Início Site Página 222

RETRATOS DA VIDA DE ANTIGAMENTE

0

Sobre o sítio arqueológico, que, nos Verões mais recentes, desde 1989, mui pacientemente tem sido escavado, sob a direcção dos dois arqueólogos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, os doutores Amílcar Guerra e Carlos Fabião, muito se tem escrito e explicado.

Mesas do Castelinho, vista aérea

O arranjo museológico de que recentemente foi alvo e que houve oportunidade de dar a conhecer com pompa e circunstância, no dia 5 do passado mês de Novembro de 2022, veio dar maior lustre a um notável vestígio dos finais da Idade do Ferro e primórdios da época romana, que os automobilistas, na sua pressa de irem para o Algarve, vêem anunciado na A2, mas é desvio que vão adiando, adiando…

Teve o sítio «ocupação ininterrupta entre os finais do século V a.C. e os inícios do século II d. C. e, novamente e depois de um longo hiato, entre os séculos IX-XI d.C.», ou seja, já na época de fortificações árabes.

Informação sobre Mesas do Castelinho e alguns dos objectos aí exumados podem ser vistos no Museu Arqueológico e Etnográfico Manuel Vicente Guerreiro, inaugurado a 8 de Agosto de 2025, no coração de Santa Clara-a-Nova, povoação do concelho de Almodôvar.

Não é esta a única instituição museológica do concelho. Porventura, uma das mais faladas (agora em fase de remodelação) será o Museu da Escrita do Sudoeste, onde se mostram as mais significativas e enigmáticas (porque ainda não decifradas) inscrições datadas da Idade do Ferro!

Museu da Escrita do Sudoeste

E há ainda o Museu Severo Portela (inaugurado em 2012) e o do Medronho (2015). Este, no entanto, o de Santa Clara-a-Nova, «transporta-nos», como se diz na publicidade, «para vivências e descobertas, envolvendo emoções e é uma agradável surpresa para quem o visita».

Resulta do empenho que Manuel Vicente Guerreiro (1929-2014) teve, como particular e como autarca, em recolher, ao longo de três décadas, tudo o que se lhe afigurava de interesse para lembrar o que fora – e ainda era – a vida das gentes da sua terra. E que ora mostra através das mais de 300 peças expostas em cerca de mil metros quadrados da casa que foi a sua. O espaço, já disponibilizado para o efeito desde a década de 80 foi alvo de mui cuidada recuperação, num investimento aproximado de 375 mil euros, financiado ao abrigo do Plano de Desenvolvimento Rural (PRODER), sendo «a maior fatia suportada pela autarquia de Almodôvar». O objectivo: «preservar a história local, num misto de contemporaneidade, design e tecnologia».

Deve-se à empresa Glorybox, de Viseu, o excelente projecto museológico, que teve, aqui, a eficiente colaboração da M&A Digital no âmbito da aplicação interativa sobre algumas das principais atrações do Museu: o alambique, os moinhos de ventos e de água, a nora, o palheiro e o vinho de talha. Ainda que Almodôvar tenha o Museu do Medronho (merece ele igualmente uma visita – lá iremos!) a importância do aproveitamento deste fruto salienta-se também aqui, no museu de Santa Clara-a-Nova.

Museu Arqueológico e Etnográfico Manuel Vicente Guerreiro

Um museu vive dos objectos que integram o seu acervo, bem no sabemos; contudo, não é menos importante – eu ia a dizer ‘fundamental’! – o pessoal que o serve. Neste caso, do Museu Manuel Vicente Guerreiro, poder-se-á dizer que a alma-mater é quem aí nos recebe com admirável boa disposição e deixando transparecer por completo todo o encantamento que tem em mostrar essas antigualhas que tanto lhe dizem acerca da vida dos seus avós. Dina Silva, a funcionária do Museu: técnica dos Serviços de Museologia da CMA), bem merece o nosso maior aplauso – no voto de que jamais deixe esmorecer o seu cativante entusiasmo.

