NÃO VALE A PENA

O mundo caminha para o colapso e os homens comportam-se como zumbies.

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Não sei se não aprendi a subversão de valores quando” devia”. A que hoje governa as sociedades, estava diante dos meus olhos desde cedo, mas eu continuava a reger-me por um velho código de princípios que se baseavam no respeito pelo próximo e dispensavam distinção de estrato socioeconómico.

Gerações de pessoas devem lembrar-se de um tipo de convivência comunitária, com carências e muitas lições de vida. A supressão desses valores, ingeridos em dose maciça, apanhou-me desprevenida. Não sei como lidar com ela, ou sem os valores. E se me afecta e dilacera o coração tanta desumanidade e egoísmo, continuo sem saber o que fazer para ajudar à efectiva mudança. Estou numa encruzilhada em que só me ocorre dizer: não vale a pena.

Dá-se a quem não precisa, talvez para aproveitar uma boleia para a fama, ou para não haver misturas. Nega-se a sobrevivência a quem luta por ela desesperadamente. O trabalho e a honestidade são coisas ultrapassadas. Denunciar o que parece uma falácia, é visto com desconfiança. Não se premeiam competência e empenhamento, porque é preciso aproveitar a disponibilidade dos trouxas.

As encenações hipócritas de mérito, que só mascaram a incompetência, são vistas como sinal de inteligência. Simpatia é dizer que está tudo bem contigo. Se não estiver, que estivesse. Gostas de inventar tretas para ganhar mais amizades nas redes sociais.

Impossível fazer um julgamento isento de impurezas, mas ia jurar que a máquina do mal está bem oleada, funciona para homogeneizar todos os comportamentos e triturar a energia de base faz operar mudanças.

Vê se acordas, diz-me alguém…certo é encher o papo de estimação alheia, abocanhar as maiores partes de um bolo comum sem olhar o sofrimento do vizinho faminto. A sorte bafeja os espertos. Esses não respondem ao apoio afectivo recebido, com abraços e beijos. Achas que por lhes cair do céu a sorte aos trambolhões, são obrigados a lembrar-se que gozam o que não é só deles? Era o que faltava…Arrogância é sinal de poder!

Não vale a pena. Valeria se cada um invocasse a sua ponta de egoísmo e quisesse resultados de um trabalho de “reabilitação”. Mas de quem, das entidades responsáveis por um sistema corrompido desde os fundilhos?

Ainda há o costume provinciano de dar esmolas ocasionais, sim porque os pobres não precisam de comer todos os dias. Fazem-se uns espectáculos de arromba, mormente quando altas dignidades visitam o país e fica salva a honra do convento. O problema não é (só) com as dignidades, é com uma oligarquia de vícios que sempre exibiu manobras de diversão para afastar os olhares dos problemas reais.

Ainda que quiséssemos fazer como os espertos, aqueles que perderam o sentido da solidariedade, não podíamos negar que há fome em Portugal. Há homens e mulheres dignos a dormirem na rua. Não deve ser uma forma de fazer turismo cá dentro. É necessidade. Quem tem culpa de não terem casa e meios de subsistência, perguntarão as “entidades responsáveis” … Se não descobriram a resposta até esta altura, nunca estarão aptas a fazer a descoberta do essencial. Nem merecem ser entidades, porque lhes falta a responsabilidade.

Vimos recentemente que os excedentes abundam para insuflar certos egos. Com uma parte mínima dos gastos, podiam fazer-se casas… (que digo eu) …abrigos para os desafortunados dormirem uma noite descansada, depois de comerem uma sopa. Sucumbir ao frio, calcorrear a cidade em estado de subnutrição para encontrar uma luz que lhes aponte a esperança, não será um saudável circuito de manutenção, é um exercício de sobrevivência. As entidades não sabem o que isso é, de rabo apoiado nos estofos de automóveis de frotas substituídas com regularidade.

Há prédios a crescerem em altura, a sufocarem os bairros de habitação mais antigos com casas a precisarem de reforma. E não há casas?… Pessoas e campos essenciais à respiração, vão desaparecendo sob um mundo fantasma com indivíduos dentro de caixas de betão. Sim, as entidades precisam dividir os lucros incalculáveis.

O escritor, jornalista, poeta, pensador uruguaio Eduardo Galeano, lembrava a perversão dos decisores nessas manobras: é preciso construir arranha-céus, para esconder a miséria de autênticos bairros de lata. A miséria e a energia de projectos criativos que por lá proliferam. Na linha do poema épico Martin Fierro, do escritor argentino José Hernández, “o fogo que realmente aquece, vem de baixo”.

O poder não quer, não lhe convém que haja mudança…E se as pessoas, cansadas, vulneráveis, mal pagas, ainda não aprenderam a ser espertas, não vale a pena.

1 COMENTÁRIO

  1. Vale a pena ler esta crónica e comentar. As verdades estão cá todas escritas de forma clara e sem obstáculos. Nem sei se a forma suave de Helena Ventura Pereira expor os assuntos confunde os incautos. Excelente texto.

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