As farmácias estão com enormes dificuldades no atendimento aos utentes. Os funcionários tentam justificar a lentidão e até a impossibilidade de satisfazer os pedidos com problemas no sistema informático. “Estão a modificar umas coisas”, dizem, aparentemente sem saber muito bem o que estão a dizer.
A verdade é que as receitas demoram a ser aceites pelo sistema, se houver duas ou três caixas do mesmo medicamento só permite a dispensa de uma caixa, há casos em que as receitas não são de todo aceites e o utente fica sem conseguir adquirir os medicamentos. A alternativa, caso sejam medicamentos de venda livre, é comprar como se não tivesse receita, pagando mais caro. Nestes casos, os clientes têm a possibilidade de efetuar a compra como “venda suspensa” e, mais tarde, no prazo de um mês, se a receita for aceite pelo sistema, ser reembolsado pelo que pagou a mais.
No momento em que muitos utentes do SNS estão a ver os seus “médicos de família” abandonar o serviço público rumo a um hospital qualquer privado e em que alguns centros de saúde estão com roturas em alguns medicamentos, quando serviços essenciais do atendimento hospitalar, incluindo urgências, estão a funcionar em part-time por falta de médicos, estes problemas com as farmácias reforçam a sensação de desastre iminente.
No decorrer da campanha eleitoral para o exercício de um cargo, o candidato da Roma antiga comprometia-se a pagar de seu bolso alguns melhoramentos. E, findo o mandato, fazia questão em mandar gravar uma inscrição a contar o que fizera.
Assim era: os prometidos benefícios em prol do Povo saíam-lhe do bolso. Por vezes, até se explicitava o montante, para se comparar com a promessa feita. E com bastante frequência o acto benemerente ficava, como se disse, consignado numa inscrição em pedra,
Citem-se, a esse propósito, dois exemplos de Balsa, nome por que era então conhecida a cidade onde, mais tarde, veio a erguer-se Tavira. Balsa teve um circo ou anfiteatro, edifício que foi, de certo modo, o antepassado das nossas praças de toiros. No anfiteatro se faziam combates de gladiadores, se lutava contra feras…
Ora acontece que esse anfiteatro de Balsa foi obra não apenas da administração local mas também de particulares, que para a obra deram a sua contribuição. Um deles, L. Cássio Céler, pagou a despesa da construção de cem pés do pódio do circo. O pódio, como a palavra indica, era uma espécie de palanque onde se sentavam, para assistir aos espectáculos, as personalidades importantes da terra. Mandou gravar uma lápide, que deveria ter sido encastrada nesse pódio e onde estava bem clara a expressão impensa sua, «a expensas suas».
Inscrição do circo de Balsa (atual Tavira)
Ânio Primitivo, por seu turno, candidatara-se e ganhou lugar para integrar um colégio privilegiado da cidade, o dos séxviros, encarregados, de certo modo, da ligação – quase de teor religioso – entre os habitantes da cidade e o imperador romano. Eram os séxviros, eleitos por um ano, pessoas de grande prestígio local. Vaidoso com a honra que lhe fora concedida, quis Ânio Primitivo agradecê-la à deusa Fortuna. Para isso, não esteve com meias medidas e organizou uma batalha naval, possivelmente num dos esteiros entre as ilhotas da costa; promoveu um combate de gladiadores no anfiteatro; e, para terminar a festa, ofereceu prendas aos cidadãos. E mandou gravar inscrição.
Inscrição de Ânio Primitivo
Existiu no século I, em Idanha-a-Velha, um romano bem endinheirado que deu em construir pequenos templos em honra das divindades de que era devoto. Mandou gravar no frontispício deles a inscrição a identificar a divindade («templo de Marte», «templo ao Génio do Município»…), a deixar o seu nome e, no fim, não esqueceu a expressão ex patrimonio suo, «do seu património». Foi ele que pagou, note-se bem!…
Não deixa também de ser curiosa uma outra inscrição, esta de Alcácer do Sal (a romana Salacia). Um dos magistrados locais dera boa conta do recado; e o Povo cotizou-se para lhe mandar gravar a inscrição de homenagem. Soube Lúcio Pórcio Hímero (assim se chamava o magistrado) da intenção do seu Povo; agradeceu-lhe muito e (diz a inscrição em letras gordas) «contente com a honra da inscrição, devolveu a despesa», IMPENSAM / REMISIT!.
Insccrição de Lúcio Pórcio Hímero, em Salacia (atual Álcacer do Sal)
Tudo isto nos veio à cabeça – de facto, «nada há de novo sob o Sol!» –, quando, ao passarmos pela aldeia de Casteição, freguesia de Prova e Casteição, concelho de Meda (distrito da Guarda), reparámos em mui singela inscrição, assim como quem não quer a coisa colocada na face lateral da torre sineira, em frente da igreja matriz, cujo orago é Nossa Senhora da Assunção, que diz o seguinte:
POPULI
EXPENSIS
FACTA
AN . 1829
O escrito – por sinal, também em língua latina – vem, pois, na sequência do que já há dois mil anos os Romanos faziam: «Feita a expensas do Povo. No ano de 1829».
Inscrição na torre sineira da aldeia de Casteição, Meda
Em Longroiva, do mesmo concelho de Meda, há torre sineira também e com inscrição: «Esta torre foi feita pelos irmãos de Gualdim, no ano de 1596». Ruiu em parte na década de 50 do século passado e está reconstruída. Adriano Vasco Rodrigues teve ocasião de a desenhar a torre velha antes da reconstrução e apresentou esse desenho no seu livro Terras da Meda (2ª edição, Meda, 2002, p. 138), que ora aqui se reproduz.
Torre sineira de Longroiva
E pronto. Nós explicamos o que está escrito. Agora, o que está implícito – porque é que o povo se meteu nisto e em que circunstâncias – compete aos historiadores locais irem desencantar lendas, tradições e, sobretudo, documentos que o possam explicar! A Câmara Municipal de Meda publicou, em 2000, a monografia Casteição. Da autoria de Albertino Marques e há, no Facebook, a página «Casteição um Lugar na História», criada em Novembro de 2019.
Em todo o caso, assinale-se, boa manifestação é esta da iniciativa popular. Foi 1829 um ano conturbado, em plena luta entre liberais e miguelistas. Os governantes locais ter-se-ão desentendido ou, devido à crise (!), engonharam de mais para fazer a torre sineira, também ela emblema do poder do Povo – pelo toque dos sinos a rebate se convocavam as gentes – e, então ainda Casteição era concelho, a população avançou. Abençoada! E lá estamos nós hoje, quase 200 anos depois, a aplaudi-la!
