Há dias, o jornal alemão Handelsblat publicou informações fornecidas pelos serviços aduaneiros ucranianos que davam conta de um grande aumento de importação de derivados do petróleo, nomeadamente óleos lubrificantes para motores de combustão.
Os principais fornecedores de lubrificantes à Ucrânia são a Hungria e a Turquia. Acontece que estes dois países são importadores de petróleo russo. Importam em bruto, refinam e revendem. No caso húngaro, a principal empresa que vende refinados à Ucrânia é uma empresa comparticipada pelo Estado, a MOL.
fonte: site do Grupo MOL
Combustíveis e derivados do petróleo chegam à Ucrânia por comboio, através da fronteira com a Polónia, pelo pipeline proveniente da Eslováquia e da Hungria e, ainda, embora menos, em navios tanque turcos.
Tudo isto para dizer que os tanques e blindados ucranianos usam combustível e lubrificantes pagos à Rússia, embora não diretamente. Sendo que a maioria das empresas que importam estes produtos são empresas militares ucranianas.
Quando chegar o próximo inverno, as necessidades ucranianas vão aumentar exponencialmente, pela necessidade de aquecer as habitações. Com gás russo. O teatro das sanções vai ter de continuar em cena. Os russos a aumentar a produção e as exportações. E a evitar destruir caminhos-de-ferro, refinarias, reservatórios de combustíveis. Mas todos sabemos que o podem fazer em qualquer momento.
Fomos ver ao dicionário e a palavra paradoxo designa bem o que se passa na guerra da Ucrânia.
Sentada no banco de pedra, já no local da fantasia, semicerrrava os olhos e deixava-me voar sobre a mancha verde da vegetação, tão rente ao céu completamente azul, que escutava a voz dos anjos.
Está bem, seriam pessoas reais, o chilreado dos pássaros, o barulho difuso dos automóveis misturados com o meu encantamento. Não sei para que temos a dita inteligência superior, se não sabemos traduzir com acerto as emoções.
Mas enquadrando a importância daquele banco de pedra…
A minha aversão à História Universal no liceu, fazia-me cair em tentação, a mim que até explicava às meninas dos últimos anos, a pedido da professora de Religião e Moral, os filmes sobre o Velho Testamento. Quero dizer, sabia dos castigos divinos – e não divinos também – a quem incorresse em penas graves. E era uma ofensa gravíssima ao Catecismo, faltar a uma aula para estudar para o teste de outra disciplina, mas era o que acontecia.
As três amigas mais chegadas, que desciam comigo do trólei na paragem anterior, uma simulação de exercício matinal, estavam tão pouco iluminadas sobre a matéria quanto eu: zero.. A mais velha e a mais franzina tinha jeito para motivar as indecisas com o dom da palavra. Nem sei se fez carreira na política como grande líder de pequenas causas…
Em reunião pelo caminho, inteirada do nosso grau de ignorância igual ao dela, sugeria sacrificarmos a aula de Matemática para estudar para o teste da hora seguinte. O local que indicava era-nos proibido: o Penedo da Saudade. A razão? Era por lá que vagueavam os universitários “preguiçosos, fanfarrões, namoradeiros” sozinhos pela manhã, ou acompanhados pelas raparigas “mal comportadas” quando a tarde começava a declinar…
Todo este palavreado era da minha costureira de meia-idade, que engravidara de um estudante de Medicina aos 15 anos. Sabia muito da vida, dizia ela, e não eram as explicações mal-amanhadas que a convenciam sobre a prenhez da menina da senhora tal… E abria mais o olho com o dedo indicador…
A razão dizia-me para não subir a ladeira, que teríamos de voltar a descer. Que tempo nos restaria para anular a ignorância? A emoção implorava que tentasse, ao menos daquela vez, abrir a porta do pecado, tão bem matraqueado que nem nos deixava dormir. Olhei para um rapaz…será que pequei?
De uma falta e de um castigo exemplares dos pais, não ia conseguir escapar. O liceu era tipo sede da Gestapo e o relatório do comportamento subversivo estaria em casa em dois dias, com “sorte” no dia seguinte, depois de um telefonema.
