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“QUEM NÃO SABE LER, VÊ OS BONECOS”

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A invenção da escrita esteve inicialmente ligada à religião, e a ela acedia apenas uma escassa minoria de privilegiados na escala social, os escribas, que dominavam os pictogramas. Essas primeiras escritas eram, digamos, “os bonecos”. Mas, ao contrário de mais acessíveis do que os desenhos simplificados, abstratos, os alfabetos, a sua descodificação era inacessível às massas. O exemplo mais eloquente desta inacessibilidade é ilustrado pela famosa Pedra de Roseta que só com 3 sistemas de escrita permitiu finalmente descodificar os hieróglifos. O dito comum, “quem não sabe ler vê os bonecos” manteve forte religiosidade, como pode deduzir-se da exuberante decoração dos templos, nos milhares de anos de analfabetismo das massas.

Igreja de São Francisco, Salvador da Baía, Brasil

Nasci na segunda metade do século XX, numa aldeia beirã, no distrito de Coimbra. Aí vivi até aos 17 anos, idade com que mudei para Coimbra. Daí, após dois anos, parti para a longa caminhada profissional, percorri vilas e cidades, das Beiras ao Ribatejo, até me fixar na Marinha Grande, há 37 anos.

No início dos anos 60, quando comecei a conhecer as letras, havia 3 escolas na minha aldeia, para umas largas dezenas de miúdos.

Quatro dezenas de anos antes, na geração dos meus pais, a escola era uma raridade. A escolaridade mínima era de 2 anos, mas poucas eram as famílias que, percebendo a importância de saber ler e escrever, punham as crianças na escola, mesmo onde as havia.

Contudo, tive um avô, materno, muito à frente do seu tempo. Com duas filhas e um filho, os três frequentaram a escola, sendo a minha mãe a primeira rapariga da aldeia a ir além da escolaridade mínima e fazer a 4a classe.

Fui uma felizarda por ter este avô. Muitas mulheres e homens da minha aldeia, da geração dos meus pais, aprenderam a ler e a escrever com ele, professor até ao tutano, exceto no diploma, que nunca teve. De tudo o que devo a este avô, (que já homenageei no livro, “Volta a vida em vinte livros”), ficou-me também a vontade de ensinar. E foi assim que aos 13/14 anos me tornei também “professora” de algumas mulheres da geração da minha mãe. Já adulta, fui professora de História em escolas secundárias, quarenta e cinco anos, mas pensando, amiúde, que preferia ser professora das primeiras letras.

Das várias mulheres às quais consegui ensinar as letras para escrever o nome, recordo a minha tia Irene, hoje com 92 anos, há muito a viver no Canadá.

Tecnicamente analfabeta, isso não a impediu de ser uma passageira frequente da TAP, entre Porto e Toronto, viajando mesmo sozinha até há bem poucos anos. Admiro a sua capacidade de viver sem saber ler, ainda por cima num mundo onde mal-entende o que ouve, por ser outra a língua a que diariamente está exposta.

Esta situação, na era do audiovisual, faz jus ao dito popular “Quem não sabe ler, vê os bonecos” e à equivalente, muito citada no meio jornalístico, “uma imagem vale mais que mil palavras”.

Foi o meu filho que me fez compreender que ler é, em primeiro lugar, ver, como aliás vem nos dicionários. Tinha ele os seus 3 anos e adorava os bonecos de banda desenhada. Adormecia, muitas vezes comigo a ler-lhe as histórias dos almanaques do Patinhas. Mas não lhe bastava a voz. Mantinha-se de olhos bem abertos  e insistia comigo:- “Os desenhos, mãe! Tens de ver os desenhos, não só as letras. Os desenhos é que têm piada.”

Percebo hoje o quão difícil deve ser viver sem saber ler, quando vejo na TV legendas em línguas de alfabetos não latino. “Os bonecos”, sem palavras que lhe delimitem o sentido, entram numa deriva polissémica que, ao contrário do que vulgarmente se diz, é preciso “ver para crer”, gera uma infinitude de significados que tornam as imagens incompreensíveis. “No comment” é o maior desafio interpretativo, como modelo de noticias sobre as quais não tenhamos qualquer informação para além das imagens.

