CONTA-ME HISTÓRIAS

Há tempo para amar, tempo para morrer e tempo para recordar. Cansada e impotente, face à guerra que continua a inundar os ecrãs com true news e fake news, que não sabemos distinguir, preocupada e igualmente impotente contra o barril de pólvora, imagem da França na última semana, segura de que entre causas estruturais que o explicam há também o falhanço da escola, apetece-me ignorar esse mundo real e refugiar-me nas minhas histórias , sempre entre a realidade e a ficção. Porque o tempo é também "esse grande escultor" das memórias.

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1877

Deixa-me aninhar no teu colo e ouvir as tuas histórias de criança. Fala-me daquele menino que vejo quando olho dentro dos teus olhos. Diz-me a cor do teu primeiro triciclo, conta-me quantas vezes caíste, mostra-me os teus joelhos esmurrados, as calças rasgadas, os “galos” na cabeça. Deixa-me ver a tua primeira bicicleta reluzente, leva-me pelos caminhos por onde andaste. Mostra-me as ruas onde brincaste na tua primeira infância. Conta-me o teu primeiro dia de escola, deixa-me espreitar a tua mochila, os teus lápis, os teus livros, os teus cadernos, as tuas primeiras letras, o teu nome escrito pela primeira vez. Diz-me como era a primeira prenda que deste à tua mãe no dia da mãe e ao teu pai no dia do pai. Apresenta-me a tua irmã, fala-me das brigas que tiveram, dos brinquedos que partilharam, do quarto onde dormiam, dos teus carrinhos, do teu primeiro bibe. Mostra-me os teus retratos de família em cima da cómoda, o da tua primeira namorada, aquele que guardas numa carteira velha. Diz-me a que sabia o teu primeiro beijo, quão forte foi o teu primeiro desejo, o que sentiste na tua primeira vez. Deixa-me ver os retratos que guardas em caixas de sapatos, aqueles em que estás de mão dada com uma das namoradas, aqueles em que estão os dois estendidos na areia da praia. Deixa-me ler as cartas de amor que te escreveram e as que lhes escreveste, e elas, zangadas, te devolveram. Deixa-me cheirar as pétalas de rosa que puseste a secar dentro dos livros, vasculhar as tuas gavetas, tocar os destroços dos objectos que amaste.

Conta-me, com a memória que te deu a tua mãe, quando te nasceu o primeiro dente, quando pegaste sozinho na colher, quando deste o primeiro passo, qual foi a primeira palavra que disseste.

Quando te ouço falar da tua vida antes de mim, dou-me conta de quão pouco sei de ti! Como eram o teu pai, a tua mãe, os teus avós? Já morreram? Onde estão enterrados? Que sonhos sonharam para ti? Conta-me as histórias que um teu avô te contava.

Nas memórias destes momentos de partilha, eu não sei nomear o que sinto, olho para dentro de mim e mal consigo distinguir o que vejo. Lembro-me vagamente de ser menina, de alguns dias de escola, do meu vestido do dia do exame da 4ª classe, do que sonhava ser: artista de circo, depois hospedeira de aviões, depois escritora, depois jornalista! Lembro-me do meu avô materno. Ele queria que eu fosse escritora, por isso, ainda menininha, já eu ia com ele requisitar livros à biblioteca itinerante. Deu-me um mundo fantástico a descobrir, com heróis que se chamavam Ulisses e Aquiles e outros mais estranhos, como Agamémnon, Eneias e Ajax, e com a sua infinita sabedoria foi-me deixando penetrar nos romances de amor de Camilo Castelo Branco, antes de os professores de português torturarem na escola os versos de Camões. Já não estás cá para saber, avô, mas ainda assim deixa-me dizer-te: eu tornei-me uma jornalista, mas continuo a querer ser escritora e ensaio grandes romances nestes fragmentos de discurso amoroso. Sinto-me iluminada por uma luz que me guia na memória da minha vida distante, onde recupero aquilo que tu me dizias: “não percas a capacidade de sentir”. Por isso este texto que agora escrevo é para homens que amei e também para ti.

O circo e os livros foram as minhas primeiras paixões. Percorrendo as veredas e encruzilhadas da memória, revejo-me ainda criança, correndo atrás dos comediantes, o circo dos pobres da minha aldeia, que de tempos a tempos vinha instalar-se no largo da capela da Senhora da Saúde. Fascinavam-me os comedores de fogo, as trapezistas de fatos brilhantes, muito mais do que os palhaços, que nunca me fizeram rir. Gostava do perigo de ser incendiada, do risco de trabalhar sem rede. Nos dias de circo, perder-me a achar-me era na casa do meu avô, ali mesmo no largo, sempre tentando escapulir-me ao seu zelo de professor para me ensinar as contas de multiplicar, aquelas grandes, enormes, que ocupavam a folha inteira do caderno quadriculado e me faziam chorar baba e ranho se a prova dos nove não desse certo. E quando o circo levantava arraiais e partia para outras paragens, era eu que, às escondidas da minha mãe, me pendurava numa escada ou na cancela que dava para o pátio, treinando os exercícios de trapezista, perante o olhar inquieto das ovelhas e o cacarejar das galinhas. Foi num exercício de equilibrismo mal sucedido – guiar uma bicicleta sem mãos – como tantas vezes vira fazer no circo, que parti gravemente a cabeça e fui parar ao hospital. No regresso, as semanas de convalescença proporcionaram-me a descoberta dos livros. Nem o saco de gelo na cabeça, nem a incómoda posição em que me mantinha durante horas, me dissuadiam de mergulhar nos romances de cordel, a literatura sempre disponível lá por casa. Lembro-me de chorar muito com o romance da Ceguinha, um livro em fascículos que a minha mãe guardava longe dos meus olhares indiscretos, mas que eu sempre soube onde estava. Ficava horas a fio, devorando as páginas, até que a sua voz viesse despertar-me daquele torpor ou a noite me impedisse de ver as letras.