Quanta emoção ao descer o primeiro lanço de escadas que levavam à plataforma do Penedo da Saudade, separadas do segundo por um patamar! Era o patamar que me prendia, com o Recanto dos Poetas na parede frontal, exposto a quem descia. À luz do sol brilhavam as lápides emolduradas por ramos de hera, com excertos de poemas de autores conhecidos que eu já lia.
Penedo da Saudade, Coimbra
De repente inflamada pela veia poética, seguia as colegas até aos bancos de pedra. Arrancava uma folha de papel de um caderno a uso. Pedia uma esferográfica para não gastar a minha, destinada ao teste. Para o nada que sabia, a minha havia de sobrar, mas podia acontecer o milagre de ficar iluminada…
Uma colega conseguia uma caneta verde no fundo da sacola.. Roubando-lha da mão, inscrevia no papel, com a raiva do talento que me brotava da alma, duas quadras arrebatadoras, a última anunciando já o meu caminho…
Salve ò recanto dos poetas/Salve ò Penedo da Saudade/Os meus versos ficarão aqui gravados/Para sempre, para toda a eternidade? Depois galgava os degraus até ao patamar, espetava um raminho seco de hera na folha de papel e descia, confiante de ficar a salvo de semelhanças banais em tal adejar suave. A partir daquela hora seria residente na morada das grandes glórias.
As outras já desfolhavam páginas no banco ao lado. Eu planava sobre a verdura e as casas que ela escondia, como se descida do Olimpo para um passeio entre os mortais. Até que aquela voz masculina, cheia de requebros de declamador, pronunciava palavras que todo o Penedo e lugares vizinhos deviam ouvir: SAL-VE Ò RE-CAN-TO DOS-POE-TAS/SAL-VE Ò PE-NE-DO DA SAU-DA-DE...
Aquilo não me era estranho… No vôo de repente aturdido, ia dizendo para mim que já ouvira as mesmas palavras em algum lugar…mas onde? Quando se me fazia tamanha luz que derretia o par de asas, percebia na queda livre que as escrevera pelo meu punho. E apetecia-me morrer ali mesmo, numa cova larga e funda por mãos caridosas aberta. Ninguém abria a maldita cova. Ficava à mercê da zombaria de todos, até das minhas colegas, já de pé como se fossem ovacionar. Quem?
Rodava o corpo para olhar para trás. Três marmanjos de ar lavado, impecáveis na capa e batina, iam-se aproximando de nós. Eu sentada no banco de pedra, com a arma do crime na mão….O da minha esquerda, mais alto, a olhar-me com pesar. O engraçadinho do meio, com presunções de dizedor e a minha folha na mão, a esconder a desvergonha do riso sob um bigode bem farto. O da direita, mais magro, a exibir um sorriso de orelha a orelha e a dar uns guinchos de macaco que agradavam às minhas colegas, diziam elas depois.
Eu ainda abria a boca duas vezes, mas fechava-a, como peixe fora de água, sem alento para protestar. O meu legado para a posteridade arrancado sem dó em segundos! O mais alto dava cotoveladas ao do meio e sem tirar os olhos dos meus, onde as lágrimas bailavam, dizia-lhe em voz baixa que me deixasse em paz…Mas o outro massacrava:
“Quem escreveu estas quadras magníficas, dignas de uma Antologia?” E fixava, com ar de gozo a esferográfica verde. Depois já perguntava com ar adocicado…”Quem escreveu” e logo num tom quase inaudível…”Quem..” Por fim era levado pelos outros, que uns minutos mais e ainda me pegavam ao colo.
Olhávamos os relógios. A Eternidade acabara…Depois era correr ladeira abaixo num rali desenfreado e chegar ao teste de História com a cabeça vazia.
Seria um medíocre, um mau, só porque não havia péssimo.
Péssimos eram os dias seguintes a pé, com medo de encontrar os tais num transporte e sofrer outro vexame.
Não me lembro de emagrecer tanto em menos de uma semana. Lembro sim dos vários castigos, mas esses não confesso a ninguém…por enquanto. E lembro que foi a partir de então que comecei a preferir morenos de olhos verdes como o meu Salvador, que por acaso se chamava António Pedro…
A princesa Diana foi eliminada pelos serviços secretos ingleses porque estava prestes a anunciar o seu apoio à causa palestiniana.
São declarações de Annie Machon, uma ex-agente do MI5 que relembramos agora, quando passam 26 anos da morte de Diana Spencer.