Saber ler é infinitamente mais complexo do que conhecer o alfabeto, nível elementar da relação entre a fala e o código linguístico. É também muito mais do que ler mensagens do Facebook.  Mas isso é tema para muitos tratados, dos quais evocou e recomendo apenas um, incomparável: “Uma História da Leitura”, de Alberto Manguel.

Os humanos habitam o planeta há mais de um milhão de anos, não são os únicos seres vivos com capacidade comunicacional, mas são os únicos que fixaram em registo escrito os códigos que designamos por línguas. E isso foi apenas há uns escassos milhares de anos.

O fogo e a roda permitiram grandes saltos na evolução humana, mas nada se compara ao que a língua escrita tornou possível. A leitura decorre naturalmente da escrita, mas o inverso não é verdadeiro. A imensa maioria de leitores nunca se tornará escritor. É certamente uma condição necessária, mas não suficiente.

Por isso sempre me indigno quando ouço desvalorizar a escola, onde a leitura e a escrita não podem deixar de ser o mais importante objetivo. E é sem surpresa que, ao consultar pela enésima vez as taxas de alfabetização no mundo, verifico que a fome e toda a miséria dos povos coincidem com as taxas de analfabetismo.

Também sem surpresa confirmo que os países com maiores taxas de analfabetismo são no continente africano. Disputam estes lugares “de topo” com alguns da Ásia. A Índia, dita a maior democracia do mundo, tem uma taxa de 25,4% de analfabetismo (dados de 2020), só superada, no distante oriente, pelo Afeganistão, Bangladesh e Nepal. É o 132º país no índice de desenvolvimento humano, num total de 191 países classificados nesta lista.  Essa “grande democracia” é uma potência nuclear e faz parte dos G20. Mas a dura realidade está fora das estatísticas. Imagens fugazes da Índia, que não chegam para nos estragar o jantar, antecipam como esta democracia se tornará em breve um país inviável para muitos milhões, no qual, em pleno século XXI também milhões de mulheres e crianças fazem diariamente vários quilómetros a pé para se abastecerem de água. País mais populoso do Mundo, a Índia tem mais miseráveis do que todo o continente africano. Terras que a civilizada Europa colonizou! Não deixa de ser chocante o contraste com as taxas de alfabetização (entre os 95% e os 99%) e índice de desenvolvimento humano na China e nas duas Coreias.

Há, porém, uma diferença fundamental: na Índia todos têm direito a falar. A comer, nem tanto. Mas, convenhamos, … é sabido que não se deve falar com a boca cheia!

QUEREMOS CARROS MAIS BARATOS

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Já rolam nas estradas portuguesas os primeiros carros chineses 100% elétricos. Para a maioria dos cidadãos deste país, a coisa resulta numa deceção, em termos das expectativas criadas. Quando todos pensávamos que os EV chineses viriam revolucionar o mercado, rebentando com os preços altos, somos confrontados com valores equivalentes ao normal em carros de luxo. Não está em causa a qualidade, o conforto, a segurança do veículo. Apenas o preço.

BYD Han

Os primeiros três modelos da marca BYD, são o Atto 3 que custa 41 990 euros (o mais barato), o Han e o Tang com preço a começar nos 72 570. Ou seja, continuam a ser carros para burgueses endinheirados ou para empresas que queiram premiar altos quadros. Não serão carros populares.

BYD Tang

Resta-nos esperar que a BYD traga os seus modelos mais baratos, já muito testados no mercado chinês, onde o mais barato ronda os 9 mil euros. Trata-se do Seagull, um veículo semelhante em dimensões ao Dacia Spring (20.400€), mas que promete ficar pela metade do preço.

BYD Seagull

Sim, 10 mil euros será um preço aceitável por um veículo elétrico, sem peneiras nem futilidades. Mas não há data anunciada para a chegada a Portugal destes carros mais baratos.

A GUERRA DOS CÍNICOS

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Se nos limitarmos a receber informação dos media portugueses, se não diversificarmos as nossas fontes de informação, corremos o risco de ficar mal informados. As televisões só enviam repórteres para o lado ucraniano e esses jornalistas não parecem ter nem vontade nem coragem (ética?) para filtrar a informação que lhes dão para ser transmitida. Funcionam como uma espécie de megafone de Zelensky, é a imagem que melhor retrata o que andam por lá a fazer os repórteres portugueses, salvo raras exceções (que nunca mais voltaram à Ucrânia).