E percorremos, de admiração em admiração, as várias salas que reconstituem vivências do Povo pelos meados do século passado.

Museu Arqueológico e Etnográfico Manuel Vicente Guerreiro

Em cada uma se sente a voz d’antanho, porque temos a sensação clara que todos esses objectos, um dia, muitos dias, tiveram vida e até compartilharam alegrias, mágoas, tristezas, festas de aniversário e convívio: a barbearia, a mercearia, a taberna, a casa do povo… Enfim, «as formas de viver na planície e na serra alentejana, as tradições, profissões e atividades rurais»…

Veja-se o recanto onde se mostra como simples calhaus rolados podiam servir de pesos a usar na balança decimal; admire-se a bem sugestiva reconstituição do alambique para o medronho; atente-se no quarto com a cama de ferro, a lanterna na mesinha de cabeceira, o crucifixo e o bacamarte na parede à mão de semear! Quarto que era também o lugar das abluções matinais e onde parcamente se comia na mesa de tábuas. Ao lado, a chaminé, de grande chupão, onde, penduradas, coravam linguiças, chouriças e paios. Depois, o forno de cozer pão, com as alfaias correspondentes…

Apetece ficar por aqui – perpassa-nos o aconchego, pobre sem dúvida, mas autêntico, de vidas vividas, de pão amiúde amassado com lágrimas e suor!

Lições!

Museu Arqueológico e Etnográfico Manuel Vicente Guerreiro

RUSSOS E AMERICANOS AOS BEIJOS E ABRAÇOS

0

Na guerra da Ucrânia, defrontam-se exércitos da Rússia, da Ucrânia e milhares de mercenários de todo o mundo que tanto apoiam um lado como o outro. Os países da NATO, com maior notoriedade para os EUA, apoiam a Ucrânia com armamento, logística, treino militar e “conselheiros” militares que, quando é mais necessário, sempre darão uma mão mais diretamente empenhada nos combates. Como todos sabemos, é uma guerra da Rússia contra a Ucrânia e do ocidente contra a Rússia.

No campo de batalha, ensaiam-se táticas e afinam-se estratégias, verifica-se a eficácia dos armamentos. Os cangalheiros não têm tido descanso.

Mas, se olhássemos para o céu e pudéssemos ver, veríamos russos e americanos, europeus e japoneses a abraçarem-se com genuína alegria.

vídeo NASA partilhado pela agência noticiosa russa TASS

Na verdade, a cooperação internacional na exploração espacial não foi interrompida. Nenhuma sanção chegou ao espaço, russos e americanos continuam a enviar tripulações mistas para a ISS, a Estação Espacial Internacional. Ora vão astronautas americanos em naves espaciais russas ou vice-versa.

Ou seja, sempre há valores mais altos que a guerra.

FALTAM MEDICAMENTOS NAS FARMÁCIAS

0

Informações recolhidas nas farmácias apontam para várias causas para estas falhas. Falta de matéria-prima, é um dos argumentos. Por exemplo, dizem que há problemas como alumínio, fundamental fabricar os invólucros dos comprimidos. Como não se podem vender comprimidos soltos, desprotegidos, não havendo invólucros os medicamentos não são embalados e postos no mercado. A produção de alumínio está afetada pela guerra na Ucrânia.

Outro argumento aponta para razões financeiras dos agentes da cadeia de produção e comercialização de medicamentos. Estamos a falar de empresas que estão contra o mecanismo de fixação de preços de venda dos medicamentos.

Voltando ao exemplo do inderal 40, o preço marcado na caixa é de € 3,86 e, com receita médica do SNS, é vendido ao público a 62 cêntimos.

Segundo a Associação Portuguesa de Medicamentos Genéricos e Biossimilares (APOGEN), “os preços são muito baixos e, como muito baixos, assistimos a roturas de medicamentos”. A presidente da APOGEN, Maria do Carmo Neves, reconhece que é “uma situação problemática” para o utente, acrescenta que são insuficientes aumentos como os de 2022, em que “houve um aumento de 5% para estes medicamentos, mas foi nitidamente insuficiente”.