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Declarações de uma ex-agente do MI5, os serviços de segurança interna do Reino Unido. Importa dizer que esta teoria não é completamente descabida. Lady Diana vivia com o egipcio Dodi Al-Fayed (estaria grávida dele quando ambos morreram no acidente de viação em Paris).
Já não ia a Moura há algum tempo e fiquei novamente encantado com aquelas ruas floridas, a mostrar como os seus habitantes prezam a alegria de viver e não esperam por funcionários do Município para terem tudo num brinquinho. Dá um gosto ver!
Fui lá a 23 de Maio. Na Escola Secundária, tive oportunidade de conversar com estudantes e professores, a convite do Município local e no âmbito da iniciativa Arqueoversas, acerca d’«As pedras com letras que os Romanos deixaram em Moura».
cartaz Arqueoversas
Discutem os especialistas se, por se encontrar na margem esquerda do Guadiana, o território de Moura teria pertencido, no tempo dos Romanos, à província da Lusitânia ou se o rio era mesmo fronteira e, portanto, era à província da Bética que Moura teria de pertencer. Sou ferrenho defensor de que lusitana ela é, até porque ‘rio’ pode ser, de facto, fronteira fácil de ver do ponto de vista administrativo, mas o rio não obriga necessariamente a serem distintas as gentes duma margem das da outra.
Houve ideia de que, outrora, se teria chamado civitas Aruccitana, por lá se ter identificado o pedestal da estátua dedicada por essa cidade a uma imperatriz romana, Agripina; o mais normal, no entanto, é que o nome da actual localidade espanhola de Aroche, que não fica longe, tenha mesmo derivado de Arucci e não se fala mais no assunto. E tem-se a certeza de que Moura foi mesmo importante na época romana – e outros sinais há disso, bem elucidativos. Os que pugnam pela importância da presença árabe no sítio preferem salientar esse aspecto e é por isso que à revista municipal foi dado o provável nome árabe do lugar: LACANT.
capa da revista Lacant
O Túnel
Esquecida habitualmente pelos senhores de Lisboa (está muito longe!…), Moura foi elevada a cidade a 1 de Fevereiro de 1988, mantém uma vida cultural relevante e merece uma visita serena, que dê hipótese de ida, com vagar, a um dos seus típicos restaurantes.
Levaram-me a O Túnel, onde – para além da enorme cordialidade do seu proprietário André Pires, que partilhou connosco a sua experiência dos tempos, por exemplo, em que o marisco e o peixe vinham bem fresquinhos de Sines para ali –saboreámos deliciosas bochechas de porco preto, acompanhadas de mui bem temperadas e apetitosas migas. Comemos, sobejou e… trouxemos para casa!
Ambiente bem alentejano. O panito numa peneira; azeitonas temperadas, em bonita azeitoneira da olaria tradicional da região…
Restaurante O Túnel, Moura
Souberam os proprietários manter e valorizar o tecto em abobadilha, que é uma das belezas desse nosso Sul. Uma arte que fazemos votos de que se não perca e cuja tradição se perde na noite dos tempos, na medida em que assim, por essas bandas, construíam os Romanos, há dois mil anos, as suas casas.
Restaurante O Túnel, Moura
Saboreada a mousse de chocolate caseira, sobriamente regada com um cheirinho de medronho de colheita particular, fez-se a natural visita à casa-de-banho. Epigrafista como me confesso, gosto de ver como a imaginação se põe em actividade para identificar o sítio das damas e o dos cavalheiros. Neste caso, porém, nada de anormal: o símbolo indicava claramente que era para homens e não havia que enganar. Aliás, como é habitual nessas alturas, uma pessoa nem pensa duas vezes: é ali e pronto!
Sucedeu, todavia, que, ao dispor-me para sair e abrir a porta, dei com o símbolo do… feminino! E a dúvida de imediato me assaltou:
«Estás mesmo velho! Então não viste que não era aqui?»
Saí e qual não foi o meu espanto quando verifiquei que não me enganara mesmo! O patrão riu-se e o pessoal acompanhou-o na facécia. É que, explicou-me, se enganaram a pôr as dobradiças e o letreiro ficou para o lado de dentro! Ou seja: dentro era para senhoras, fora para cavalheiros!
