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CADA MACACO NO SEU GALHO

cartoon de Hélder Dias

O Conselho de Estado é um órgão consultivo do Presidente da República. Os conselheiros são uma espécie de barões da República, antigos dirigentes políticos ou em fim de carreira, ex-Presidentes, reformados na maior parte dos casos. Não decidem nada. O Presidente não tem de seguir os conselhos deste grupo.

A polémica que surgiu com a última reunião do grupo deve-se à perceção de que Marcelo pretenderia usar a opinião destes barões para justificar a sua própria interferência na ação do Governo.

É indisfarçável a guerra que se instalou entre a Presidência e o Governo, nenhum dos antagonistas esconde a realidade. António Costa disse, na sequência da reunião, que “cada um tem o seu papel” e “nenhum é mais importante do que o outro”, mas advertiu que quando se confundem papéis “é que as coisas podem correr mal”. Um aviso de que será preferível que cada macaco se mantenha no seu galho. E mais não disse.

cartoon de Hélder Dias

Marcelo, que gosta de servir sopa fria, mandou preparar uma bela vichyssoise que mantém guardada no frigorifico para a melhor oportunidade.

CASCAIS, FESTAS DO MAR

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Esta é uma procissão diferente. A imagem de Nossa Senhora sai da Igreja de Nossa Senhora da Assunção e é levada em ombros até ao cais onde embarca para um passeio marítimo. A procissão tem esse encanto de estar ligada ao mar, tem origem na crença de que, assim, os deuses protegem os pescadores e os barcos de pesca.

Em frente ao Farol da Guia, são lançadas à água ramos de flores. Os barcos voltam ao cais e a imagem regressa ao recato do templo onde a guardam.

Como tradição e ritual religioso, é um costume folclórico interessante. De tal modo que, este ano, passou a integrar o Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial da Direção-Geral do Património Cultural.

A procissão chama sempre a atenção de um bom número de pessoas. Este ano estiveram lá, a participar e a ver, algumas centenas de populares. Onde há povo e festarola, o poder político gosta de se integrar. Pensam eles que fica sempre bem na fotografia, ver um autarca a carregar o “sombrero” do padre. Mas talvez não fosse necessário demonstrar devoção, que nem sabemos se é sincera e que deveria ficar no recato da consciência quando se desempenham cargos políticos. Pela Constituição da República, Portugal é um Estado laico. Quando um político participa num ritual religioso, entra em conflito com a laicidade do Estado e com os sentimentos dos cidadãos de outros credos ou de nenhum credo.

Neste caso, Carreiras podia ter lá estado, podia ter acompanhado o ritual, mas não devia ter participado nele. Comparando com outra manifestação de maior relevo social, quando ele vai ao futebol, não joga, só assiste.   

E QUANDO O CARRO ELÉTRICO AVARIA…?

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Hoje é difícil encontrar oficinas que tenham bons profissionais eletricistas auto. Muitas oficinas não têm sequer um eletricista a tempo inteiro. É uma carência notória que afeta principalmente pequenas empresas ou oficinas que se dedicam apenas aos serviços mais solicitados: revisões, mudanças de óleo, pequenas reparações, preparar o veículo para inspeções, etc.

Com o advento dos carros elétricos e híbridos, a carência de eletricistas acentuou-se. Até porque os automóveis evoluiram imenso e hoje a eletrónica faz parte do coração da máquina. Falar de eletricistas auto será, porventura, incorreto. O termo profissional é programador reparador auto, o profissional que tem conhecimento de mecânica, electrónica e programação. Repara os sistemas eletrónicos e computadores dos veiculos actuais. As principais marcas de fabricantes de veículos elétricos (EV) estão, agora, a promover cursos de formação. Mas estamos longe de ter redes nacionais de assistência especializada em EV.

Neste momento, as vendas de EV já ultrapassaram as vendas de carros com motores diesel e tudo indica que a tendência não vai ser alterada. Aliás, irá acelerar se, como se espera, o preço dos EV começar a baixar significativamente.