-Vem jantar, Alice, deixa o livro – chamava ela.

Mas quando à noite regressava à cama, num quarto sem luz elétrica e num tempo em que o magro salário do meu pai mal dava para o petróleo, regressava também aos caminhos ermos da vida da triste ceguinha que, por nunca ter podido ver o mundo, inventou um para ela, onde todas as pessoas a amavam sem compaixão.

O meu avô, adivinhando em mim um desmesurado gosto pelas letras, continuava a orientar as minhas leituras e a acalentar a esperança de que eu pudesse vir a ser uma escritora, daquelas que ganhavam prémios e tinham a fotografia nos jornais. Só me contou este sonho no leito de morte, tinha eu vinte anos, mas enquanto viveu e eu fui menina, foi-me dando livros emocionantes, para alimentar os meus sonhos e os dele. Foi com os olhos do meu avô que aprendi a ver mundos imaginários e, com a sua voz, que comecei a entender o poder mágico das palavras, que ainda hoje me espanta. Não fiz promessas quando o ouvi contar o sonho que tinha para mim. Mas quando senti a vida dele escoar-se por entre os últimos murmúrios, quando as suas mãos largaram as minhas e eu, já debulhada em lágrimas, só consegui dizer-lhe “adeus avô”, quando senti o arrepio da morte percorrer-lhe o corpo, reentrei, em silêncio, dentro de mim e pensei: não sei se realizarei o teu sonho, mas vou continuar a sonhá-lo.

Depois eu cresci, tornei-me uma jovem rebelde, tive uma primeira vez que não foi, e fiquei grávida, fui mãe aos dezoito anos e fui perdendo o que o meu avô me tinha pedido para não perder – a capacidade de sentir. Nada mais me interessava a não ser ler e aprender, para ter ldeias com I grande, fui-me afastando da terra, da alegria de acordar de manhã, abrir a janela e ver o canavial.

Estive, há algum tempo, sentada num degrau da escada exterior que dava acesso ao sótão da velha casa, onde, às vezes, às escondidas, devorava páginas do romance da Ceguinha. Como me pareceu pequena aquela casinha! E o canavial … afinal meia dúzia de canas da Índia à beira do fio de água que corre ao fundo do quintal. Mas à volta parece que nada mudou – as terras de castanho profundo, num verão ardente. as árvores cheias de frutas, pêras, maçãs, ameixas, pêssegos, que convidam a comer debaixo da sua generosa sombra.

Há quantos anos não me sentava ali? Passaram 40? 50? O que andei a fazer durante todo esse tempo? A ensinar a ler, a pensar, a escrever? A esquecer-me de mim?

Como é possível ter passado tanto tempo sem encontrar um homem que compreendesse o que se passava dento de mim? Um homem com quem pudesse falar de tudo com verdade: dos sonhos (ser isto, ser aquilo, quando for grande), das frustrações (o que não consegui ser), dos medos (de ficar sozinha, de envelhecer, de morrer), das esperanças (amar, ser amada, ser feliz). Mas eu sempre pensei que o tinha encontrado, naquele, no outro, em muitos deles. Dormi com eles, entreguei-lhes o corpo, mas fechei a alma. Apesar de ter gostado deles. Lembro-me de momentos de quase intimidade, de instantes breves de prazer. Quem sabe, de ter sido feliz! Lembro-me da cama, do sexo, umas vezes bom, outras mau, mas nunca senti que umas horas pudessem ser a eternidade. Queria que se fossem embora quando já não havia nada para partilhar. Satisfeito o desejo do corpo eu só queria ficar sozinha e foi assim que comecei a construir a tese do “podem vir, mas não podem ficar para o pequeno-almoço”, embora, de vez em quando até tenha acordado com eles em quartos estranhos de hotel.

Tu não és nenhum deles e contigo quero ser totalmente verdadeira: eu quis que viesses para a minha cama e que acordasses aqui todas as manhãs para o pequeno-almoço. Eu amei ir contigo ao cinema, ver filmes de mão dada e comer pipocas. Eu quis viajar contigo, mostrar-te os lugares que conheço, conhecer os lugares que tu conheces, descobrir contigo lugares desconhecidos.

Foste os meus olhos que de novo se espantaram, os meus dedos que reaprenderam a tactear. Quero viver para continuar a reescrever estas memórias.

Agora estou a lembrar-me dos momentos em que me sentei a olhar o canavial e me vieram à memória fragmentos daquele belo texto, a Nau Catrineta:

Mais enxergo três meninas debaixo dum laranjal

Uma sentada a coser

Outra na roca a fiar

E a outra?

Não me lembro.

Talvez seja eu

A escrever e a chorar.

1 COMENTÁRIO

  1. Bebe-se a leitura a longos e bem deleitosos sorvos. E, no final, apetece-nos ficar quedos, a recordar as três meninas da Nau Catrineta.
    Parabéns, Alice! Sim, vive, Inês, continua a viver – para nos alimentares sonhos nossos que, por vezes, teimam em morrer. E nós não queremos!
    Um beijo!

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