Microcarros sempre existiram. Os mais velhos lembram-se, certamente, do célebre “ovo”, um pequeníssimo carro de fabrico alemão com apenas três rodas. Foi um relativo sucesso comercial, numa época sem preoupações ambientais, de poupança de combustível, sem grandes engarrafamentos nem problemas para estacionar.
Hoje, os microcarros voltaram em força e, desta vez, vieram para ficar. Há uns anos, a publicidade apelava aos mais velhos, como se um microcarro fosse uma espécie de cadeira de rodas. Mas, os publicitários acabaram por se arrepender, porque foi a malta jovem que aderiu. De tal maneira que os microcarros já são um sucesso comercial.
O que se passa em Portugal não é diferente do que aconteceu já noutros países europeus. Os carritos são baratos, estacionam sem precisarem de muito espaço, quase todas as marcas têm modelos elétricos que carregam numa tomada simples.
Claro que têm limitações. Só cabem duas pessoas, são lentos (velocidade máxima de 45km/h), a bagageira é quase inexistente na maior parte dos modelos. Mas, quando apenas precisamos de um meio de transporte para irmos de um ponto a outro na cidade, fácil de usar e barato, é uma alternativa a ponderar. Além de tudo o mais, para conduzir um microcarro não precisa de ter carta de condução, apenas de uma licença que se obtém a partir dos 16 anos de idade.
Curiosamente, os vendedores dizem que metade dos clientes destes carros são empresas. Por exemplo, já reparámos que os CTT têm este tipo de veículos para a distribuição postal. Com o abandono dos motociclos, os carteiros deixam de apanhar chuva e frio, evitam quedas e as encomendas não se molham.
Se gosta de microcarros e tem curiosidade de ver os “dinossauros” deste tipo de veículos, um passeio até ao Museu do Automóvel, no Caramulo, resolverá essa questão.
A senhora estava sentada, parecia absorta, no baixo peitoril da janela que dava para o passeio. Quando passámos, balbuciou umas palavras.
– Achas que nos pediu esmola?
– Nem percebi o que ela disse.
E continuámos a andar, não sem que nos tivesse surgido a ideia de que poderíamos ter parado, perguntado o que queria e agir em conformidade. Egoístas nos confessamos. E esperamos que, ao longo da tarde, sejam poucos os que tenham a nossa atitude.
Lembra-nos o conto «No money no trolley» (Fernando Miguel Bernardes, Um Homem Dois Séculos, Porto, 2017, p. 65-72), onde um marroquino, no aeroporto de Tânger, só lhe passaria o carrinho, se ele lhe desse uma nota verde.
Lembra-nos a figura medieval do esmoler, o frade que pedia para o convento; havia mesmo a figura do Esmoler-Mor do Reino, o eclesiástico que superintendia na administração das esmolas a dar por El-Rei.
Lembra-nos a célebre quadra do poeta mexicano Francisco Asís de Icaza, que está na Torre da Polvorosa, à entrada do Alhambra (Granada):
«Dá-lhe uma esmola, mulher, que nada há de mais cruel no mundo do que ser cego em Granada».
E, nas igrejas, as caixas para as esmolas – pelas Almas do Purgatório, em honra da Senhora do Rosário, de S. Judas Tadeu…
caixa das esmolas na Igreja Católica
Uma pesquisa na Internet fornecerá de imediato uma panóplia de imagens. Exemplificamos com duas: uma que apenas assinala MISSAS PARA AS ALMAS, isto é, o dinheiro ali depositado servirá para serem celebradas missas pelas almas do Purgatório ou pelas dos entes queridos falecidos de que se tiver intenção; outra, uma verdadeira arca (dir-se-ia), a imagem é (com a devida vénia) da autoria do Doutor Rui Carita, com uma inscrição que já mereceu decerto o devido enquadramento histórico, pois que, obra de um artífice do Porto e pertencendo à colecção do Dr. António Miranda (Galeria da Arcada), data de 1760, é dos ‘devotos da Santa Cruzada’ e, além de referir ‘esmolas’, alude também a ‘comutações’, o que, salvo o erro, alude a promessas feitas cujo cumprimento é comutado, substituído, pela entrega de determinada importância. Um mundo!
outra caixa das esmolas na Igreja Católica
Enfim, tudo isso se compreende: pede-se esmola para comer uma bucha, para um pacote de leite, para obras que dependam da generosidade do próximo (para usarmos um vocábulo de conotação religiosa). E se se pede esmola é mesmo com alguma finalidade.