Por enquanto, os EV ainda são nicho de mercado para o setor de reparação e assistência auto. Em Portugal, estima-se que existam 8000 oficinas, mais de metade das quais são pequenas empresas independentes. No conjunto, faturam 2,5 mil milhões de euros por ano, segundo dados divulgados em 2021 pela Associação Nacional das Empresas do Comércio e da Reparação Automóvel (ANECRA).

A ANECRA tem os seus próprios cursos rápidos de formação especializados em EV. Na verdade, não parece complicado executar reparações em EV. Muito provavelmente, na maioria das avarias, a solução será a substituição do equipamento avariado. O principal problema prende-se com as medidas de segurança que devem ser adotadas para o trabalhador poder “mexer” num EV sem correr o perigo de um choque elétrico mortal. Os EV são veículos com alta tensão que pode chegar aos 800 volts. Um erro e pode ser a morte do artista.

Por enquanto, os EV são, ainda, quase todos, veículos novos. Mas, a frota de EV vai envelhecer e há sempre acidentes e avarias inusitadas, mesmo em carros novos acabados de sair do stand. Se não houver uma garantia de reparação acessível, em termos de custo e de proximidade, vai ser um “choque” para muita gente.

OFENSIVA COVID-19

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A Organização Mundial de Saúde avisa que o covid-19 está de regresso e que as hospitalizações na Europa estão a aumentar.

Há quase 2 anos que deixámos de nos preocupar com esta pandemia. Mais eis que o diretor-geral da OMS voltou hoje à carga.

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Declarações do diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, no decorrer de uma conferência de imprensa convocada propositadamente para este alerta.

Segundo os dados agora divulgados, as hospitalizações e mortes por covid-19 estão a aumentar na Ásia Oriental, no Médio Oriente e na Europa.

Ghebreyesus diz que só 43 países continuam a reportar a evolução da pandemia, mas será suficiente, pelos vistos, para voltarmos ao tema e às vacinas, conforme podemos escutar neste vídeo.

EM PORTUGAL…

Desde o dia 1 de setembro que nos hospitais de Santa Maria e Pulido Valente, que pertencem ao Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte (CHULN), voltou a ser obrigatório usar máscaras nas visitas aos doentes e nas consultas externas.
A Direção Geral de Saúde (DGS) também defende o uso de máscaras de proteção, embora diga que, por enquanto, a medida deve ser decidida por cada hospital.



POBREZA DESDE SEMPRE

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«Aberta aos pobres». Estranha, a inscrição em latim que jaz, solitária, no corredor do claustro do Fórum Cultural de Almodôvar: APERTAM PAVPERIBVS. Que se esconderá, afinal, por detrás de tão singular letreiro?

Pedra com a inscrição APERTAM PAVPERIBVS

Chama a atenção. Foi, decerto, verga de porta. De grauvaque local, tem 158 cm de comprimento, 32 de largura e 22 de espessura. O campo epigráfico – de 124 cm de comprimento e 21 de largura – foi aberto na superfície grauváquica, alisado, delimitado superiormente por ranhura que o separa da superfície do bloco deixada por alisar, o que denota se ter destinado esta parte a ficar escondida sob o reboco, deixando apenas o letreiro à vista. Não existe a correspondente ranhura inferior, por coincidir com a superfície inferior do lintel, que ficava à vista sobre a porta.

Enquadra o letreiro um rectângulo limitado, também ele, por ranhura singela e que deixa espaço de cada lado para a gravação da data : I7 e II, respectivamente.

O letreiro não oferece dúvida de leitura, apesar dos múltiplos nexos a que se recorreu para melhor aproveitamento do espaço disponível: AP, AMP e AVP são os nexos aqui presentes, chamando-se ‘nexo’ à utilização comum, por parte de duas ou mais letras, dos traços respectivos. Assim, a 2ª perna do A serviu de haste para o P; o A ficou metido na 1ª metade do M e, deste, o P aproveitou o último traço, assim como, de seguida, as letras AVP lograram ‘organizar-se’ com os traços que lhes serviam.