Nas farmácias, dizem-nos que os armazenistas desviam medicamentos do mercado nacional para destinos no estrangeiro onde lhes pagam mais. Nem parece que estamos a falar de saúde pública. Nem tudo deveria ser motivo de negociatas.

No caso do Inderal, há outro pormenor esquisito: se forem comprimidos de 10 mg não há problema, se forem comprimidos de 40 mg, está sempre esgotado.

No site do Infarmed está escrito o seguinte:

“A garantia do acesso dos cidadãos aos medicamentos de que necessitam assume-se como uma das mais relevantes vertentes do direito fundamental à proteção da saúde. Neste sentido, todos os intervenientes no circuito do medicamento, no âmbito da garantia do dever de serviço público, têm como missão garantir o acesso contínuo e adequado aos medicamentos, sendo, em consequência, também responsáveis por assegurar a disponibilidade aos medicamentos.”

Mas, pelos vistos, não chega dizer. Será preciso agir legalmente contra quem não percebe o que é “dever de serviço público”. Proibir a reexportação de medicamentos essenciais, assegurar o armazenamento de medicamentos essenciais através do SNS, são ideias que talvez pudessem ser executadas.

UM PAÍS DE DESDENTADOS

1

É uma promessa eleitoral que ainda não foi cumprida. A grande maioria dos centros de saúde continua sem médicos dentistas. Há anos que se fala nisto e se prometem mais dentistas no SNS. Mas as expectativas resultam sempre em frustração dos utentes que, se precisam de ir a um dentista, têm de ir a um consultório privado e pagar caro.

Uma consulta para uma simples destartarização não custa menos de 60 euros.

recorte de fatura de um médico dentista

E se for preciso tratar alguma cárie, a coisa ainda fica mais cara.

Recorte de fatura de médico dentista

E se tiver extraído um dente e precisar de colocar um implante, o utente começa a pensar em vender um rim…

Recorte de fatura de médico dentista

A promessa de equipar os centros de saúde com médicos dentistas foi feita por António Costa, ainda em 2015. Dizia então a propaganda que “o XXI Governo Constitucional estabelece como prioridade, no Programa para a Saúde, a expansão e a melhoria da capacidade da rede dos cuidados de saúde primários, designadamente através da ampliação da cobertura na área da saúde oral.”

Mas tem sido difícil cumprir com o prometido. Somos um país de velhos desdentados.

EMOJIS ASSASSINOS

4

Consultando o Google, a propósito de ‘emojis’, encontramos, porventura de imediato, a simpatia da jornalista brasileira Taysa Coelho a explicar:

«Emojis e emoticons são representações gráficas usadas em conversas online, nas redes sociais e em aplicativos como o WhatsApp. Além de adicionarem significado e emoção às nossas palavras, podem substituir efetivamente mensagens curtas».

«Devido ao grande número de ícones», conclui, «pode ficar difícil encontrar o correto para se usar em cada situação. Ou, então, entender os duplos sentidos que acabam surgindo para alguns deles».

Disponibilizou-se, por isso, a reunir numa lista «os significados dos emojis e emoticons mais usados para você não errar mais».

Ficamos gratos e, mui provavelmente, somos até capazes de fixar três ou quatro dos que mais nos agradarem para os começarmos a usar. Toda a gente usa, porque não hei-de eu usar também?

Estudei História, doutorei-me em História e Arqueologia, leccionei Epigrafia Latina e, aposentado, entretenho-me a procurar decifrar inscrições doutras eras e a mostrar não apenas a mensagem escrita, explícita, mas, sobretudo, a que está implícita, o porquê daquele escrito, ali, daquela maneira…

Por isso, comecei a interrogar-me sobre a razão de ser dos emojis (inventados pelo japonês Shigetaka Kurita, nascido em 1972) e dos emoticons (conjunto de caracteres que recriam expressões faciais, com letras do teclado, cuja criação se deve a Scott Fahlman, em 1982, nascido em 1948).