Assim, convém ver, ouvir e ler o que se publica noutras paragens, sabendo que só transmitem o que lhes deixam transmitir, seja do lado russo ou do lado americano. Às vezes, vale a pena.

É o caso, parece-me, do artigo publicado no Washington Post, onde se dá conta de uma traficância que se mantém, apesar de todos os pacotes de sanções decretados pela NATO, UE, ONU, etc. A Rússia continua a fornecer petróleo e gás natural à Europa, os pipelines e oleodutos atravessam a Ucrânia e Zelensky não só permite como cobra a sua percentagem do negócio.

Tudo isto é um bocado surreal. Não só a Rússia continua a ter meios de financiar a guerra como a Ucrânia recebe uma percentagem.

O primeiro parágrafo do artigo diz assim: “Apesar da brutal invasão que matou dezenas de milhares de soldados e civis ucranianos e destruiu parte do país, a Ucrânia continua a permitir que o petróleo e o gás russos atravessem o seu território para fornecer países vizinhos – gerando receita para Kiev e para Moscovo.”

O artigo é longo, bastante interessante, ilustrado com mapas dos gasodutos e pipelines que partem da Rússia e atravessam a Ucrânia, para levar energia para as industrias e lares da Alemanha, Polónia e países vizinhos.

Ou seja, o que se passou com o gasoduto submarino russo Nordstream, que foi rebentado com umas cargas de dinamite, é que não interessava que se mantivesse em funcionamento porque não pagava “portagem”. Não passava na Ucrânia.

Apesar da retórica de guerra que traz Zelensky todos os dias para as redes sociais e canais de televisão do mundo ocidental, com apelos de incremento das sanções económicas contra a Rússia e pedidos constantes de mais armas e armas mais poderosas, a Ucrânia justifica esta situação dizendo que “não tem escolha a não ser manter os acordos comerciais”. Segundo o autor do artigo, nos corredores da política europeia, Zelensky tem dito que, assim, consegue ter “alguma influência no Kremlin e que a manutenção em funcionamento dos pipelines e gasodutos evita que os russos ataquem essas zonas da Ucrânia”. É difícil imaginar maior cara-de-pau, diria o Presidente Lula se lhe pedissem para comentar esta situação.

Mas, se estar ao lado de um pipeline é o local mais seguro em toda a Ucrânia, onde seguramente não caem bombas, não se percebe porque razão ainda não vimos nenhum jornalista português explicar isto tim-tim por tim-tim num intrépido direto televisivo.

OS GALOS QUE NOS SAIRAM NA RIFA

A Associação Transparência Internacional Portugal enviou uma carta ao Tribunal Constitucional, a propósito das omissões nas declarações de rendimentos de Luís Montenegro (presidente do PSD).

Além de não ter declarado o valor do imóvel que possui em Espinho, moradia com 6 pisos, elevador privativo e sabe-se lá o que mais, também não explicou a origem do dinheiro da compra, obrigatório dado o valor do imóvel e das obras de remodelação que Montenegro mandou fazer.

O que nos irá dizer o juiz conselheiro José Abrantes? Provavelmente nada. Se a resposta for a mesma quando teve de apreciar o caso de Basílio Horta (ex-CDS, atual PS)…

Basílio Horta, hoje presidente da autarquia de Sintra, esqueceu-se, por lapso, repetidamente ao longo de vários anos, de mencionar a existência de vários milhões de euros nas suas contas bancárias. Da origem desse dinheiro, nunca fomos esclarecidos cabalmente. O juiz conselheiro teve uma conversa com Basílio, terá sido esclarecido sobre as dúvidas quanto à origem do dinheiro, mas publicamente o “milagre da multiplicação” nunca foi explicado.

Todos os dias surgem novas notícias sobre investigações judiciais, políticos sujeitos a medidas de coação, denúncias de compadrios, um corrupio de suspeições que dão do país uma imagem de choldra incomensurável.

Sobre o caso Montenegro, a Transparência Internacional Portugal tornou pública a carta enviada.

Certos de que Montenegro vai sair airosamente deste “irritante”, enviamos uma peça decorativa para o hall de entrada da nova habitação. Um verdadeiro símbolo da portugalidade: o Galo de Barcelos, numa versão do cartunista Hélder Dias.