Assim lê-se:

I7 | APERTAM PAVPERIBVS | II

Data-se, pois, de 1711 e significa: «Aberta aos pobres». Também poderia traduzir-se «para os pobres». Na verdade, ambas as preposições – a e para – são aceitáveis, embora possam dar à frase duas conotações diferentes: a casa ‘foi aberta para os pobres’ ou a casa ‘está aberta aos pobres’. O uso do latim permite que ambas as interpretações sejam válidas e foi porventura essa ambiguidade que se procurou manter, ambiguidade acrescida, como está, pelo uso do acusativo apertam, a pressupor, para esse complemento directo, o subentendimento de um verbo transitivo.

Não vamos, porém, massacrar os nossos leitores com tais minudências gramaticais, porque – quer tenha sido aberta expressamente para os pobres ou manifeste apenas a intenção de dar guarida a quantos como tal se apresentassem – o certo é que o letreiro anunciava que os pobres eram bem-vindos. Casa paroquial seria, por estar escrita em latim, ou parte de convento de ordens mendicantes que a essa obra de caridade se dedicassem?

De acordo com os dados que lográmos apurar, a pedra estava inscrita na verga da porta de uma casa que foi demolida na aldeia do Rosário, freguesia do mesmo nome e concelho de Almodôvar, situada na Rua das Eirinhas,.

Segundo nos disseram Jaime Murta, neto de Manuel Joaquim, antigo proprietário, e Francisco António Deodato, pai da actual proprietária, Elisabete Deodato,  foi-lhes transmitido pelos mais velhos que a casa terá sido residência de padres,  em época recuada. Lembram-se de haver na casa “pilheiras”, ou seja, cantareiras abertas nas paredes, do tipo de altares, e pias, que se supõe reportarem à vivência dos antigos habitantes. 

Em 1999, os responsáveis pelos serviços camarários ligados à Cultura e ao Património, houveram por bem recolher a inscrição e outro fragmento pétreo com uma cruz, tipo flor de lis em relevo, mui provavelmente pertencente ao mesmo edificado e que estavam “abandonados” no terreno. Ciente do seu valor histórico, o Sr. Francisco António Deodato, que tinha adquirido o imóvel, não hesitou em os ceder para a Câmara os ter em bom recato.

A pedra foi, na altura, depositada num armazém e daí trazida para o claustro do Convento de Nossa Senhora da Conceição (Fórum Cultural de Almodôvar), onde se encontra, a desafiar os investigadores locais para dela obterem mais adequado enquadramento histórico.

Datada dos primórdios do século XVIII, porventura testemunhos idênticos haverá dessa época. Certo é, porém, que manifesta uma preocupação assistencial digna de apreço. Em 1711, estava-se no reinado de D. João V, «O Magnânimo».

O letreiro faz-nos lembrar de imediato a designação Casa dos Pobres, por que virão a ser conhecidas institucionais criadas já nos primórdios do século XX.

Estamos a recordar uma das mais conhecidas e activas, a Casa dos Pobres de Coimbra. Fundada em 1935, no Pátio da Inquisição, mudou-se provisoriamente para a Praça do Comércio em 2001, donde saiu, em 2007, para um novo edifício em São Martinho do Bispo.

Também na Pampilhosa, foi criada, em 1938, uma Comissão de Assistência aos Pobres da Freguesia da Pampilhosa para – lê-se em documentação da altura – «acabar, dentro do possível, com esta miséria, facultando aos pobres desta freguesia o pão que até agora têm andado esmolando pelas portas.» Esta comissão iniciou o seu trabalho a 1 de Janeiro de 1939, ano em que construiu o edifício da “Casa dos Pobres”, que se manteve com essa finalidade enquanto preciso foi.

Lemos que, a 23 de Abril de 1932, foram aprovados pelo Governo Civil do Porto os primeiros estatutos da “Casa dos Pobres” (Albergues de Sant’Ana), em Matosinhos. Nessa mesma altura se criou a Associação de Assistência aos Pobres do Concelho de Matosinhos, com o objectivo de contribuir para a «extinção da mendicidade».

Houve também em Guimarães a Casa dos Pobres (Lar de Sto. António), criada em 1934, que a si anexou a chamada «Cozinha Económica» para fornecer alimentação, a preços módicos, “às classes proletárias”.

