NÃO OS DEIXAREI MORRER

Chegou a enjoar-me o destaque mediático dado ao acidente que matou os milionários aventureiros que pagaram milhares de dólares pela extravagância de visitar, no fundo do mar, o monumento evocativo da morte de mil e quinhentas pessoas, no naufrágio do Titanic, em 1912. A comoção mundial gerada por esta notícia amplificada pelas televisões, por contraste com o quase murmúrio mediático sobre a morte de mais umas centenas de migrantes, anónimos, no Mediterrâneo, que nem mereceu notícia em países fora da Europa, por exemplo nos EUA, agoniou-me tanto, que prometi a mim mesma não contribuir para fazer eco da morte de quem tem nome, história e mereceu até pêsames oficiais à família. Mas a morte sempre me suscita memórias dos meus mortos. Eles têm nome. E não os deixarei morrer.

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Alice Marques com Agostinho da Silva. Colagem fotográfica

Foi há muitos, muitos anos. Num dia 22 de Maio. Eu colaborava então num semanário marinhense, O Correio, onde comecei por escrever crónicas, um género mais de opinião e menos jornalístico. Primeiro as Crónicas de Maldizer, uma espécie de olhar crítico sobre o quotidiano nacional, depois as Crónicas da Revolução Francesa, por altura do 200º aniversário da revolução, em 1989. Entre a história e o jornalismo, estes últimos textos valeram-me a elevada estima do então diretor do semanário, o advogado e político, Osvaldo de Castro, que viu neles uma promessa de grande jornalismo. Mas arrancar-lhe um elogio era mais improvável do que cair-me um meteorito em cima da cabeça. Meia dúzia de anos a trabalhar com ele deram direito, apenas, a um quase rogado “excelente”, a propósito da crónica sobre Robespierre, depois eu a rever e corrigir meia dúzia de vezes, à atitude insólita de publicar uma nota pessoalíssima que o filósofo Agostinho da Silva escrevera para mim. E também à promessa de escrevermos, a quatro mãos, as nossas memórias do 25 de Abril. A sua morte precoce aos 67 anos (em 20 de Junho de 2013) inviabilizou este projeto.

A insólita atitude deste exigente diretor, que me ofereceu o meu primeiro livro de jornalismo, começa, como disse, a 22 de Maio dum ano longínquo, dia da cidade de Leiria. Comuniquei na redação que o professor Agostinho da Silva estaria em Leiria , a propósito das comemorações do dia  da cidade e, embora soubesse que notícias do distrito estavam fora do nosso âmbito, eu iria até lá, e, se fosse importante, escreveria qualquer coisa. Fui. Havia um batalhão de repórteres dos jornais locais e regionais, como era de esperar.  Agostinho da Silva tinha sido recentemente redescoberto pelo faro apurado de Miguel Esteves Cardoso, que fez com ele uma série televisiva, “Conversas Vadias”, e o filósofo, até então menor, tinha-se tornado, em poucas semanas, uma TV Star.

Vi-o chegar, sair de um carro preto, acompanhado, ou melhor, amparado, por dois “seguranças”, entrar no Teatro José Lúcio da Silva e dirigir-se ao palco. Pisava o chão com cautela. De fato preto e camisa branca, um rosto miúdo desaparecendo entre os cabelos de neve, ele subiu ao palco como quem pede desculpa por existir. Aquela figura, quase insignificante, no meio de um friso de notáveis (o bispo, o comandante da região militar, o presidente da câmara), começou então a falar. Lembro-me vagamente: uma conversa completamente “vadia”. Saltava do reinado de D. Dinis para Fernando Pessoa e Eduardo Lourenço, da ponta de Sagres para o Brasil, a tentar dar consistência à tese do Quinto Império. Mas recordo-me bem do que pensei: “agora ele está mesmo perdido, não vai encontrar o fio da meada”. Mas qual quê? Habituado ao pensamento caótico, mas abrangente e conceptualizado, mesmo quando parecia totalmente perdido, ele voltava sempre ao ponto de onde partira, tecendo um discurso coerente, consistente, poético e fascinante. Foi assim que o vi. Cá fora falei com dois jornalistas que conhecia. Estavam decepcionados. Não sei muito bem o que esperavam, mas eu, que não esperava nada, só estava decepcionada com eles. Vim para casa e pus-me imediatamente a escrever. À noite, fui ao jornal e entreguei a peça ao diretor. Ele leu e, sem um único comentário, limitou-se a dizer: “pomo-la na última página, não temos mais espaço e não vou desmanchar a maquete para inserir isso noutro sítio”.

Quando o jornal apareceu nas bancas, dei-me conta de que valorizara a peça ao mandar publicá-la em negrito. O texto teve algum impacto entre o escasso clube de fãs do filósofo “menor” Agostinho da Silva. Mas eu estava tão orgulhosa dele (tinha lido tudo o que saíra nos jornais de Leiria e eram todas peças breves, noticiosas, com destaque fotográfico e pouco mais, sinal evidente de que o discurso não fora compreendido, ou, no mínimo, não fora possível aos repórteres transformar aquele delírio numa peça jornalística interessante) que considerei a hipótese de enviar a minha ao filósofo. 

E assim fiz. Escrevi uma pequena nota, dizendo quem era e com as breves palavras: “Professor, ouvi-o em Leiria e fiquei fascinada. O senhor é um visionário”, e enviei-lha com o jornal.