Ora acontece que junto a um dos dois pequenos edifícios (um deles alberga um cruzeiro) que estão à entrada do Cemitério Velho da vila de Sernancelhe, concelho que pertence ao distrito de Viseu, foi há muito (decerto) pespegada uma pedra cuja inscrição diz o seguinte:
Que tipo de obras? Provavelmente da fábrica da igreja local, pensar-se-ia de imediato… Para o cemitério, difícil seria. Da jurisdição do município local, poderia ter acontecido, um dia, que, escasseando as reservas no erário municipal, se houvesse lançado geral peditório para o arranjo do lugar sagrado dos mortos. Disso haveria eco, decerto, na história local. Nada conseguimos apurar acerca de um cemitério em apuros. Nem se a pedra esteve sempre ali ou se veio – e quando – doutro local, como se afigura mais lógico, porque uma relação directa com algum dos dois monumentos que lhe estão ao pé não é verosímil.
Parece-se com um pedestal e – se chegou a servir – o recipiente para os óbolos estaria bem encastrado na face superior, para não levar rápido descaminho. O letreiro, enquadrado por moldura, foi gravado estando a pedra já amputada da sua parte direita, porque se distribui de acordo com o espaço deixado disponível após a quebra.
Único indício cronológico por onde os linguistas nos poderão ajudar é indicando-nos quando é que a forma verbal sam foi substituída por são. O monumento data de época anterior a essa alteração. Finais do século XIX, 1ª metade do séc. XX? Quem sabe?
Cá está, pois, um dos casos em que os epigrafistas não têm qualquer dificuldade em entender o que está expresso na pedra. O que ora nos intriga é, sim, a mensagem implícita: a que obras é que a mensagem se refere?
A esmola para o cego a gente entende: invisual, tem dificuldade em governar a vida; agora, pedir para umas obras, sem nós sabermos exactamente quais são, equivale àquele mal-estar que sentimos quando sabemos haver por i umas esmolas (por sinal, chorudas, dizem) dum tal de PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) e o vulgo sempre sem saber por onde é que elas realmente acabam por sumir…
Veremos o que fazem estes militares, se conseguem reorganizar as sociedades, se conseguem governar, se conseguem resistir às seduções ou às ameaças dos que ficam prejudicados com as alterações em curso.
Alguns dos novos líderes já tiveram oportunidade de transmitir carisma e força. Proferiram palavras que desagradaram às antigas potências coloniais que, mesmo depois de terem sido obrigadas a conceder independências às antigas colónias, permanecem lá explorando minérios, hidrocarbonetos e rotas comerciais.
Os novos discursos falam de uma nova independência. O papel da França, dos países ocidentais em geral, tem sido questionado, assim como a permanência de bases militares francesas nesses territórios.
capitão Ibrahim Traoré, líder da Junta Militar, promete eleições presidenciais dentro de 1 ano no Burkina Faso
No Burkina Faso, o capitão Traoré faz a revolução também com palavras: “o escravo que é incapaz de se revoltar contra o seu destino não merece que tenhamos pena dele.”
O novo líder do Burkina Faso parece saber o tamanho do desafio que decidiu assumir, quando diz que “os jovens da minha geração, devido à pobreza são obrigados a atravessar o mar para tentar chegar à Europa. Morrem no mar. Mas em breve deixarão de o fazer.”
Ele sabe bem que as empresas mineiras, as petrolíferas, têm uma influência considerável sobre as decisões de muitos governos do hemisfério norte, na Europa e na América. Portanto, sabe que não se pode distrair sob pena de não ver de que lado chega a porrada para o derrubar.
É por isso que estes novos governos, ideologicamente pan-africanistas, estão já a firmar acordos de defesa mútuos. Quem atacar um, ataca todos. Um aviso para Macron, que ameaça atacar se os interesses da França forem questionados. No Níger, as ameaças só serviram para enfurecer o povo.