Casa dos Pobres de Guimarães

Sabemos que, em Cascais, uma das figuras relevantes de médico, o Dr. António Pereira Coutinho, falecido a 13 de Fevereiro de 1964, foi grande amigo dos pobres e bons serviços lhes prestou na Casa dos Pobres. Esta, que estava dotada de capela própria, como se documenta num postal ilustrado de 1950, e se encontrava precariamente instalada no edifício duma antiga fábrica de conservas, na Av. de Sintra, viria a ser dotada de novas instalações, cuja primeira pedra se lançou a 23 de Setembro de 1964, passando a chamar-se Casa de Repouso de Cascais.

Capela da Casa dos Pobres de Cascais, num postal de 1950

Merecerá, pois, investigação – e porventura já mereceu – a criação destas Casas dos Pobres, de que esta, de 1711, terá sido, em Almodôvar, 200 anos antes, a pioneira! Na verdade, os poucos exemplos aduzidos apontam só para os anos 30 do século XX essa atenção generalizada.

Artigo em co-autoria com Rui Cortes

NUNCA ESQUECER AUSCHWITZ

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Com texto e design de Viktor Tegner e poemas de Pierre Sotér, este registo de fotografias em livro pretende ser mais uma vez um alerta para o passado mais negro da recente história mundial que, defende o fotojornalista, não pode ser esquecido.

fotografias de Ana Catarina Rocha

Ladeado de dois amigos próximos, o escritor Alexandre Faria e o neuropsicólogo Vasco Catarino Soares, José Lorvão, um assumido interessado na História da II Guerra Mundial, lembrou que foi ao acompanhar um evento desportivo em Cracóvia, no ano de 2020, que surgiu a oportunidade de visitar o antigo campo de concentração nazi, hoje museu e memorial.

Admitiu ainda que “o tempo ficou todo para trás” tendo fotografado “avidamente” até recantos que os responsáveis pelo espaço pedem que não sejam fotografados. Em sinal de respeito pelo espaço e por tudo que simboliza, acrescentou, levou o material mínimo fotográfico para fazer um trabalho exímio a preto e branco (uma paixão assumida). “Senti-me invisível”, declarou aos presentes. 

fotografias de José Lorvão

Ajudar no livro “foi uma suave cilada”, declarou Alexandre Faria, advogado e escritor, cuja amizade de longa data pelo fotojornalista o levou a declarar José Lorvão “um dos melhores fotojornalistas portugueses de todos os tempos”. A propósito do tema tratado no livro, lembrou que “o ser humano continua a ser o seu pior inimigo”, lembrando os conflitos que ainda hoje deflagram um pouco por todo o mundo no século XXI. 

fotografias de José Lorvão

O neuropsicólogo Vasco Catarino Soares lembrou uma experiência científica levada a cabo pelos nazis, bem como a obra da filósofa Hannah Arendt para recordar aos presentes que os autores das atrocidades nos campos de concentração não eram assassinos nem psicopatas, mas “gente normal antes da guerra”.

E terminou ao perguntar em jeito de reflexão: “seríamos nós capazes de fazer aquilo, não aqui, mas naquelas circunstâncias?”

fotografia de José Lorvão

PAPA CAÍDO EM DESGRAÇA

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O Papa Francisco caiu em desgraça na Polónia. Francisco recusa-se a diabolizar a Rússia e também não alinha na russofobia que se espalhou pela Europa. Depois de ter estado em Lisboa nas JMJ, Francisco foi até São Petersburgo, na Rússia, onde participou numa outra reunião de jovens católicos.

O Papa enalteceu a cultura russa. Disse aos jovens que o escutaram que eles eram “herdeiros da grande Rússia, a grande Rússia dos santos, a grande Rússia de Pedro I, Catarina II, império grande, iluminado”, e disse-lhes para nunca desistirem dessa herança.

Não sabemos o efeito que tais palavras tiveram nos russos, mas sabemos que na Polónia não gostaram. A Polónia é um dos mais acérrimos aliados da Ucrânia, na guerra contra a Rússia. E apesar de ser um país católico, não está com o Papa na defesa da cultura russa.

capa da revista Wprost de 4 de setembro de 2023

Papa é “habitante típico da América do Sul”

O jornal Wprost deu eco a esse descontentamento. Publicou o cartoon que exibimos aqui, e uma entrevista com um elemento do clero polaco onde se menospreza a opinião do Papa.