O avião era um Antonov russo. A bordo iam algumas toneladas de cereal e roupa velha, o contributo amealhado ao longo de meses de esforços do missionário Renato Kizito. Estávamos no final de 1999, Kizito fazia a sua enésima incursão às Montanhas Nuba, no coração do Sudão. Aquela era uma viagem proibida pelo governo em Kartum. Havia anos que todas as ONG de ajuda humanitária tinham sido expulsas das Montanhas Nuba. O governo não queria testemunhas dos métodos que usava para tentar vencer aquela guerra civil deflagrada 25 anos antes. Quase só o Comboniano Kizito teimava em desafiar a ordem estabelecida. Voámos 5 horas sobre o Sudão, desde Lokichokio, no Norte do Quénia, até ao interior das Montanhas Nuba, em território controlado pela rebelião do Exército de Libertação do Povo do Sudão, o SPLA. O esforço de Kizito era notável, assim como era notável a sua capacidade de organização. Centenas de mulheres esperavam o avião e a preciosa carga que transportava. Os sacos de sorgo e a roupa velha foram carregados na cabeça dessas mulheres, numa longa fila indiana, durante um dia inteiro de caminhada até à aldeia mais próxima. Kizito era o único branco que visitava aquele povo cercado no alto das montanhas pelo exército governamental. Ele ouvia as histórias da guerra e contava as suas histórias de esperança. E dizia àquelas pessoas que o futuro seria mais justo e pacífico. E embora condenasse a guerra, dizia-lhes que tinham direito a lutar pela liberdade.
Lembro-me de assistir às missas de domingo que Kizito celebrava num altar de pedra esculpido pela Natureza. Ele gostava de dizer a missa de noite, ao ar livre, iluminado por archotes e sob uma magnífica abóbada de estrelas. Mesmo para quem anda longe deste tipo de fé, eram momentos mágicos.
Mas o velho missionário tem uma obra vasta. Basta referir o Kivuli Center, um abrigo para crianças de rua. É lá onde Kizito mora, num quarto com vista sobre o pátio onde os miúdos brincam no intervalo das aulas. Dezenas de crianças encontram ali uma casa. Não encontram uma família… embora Kizito seja pai e mãe daquela malta.
Os miúdos têm roupa decente para vestir, têm escola, alguns ainda têm a sorte de aprender uma profissão às custas de patrocínios que Kizito procura obter incessantemente. A falta de dinheiro é a maior aflição do missionário. Dar de comer a dezenas de rapazes, vesti-los e calçá-los, manter o edifício de pé e com um mínimo de goteiras possível, custa uma fortuna. Um dia, Kizito teve uma ideia brilhante. Engatou um amigo de infância, padeiro de profissão, a ir passar uns meses a Nairobi. Já reformado, tempo não faltava ao velho padeiro. Kizito teve o cuidado de o prevenir sobre as condições em Riruta, o bairro degradado onde vive. Mas o amigo foi. O padeiro italiano ensinou os miúdos mais velhos a fazer pão. Belos cacetes de pão italiano que passaram a ser vendidos à porta do Centro, na rua enlameada. O negócio foi um sucesso. O problema, então, passou a ser como garantir os fornecimentos de farinha e fermento, de modo a não falhar na produção. Agora, já sabem. Se forem a Nairobi e se vos apetecer pão quentinho e estaladiço, têm de ir a Riruta, um dos imensos bairros de lata de Nairobi. Os carros dificilmente entram nas ruelas do bairro, mas não há que enganar. Terão de caminhar e… seguir o cheiro a pão fresco. Garanto-vos que será uma experiência e tanto.
Vale muito a pena visitar a página de Renato Kizito no Facebook. É uma viagem de emoções. Para mim, é recordar as circunstâncias em que me relacionei com ele. Uma das reportagens que fiz no Sudão, foi “co-produzida” com Renato Kizito, em 1999. Chamei-lhe “Dignidade”.
Há várias versões sobre as motivações de Trump e a sucessão de eventos. Uma das hipóteses é a de que os seus conselheiros apontaram para o suposto sucesso de Xi Jinping ao decretar bloqueios em Wuhan, tendo a Organização Mundial da Saúde alegado que tal ação havia interrompido as infeções e controlado o vírus. Não obstante, é útil fazer uma cronologia dos acontecimentos que antecederam os confinamentos nos EUA.
O fim-de-semana decisivo
As reuniões da Sala Oval que antecederam o seu edital de 16 de março de 2020 aconteceram no fim-de-semana dos dias 14 e 15, sexta e sábado. Já estava claro no dia 11 que Trump estava pronto para os confinamentos. Este foi o mesmo dia em que Fauci apresentou o seu testemunho ao Comité de Supervisão, inundando a sala com previsões catastrofistas sobre os impactos da pandemia.
No dia 12, Trump fechou todas as viagens da Europa, Reino Unido e Austrália, causando enormes aglomerações de pessoas em aeroportos internacionais. No dia 13, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos emitiu um documento classificado que transferiu o controlo da política pandémica do CDC para o Conselho de Segurança Nacional e, eventualmente, para o Departamento de Segurança Interna. No momento em que Trump se encontrou com Fauci e Birx naquele mítico fim-de-semana, o país já estava perto da lei marcial.
Isolando as datas, parece claro que a mudança de espírito de Trump terá ocorrido a 10 de março de 2020, um dia após o seu tweet a afirmar que não deveria haver paralisações e um dia antes do depoimento de Fauci. Para Debbie Lerman, investigadora do Brownstone Institute, tal revela um facto, no mínimo, perturbador: que a política de gestão da pandemia de Covid-19 não foi forjada pela burocracia da saúde pública norte-americana, mas pelo setor de segurança nacional do estado administrativo. Segundo esta autora, tal fica exposto em duas características críticas da resposta Covid: 1) a crença de que o vírus veio de uma fuga de laboratório e 2) a vacina foi a contra-medida de biossegurança promovida pelas mesmas pessoas como correção.
A hipótese da visita do Conselho de Segurança Nacional
O que se passou nos dias que antecederam os confinamentos nos EUA é um mistério e Donald Trump nunca explicou porque mudou de ideias, preferindo evitar o assunto. O pouco que se sabe resulta dos livros que Brix, Pence e Kushner têm vindo a publicar sobre a pandemia, feitos sobretudo para ganhar royalties. Os investigadores do Brownstone Institute têm reunido informação ao longo dos últimos três anos, a maioria em relatórios de segunda mão, e as pistas disponíveis apontam para o seguinte cenário: a 10 de março, na sequência do tweet desdenhoso, Trump recebeu uma visita de um conjunto de figuras de topo do Conselho de Segurança Nacional.