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A SEMENTE QUE PODE GERMINAR
África vive novos momentos de redenção. E não são apenas os neocolonialistas que receiam perder o pé. Também os regimes de outros países africanos minados pela corrupção, nepotismo e repressão, que ao longo de décadas apenas têm engordado senhores feudais. Ou seja, em África, quase todos.
Não será por acaso que, por exemplo, João Lourenço pediu atenção redobrada ao Serviço de Inteligência Externa (SIE).
João Lourenço, Presidente de Angola
“Acabámos de ser surpreendidos com alguma instabilidade, que, em princípio, reina aqui no país irmão muito próximo de nós, estou-me a referir à República do Gabão, portanto, por tudo isso, os serviços de inteligência externa têm que estar de olhos bem abertos a tudo o que se passa no mundo, sobretudo em termos de segurança, em termos de estabilidade dos países”, referiu o Presidente de Angola na tomada de posse da diretora-geral adjunta do SIE, em 30 de agosto.
Nenhum dos alegados crimes foi cometido em solo americano, mas os EUA pretendem o controlo absoluto no planeta e arredores. Nenhum cidadão de qualquer nacionalidade está livre de ser detido e levado para território americano para “julgamento”. As aspas justificam-se porque ninguém acredita na imparcialidade desse tipo de tribunais que julgam sob legislação que não tem jurisdição definida. E prisões como Guantanamo continuam ativas.
Julian Assange antes de se refugiar na Embaixada do Equador em Londres, 2012.
Julian Assange é um jornalista australiano, quando “saltou o muro” da Embaixada do Equador em Londres, foi para evitar ser detido e deportado para os EUA. Nunca conseguiu sair de lá, a polícia inglesa acabou por entrar na embaixada e levou-o para a prisão de segurança máxima de Belmarsh. Em janeiro de 2021, um juiz inglês rejeitou a extradição de Assange para os EUA, mas o jornalista continua encarcerado, sem acusação.
Julian Assange em 2019, quando a polícia inglesa entrou na Embaixada do Equador para o prender.
Assange ficou conhecido internacionalmente em 2010, quando o WikiLeaks publicou um vídeo de 2007 que exibia helicópteros Apache matando 12 pessoas em Bagdad – entre as vítimas, havia repórteres da Reuters. Esses e outros vídeos e dezenas de milhar de documentos publicados terão sido fornecidos por Chelsea Manning, militar norte-americana que denunciou vários casos. Manning foi detida, julgada e condenada, saiu em liberdade já, enquanto Assange continua detido sem nunca ter sido julgado.
Em 2010, o site Wikileaks divulgou mais de 90 mil documentos secretos com detalhes da campanha militar dos EUA no Afeganistão, seguidos por quase 400 mil relatórios internos que descreviam operações no Iraque.
A publicação deste tipo de material pelo Wikileaks foi um escândalo de proporções globais. Com raras exceções, os políticos condenaram as denúncias, Joe Biden era vice-presidente na altura e disse que era um “ato terrorista”. As exceções foram Lula da Silva, Presidente do Brasil, e Rafael Correa, Presidente do Equador que ofereceu a cidadania equatoriana ao fugitivo Assange. O Presidente da Rússia na altura, Dmitri Medvedev, disse que Assange merecia um Prémio Nobel.
Antes de ser um proscrito da lei dos EUA, Assange recebeu vários prémios de jornalismo e de direitos humanos, as informações obtidas pelo Wikileaks foram partilhadas por jornais como, por exemplo, o El País, o Le Monde, o Der Spiegel, o Guardian ou o New York Times. Hollywood fez filmes com esse material, os canais de televisão produziram muitos programas com essa temática. Mas, hoje, poucos falam disto e Julian Assange continua detido.
EM PORTUGAL, PEQUENAS HISTÓRIAS
Em Portugal pouco se falou disto. Alguns meios de Comunicação Social tentaram cavalgar a onda mediática de Assange, mas nunca nada de especial relacionado com o país foi divulgado. E há algum material publicável. O exemplo que avançamos aqui não passa de uma curiosidade.
cabeçalho da mensagem enviada pela Embaixada dos EUA em Lisboa para o Departamento de Estado dos EUA
Falamos do caso da Fundação Luso-Americana (FLAD) que foi alvo de pressões diplomáticas para que o Governo português retirasse Rui Machete da direção da FLAD. Nas mensagens trocadas entre a Embaixada dos EUA em Lisboa e o Governo dos EUA, Machete era classificado como incompetente, gastador, alguém que estava ali como “prémio de consolação” por ter perdido um “tacho” político.