E compreendi a mensagem explícita: a forma expedita de expressar sentimentos, emoções, sem necessidade de palavras.

A mim, assim que começaram a aparecer, fizeram-me logo lembrar os hieróglifos do Antigo Egipto.

Mas achei que deveria ir mais além.

Regozijei, por isso, quando me chegou às mãos, enviado já não sei por quem, o texto que me deu a conhecer a batalha que Christophe Clavé trava, de há uns anos a esta parte. Professor de Estratégia e Administração, presidente de uma empresa de consultoria e investimentos com sede na Suíça, Clavé escreveu o livro As Vias da  Estratégia, apresentado a 10 setembro de 2020, em que não trata de estratégia política e económica, em si, mas da estratégia comunicacional.

O artigo que recebi – e que resume, de certo modo, o seu pensamento – está acessível nas mais diversas línguas e tem sido largamente comentado. No fundo, explica-se que, na actualidade, se regista um cada vez maior empobrecimento da linguagem. Deixaram de utilizar-se formas verbais como o pretérito mais-que-perfeito, o condicional… O vocabulário começou a reduzir-se ao essencial, usa-se primordialmente o presente…

E é aqui que entra o implícito. Quando dominaram Timor, os Indonésios quiseram acabar com o português – e ainda hoje estamos com problemas para que até a língua portuguesa por lá seja entendida. Recordo que recebi na Universidade alunos timorenses e enorme dificuldade houve para os integrar. Quando a Rússia dominou parte da Roménia, impôs o alfabeto cirílico (o romeno é, como se sabe, uma língua românica) e, inclusive, mandou destruir os epitáfios dos cemitérios. Ou seja, a língua é um factor de autonomia, uma força contra a uniformização, uma arma contra a tirania.

Isso explica Christophe Clavé, lembrando, por exemplo, a obra-prima de  George Orwell, 1984, o retrato maior do totalitarismo:

«Sem palavras para construir um argumento, o pensamento complexo torna-se impossível. Quanto mais pobre a linguagem, mais o pensamento desaparece. Aqueles que afirmam a necessidade de simplificar a grafia, descartar a linguagem dos seus “defeitos”, abolir géneros, tempos, nuances, tudo o que cria complexidade, são os verdadeiros arquitectos do empobrecimento da mente humana».

Daí que termine com um apelo aos pais e professores:

«Façamos com que os nossos filhos, os nossos alunos falem, leiam e escrevam. Ensinemos e pratiquemos o idioma nas suas mais diversas formas».

Estou certo de que, se, quando ele escreveu, o uso dos emoticons e dos emojis já estivesse tão na moda como ora está, Christophe Clavé contra o seu uso se teria insurgido acerbamente».

GRAVAR NA PEDRA PARA A ETERNIDADE

4

Depois de ter lido aquela história do «escrito na pedra», em que o povo de Casteição fez questão de mandar gravar que fora ele que fizera a torre, uma colega minha desabafou:

«Estou a dar voltas à cabeça para descobrir como é que posso deixar o meu nome insculpido em pedra. Sempre é mais duradoura a memória».

De facto, é para tornar a memória mais duradoura que se pensa na tal gravação. Aliás, também nesse aspecto os Romanos nos ensinam: quando suspeitavam que poderia acontecer não terem ninguém para lhes perpetuar o nome nem que fosse sobre o sepulcro, encarregavam-se eles próprios do assunto.

Há, por exemplo, cerca de 700 inscrições funerárias romanas em que aparece a frase “se vivo“, em vida. Na cidade de Tebessa, na Argélia, achou-se o epitáfio do pedagogo Gaio Asiático Félix, que morreu com 80 anos e onde se refere expressamente “se vivo domum aeternam fecit“,fez em vida a sua eterna mansão. Numa inscrição do Museu de Navarra, em Espanha, se lê que Porcius Felix Karensis, de 70 anos, «se vivo fecit», fez em vida; aliás, não se poupou a despesas e quis uma epígrafe bem bonita, aqui captada pela câmara de Manolo Ramirez.