Segundo a mesma fonte, o grupo terá revelado a Trump a suspeita de que o vírus SARS CoV-2 teria origem num laboratório de pesquisa em Wuhan e poderia ser uma arma biológica. Esta seria a verdadeira razão pela qual Xi Jinping se vira obrigado a tomar medidas extremas de proteção do seu povo e os EUA deviam seguir o mesmo exemplo.
Trump também terá sido informado que o vírus já fora mapeado e que se poderia proceder à conceção de uma vacina para proteger a população, nomeadamente por meio da tecnologia de mRNA. Com 20 anos de pesquisa, a tecnologia de mRNA permitiria lançar um produto em meses, mesmo a tempo de “matar” o vírus chinês antes das eleições. Fazer tudo isto não apenas garantiria a sua reeleição, como Trump entraria para a história como um dos maiores presidentes dos Estados Unidos de todos os tempos.
Donald Trump passou dois anos do seu mandato a impor tarifas à China e a fazer todo o tipo de ameaças. Naquele momento na História, sobretudo sendo pública a cibervigilância que ambas as nações mantêm uma sobre a outra, era credível a hipótese de uma guerra biológica de retaliação. Encostado à parede pelos factos que lhe terão sido apresentados, Trump terá decidido usar a sua posição como presidente para impor um confinamento geral sob o estado de emergência.
Pedro e o Lobo
Foi Scott Atlas, outro conselheiro de saúde pública da administração Trump, que alertou o presidente, já em agosto, de que tinha sido vítima de um jogo de manipulação e que a realidade da pandemia estava longe de ser assim tão espetacular. O mentiroso encontrara-se com o lobo e não havia ninguém por perto para ajudá-lo. Foi o início da sua queda.
Uma das características mais fascinantes deste cenário – que, sublinho, é uma hipótese levantada pela investigação do Brownstone Intitute – é que tivemos Anthony Fauci a negar publicamente a fuga de laboratório, enquanto o circulo de Trump lhe dizia que era uma arma biológica. Fauci estava em ambos os campos da barricada, o que leva a acreditar que ele assumiu perante Trump o papel do “nobre mentiroso”, ou seja, aquele que não queria mais que proteger o público de saber a verdade amarga.
No final, esta situação retirou poder e influência a Donald Trump sob o próprio governo, ditando-lhe a derrota nas eleições. Só lhe restou o apelo à invasão do Capitólio, com as consequências conhecidas. Nem a prometida vacina chegou a tempo. Segundo os mesmos investigadores, tal sucedeu porque o próprio Fauci atrasou o lançamento. Assim, a aposta de Trump falhou completamente, apesar de todas as promessas daqueles ao seu redor de que era uma forma garantida de ganhar a reeleição.
Quando a “ciência” se transformou num slogan
Houve um breve momento na primavera de 2020, apenas 15 dias para achatar a curva, quando houve a oportunidade de mudar de trajetória.
Na terceira semana de março, foi agendada uma reunião secreta de emergência entre o presidente Donald Trump, a Task force COVID e oito dos especialistas em saúde pública mais eminentemente qualificados do mundo. Este grupo de elite de cientistas estava programado para apresentar aos decisores de mais alto nível um ponto de vista alternativo para confinar, uma segunda opinião muito necessária. O que aconteceu? Não se sabe, mas a reunião foi cancelada, apesar dos esforços de John Ioannidis para manter as vias de comunicação abertas.
Escreve Ioannidis:
“O esforço foi criar uma equipa com cientistas de ponta em epidemiologia, saúde pública, política de saúde, ciências populacionais, ciências sociais, redes sociais, modelagem computacional, saúde, economia e infecções respiratórias. Queríamos ajudar a liderança e a Força-Tarefa. A Força-Tarefa tinha cientistas de calibre mundial como Fauci, Redfield e Birx, mas a sua incrível experiência não cobria especificamente estas áreas.”
“Inicialmente comuniquei com uma pessoa da Casa Branca, não há necessidade de criar problemas para essa pessoa nomeando, acredito que essa pessoa fez um esforço bem-intencionado, mesmo que não tenha funcionado. Não sei se a mensagem chegou a Trump ou não e não tenho ideia de quem cancelou a reunião e por que não deu em nada.”
Scott Atlas, especialista em saúde pública que esteve à frente da resposta covid na Casa Branca durante um breve período no verão de 2020, diz no seu livro “A PLague upon our House”:
“Considerando todos os eventos surpreendentes que se desenrolaram no ano passado, dois em particular se destacam. Fiquei chocado com o enorme poder dos funcionários do governo de decretar unilateralmente um desligamento repentino e severo da sociedade – simplesmente fechar negócios e escolas por decreto, restringir movimentos pessoais, exigir comportamento, regular interações com nossos familiares e eliminar nossas necessidades mais básicas. liberdades, sem fim definido e com pouca responsabilidade”.
Para Atlas, “o gerenciamento dessa pandemia deixou uma mancha em muitas das instituições outrora nobres da América, incluindo universidades de elite, institutos e revistas de pesquisa e agências de saúde pública. Recuperar não será fácil.”
Terá sido Trump enganado pelos seus burocratas? Há evidências que Deborah Birx, primeira coordenadora da resposta covid na era Trump (no seu livro “Silent Invasion”) só aceitou o cargo com a promessa de que provavelmente as eleições dariam a vitória aos Democratas, além de que ela própria admite no seu livro que os “15 dias para achatar a curva” foram só o engodo para posteriormente ir aumentando as restrições.
Há também evidências que um agente das agências de informação, Matt Pottinger (que inclusivamente nomeou Birx), foi uma das principais figuras que influenciaram a decisão de Trump, tendo “falado com um médico na China” que lhe confidenciou que a covid 19 estava ao nível da gripe espanhola. Esta informação é confirmada no livro “Rage”, a segunda parte da cobertura de Bob Woodward sobre a administração Trump, publicado já durante a pandemia.
Escreve Michael P. Senger:
“Ao longo de janeiro de 2020, Pottinger convocou unilateralmente reuniões na Casa Branca sem o conhecimento dos presentes e violou o protocolo para aumentar o alarme sobre o novo coronavírus com base em informações de suas próprias fontes na China, apesar de não ter inteligência oficial para apoiar seu alarmismo.
Apesar de não ter formação em ciência ou saúde pública, a partir de fevereiro de 2020, Pottinger embarcou em uma campanha de meses para instar a adoção de mascaramento universal e quarentenas de viagem em resposta ao coronavírus com base em informações de suas próprias fontes na China. No entanto, não parece haver uma única foto de Pottinger usando uma máscara em nenhum lugar da Internet.