O padre Jacek Prusak diz que “Francisco trata a Ucrânia e a Rússia como uma unidade cultural e olha para a geopolítica através dos olhos de um habitante típico da América do Sul.” Um comentário paternalista, que o padre Prusak justifica ao acrescentar que “muitos habitantes dessa região do mundo acreditam que esse conflito é provocado artificialmente para aumentar o poder imperial dos Estados Unidos e da NATO.”

Não passa de mais um argentino, parece querer dizer o padre Prusak, do alto da sua visão mais esclarecida. “O antiamericanismo está no sangue de Francisco”, garante.

O padre Prusak tornou-se conhecido na Polónia, devido à atividade desenvolvida no âmbito da questão das denúncias sobre pedofilia na Igreja Católica e na defesa das vítimas dos abusos sexuais perpetrados por padres polacos.

O aparelho aVARiou

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Em causa estava a marcação de uma grande penalidade. A equipa favorita estava a perder e isso deu um peso insustentável à questão.

No futebol, o árbitro está a desresponsabilizar-se rapidamente. O VAR é que sabe. Neste caso, sem imagens, foi ao telefone com o VAR que o homem do apito decidiu a sorte da jogada. Os fingimentos continuam impunes, mas o jogo esteve interrompido largos minutos. A transmissão televisiva aguenta mal interrupções demoradas na ação. Um minuto é uma eternidade. Só os maluquinhos da bola aguentam. Os outros mudam de canal ou vão fazer xixi.

O espetáculo ficou a perder, mas os canais de televisão vão agora explorar aquele incidente até ao enjoo. Não o fingimento do artista da bola, mas a avaria do equipamento. As tentativas de aldrabar o jogo já fazem parte do sistema. O aparelho avariado é que não se pode permitir.

A importância do futebol tem a exata medida do impacto do jogo na sociedade. Como fenómeno social global, o futebol passou de prática desportiva a espetáculo circense. O jogador não é apenas um desportista, passou a estrela mediática. Não passa só na televisão, passa mais nas redes sociais que se transformaram em fonte de receita. Qualquer banalidade serve para atrair milhões de reações. Por exemplo, Cristiano Ronaldo vende cuecas no Facebook. A fotografia que publica tem mais de 630 mil likes e dezenas de milhar de comentários (que ninguém vai ler).

Cristiano Ronaldo a vender cuecas

A publicidade. O que rende dinheiro. Nenhum dirigente desportivo se preocupa com as bancadas do estádio sem gente, desde que o jogo seja transmitido pela televisão. O futebol é um negócio de milhões e o dinheiro tem vindo a subverter tudo, desde os calendários das competições até à escolha de quem organiza campeonatos. Não tem importância que o futebol sirva para limpar a imagem de dirigentes corruptos e de ditadores.

UCRÂNIA, AS NOTÍCIAS ESQUECIDAS

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Na guerra da Ucrânia, pouco importa saber quem deu o primeiro tiro. Importa saber que esse tiro não foi dado em 24 de fevereiro de 2022.

Numa pesquisa nada exaustiva pela net, mais balizada pela memória que por qualquer outro método, partimos à procura das origens desta guerra e dos argumentos iniciais. Isto é, fomos à procura das notícias esquecidas sobre fatores endógenos da política ucraniana.

A BBC, EM 2014

Encontrámos uma notícia da BBC de 28 abril de 2014, sobre a queda do Presidente Viktor Yanukovych. Diz a BBC nesse artigo que a ala mais ultranacionalista do movimento Maidan era o Setor Direita, grupo neonazi que liderou os protestos na Praça Maidan, em Kiev, Transcrevendo, a BBC diz que “a retórica inflamatória e a violência do partido levam os media russos a descrever a Ucrânia como invadida por neonazis que ameaçam a população de língua russa.”

fonte: https://www.bbc.com/news/world-europe-27173857

O artigo explica que o Setor Direita foi criado em 2013, através de uma aliança de vários grupos da extrema-direita ucraniana. Essa aliança foi liderada desde o início por Dmytro Yarosh, um confesso admirador de Stepan Bandera, um nacionalista ucraniano histórico, combatente que apoiou a invasão alemã da União Soviética na II Guerra Mundial.