Inscrição de Porcius Felix Karensis

Numa inscrição romana de Salerno, Itália, se declara que Lúcio Rénio Crispino fez, em vida, o jazigo «para si e para os seus libertos e libertas e para os descendentes deles»!

Não cause esta atitude admiração porque, ao vermos, num cemitério actual, o de S. Domingos de Rana, o jazigo do carpinteiro Domingos Moreira e Família, ideia que presidiu foi essa: a de preparar, em vida, o lugar da morte.

jazigo de Domingos Moreira e Família

Agora, se, no caso de jazigos e sepulturas, não há o perigo de que as pessoas não venham a morrer, pode ocorrer que instituições morram antes do tempo ou que eventos garantidos não venham a acontecer.

Contou-me o Doutor Jorge de Oliveira, catedrático de Arqueologia na Universidade de Évora, dois casos que tal exemplificam.

A Ditadura Nacional

Chamou-se Ditadura Nacional ao regime iniciado pela subida ao poder do presidente Óscar Carmona, a 25 de Março de 1928.

Tendo nascido com a consciência clara de que poderia durar pouco tempo, na medida em que os ventos nem sempre eram de maré, não quiseram os seus responsáveis deixar créditos por mãos alheias e decidiram meter ombros a algumas obras públicas, designadamente aquelas que o Povo há muito reclamava e que os regimes anteriores haviam postergado.

Estava nesse caso a Escola Prática de Agricultura, que fora criada em 1921, com enorme regozijo por parte da população, por corresponder às reais necessidades da formação de profissionais nesse ramo de tamanha importância no Alentejo. Ora aconteceu que, pouco e pouco, o êxito foi tal que se tornou necessário proceder à ampliação das instalações. As convulsões políticas lançaram o assunto para plano secundário e, por isso, assumido o poder, a Ditadura Nacional quis ir ao encontro das aspirações dos eborenses. As obras depressa se concluíram a contento e, prevendo-se para breve a sua inauguração, mandou-se lavrar esta placa, comemorativa da ambicionada ampliação do edifício da Escola Agrícola de Évora, actual Universidade de Évora, no denominado Conventinho da Mitra:

EDIFICIO AMPLIADO
SOB O GOVERNO DA
DITADURA NACIONAL
ANO DE 1933

Sucedeu, porém, que, entretanto, Salazar logrou apressar também os trabalhos preparatórios da nova Constituição, que acabaria por entrar em vigor a 11 de Abril de 1933, dia em se publicou, no Diário do Governo, a acta da assembleia geral de apuramento dos resultados, largamente favoráveis, do referendo submetido à vontade popular. Pressa daqui, pressa dali – a inauguração da ampliação do edifício da Escola Agrícola acabou por fazer-se sem pompa nem circunstância, porque o tempo já era outro e a Ditadura já assim se não chamava. A lápide da Ditadura Nacional ainda chegou a ser colocada na fachada da antiga Escola Agrícola, no Conventinho da Mitra, e aí se manteve até às obras de requalificação do edifício por parte da Universidade de Évora, na década de 80. O que se faz à pedra? – perguntaram os pensadores arquitectos e engenheiros! Entregamo-la ao Jorge das arqueologias.... e a placa jaz, hoje, tristonha e desconsolada, com a data de 1933, no Laboratório de Arqueologia da Universidade de Évora!...

A grande caçada!

Está no Museu Municipal de Marvão uma lápida que diz o seguinte:

NESTE POSTO SE ALO-
JOU SUA MAJESTADE
EL-REI D. CARLOS I
EM MARÇO DE 1907
PARA O ENCONTRO NU
MA CAÇADA NA RAIA,
COM EL-REI DE ES-
PANHA D. AFONSO XIII
HOMENAGEM DO MUNICIPIO
DE MARVÃO, NA PASSAGEM
DO 8º CENTENÁRIO DA SUA
TOMADA AOS MOUROS POR
 D. AFONSO HENRIQUES

Está certo: aí, no posto fiscal dos Galegos, pernoitou el-rei. Sucede, no entanto, que – por inesperados motivos de segurança (Afonso XIII estava a ser alvo de atentados por parte das hostes republicanas) – Sua Majestade espanhola não viria a participar na caçada, que se realizou, sim, não na Raia, mas sobretudo em território espanhol, sendo el-rei D. Carlos I acompanhado por titulares espanhóis e portugueses.