Pottinger popularizou a ideia de paralisações na Casa Branca usando um estudo questionável sobre a pandemia de gripe de 1918 comparando os resultados entre Filadélfia e St. Louis, um mês antes de este estudo receber qualquer atenção significativa dos meios de comunicação em 2020.
Pottinger cortejou especificamente Deborah Birx para servir como Coordenadora de Resposta ao Coronavírus da Casa Branca, que então embarcou em uma campanha de meses para bloqueios que foram os mais longos e rígidos possíveis nos Estados Unidos.
Apesar de não ter formação em ciência ou saúde pública, Pottinger parece ter promovido a ideia de testes em massa para o coronavírus.
Pottinger parece ter endossado o uso do medicamento remdesivir como uma possível terapia para Covid com base nas informações de um médico na China.
Pottinger promoveu continuamente a conclusão de que o coronavírus veio de um laboratório e incitou especificamente a comunidade de inteligência dos EUA a fazer o mesmo, independentemente das evidências para apoiar essa conclusão, ao mesmo tempo em que instava a adoção global das medidas de contenção de vírus da China.
Pottinger pode ter simplesmente confiado demais em suas fontes, pensando que eram as pessoas pequenas na China tentando ajudar seus amigos americanos.
O zelo de Pottinger em endossar essas políticas abrangentes é ainda mais desconcertante porque é amplamente conhecido na comunidade de inteligência que o foco principal do PCCh é a guerra de informação – “substituindo seus valores culturais e políticos” pelos do oeste e minando os valores ocidentais que Xi Jinping vê como ameaçador, descrito em seu documento nº 9 vazado : “judiciários independentes”, “direitos humanos”, “liberdade ocidental”, “sociedade civil”, “liberdade de imprensa” e “livre fluxo de informações na internet .”
Trump terá assim dado luz verde aos confinamentos no fim de semana de 14 a 15 de março de 2020, sob a influência de Deborah Birx, Anthony Fauci, Jared Kushner e algumas outras figuras. O estado administrativo – a máquina burocrática não eleita que o cercava e devia aconselhá-lo sobre as diversas soluções possíveis para gerir uma crise – tomou as rédeas duma administração desgovernada e liderou o caminho que conduziu à sua derrota nas eleições e à retoma do comércio com a China. Só a Dakota do Sul resistiu.
Dez dias depois, em 24 de março de 2020, Trump deu uma entrevista à Fox News na qual disse: “Adoraria ter o país aberto e estou ansioso para a Páscoa”. Mas consideremos os factos que se seguiram: Trump concordou com um confinamento de duas semanas, embora não tivesse poder direto para ordenar tal coisa. Então concordou com uma extensão de 30 dias, embora todos os relatos sejam de que estava chateado por o ter feito.
Três semanas depois, com a grande reabertura da Páscoa já passada, alguns governadores republicanos estavam prontos para desistir dos confinamentos. Nesse ponto, 36 dias após o seu pedido inicial de confinamento, Trump veio a público, tanto em uma entrevista coletiva quanto no Twitter, para criticar até mesmo os menores esforços para acabar com os seus próprios confinamentos.
Isto é o que os factos mostram, mesmo que um grande número de pessoas hoje os negue ou finja que não existem.
Em agosto, finalmente, Scott Atlas apareceu na Casa Branca. Atlas explicou virologia básica ao presidente. O economista Jeffrey Tucker argumenta a propósito deste episódio: “ (…) estendendo-se do final do verão até o outono, Trump percebeu plenamente que tinha sido enganado. Mas, em vez de pedir uma reabertura total e buscar o fim do caos que havia desencadeado, ele decidiu que o país deveria seguir em frente. Ele queria esquecer o que havia acontecido, enquanto afirmava periodicamente, sem evidências, que osseus confinamentos salvaram milhões de vidas.”
David Stockman, ex-congressista de Michigan e ex-diretor do Escritório de Administração e Orçamento do Congresso, defende: “Donald era constitucionalmente incapaz de resistir à implementação abrangente e extensão indefinida do estratagema de duas semanas de Fauci e a razão não é difícil de entender. Ou seja, o Donald compactuou com esses ataques devastadores à liberdade pessoal e à propriedade privada porque os acompanhou com alívio fiscal e monetário maciço e medidas de resgate. E embora esses flagrantes “estímulos” fossem um anátema para a doutrina conservadora, eles estavam bem no meio do campo filosófico de Donald.”
Sabia-se desde os primeiros dias que o Covid não era remotamente uma ameaça no estilo da Peste Negra. Além de décadas de conhecimento científico sobre a gestão adequada de pandemias baseadas em vírus, existiam evidências gritantes em tempo real do navio de cruzeiro Diamond Princess. As 3.711 almas (2.666 passageiros e 1.045 tripulantes) a bordo eram sobretudo pessoas de meia idade e idosos, mas a taxa de sobrevivência conhecida em meados de março de 2020 era de 99,7 % no geral e 100 % para aqueles com menos de 70 anos de idade.
Isso mesmo. Em 10 de março de 2020, pouco antes de Donald decidir impor os confinamentos, o navio já havia sido colocado em quarentena por um mês e 3.618 passageiros e tripulantes foram sistematicamente testados e rastreados várias vezes. Entre essa população, 696 ou 19% testaram positivo para Covid, mas 410 ou quase três quintos deles eram assintomáticos. Entre os 8 por cento (286) que adoeceram, a parcela esmagadora era apenas levemente sintomática. Naquela época, apenas 7 passageiros – todos com mais de 70 anos – haviam morrido, número que cresceu ligeiramente nos meses seguintes.
Resumindo, apenas 0,19% de uma população idosa sucumbiu ao vírus. Esses fatos, que eram conhecidos da Casa Branca ou certamente deveriam ser, deixavam absolutamente claro que o Covid não era uma ameaça do tipo Peste Negra.
Não obstante pudéssemos equacionar outra forma de gerir viroses de características pandémicas, nunca houve qualquer razão para uma intervenção abrangente de saúde pública. Muito menos para a mobilização coerciva, dirigida pelo Estado, de quarentenas, bloqueios, testes, máscaras, distanciamento, vigilância, delação e, finalmente, vacinação em massa obrigatória.
Na verdade, estas tecnologias experimentais, desenvolvidas de forma desordenada sob um esquema de subsídio governamental de vários milhões de dólares de Donald, chamado Operação Warp Speed, representaram o que provavelmente foi a medida estatística mais insidiosa de todas. Por design, o programa pretendia interromper a doença por meio de vacinação em massa obrigatória, após um período de teste radicalmente reduzido que não poderia ter provado a segurança ou a eficácia das vacinas.