XANANA GUSMÃO, instinto predador

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O próximo primeiro-ministro de Timor-Leste (vencedor das recentes eleições) está a ser acusado de ser um predador sexual. Durante a campanha eleitoral, Xanana Gusmão foi apanhado a coagir sexualmente várias mulheres. Apalpões nos seios e beijos na boca forçados, em público, é o que mostram as imagens publicadas nas redes sociais de Timor-Leste.

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Código Penal timorense não prevê crime de assédio sexual

No Código Penal timorense não existe crime específico de assédio sexual. Existe o crime de Coação Sexual que determina, no artigo 171.º que: “quem, por meio de violência, ameaça grave, ou depois de, para esse fim, a ter tornado inconsciente ou posto na impossibilidade de resistir, constranger outra pessoa a sofrer ou a praticar, consigo ou com outrem, ato sexual de relevo é punido com pena de prisão de 2 a 8 anos.” Trata-se de um crime público e não depende de queixa.

O que se passou parece não ser suficiente para fazer mover a justiça, em Timor-Leste.

O site DiliGente (jornal online timorense em língua portuguesa) publicou um extenso artigo sobre este assunto, onde informa que questionaram Xanana Gusmão sobre o conteúdo dos vídeos divulgados nas redes sociais, ao que o futuro primeiro-ministro disse: “Não tenho conhecimento sobre esse assunto, porque não tenho Facebook”.

(artigo atualizado em 25/05/2023 às 17h45)

OS ROMANOS ENTRE NÓS

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Impressionou-me – e já várias vezes o referi – a resposta que mui conceituado investigador me deu, quando dele me abeirei a solicitar sugestões para o estudo dos vestígios romanos em Cascais. Era eu um jovem universitário que, nesse ano lectivo de 1965-1966, ousara pensar na hipótese de fazer um trabalho prático para a cadeira de Arqueologia, uma síntese do que então se conhecia acerca do que os Romanos haviam deixado no território cascalense.

            – Mas sobre a arqueologia em Cascais está já tudo feito, menino!

Não afianço ter sido essa a frase e creio que ‘menino’ não era, não, termo que o senhor utilizasse. Fiquei ciente.

E dessa reunião na Pastelaria Versailles saí, como sói dizer-se, com o rabinho entre as pernas, desconsolado em parte, renitente, por outro lado, nessa vontade de ser teimoso. Fui. O meu professor também aceitou o repto e, afinal, lá consegui demonstrar que não, que havia ainda algo a descobrir.

Quando, no passado dia 12 deste mês de Maio do ano da graça de 2023, estive no Museu de Mértola, tanto eu como o catedrático com quem trabalhei na Universidade de Coimbra olhámos um para o outro e confessámos: «Há 30 anos, quem diria que ainda tanto havia para descobrir!…».

Mértola

E a confissão surgira já no dia anterior quando a doutora Inês Vaz Pinto mostrou o que encontrara em Tróia: uma sepultura romana com nichos laterais ocupados por oferendas ainda intactas! Quem o diria, após tantos anos de trabalhos arqueológicos neste que é um dos sítios arqueológicos há séculos conhecidos e estudados! Uma sepultura intacta e com essas características! «Inês», dissemos-lhe, «publica já essa maravilha!».

Maravilha outra foi a que se encontrou em Mértola. Já se deu a conhecer há tempos na Comunicação Social, mas nunca será de mais recordar que, assim aquase por desfastio, o pessoal do Campo Arqueológico de Mértola aceitou ir fazer sondagens de emergência numa casa que ia ser intervencionada. Nada de novo ali se encontraria, decerto, que muito já em Mértola se descobrira.

E o inesperado aconteceu: num buraco, há que séculos haviam escondido estátuas romanas?! Cortaram-lhes as cabeças, como era da praxe, partiram-lhes as pernas, não fossem elas ainda ganharem alma e fugirem, e botaram-nas prá cova!

De olhos esbugalhados, os arqueólogos nem queriam acreditar! E, na verdade, não havia motivo para menos!