Neste artigo de 2014, a BBC diz ter entrevistado vários membros do Setor Direita que aformaram querer “uma Ucrânia só para ucranianos”, isto é, sem estrangeiros, especificamente russos. O artigo da BBC termina dizendo que a Rússia acusava o Setor Direita de envolvimento na violência contra separatistas russófonos no leste da Ucrânia.

A REUTERS, EM 2018

Em 2018, a Reuters (agência de notícias dos EUA) publica um extenso comentário político sobre a Ucrânia, intitulado “O Problema dos Neonazis na Ucrânia”.

fonte: https://www.reuters.com/article/us-cohen-ukraine-commentary/commentary-ukraines-neo-nazi-problem-idUSKBN1GV2TY

Este artigo faz referência a um outro grupo da extrema-direita chamado “Milícia Nacional”. Aqui, podemos ler que  muitos dos membros da Milícia Nacional pertenciam ao movimento Azov, um dos cerca de 30 “batalhões voluntários” financiados por fundos privados que, nos primeiros dias da guerra contra os separatistas do Donbass, ajudaram o exército regular da Ucrânia.

Diz a Reuters que o simbolismo Azov é semelhante ao dos nazis e que o recrutamento era feito nos meios neonazis ucranianos.

Depois da Rússia ter anexado a Crimeia, a maioria dos grupos neonazis foram integrados no exército regular ucraniano. Mas o movimento Azov resistiu a essa normalização e em 2018 continuava a ter campos de treino militar próprios e continuava a recrutar militantes, principalmente entre os adolescentes.

Em 2018, a Reuters afirmava que os militantes Azov e de outras milícias atacavam manifestações antifascistas, reuniões políticas de partidos do centro e da esquerda, pressionavam meios de comunicação social, vandalizavam exposições de arte, atacam na via pública estudantes estrangeiros e ciganos.

A Reuters dava conta do clima de medo que estava a intensificar-se nessa época. Identifica até um momento crucial para o surgimento desse clima, quando o pacifista Stas Serhiyenko foi esfaqueado em 2017 por elementos do grupo C14 ( assumidamente supremacistas brancos).

A Reuters dava conta, ainda, de uma reação da Amnistia Internacional, na sequência de ataques violentos contra os participantes em marchas no Dia Internacional da Mulher, em várias cidades ucranianas. Dizia, então, a Amnistia Internacional, que “o Estado ucraniano está a perder rapidamente o seu monopólio da violência”.

HUMAN RIGHTS WATCH, EM 2019

Em 2019, a ONG Human Rights Watch indignava-se quando um tribunal de Kiev deu razão a uma queixa deste grupo C14, contra o canal de televisão online Hromadske, por difamação ao ter classificado o C14 como grupo neonazi.

fonte: https://www.hrw.org/news/2019/08/08/ukrainian-court-penalizes-news-outlet-calling-far-right-group-neo-nazi

Isto, dizia o Human Rights Watch, apesar de comprovadamente o C14 professar ideologia neonazi, apesar de assumir a autoria de ataques violentos contra ciganos, ativistas LGBTI, ativistas pelos direitos humanos. “Na primavera de 2018”, afirma o Human Rights Watch, “elementos do C14 atacaram um campo de ciganos em Kiev, queimaram as tendas, agrediram pessoas incluindo mulheres e crianças”.

Ainda segundo o Human Rights Watch, o “C14 promove o ódio racial, a discriminação, de maneira assumida e prometem mais ações no futuro”.

Em resumo, o que transparece da leitura destes três artigos, escritos entre 2014 e 2019, é a ascensão segura e metódica da extrema-direita neonazi na Ucrânia, a normalização destes grupos através da sua integração nas forças armadas e a adequação legislativa que lhes permitiu usar da violência sem medo de castigo.

Hoje, está concluido o branqueamento dos neonazis ucranianos. O passado foi esquecido. Até que, um dia, vai bater à nossa porta.