Os despojos do dia
Há quem defenda que o principal pecado de Donald Trump foi o ter agido contra o Complexo Industrial-Militar que constituiu a base da ascensão da economia americana desde o final da II Guerra Mundial. A Indústria da guerra teria ditado a destituição de Trump em 2018 e o covid foi o pretexto.
Eu defendo que Donald Trump não é um líder, na medida em que agrega seguidores por meio da divisão e não por meio da mediação. Acredito que, face às políticas internacionais americanas, um presidente como ele seria algo que muitos americanos queriam, mas não o que precisavam.
Um líder não pode só falar alto e grosso, tem que ser capaz de ouvir todas as vozes em momentos de tensão e conseguir confiança suficiente para que os seus subalternos o sigam mesmo que não concordem com ele.
Uma burocracia sem líder é um governo de ninguém.
Aqui acabo por concordar com o candidado presidiencial Robert Kennedy Jr: a gestão covid foi um golpe de estado da burocracia à presidência – e Donald Trump não permitiu que o seu ego aceitasse isso.
Há centros de saúde que estão sem medicamentos essenciais para o atendimento aos doentes. No Centro de Saúde de Mafra, por exemplo, alguns utentes queixam-se de que para serem tratados têm de ir às farmácias comprar os medicamentos necessários. Tem sido o caso do injetável Diprofos, normalmente utilizado para tratamento de inflamações dolorosas.
O recurso a este medicamento é banal e, normalmente, os centros de saúde costumam ter stock suficiente para as necessidades. Mas, nos últimos dias (talvez semanas), não tem sido assim. Sem outra solução, os doentes têm de ir à farmácia, comprar o medicamento e voltar com ele para a injeção ser inoculada. As reclamações que escutámos não são motivadas pela despesa (o medicamento custa menos de 3 € com receita), mas se não é caro para um reformado ou um desempregado, também não será caro para o Estado. Trata-se de uma questão de princípio, o centro de saúde tem de ter condições para receber e tratar os doentes ou enviá-los para um hospital.
Esta situação tem ocorrido apenas, que se saiba, no serviço de “atendimento complementar”, que funciona 24 horas, 7 dias por semana, e que serve de amortecedor à procura das urgências hospitalares. Mas, sem medicamentos para as dores agudas, por exemplo, fica difícil evitar que as pessoas não acabem por ir entupir a urgência do hospital mais próximo.
É voz corrente que o SNS vai de mal a pior. Nos media, os médicos protestam, os enfermeiros protestam e os utentes protestam. Os protestos são escutados, quase sempre, quando há greves setoriais ou quando se noticiam encerramentos temporários de maternidades e urgências hospitalares. Mas, agora, a qualidade do serviço está a degradar-se de modo acelerado. Não há uma explicação para a rotura de stock de medicamentos nos centros de saúde. E todos estranhamos que quem gere os stocks não consiga prevenir a rotura.
Este tipo de vandalismo acaba por ser alimentado pelos políticos, neste caso específico por Carlos Moedas, na sua ânsia de cavalgar umas JMJ, já de si com alguma polémica.
Eu só posso considerar a maioria dos actuais governantes impreparados para as funções que desempenham, apesar dos anos nos bancos das faculdades a queimar as pestanas. Nunca lhes ocorreu que o actual panorama político se degradou a tal ponto, que se tornou bipolar. Os liberais, uns mais do que os outros, e os comunistas, uns mais do que outros, sendo que a antiga social democracia de comunista tinha muito pouco. Hoje não há quase centro. Não há um tronco comum assente num Estado forte, laico, intergeracional, socialmente equilibrado, regulador de uma economia que procure o lucro, claro, mas com regras de preservação do ambiente, de diminuição das desigualdades e com responsabilidade social.
Dito isto, em face dos acontecimentos recentes e passados, sobre o comportamento de algum clero, ocultado pelas hierarquias, propor o nome do cardeal patriarca de Lisboa, que, conscientemente ou não, estava na cadeira do poder católico em Portugal, só merece repúdio. O senhor pode até não ter culpa nenhuma. Mas tal como o ministro não tem culpa da queda da ponte, ou do assassinato do emigrante ucraniano, mas tem a tutela política da área da governação onde se desenrolaram os acontecimentos trágicos e, por isso, demite-se, ou deveria fazê-lo, o Cardeal pediu a renúncia. Ou a reforma. Só Moedas não percebe isso.
Achava uma certa piada à personagem, sem preconceitos, ideologias ou ideias pré-formadas. O que conhecia dele era o que transmitiam os programas de televisão, um pouco à semelhança de ver o Marcelo Rebelo de Sousa no noticiário da noite da TVI. Desconhecia por completo o histórico dele como empresário do jogo e personagem mediática, sempre no centro dos fait-divers dos tabloids norte-americanos. O burburinho dos media em torno dele trazia memórias em torno da figura do Bush filho, que “roubara” a eleição ao Al Gore, mas – enfim – a política norte-americana tem sempre a sua dose de espetáculo e este nem era o primeiro presidente a vir do mundo de Hollywood.
Hoje acredito que, sobretudo depois dos confinamentos em Itália, ter Trump ao leme da nação mais poderosa do Mundo foi o que contribuiu para o caos mundial que se seguiu. E afirmo isto porque entendo que, fundamentalmente, Trump não é um líder, antes um chefe que chefia pela divisão, pelo impulso emocional e pelo instinto.
A geopolítica em 2020
Nos inícios de 2020, os EUA e a China estavam no meio de uma feroz guerra comercial, com quase dois anos de círculos de reivindicações, multas e retaliações, bem como negociações que se mostravam infrutíferas. Desde 2018 que a administração Trump impunha tarifas sobre o comércio com a China. Xi Jinping retaliava, tornando cada vez mais difícil para os EUA exportar ou importar da China. Consumidores e produtores de ambos os lados sofreram, mas a China, em particular, viu as suas importações caír bastante a partir de outubro de 2018.
A situação não melhorou com os confinamentos. Trump encerrou as viagens para a China em 31 de janeiro de 2020, pensando que isso manteria fora um vírus que já estava nos Estados Unidos há pelo menos seis meses e ao qual se referia continuamente como “vírus da China”. O resultado foi outro golpe no comércio EUA-China.
O vice-assistente de Anthony Fauci, H. Clifford Lane, foi à China em meados de fevereiro de 2020 para observar como a China, supostamente, esmagara o vírus por meio de confinamentos. Com base num relatório da OMS, instou os EUA a seguirem o mesmo curso. Trump concordou, mediante a insistência de Fauci, Deborah Birx e seu genro, Jared Kushner, bem como do vice-presidente Mike Pence.