Delas se apresenta aqui a imagem de uma, a mais vistosa, seguramente representando o imperador Augusto, o primeiro imperador romano, em seu faustoso traje militar! Tinha-se uma ideia de que imperador era imperador e gostava de se engalanar. Já tal se vira noutras representações. Mas vê-lo agora ressurgir aqui, assim, de farda cheia de baixos-relevos, qual general de agora de peito a impar de condecorações, era… milagre!

Por enquanto, ainda nem se ousou tocar-lhe, que só com todo o cuidado e muita sabedoria se há-de retirar a pátina de que se reveste o mármore de Estremoz / Vila Viçosa tantos séculos enterrado! Contudo, quando essa e as outras estátuas forem levantadas e, em glória, mostradas ao público, então se verá melhor o seu esplendor!

Se amiúde se recomenda «Nunca digas desta água não beberei!», também nas lides arqueológicas cada vez mais estamos conscientes de que jamais está tudo posto a descoberto!

ANA GOMES E O “CRIME” DA PISCINA

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Quando a TVI passou em “Exclusivo” a reportagem sobre a piscina e os anexos da casa de Ana Gomes, em Sintra, a notícia já tinha dias. Era um tema requentado.

O enquadramento feito por Sandra Felgueiras, no lançamento da reportagem, fala em “casa de luxo”, avaliada em 2 milhões de euros, onde foi construída uma piscina que, agora, a Câmara de Sintra obriga a demolir. Sem esquecer que se trata de uma casa construída em plena reserva natural. Um conjunto de factos que adensam a sensação de ilegalidade, aparentemente mais condenável quando se trata de uma figura política de esquerda.

Acontece que estamos a falar de uma herança por falecimento do marido, António Franco. Quando a casa foi adquirida (1993), António Franco e Ana Gomes ainda não eram casados. O que hoje é considerado ilegal, obteve licenciamentos nos tempos dos autarcas Edite Estrela (PS) e Fernando Seara (PSD). Acontece, ainda, que Ana Gomes tem tido notória atividade no combate à corrupção, malhando sem olhar a quem. O que é muito desagradável e lhe tem granjeado muitas inimizades, no seu próprio partido, noutros partidos, no meio empresarial, por todo o lado. Relacionar Ana Gomes a um caso de corrupção, mesmo por herança, é demasiado apetecível para ficar na gaveta.

A TVI não esconde nenhum pormenor desta história e não deixa de ser interessante vermos documentos camarários assinados por Manuel Lage, um funcionário que foi acusado por mulheres agentes da Polícia Municipal de atitudes impróprias no relacionamento hierárquico com elas. Mas isso é outra história, claro.

Hoje, a Câmara de Sintra aceita que houve tratamento de favor no passado e manda demolir. Mas a penalização cai em cima de quem não teve nada a ver com o caso. Os alegados beneficiários do favor camarário já morreram, os autarcas alegadamente alheados do interesse público já lá não estão.

Este caso poderia ter sido denunciado pela própria Ana Gomes, não fossem as circunstâncias familiares que a colocam no olho do furacão. E é isso que torna a coisa tão apetecível. Do mesmo modo que antes houve alegadamente favorecimento, poderá agora haver perseguição.

Ana Gomes vai demolir a piscina, no cumprimento do despacho camarário. Depois, há um caminho jurídico a fazer para ser ressarcida dos prejuízos causados por compadrios alheios. Nessa eventualidade, os atuais responsáveis camarários já lá não estarão para pagar a conta.

NOVA FORMA DE FAZER TURISMO

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Viajar pelo mundo quase sem gastar dinheiro pode parecer uma ideia parva, mas já se transformou num novo negócio.

A ideia é pagar com o corpinho pelo alojamento. Calma! Não é isso. Pagar com trabalho: pintar paredes, cozinhar, passear cães, mudar areia da caixa dos gatos, tomar conta de crianças, regar as plantas, limpar a casa. Enfim, há muitas tarefas possíveis de possibilitarem uma troca vantajosa para ambas as partes. Quem tem espaço em casa, tem quem faça as tarefas necessárias e não precisa de pagar. O hóspede tem quarto e também não paga nada.

A agência Reuters conta-nos a história de Lillian Smith, uma americana de 30 anos que no último ano passou 8 meses a viajar, quase sem gastar dinheiro. Lillian esteve em França, Marrocos, Japão e Coreia do Sul. Nesses oito meses de viagem, só pagou hotel numa única noite.