Na semana seguinte recebi um cartão escrito e assinado pela mão de Agostinho da Silva, cujas palavras nunca esqueci:

Minha senhora: recebi o artigo que publicou sobre mim no jornal da sua cidade. Foi a coisa mais inteligente, mais verdadeira e sensível que alguém escreveu sobre mim. Feliz o jornal que a tem, feliz a escola que a tem, feliz o país que a tem”.

Inchei de orgulho, como podem imaginar. E, embora com algum receio, não resisti a mostrar o cartão ao diretor Osvaldo de Castro. Com aquele sorriso entre a ironia e o sarcasmo, que o caracterizavam e que nunca consegui distinguir muito bem, ele pegou no cartão, fotocopiou-o e afixou na parede. Era um louvor e dignificava o jornal, disse. E, na semana seguinte, sem que nada o fizesse prever, dou de caras com o cartão reproduzido no jornal, acompanhado de uma pequena nota elogiosa. Discutimos, acusei-o de violação de privacidade, mas ele, com o seu traquejo de advogado e político, neutralizou-me em segundos, como sempre acontecia quando discutíamos.

Começou assim uma relação entre mim e Agostinho da Silva, que havia de prolongar-se até à sua morte, uns anos depois (3 de Abril de 1994). Trocámos muita correspondência e visitei-o várias vezes na sua casa no Príncipe Real.

Lembro-me da primeira vez que o procurei. Recebeu-me à porta uma vizinha, cujo nome não recordo, que, quando ouviu o meu nome, abriu o rosto num sorriso franco, dizendo:

– Entre, o senhor professor está à sua espera.

Lá dentro, numa sala abarrotada de livros e papéis, e onde dois gatos enormes encavalitados numa estante, pareciam prestes a atacar-me, o professor olhava o Tejo através da janela. Fez menção de se levantar, mas eu acudi dizendo: “deixe-se estar, professor, eu sento-me aí ao seu lado”. Disse-lhe quem era, puxei uma cadeira para junto dele, peguei-lhe nas mãos e ficámos os dois em silêncio durante uns breves minutos. Depois ele acariciou-me o cabelo e começou a falar: – eu sei quem você é, você é uma menina muito inteligente. (Eu já não era propriamente uma menina!). Veja o Tejo ali ao fundo. Quantos séculos a olhar o Tejo, ali onde ele se encontra com o mar?! Os sonhos nascem assim. Os homens sentam-se em frente ao mar e sonham.

Falámos dele, dos grandes projetos que concretizou (a Universidade da Baía, a Universidade Popular em S. João do Campo, perto de Ançã), do que já não sonhava fazer: – já há pouco que eu possa fazer, mas há por aí um batalhão de gente que vai fazer muito comigo.

Falei-lhe também de alguns projetos meus (ser uma jornalista a sério era então o meu projeto) e fomos ficando, ocupando as horas como quem suspende o tempo. E a tarde foi caindo, mansa, sobre a cidade, sobre nós. Veio a vizinha, trouxe-nos um chá e os gatos, confiantes, acasalaram em cima da estante, apesar da censura do professor “não se faz isso diante das visitas”.

Perguntei-lhe se os livros eram tudo o que tinha para se manter ligado ao mundo, pois não vira sinais de um rádio, uma televisão ou um simples gira-discos. Respondeu-me que não precisava de nada disso, porque as notícias lhas levavam os jornalistas que o visitavam e a música… ouvia-a dentro dele e em todos os sons da cidade quando abria a janela. Quando me despedi dele, prometendo voltar em breve, ele chamou-me pelo nome e disse-me: Alice, não faça planos para a vida, para não atrapalhar os que a vida tem para si.

Este conselho de um velho sábio havia de bailar na minha cabeça durante muitos anos. Voltei algumas vezes àquele apartamento no Príncipe Real, ouvi-o muito, sempre fascinada com aquele contar como quem pede desculpa. Custou-me vê-lo partir. Um funeral mediático para um homem que a televisão tinha tornado uma estrela. A sua obra foi quase toda publicada imediatamente após o seu desaparecimento. Digo quase toda, porque eu mesma sou depositária de dezenas de cartas, que qualquer jornalista abutre teria incluído num volume.

Nestes meus dias de silêncio, pensando nos mortos da semana, os anónimos e os que foram tratados pelos nomes, tenho recordado algumas vezes aquelas tardes a olhar o Tejo, aqueles voos nas asas da imaginação do filósofo da liberdade. E compreendi que a sua profecia se cumpria: quando deixei de fazer planos para a vida, a vida presenteou-me com muitas surpresas.  Nem todas boas, mas é uma honra  poder recordar estes encontros e partilhá-los, nesta crónica que é a memória da ausência.

1 COMENTÁRIO

  1. O Professor Agostinho da Silva foi uma das figuras, mais Marcantes do Sêculo 20 Português. Manteve sempre um Pensamento, livre e indomável, jamais comprometendo a sua Independência, ao recusar-se a filiar a Compadrios, Vulgaridades e Rancores, que infelizmente marcam as “Elites” Intelectuais Portuguesas. No Fim Da Sua Vida fez um Programa Notável as Conversas Vadias, em que muitos dos seus Interlocutores foram Desrespeitosos e Invejosos. O Professor Agostinho da Silva deixa um Legado de Respeito e Afecto.

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