O que se seguiu foi a extraordinária recuperação do comércio com a China, principalmente devido à compra de equipamentos de proteção individual (máscaras, luvas, aventais, cotonetes, etc). Este episódio, aparentemente banal na histórica da pandemia de Covid-19, deu início a uma grande recuperação do comércio EUA/China, atenuando, pelo menos momentaneamente, a guerra de gigantes que se travava pela hegemonia global.
A administração Trump
Um dos primeiros livros que surgiram no mercado sobre a administração Trump, “Fire and Fury” de Michael Wolff, criou polémica pelos comentários depreciativos à gestão proferidos por Steve Bannon, nada menos que o homem a quem é apontada a razão da vitória de Donald Trump nas eleições de 2016. O ex-estratega-chefe da Casa Branca esteve pouco tempo no cargo e não poupou nos insultos ao “ex-patrão”.
A este sucederam-se outros tantos títulos a constatar o estado de auto-gestão e desgoverno em que se encontrava a Casa Branca, com o presidente a ser manipulado pela burocracia – o deep state – e os seus próprios secretários de Estados, os quais se sucediam uns aos outros a um ritmo alucinante, sendo contratados e despedidos pelo mesmo impulso furioso. Se Trump não confiava em ninguém, o sentimento parecia ser mútuo, multiplicando-se os jogos de bastidores para “tentar” que o presidente eleito não destruísse o país.
O famoso jornalista Bob Woodward chamou ao seu livro sobre a administração Trump “Fear” (Medo), citando as palavras do próprio presidente quanto ao sentimento que deve ser usado para controlar as pessoas.
Quem lê aquelas páginas, porém, fica na dúvida se quem rodeava Trump tinha efetivamente medo dele, se das consequências das suas ações. Aparentemente ninguém controlava Trump, mas rapidamente aprenderam a controlar o que ele via, ouvia e lia, conseguindo assim condicionar a sua perceção da realidade e, com isso, as suas decisões. A Casa Branca não era por isso, propriamente, um centro de terror, mas antes uma espécie de circo, onde as ilusões e os malabarismos auxiliam o espetáculo do palhaço central.
Esta situação acabou por influenciar as decisões de Trump em relação à China no período da Covid-19, contrariando a postura de distanciamento que vinha definindo até então. Jared Kushner conta o seu lado da história no seu livro “Breaking History”.
“O sistema que estabelecemos na FEMA desencadeou um esforço global de aquisição não visto desde a Segunda Guerra Mundial. Boehler, Smith e a equipe da FEMA entraram em ação, ligando para todos os principais fornecedores médicos do mundo numa corrida para comprar milhões de máscaras, aventais, luvas, cotonetes de teste e outros suprimentos essenciais. Como obtemos suprimentos de todo o mundo, descobrimos que as fábricas com mais suprimentos disponíveis estavam na China. Apesar da abundância de produtos, o governo chinês estava impedindo que os suprimentos saíssem do país. Eu sabia que com o tempo os americanos seriam capazes de fabricar muito do que precisávamos, mas naquele momento não tínhamos tempo a perder.
Precisávamos perguntar ao governo chinês se ele nos permitiria comprar suprimentos, o que significava que precisávamos lidar com a crescente tensão entre nossos dois governos. À medida que o coronavírus passou de um problema localizado em Wuhan para uma pandemia global, a retórica do presidente em relação à China tornou-se cada vez mais antagônica.”
O que fazer? Kushner precisava persuadir Trump a relaxar na sua atitude em relação ao comércio com a China.
“Fui falar com Trump em privado”
“Estamos a lutar para encontrar suprimentos em todo o mundo”, disse eu a ele. “No momento, temos o suficiente para passar a próxima semana – talvez duas – mas depois disso pode ficar muito feio muito rápido. A única maneira de resolver o problema imediato é obter os suprimentos da China. Você estaria disposto a falar com o presidente Xi para desescalar a situação? ”
“Agora não é hora de ser orgulhoso”, disse Trump. “Eu odeio estarmos nesta posição, mas vamos tratar isso.”
Entrei em contacto com o embaixador chinês Cui Tiankai e propus que os dois líderes conversassem. Cui gostou da ideia e fizemos acontecer. Quando eles falaram, Xi foi rápido em descrever as medidas que a China havia tomado para mitigar o vírus . Em seguida, ele expressou preocupação por Trump se referir ao Covid-19 como o “vírus da China”.
Trump concordou em abster-se de chamá-lo assim, se Xi desse aos Estados Unidos prioridade sobre outros para enviar suprimentos para fora da China . Xi prometeu cooperar. Daquele momento em diante, sempre que eu ligava para o Embaixador Cui com um problema, ele resolvia imediatamente.”
Deste modo, logo após os confinamentos dos EUA, Trump ligou para Xi e Xi disse a Trump, novamente, como os confinamentos eram bons, pedindo-lhe que parasse de culpar a China pela situação pandémica. Trump concordou em interromper a retórica de culpabilização da China. Face ao que Trump considerou ser uma emergência, o comércio foi restabelecido com a China.
Algumas das fábricas que fabricavam EPIs na China eram americanas, especialmente uma de propriedade da 3M, uma empresa americana que há muito tempo terceirizava a sua fabricação para a China. Trump ligou para o CEO e pediu os seus EPIs, mas a administração objetou e disse que a China não permitiria. Trump invocou o raramente usado Defense Production Act (1950) e disse que agora a 3M tinha que vender aos EUA os equipamentos de proteção individual.
Kushner continua a história:
Mais tarde, liguei para [Mike] Roman [CEO da 3M) e disse a ele que lhe estávamos enviando um contrato para todas as máscaras da 3M na China.
“Não posso vendê-los para você”, disse ele. “O governo chinês assumiu minha fábrica e está controlando minha distribuição.”
“Isso não é mais problema seu,” eu disse. “É um problema nosso. Sob o DPA, controlamos tecnicamente sua empresa. Vamos enviar-lhe um contrato e a lei federal exige que o assine. Você pode dizer aos chineses que não teve escolha.”
Em trinta minutos, Roman assinou o contrato e as máscaras eram nossas . Agora eu tinha que trabalhar com os chineses para levar as máscaras para a América .
Kushner não diz quanto valia o contrato ou quantos dólares de impostos foram destinados à empresa americana com operações de fabricação na China. Mas ele diz quantas máscaras os EUA compraram: 46 milhões de máscaras por mês durante seis meses.
E a nota final:
Assim que Roman viu que havíamos usado a diplomacia para resolver a situação com o governo chinês e que não pretendíamos tomar o restante de seu suprimento global, ele ficou muito mais agradável. No final, ele e a 3M se tornaram grandes parceiros nossos.