A PALAVRA REVOLUCIONÁRIA

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Tive ocasião de, a 27.05.2009, apresentar, na Biblioteca Municipal das Galveias (Lisboa), o seu livro de poemas O Fio das Harpas e de prefaciar Notas de viagens – Ritmos e Mitos (Coimbra, 2015) e poemas ocasionais (Coimbra, Novembro de 2016), editados ambos por Mar da Palavra.

Companheiro de vultos grandes das letras coimbrãs e das lutas académicas (como Alberto Vilaça), autor de poemas que esses vultos musicaram, preso pela polícia política algumas vezes, indefectível defensor da candidatura de Arlindo Vicente e, depois da renúncia deste, entusiasta apoiante de Humberto Delgado, Fernando Miguel Bernardes fez da pena a sua arma. E recordo a página 68 de Poemas Ocasionais:

de armas na mão
e drones no ar
sem tripulação
e sabem matar

Na evocação de vultos da luta clandestina, mormente comunista, com quem se relacionou, no relato dos horrores psicológicos (e não só) da guerra no Ultramar, o escritor traça, nos capítulos deste livro, fragmentos que se não devem esquecer do que foi o suplício de quem ousou, pela escrita, minar o regime de antes do 25 de Abril, no aplauso evidente ao que a Revolução nos veio trazer.

Relata-se, por exemplo, o instantâneo entre dois militares em Angola. Um deles a alinhavar o aerograma para a sua amada: «Quem está comigo é a tua figura, Sylvie, a serena silhueta que vem apaziguar-me nos imprevistos, nas ciladas desta maldita situação…». Nisto, grita o ordenança (p. 109-110):

Meu Tenente!!
Não, Pedro, não me interrompas, não me digas nada agora.
Mas, meu Tenente!! Estamos a ser…
Ambos regressaram à Pátria, cada um em seu esquife.

Que melhor anátema se poderia esculpir em tão lapidar mensagem?!… Só um génio o poderia conceber assim, tão eloquente e incisivo!…

Contudo, se, como escreve a dado momento, de um século se passa para o outro num ápice, há outros gritos a não abafar agora. Respigo:

«Lá fora estava um dia triste; a mulher, com o rádio ligado para imaginar companhia, fazia arrumos em casa» (p. 121) – prelúdio do acto de solidariedade por parte da vizinhança à mulher cujo marido fora de supetão preso pela PIDE.

«A guerra ensinou a quem quis que nas picadas o trilho mais torto pode ser o que encontre a verdade mais a direito» (p. 142) – a sabedoria, colhida mesmo entre os abrolhos.

«Agora não se usa passar um empregado, mesmo eficiente e antigo, ao quadro efectivo – se é que essa figura laboral ainda existe… – de uma empresa». E prosseguia assim a inexorável corrente de pensamentos do recém-desempregado: «Quantos livros deixara entretanto, ao preço de saldo velho, no alfarrabista dos Fanqueiros? E os quadros que foram saindo das paredes, e poucos já eram, deixando-as nuas?». «Aos quarenta não se é jovem nem se é velho» (confirma-o a «olhadela à sinceridade do velho espelho», e pensa na «por enquanto ainda sua casa; cada vez mais nua». Nessas páginas 170-172, em palavras poucas, o drama pungente.

O jornalista: «Trabalho agora para uma multinacional de informação multimédia globalizada, de raízes entrosadas também neste país ainda à beira mar plantado… e regularmente nos é relembrado, em qualquer idioma ou por vezes traduzido na língua-pátria de Pessoa, até que ponto podemos ir… nem que seja para casa, e logo no dia seguinte» (p. 187) – que melhor retrato?

Réstias de esperança poucas, aqui e além, num desabafo:

«Humanos somos, na estrada nos encontramos e havemos de nos entender» (p. 191).

«Quem ensina é também quem aprende, quem aprende também em comunhão ensinará – basta querer fazê-lo» (p. 269).

Enfim, não estou arrependido de ter dado a um dos prefácios o título de «um poema, uma espada!» – que, militante, Fernando Miguel Bernardes nunca hesitou em, com ela, sempre cortar a direito!

Mais algumas obras publicadas de Fernando Miguel Bernardes