Antecipara-se a Casa de Bragança a querer perpetuar uma efeméride, acrescentando a patriótica nota sobre o 8º centenário da tomada de Marvão aos Mouros; mas a placa – de excelente mármore de Estremoz, em bonitas letras doiradas – não foi colocada onde estava previsto e jaz hoje no museu a contar uma outra história.

Valerá a pena relembrar, a propósito, quanto os dois monarcas estiveram, de facto, envolvidos na promoção dessa zona fronteiriça, na medida em que se havia compreendido a importância da via férrea que por aí passava, na ligação de Lisboa a Madrid, via inaugurada com pompa e circunstância, em Valência de Alcântara, a 8 de Outubro de 1881.

Mas essa é, na verdade, uma outra história que, mui circunstanciadamente, Jorge de Oliveira, juntamente com António Mimoso e Filomena Torres, contam nas páginas 167-196 das Memórias das Freguesias de Santo António das Areias e Beirã, um número especial da revista Ibn Maruán, publicadoem 2021.

Letras doiradas, estas, que ora também doiram os meandros de uma história que não chegou a acontecer!

JORNALISTAS ESPIÕES

0

Um velho programa de manipulação das opiniões públicas, do tempo da Guerra fria, continua a ser executado hoje pela CIA. Trata-se da “Operação Mockingbird”. Um dos candidatos à Presidência dos EUA, o democrata Robert F. Kennedy Júnior, denuncia esta situação e promete acabar com ela, se chegar à presidência.

vídeo

AVIÃO DE PRIGOZHIN DESPENHOU-SE

0

Dois meses depois da rebelião armada contra Putin, na véspera do dia nacional da Ucrânia, Yevgeny Prigozhin terá morrido. Um avião onde um dos mais importantes líderes do Grupo Wagner estaria, despenhou-se esta tarde algures entre Moscovo e São Petersburgo.

Comunicado do Grupo Wagner às 18.44 publicado na rede Telegram, não confirma a morte de Prigozhin

A ser verdade (à hora a que escrevemos, o Grupo Wagner ainda não confirmou nada sobre a identidade de quem ia a bordo), há quem esteja a celebrar. Tanto pode ter sido um atentado ucraniano, com uma bomba a bordo, como pode ter sido a execução de uma ordem da estrutura do Estado russo. Prigozhin tinha andado a amealhar inimigos nos altos comandos militares russos e Putin não parece ser um tipo que esqueça afrontas como a que Prigozhin fez há dois meses. Não esquecer que Zelensky tinha prometido algo espetacular para estes dias em que o país comemora o seu “Dia da Bandeira”.

Como não há fumo sem fogo, é bastante provável que Prigozhin tenha morrido. Já quanto à autoria do atentado, será difícil alguma vez virmos a ter certezas absolutas.

Fontes próximas do Grupo Wagner e dos meios russos, dizem que Prigozhin estaria mesmo a bordo do avião abatido e que a bordo iria também Dmitry Utkin, o fundador do Grupo Wagner. Mas falta a confirmação destes rumores.

MARCELO COM ZELENSKY

0

Marcelo já está com um pé na Ucrânia. Deve ser dos poucos chefes de Estado que ainda não tirou uma fotografia com Zelensky em Kiev. Ora, sendo Marcelo o “rei” das selfies, essa falha estava a manchar a sua reputação. Zelensky é mais vídeos, mas já terá sido avisado pelo protocolo que não se safa de uma selfie, ou duas, com o Presidente português.