Em retrospetiva, torna-se difícil perceber até que ponto houve uma real crise de saúde pública ou uma crise nos círculos políticos, perdidos nas próprias quezílias imperialistas. A escassez de EPIs não foi diferente da suposta falta de ventiladores: especulações, que impulsionavam soluções frenéticas, que acabavam a procurar um problema para resolver, criando apenas mais caos face a uma generalizada tentativa de não perder força política num confuso panorama internacional.
A desinformação
A subida de Trump ao poder e a guerra comercial com a China acompanhou um contexto informativo onde as redes sociais, dominadas por bots e algoritmos preditivos de comportamento (hoje chamado de Inteligência Artificial), começaram a criar uma confusão generalizada entre o que é a verdade e o que é a ficção. Se por um lado assistimos às velhas táticas do marketing agressivo – uma herança da propaganda política da primeira metade do século XX – a saltar para as plataformas de comunicação digitais, por outro vimos os próprios jornalistas, os supostos cães de guarda da democracia, completamente perdidos nessas mesmas redes digitais. Não por mero acaso, as redes sociais, num padrão que já vinha da televisão e depois começou a ganhar força com os blogues, estão a roubar o negócio aos jornalistas e a confundir completamente as regras do jogo.
Em quem acreditar?
Donald Trump conviveu com os meandros da informação espetáculo desde os anos 80, infiltrando-se nos tabloids como fonte, nos programas de televisão como apresentador e homem de negócio de sucesso e nas redes sociais como voz forte do Twitter. Sabia, por tal, manipular a perceção da realidade para ser noticia. Quando ele apontava “fake news” a um jornalista, o que ele estava de facto a dizer era: eu sei manipular-te, pelo que não venhas agora dizer-me que sabes a verdade. Trump sabia que ele próprio era uma “notícia falsa”, mas isso não impediu que fosse notícia durante 40 anos, ao ponto de se tornar o 45º presidente dos EUA.
Em 2020, face aos caos informativo que ele próprio ajudara a criar, Donald Trump teve finalmente que tomar uma decisão crucial, que definiu a sua administração e ditou a sua derrota no final do ano. Ao confinar, Trump cedeu ao establishment, prova mais que suficiente que ele não é nem nunca foi um líder anti-sistema, antes alguém a querer desesperadamente que o levem a sério. Agiu por instinto num cenário de crise completamente novo e para o qual não tinha referências, fazendo o que julgava ser a melhor atitude para sobreviver.
A questão que podemos colocar é: o que levou efetivamente Donald Trump a confinar se inicialmente apostou na direção oposta?
Deborah Birx relata no seu livro que Trump teve um amigo morto num hospital de Nova York e foi isso que o fez mudar de opinião. Jared Kushner, por seu lado, relata que ele, simplesmente, ouviu a razão. Mike Pence diz que Trump foi persuadido de que, ao confinar, a sua equipa o respeitaria mais. Não parece portanto haver dúvidas (e com base em todos os relatórios existentes) de que Donald Trump se viu cercado por “consultores de confiança” que o conduziram a tomar esta atitude, nomeadamente um grupo de cinco pessoas que incluía Mike Pence e o membro do conselho da Pfizer, Scott Gottlieb. A 23 de junho de 2020, Trump exigia crédito por ter seguido todas as recomendações de Fauci.
É aqui que, acredito, se encontra a verdadeira culpa de Donald Trump, mostrando que ele é o produto por excelência do mesmo sistema de desinformação que afirma criticar. Um bom líder teria procurado informação contrária à que lhe era ditada pelo seu grupo de “amigos”, a fim de tomar decisões em consciência e não por impulso. As decisões de Trump apostaram no imediatismo e no sensacionalismo, acompanhando a desorganização informativa do momento. Num mundo onde não se sabe o que é verdade e o que é mentira, o melhor é seguir a corrente…
Não sei se não aprendi a subversão de valores quando” devia”. A que hoje governa as sociedades, estava diante dos meus olhos desde cedo, mas eu continuava a reger-me por um velho código de princípios que se baseavam no respeito pelo próximo e dispensavam distinção de estrato socioeconómico.
Gerações de pessoas devem lembrar-se de um tipo de convivência comunitária, com carências e muitas lições de vida. A supressão desses valores, ingeridos em dose maciça, apanhou-me desprevenida. Não sei como lidar com ela, ou sem os valores. E se me afecta e dilacera o coração tanta desumanidade e egoísmo, continuo sem saber o que fazer para ajudar à efectiva mudança. Estou numa encruzilhada em que só me ocorre dizer: não vale a pena.
Dá-se a quem não precisa, talvez para aproveitar uma boleia para a fama, ou para não haver misturas. Nega-se a sobrevivência a quem luta por ela desesperadamente. O trabalho e a honestidade são coisas ultrapassadas. Denunciar o que parece uma falácia, é visto com desconfiança. Não se premeiam competência e empenhamento, porque é preciso aproveitar a disponibilidade dos trouxas.
As encenações hipócritas de mérito, que só mascaram a incompetência, são vistas como sinal de inteligência. Simpatia é dizer que está tudo bem contigo. Se não estiver, que estivesse. Gostas de inventar tretas para ganhar mais amizades nas redes sociais.
Impossível fazer um julgamento isento de impurezas, mas ia jurar que a máquina do mal está bem oleada, funciona para homogeneizar todos os comportamentos e triturar a energia de base faz operar mudanças.
Vê se acordas, diz-me alguém…certo é encher o papo de estimação alheia, abocanhar as maiores partes de um bolo comum sem olhar o sofrimento do vizinho faminto. A sorte bafeja os espertos. Esses não respondem ao apoio afectivo recebido, com abraços e beijos. Achas que por lhes cair do céu a sorte aos trambolhões, são obrigados a lembrar-se que gozam o que não é só deles? Era o que faltava…Arrogância é sinal de poder!
Não vale a pena. Valeria se cada um invocasse a sua ponta de egoísmo e quisesse resultados de um trabalho de “reabilitação”. Mas de quem, das entidades responsáveis por um sistema corrompido desde os fundilhos?
Ainda há o costume provinciano de dar esmolas ocasionais, sim porque os pobres não precisam de comer todos os dias. Fazem-se uns espectáculos de arromba, mormente quando altas dignidades visitam o país e fica salva a honra do convento. O problema não é (só) com as dignidades, é com uma oligarquia de vícios que sempre exibiu manobras de diversão para afastar os olhares dos problemas reais.
