romanos, com os quais haviam entrado em contacto, mandarem gravar epitáfios em homenagem aos seus mortos ou altares com letras em honra dos seus deuses. E tê-los-ão querido imitar, inclusive latinizando – mais ou menos acertadamente – os antropónimos e os teónimos, ou seja, os nomes das pessoas e os das divindades. A sintaxe (ligação entre as palavras) e a morfologia (a mudança de terminação da palavra consoante a sua função na frase) terão sido, sem dúvida, bem difíceis de entender a princípio.

Ora, a inscrição de Arronches mostra isso mesmo: a tentativa dos indígenas de redigirem um texto à maneira romana, não estando ainda aptos para o fazer.

Como se conhecem mais testemunhos em que essa tentativa está bem patente, a comparação entre esses textos permitiu que ficássemos com uma ideia – ainda que aproximada – da mensagem que então nos quiseram transmitir, perpetuada numa gravação em pedra. Acresce que, na realidade, algumas das palavras aqui exaradas (oilam, por exemplo, ‘ovelha’), nomeadamente as das divindades, já se haviam encontrado noutras epígrafes, pelo que a tarefa, embora não resolvida por completo, nos surgiu facilitada.

Assim, em estreita colaboração com três professores de História da Universidade de Évora – André Carneiro, Jorge Oliveira e Cláudia Teixeira –fez-se um primeiro estudo, o mais exaustivo possível, do monumento, estudo que está acessível neste link.

ORAÇÃO AOS DEUSES

Pode, pois, afirmar-se, em síntese que o texto documenta o sacrifício de animais, designadamente de dez ovelhas, a divindades indígenas – Banda, Reva, Munis, Broeneia… – cujos nomes se fazem acompanhar de epítetos, um dos quais repetido com grafias diferentes (Haracui, Aharacui, Harase), passível de relacionar-se com o topónimo actual, Arronches, na medida em que às divindades se atribuíam, amiúde, características locais, como hoje acontece, nomeadamente com os nomes de Nossa Senhora.

Numa segunda parte, os três dedicantes, que poderão identificar-se como criadores de ovelhas, suplicam às divindades que lhes aceitem os sacrifícios.

Considera-se, por conseguinte, muito viável a hipótese de relacionar esta e as outras epígrafes em língua lusitana – de Lamas de Moledo e Cabeço das Fráguas – com as rotas da transumância logo nos primórdios da dominação romana. Em locais estratégicos para a pausa na caminhada, aproveitava-se o ensejo para, de novo e de modo bem concreto e duradoiro, gravar na pedra o memorial dos sacrifícios feitos para obter as graças divinas.

à esquerda, a pedra do Cabeço das Fráguas, à direita a pedra de Lamas de Modelo

Por curiosidade, transcreve-se a primeira leitura que foi feita, para melhor se perceber do carácter ainda quase exotérico de que essa mensagem se revestia:

A pedra – pela sua importância – foi cedida ao Museu Nacional de Arqueologia.

3 COMENTÁRIOS

  1. Deveras interessante. Estamos perante as raízes profundas da lusofonia. Os lusitanos, já com séculos de convivência com os romanos, vão “mastigando” o seu linguajar.

    Seja-me permitido questionar o algarismo 5 no início da quarta linha (numeração árabe? nesses tempos?). É que, vendo bem o grafema, pode ler-se como um X.

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