Lá vai ele. Quando saiu de Lisboa, era para ir só de visita à Polónia. Mas sendo a Ucrânia ali mesmo ao lado… Marcelo, homem prevenido, já levou com ele o Grande-Colar da Ordem da Liberdade, que vai pendurar ao pescoço do Presidente ucraniano. Não temos F-16 para oferecer, mas temos paletes de comendas e medalhas.

Agora, fora de brincadeiras, a visita estava mais do que planeada para esta altura. Os serviços de segurança da Ucrânia e a agenda assoberbada de Zelensky, mais a frenética existência de Marcelo, fizeram com que o encontro fosse marcado para agora, aproveitando a deslocação do Presidente português à Polónia.

Vai ser um fartote de abraços e selfies. Pena não haver praia em Kiev, para Marcelo se sentir peixe na água.

POLÍTICA DA GUERRA – MENTIRA E ABUSO

0

Como todos sabemos, o Iraque foi invadido e destruído por uma alegação falsa de que o regime de Saddam Hussein tinha paióis de armas de destruição massiva. Não tinha, era mentira. Nunca os promotores dessa guerra se retrataram, entre eles o “barman” da cimeira das Lajes, Durão Barroso.

George W. Bush, Tony Blair, José Maria Aznar e Durão Barroso, na Cimeira das Lajes, 2003.

O Iraque foi invadido em 2003, depois de décadas de guerras com países vizinhos e depois da Guerra do Golfo para libertar o Kuwait. Antes, tinha havido a Guerra com o Irão e, nessa circunstância, os EUA foram aliados de Saddam Hussein.

Mas, em 2003, seis dias antes dos americanos terem começado a bombardear Bagdad, o Presidente iraquiano recebeu garantias da embaixadora norte-americana April Glaspie, de que os Estados Unidos não interviriam militarmente em defesa do Kuwait, porque não iam interferir em questões entre países árabes.

Enquanto diziam isto, preparavam a guerra. Contrariando a vontade da Liga Árabe, que queria resolver o assunto entre árabes, os EUA, Reino Unido, Alemanha, França e Japão reuniram tropas, armamento, financiamento e apoios políticos com a resolução 660 do Conselho de Segurança da ONU, que exigia o fim imediato e sem condições da ocupação do Kuwait pelo Iraque. A União Soviética estava já em fase de desmantelamento e votou também a favor. Nenhum país árabe votou a favor desta resolução. Mas o que estava em causa não eram os interesses árabes, apenas o petróleo do Kuwait.

Depois, foi o que se viu. Um milhão de mortos iraquianos. Foram anos a matar gente inocente. Alguns seriam combatentes, mas a maioria eram agricultores, professores, donas-de-casa, e os filhos deles. Sete milhões de refugiados, fugitivos de quem os queria matar. Quando há uma guerra generalizada, os hospitais e as fábricas são destruídas, as crianças deixam de ter escola. Bombas de urânio empobrecido lançadas às toneladas, continuam hoje a matar provocando cancros e fetos deformados. É um horror. São crimes contra a humanidade que nunca serão avaliados e levados a um tribunal. Nem mesmo os crimes cometidos nas prisões americanas, que foram denunciados nos media, com a prática de torturas e fuzilamentos sumários de prisioneiros iraquianos, como foram os casos que ocorreram em Abu Ghraib.

Prisioneiros iraquianos a serem torturados em Abu Ghraib.

Antes de ser enforcado, em cerimónia pública televisionada, Saddam Hussein foi exibido e humilhado por soldados dos EUA, em atitudes que passaram igualmente impunes.

Neste momento, os iraquianos continuam a morrer à conta das inúmeras fraturas sociais e políticas que surgiram depois da invasão da coligação militar comandada pelos americanos, que deixou um Estado dilacerado e uma sociedade perdida em ódios e vinganças.

Hoje, temos várias guerras em simultâneo, na Síria, no Iémen, na Ucrânia, igualmente embrulhadas em desinformação e jogos de bastidores difíceis de decifrar.