Ainda que quiséssemos fazer como os espertos, aqueles que perderam o sentido da solidariedade, não podíamos negar que há fome em Portugal. Há homens e mulheres dignos a dormirem na rua. Não deve ser uma forma de fazer turismo cá dentro. É necessidade. Quem tem culpa de não terem casa e meios de subsistência, perguntarão as “entidades responsáveis” … Se não descobriram a resposta até esta altura, nunca estarão aptas a fazer a descoberta do essencial. Nem merecem ser entidades, porque lhes falta a responsabilidade.
Vimos recentemente que os excedentes abundam para insuflar certos egos. Com uma parte mínima dos gastos, podiam fazer-se casas… (que digo eu) …abrigos para os desafortunados dormirem uma noite descansada, depois de comerem uma sopa. Sucumbir ao frio, calcorrear a cidade em estado de subnutrição para encontrar uma luz que lhes aponte a esperança, não será um saudável circuito de manutenção, é um exercício de sobrevivência. As entidades não sabem o que isso é, de rabo apoiado nos estofos de automóveis de frotas substituídas com regularidade.
Há prédios a crescerem em altura, a sufocarem os bairros de habitação mais antigos com casas a precisarem de reforma. E não há casas?… Pessoas e campos essenciais à respiração, vão desaparecendo sob um mundo fantasma com indivíduos dentro de caixas de betão. Sim, as entidades precisam dividir os lucros incalculáveis.
O escritor, jornalista, poeta, pensador uruguaio Eduardo Galeano, lembrava a perversão dos decisores nessas manobras: é preciso construir arranha-céus, para esconder a miséria de autênticos bairros de lata. A miséria e a energia de projectos criativos que por lá proliferam. Na linha do poema épico Martin Fierro, do escritor argentino José Hernández, “o fogo que realmente aquece, vem de baixo”.
O poder não quer, não lhe convém que haja mudança…E se as pessoas, cansadas, vulneráveis, mal pagas, ainda não aprenderam a ser espertas, não vale a pena.
Já há nove petições, a propósito do nome para a ponte pedonal sobre o rio Trancão, na fronteira dos municípios de Loures e Lisboa.
Algumas das petições são ofensivas, outras surpreendentes pela originalidade da proposta. De qualquer modo, a petição com maior número de subscritores é a primeira que surgiu contra o anúncio de que a ponte se iria chamar ‘Dom Manuel Clemente’, o cardeal patriarca de Lisboa.
Neste momento, essa petição tem 17.573 assinaturas de apoio, já ultrapassou o número que obriga a Assembleia da República a receber, discutir e votar o documento.
www.peticaopublica.com em 17 de agosto, às 11 horas.
As razões do protesto estão nos pressupostos do documento, onde se pode ler que “D. Manuel Clemente é um dos nomes que está sob suspeita de ter encoberto pelo menos um crime de abuso sexual de menores por parte de um sacerdote”, suspeita que, segundo os subscritores, “deverá ser suficiente para, pelo menos, se ter algum pejo em se homenagear uma figura que não raras vezes se viu envolto em polémicas de vária ordem.” Além disso, uma vez que se trata de um equipamento público, pago pelo erário público, “que se homenageie quem tenha factualmente marcado a diferença ou sido autor de feitos que mereçam destaque no nosso município”, concluem os peticionários.
Nesta corrida, em 2ºlugar aparece uma petição que saúda e agradece aos autarcas de Lisboa e Loures a ideia de batizar a ponte com o nome do dirigente religioso. Neste momento, esta petição tem 8.083 assinaturas.
“Fica assim para memória vindoura o nome de um grande bispo do Patriarcado de Lisboa, uma instituição histórica do território que compreende as duas cidades ligadas por essa ponte. Dom Manuel Clemente contribui de forma decisiva para a revitalização da sociedade civil católica e teve também uma enorme influência na sociedade portuguesa durante o seu pontificado.”
Estes peticionários lembram que o nome já foi anunciado, ignoram a renúncia do cardeal a tal homenagem, mas fazem notar que até a Câmara Municipal de Loures concordou com o nome avançado pelo edil de Lisboa, Carlos Moedas.
É evidente que os argumentos a favor e contra se dirimem entre estas duas petições, mas outras petições merecem alguma atenção, nem que seja para nos divertirmos com as propostas.
OUTRAS PETIÇÕES
Há várias petições de apoio ao nome ‘Manuel Clemente’, com argumentos laudatórios semelhantes, mas com pouco acolhimento popular. Talvez as atenções dos fiéis estejam mais centradas na petição que surgiu primeiro.
E depois há as petições que sugerem nomes que não provoquem discussão, tipo ‘Ponte da Juventude’, um nome que alude à JMJ, evento que levou à construção da ponte.
E há uma petição que ‘dinamita’ a ideia de batizar a ponte com alguma referência católica…
E há, ainda, uma petição curiosa, que propõe que a ponte se chame ‘Karl Marx’. “Nestes cento e quarenta anos desde o falecimento de Karl Marx, foi possível, em seu nome, atingir enormes progressos sociais, económicos e políticos para os trabalhadores de todo o mundo e em particular, para os portugueses. A decisão de atribuir o seu nome a esta ponte é um justo reconhecimento do seu papel nas sociedades de todo o mundo”, diz o primeiro suibscritor desta petição, ainda solitário nesta pretensão.
Nasceu o Guilherme, o primeiro bebé concebido após a morte do pai, através de inseminação artificial.
Guilherme é fruto de um pedido de Hugo, o pai. Antes de morrer, vítima de cancro, Hugo solicitou a criopreservação do sémen e deixou escrito o desejo de vir a ter um filho com Ângela, mesmo após a sua morte.
Hugo morreu, deixou essa luta como herança a Ângela. Foi uma luta. A lei não permitia, a Igreja torceu o nariz, na Assembleia da República a direita votou contra, mas a maioria de esquerda aprovou a nova lei que Marcelo vetou e teve de ser votada segunda vez. Tardou a ser regulamentada, mas foi. Ângela engravidou, o bebé nasceu. Começa uma outra luta.
Ângela tem um exclusivo com a TVI. O canal já anunciou para breve mais uma reportagem sobre o nascimento da criança. Apenas no Instagram esse exclusivo é quebrado, sempre que Ângela publica novidades.
Logo após o nascimento, foi nesta rede social que a notícia foi dada em primeira mão.
O bebé nasceu no Centro Materno-Infantil do Norte, no Porto. Portugal foi um dos primeiros países a legalizar a inseminação com sémen de progenitores falecidos. Na Europa, só é permitida na Bélgica, Espanha, Grécia, Países Baixos, Reino Unido e República Checa.
Se quiser ver mais sobre esta história, clique nestes dois links: link 1, link 2.