CARANTONHAS FEIAS E ANTIGAS

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1792

Não é rara – antes sedutora – para arquitectos e proprietários a intenção de ornarem edifícios com figurações humanas, inclusive retiradas da mitologia greco-romana.

Notáveis, por exemplo, as casas – sobretudo urbanas – das nossas vilas de primórdios do século XX a ostentarem nos ângulos dos telhados uma estátua de Minerva ou de Marte, amiúde de barro esmaltado, num apelo (dir-se-ia) ao classicismo que não queriam mesmo enjeitar. Tem sido difícil preservar esses toques de antiguidade, perante a onda avassaladora de tendências iconoclastas, segundo as quais nada disso interessa aos nossos tempos, mas algumas ainda vão resistindo.

Certo é, porém, que – aqui e além – nos surpreende ver, ainda bem preservadas, estranhas carantonhas, cujo real significado acabamos por desconhecer. Na verdade, são carantonhas; porventura, isso quereriam apenas significar, nada mais. Um pormenor estético, a que cada qual daria a interpretação que lhe aprouvesse. Pode gostar ou não. Pode, até, ficar indiferente, o que, no entanto, se nos afigura difícil. Diferente é o que vemos nas gárgulas de templos medievais, na cachorrada das cornijas e nas voltas dos arcos de entrada das igrejas românicas: aí, o simbolismo torna-se bem patente e habitual o recurso à representação de seres imaginários. Toda uma panóplia de invenções a obrigar a reflexão.

Por isso também quisemos dar a conhecer carrancas estranhas recentemente encontradas nas nossas deambulações por vetustas aldeias do concelho de Armamar, no distrito de Viseu, integradas em fachadas de edifícios habitacionais viradas para a via pública. 

Na povoação de Cimbres, a carranca entrou tanto no domínio público, decerto pelo seu carácter misterioso, que deu nome à rua – Rua da Carranca – onde se mostra. A casa é tipicamente beirã, de paredes com pedra à vista; de dois pisos, fazendo-se por escadaria exterior o acesso ao piso superior.

Tem no lintel duma das janelas (que são de guilhotina, à maneira tradicional) a data de 1782.

A carantonha (fig. 3) está na esquina e apresenta características da raça negra, atendendo ao desenho das arcadas supraciliares, às fossas nasais largas e à grossura dos lábios. Terá sido pensada mesmo para utilização como elemento decorativo arquitectónico, na medida em que é plana na face posterior.

Em Fontelo, duas cabeças, de traços pouco afeiçoados, estão adossadas, sobre o tubo de escoamento das águas pluviais dos telhados, entre duas casas. Estas são de três pisos, tendo o telhado triangular próprio para dar guarida às águas-furtadas e apresentam-se com um ar deveras senhorial, sugerido pelas amplas varandas de guardas de ferro forjado trabalhadas.

É bem possível que eventualmente tenham sido retiradas dalgum pelourinho, de que poderiam ser o remate. Fontelo teve-o; hoje foi mui singelamente restituído, em linhas geométricas, humildemente encostado a uma parede (quando o pelourinho tinha, por norma, posição central na praça maior da localidade), apenas ostentando uma ‘cabeça’ meio disforme, também ela de feitura antiga.

Aliás, nesse aspecto, não deixa de surpreender a que lobrigámos na localidade de S. Romão, do mesmo concelho de Armamar: ali foi colocada, sozinha e triste, na parede, a olhar para os fios eléctricos que lhe passam ao pé. Donde terá vindo e porque a puseram ali?

Retiradas, pois, dos locais para que foram pensadas, estas carantonhas quiçá mereçam não apenas serem preservadas, mas também um estudo que permita o seu melhor enquadramento no espaço e no tempo. Até lá, continuarão… a despertar curiosidade!

Artigo em co-autoria com José Carlos Santos

3 COMENTÁRIOS

  1. Teresa Meira escreveu, a 29 de junho de 2023 11:29:
    «Intrigada que fiquei com isto, mostrei à minha irmã que é licenciada em História + História de Arte + Bibliotecária e que me respondeu que possivelmente poderá estar relacionado com superstições. Serão espanta-espíritos, afastar maus olhados, coisas deste género …
    Quiçá!».
    Respondi:
    Essa é, na verdade, uma boa hipótese. Designadamente, a do negro, possível representação de um ‘demónio’ (no sentido de espírito maligno).
    O desafio está também, para as gentes da terra, de tentarem saber se há tradição do local donde é que as carrancas vieram, pois se nos afigura que poderão não ter sido pensadas para ali.

  2. De novo um texto que agradeço a José d´Encarnação e que me desperta a vontade de conhecer melhor a vila de Armamar. Só de passagem não conseguimos adivinhar as surpresas que a arquitectura local antiga, civil e religiosa, nos reservam.
    Lembro-me da Igreja matriz, talvez do século XII, ainda ligada aos assessores do nosso primeiro rei, dizem as lendas tecidas em algum período da História.
    Aqui as carantonhas serão um capricho dos proprietários para embelezarem as suas casas (lembro-me que o meu tio-bisavô, construtor e projectista, na sua moradia entre várias em Coimbra, resolveu deixar uma janela manuelina que não condiz com o entorno) mas de facto as figuras “merecem um estudo”, como diz o autor, para se lhes conhecer a origem. E o material de que são feitas deve poder ajudar, calculo eu.

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