tradução do sublinhado: Rui Machete é diretor da Flad desde 1988, tendo conseguido o cargo como prémio de consolação depois de ter perdido o cargo na mudança de governo em 1985
Sem faltar indícios de corrupção na gestão da FLAD…
tradução do sublinhado: orçamento gasto em despesas gerais com o seu luxuoso escritório adornado com obras de arte, equipe gorda, frota de BMWs com motorista e em “custos administrativos e de pessoal”
Esta troca de mensagens foi classificada como “secreta”, a sua divulgação não passa de um pequeno embaraço para as relações bilaterais entre EUA e Portugal. A FLAD é um organismo que surgiu para substituir em Portugal a USAID, organização através da qual se diz que os EUA financiavam encapotadamente a sua rede de espionagem e controlo político internacional.
O facto que me impressionou foi ter sido colocado perante o meu olhar uma fila de sugestões comerciais que tem tudo a ver com o que fiz nos últimos dias.
Fui duas vezes a uma farmácia para comprar medicamentos, recebi um email de uma empresa que vende e presta assistência a sistemas de energia solar, comprei umas t-shirts na Decathlon, estive numa loja FNAC, chamo-me Carlos Narciso. Tudo o que estava a ver era esta espécie de resumo da semana…. Inacreditável!
recorte de um banner com publicidade na página SAPO dia 29 de agosto de 2023 às 17h30
Para os mais sugestionáveis, este bullying comercial representa uma intromissão que pode ser difícil de aceitar. E devia ser proibido. Esta marcação passo-a-passo é intolerável. Como se já não bastasse estas empresas terem acesso aos nossos números de telemóvel e não terem pejo em os usar para tentarem impingir a tralha que têm para nos vender. A sensação de que estamos a ser seguidos é grande e é bem possível que muita gente ande sempre a olhar por cima do ombro…
O Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados especifica que são dados pessoais números de telefone, dados clínicos, senhas de serviços digitais, endereço pessoal, datas de nascimento, etc. Só que esses dados, que deviam ser protegidos, são capturados através de diversos expedientes e vendidos de empresa em empresa. Alguns desses dados podem ser utilizados para fraudes e outro tipo de crimes, mas normalmente são utilizados para fins comerciais.
Este é o verdadeiro Big Brother que tudo vê, tudo escuta e tudo sabe sobre as pessoas. E cada um de nós tem o seu “espião” privado. Um “luxo” tecnológico que reúne toda a informação pessoal sobre cada um dos cidadãos. Quem controla esse arquivo faz dele o que muito bem entender. Tudo é possível, desde chantagens a extorsão, limitação das liberdades individuais, tudo o que a devassa da vida pode significar.
O Presidente da Ucrânia fala muito. Fala todos os dias com jornalistas e fala sozinho, em frente a uma câmara de vídeo, para as redes sociais. É uma metralhadora falante.
Numa recente entrevista disse coisas espantosas, como, por exemplo, “estamos prontos para lutar por muito tempo“ ou “os ucranianos precisarão aprender a conviver com a guerra como Israel”.
manchete do Jerusalem Post dia 28 de agosto de 2023
Ficamos apreensivos, porque a guerra em Israel começou há mais de 70 anos, ainda não tem fim à vista. Curiosamente, no conflito israelo-palestiniano, os EUA apoiam o agressor e a Rússia apoia as vítimas da agressão, apesar da pressão exercida pela comunidade russa-judaica.
Ao referir Israel como o exemplo a seguir, Zelensky chamou a atenção dos israelitas. O Governo do Estado judaico gostou (é sempre bom estar a favor do pensamento dominante) e os media deram eco às palavras de Zelensky, nomeadamente o Jerusalem Post, num artigo que estamos aqui a citar.
O paralelismo entre a Ucrânia e Israel vai ao ponto de Zelensky querer chegar a acordos com o Governo dos EUA semelhantes aos acordos existentes entre os EUA e Israel. Zelensky chamou-lhe “modelo israelita” para as relações com os EUA, englobando apoio político nos fóruns internacionais, apoio logístico militar e, claro, financiamento. Sem dinheiro não há guerras.