Este “contrato” de prestação de serviços é mediado através de plataformas online que se especializaram nesta nova área de turismo. Tanto os proprietários das casas como os viajantes têm de estar inscritos e passar pelo crivo da organização que terá de ter garantias suficientes sobre a idoneidade deles.

As diferentes plataformas cobram uma quota anual, que neste momento varia entre os 80 e os 220 euros, pelo serviço que prestam aos dois lados. Se houver muitos interessados, quer em viajar quer em ceder alojamento, é dinheiro em caixa. Se este modo de viajar se popularizar, o turismo local vai ter uma quebra.

NÓMADAS DIGITAIS ESTÃO CONTENTES

No caso de Lillian, ela está inscrita no site TrustedHousesitters.com, que se especializou nesta troca de serviços com animais de estimação, mas não só. O viajante passeia o cão, dá-lhe banho e alimenta-o, escova-o e faz-lhe companhia. Os donos do cão pagam com cama, mesa e roupa lavada. O site cobra uma quota anual de cerca de 150 euros. Mas os oito meses de viagem sem custos de alojamento tornam a quota uma ninharia. Lillian diz que calcula ter poupado mais de 10 mil euros em alojamentos.

Lillian Smith não se importa de fazer serviços domésticos

“Eu cuidei de três gatos e mais de 20 plantas quando estive em Marrocos, de um cão em Tóquio, um cão em Kobe e dois gatos na Coreia do Sul”, diz ela.

A TrustedHousesitters, com sede no Reino Unido, diz que o número de pessoas inscritas aumentou 12% nos últimos três meses, havendo hoje 160 mil inscritos. Fazendo contas, isso dá qualquer coisa como 24 milhões de euros de quotas anuais…

A Nomador.com, uma plataforma de home sitting, com sede em Paris, tem hoje mais 60% de potenciais babás desejosas de visitar a França e de treinar francês com as crianças cujos pais têm mais que fazer.

Os principais viajantes que optam por esta modalidade de alojamento são os chamados nómadas digitais. Durante os últimos anos, fizeram as delícias do Airbnb e alojamentos locais. Mas como passear o cão ou regar as plantas não ocupa o dia inteiro, eles podem juntar o útil ao agradável. Continuam com as suas atividades profissionais online e não pagam casa.

O OCEANO DA ESCRITA

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A Escrita foi uma das maiores invenções da Humanidade e por ela nos encontramos vindos de origens diversas.

Queremos comunicar, mas não podemos identificar escritores entre os escreventes, só pelo facto de todos poderem exibir o símbolo de uma elite.

O escritor pertence a uma elite? Acho que sim, e a exibição do símbolo não garante o estatuto.

Talvez ninguém tenha o direito de julgar os melhores com base em critérios ditos intelectuais (o que serão?) mas há formas de julgamento ligadas à inteligência emocional, que logo tocam um sino, dentro de nós, mal lemos um  texto bem escrito. E o autor pode nem ambicionar ser escritor.

Depois há o acto de julgar por estratégias calculistas que vêm do princípio dos tempos, e servem um, vários grupos. Hoje vivemos em sociedades onde até a Política é ditada pela Economia.  Os “cérebros” que a dominam, pretendem semear a confusão de conceitos, para manter os melhores na sombra. Só lhes importa que o “bem cultural” produzido, venda muito.

Digo melhores, porque eles mesmos, os “cérebros”, nos vão dando indicações através da selecção. O que é imprestável, não incomoda o sistema, pode servi-lo sem atritos.

Começamos a perceber que melhores, neste contexto da Literatura, tem muito a ver com independência.

“A Escrita é para mim como o ar que respiro”, ouvimos dizer tantas vezes, mas poucos assumem que ela pode ser uma necessidade de sobrevivência, decorrente de uma porta que se abriu. E ambas as categorias de escreventes serão capazes de fazer amor com ela, depois de se apaixonarem por paisagens interiores de uma frase, de um texto, ou de um livro.

Mas há sempre uma fractura entre os que nascem predispostos ao êxito imediato a qualquer preço, e os que vão escrevendo à medida das emoções, sem preocupação de se ajustarem a calendários especiais.

Escritor é o que sabe escrever cumprindo as regras gramaticais? Não exactamente. Precisa de conhecê-las, comparar opiniões de nomes celebrizados pelo respeito, mas quando muito caminho se percorre na escrita, as regras podem ser subvertidas por conta da elegância, ou da originalidade.

Tem de saber técnicas específicas para construir frases escorreitas? Talvez algumas. Afinal a vida obedece a regras e hierarquias. Sempre discutíveis, é certo, mas todos temos de alienar a vontade pessoal, a favor de uma serenidade colectiva, ou neste caso de certo rigor formal que não dispense harmonia.

Tem de ler outros autores para poder ter nota positiva na avaliação?

Parece-me essencial conhecer nomes, modos, discursos, se quiser situar-se em algum domínio estilístico e construir a sua comunidade de leitores, o que pressupõe ser avaliado. E aqui para nós, todos querem. Não publicam em livro, não partilham textos nas redes sociais, só para dar voz às vozes interiores. Esperam sempre um retorno positivo.

Vamos considerar a classe que mais importa para a Literatura: a dos escritores descomprometidos, que se assumem como trabalhadores da escrita, depois de ganharem coragem para sair do labirinto do constrangimento. É preciso coragem para a exposição pública.

Os mais livres só podem ser os mais criativos, os tais que, gostando de opiniões de empatia, leram muito, usaram o método comparativo, acabaram por fazer o seu caminho. Fabulosos escritores ditos “rebeldes”, escrevem aquilo que querem, sem esperar loas das agremiações. Às vezes afrontando-as com coragem.

Nem esse caminho é livre de obstáculos. Os lobbies, grupos de pressão e bandos que produzem para a engrenagem do sistema, estão unidos na tarefa de nivelar por baixo. Não  desistem do labor de lhes tapar a boca, porque silenciar é o mais activo método de censura.

Bem acompanhados por especialistas em marketing editorial, munidos do tão falado “capital de relações sociais” na esfera dos poderes, alcançam mais depressa a fama, as vendas, os prémios, importantes porque dão projecção.

O poder que os protege, pode dominar os meios que lhes darão voz, mas jamais lhes poderá fornecer a qualidade literária. E só lamento que as associações culturais não defendam ferozmente os seus membros destas avaliações confusas, porque são sustentadas por eles, nem se organizem de forma a negociar com editoras a publicação de obras meritórias.

Já senti na pele a dificuldade de ver os livros chegarem ao conhecimento do público, mas há muitos anos que tenho editora e o privilégio de ver os meus livros no mercado, sem sobressalto.

Deixo estas palavras em nome dos que ainda produzem textos por amor à Escrita e à Verdade e que talvez morram sem ninguém lhes dar a mão.

As distinções póstumas só servem para apaziguar a consciência de quem as atribui, nunca fazem justiça ao talento de quem parte.

CAVACO PERDEU A MEMÓRIA (ou a vergonha na cara)

O discurso de Cavaco Silva é política pura. Tribalista e cínico. Cavaco finge que nós não sabemos do BPN, dos amigos Dias Loureiro e Duarte Lima, por exemplo, ou da Casa da Coelha. Cavaco aposta na memória curta dos portugueses. Acredita que já nos esquecemos do tempo em que ele governou, também com maioria absoluta, e os escândalos com membros do seu Governo faziam os títulos dos jornais.

Foram tantos escândalos que deram para um jornalista escrever um livro. “Escândalos Políticos em Portugal”, é o título da compilação feita por Bruno Paixão.

O livro de Bruno Paixão, 200 páginas onde se guardaram os escândalos na década de 1990, quase todos de natureza financeira. A ganância pelo dinheiro. O trabalho de Bruno Paixão é interessante, não só pelo relato dos escândalos, mas também porque reflete sobre os interesses que giram à volta dos escândalos, nos partidos políticos adversários e nas empresas de comunicação social. Para uns servem de arma de arremesso, para outros é “produto” que se vende.

Cavaco sabe que a maioria das pessoas não leem livros nem jornais e, portanto, vivem da berraria do momento. Cavaco está a berrar. O problema é que lhe deram oportunidade para isso.

Alcunhado pela esquerda como “a múmia”, Cavaco Silva reaparece episodicamente para prestar uma espécie de prova de vida, sem a qual corre o risco de ser esquecido e “enterrado” politicamente.

cartoon de Hélder Dias