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O País dos Brandos Costumes

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Ao ouvir uma notícia de tal forma hedionda, procurei por mais informação nas plataformas habituais que, de forma mais ou menos uniforme, citavam a agência Lusa como fonte. Nas várias notícias que li figuravam detalhes como:

1 – “os oito colegas tinham idades entre os 13 e os 16 anos”;

2 – “um dos colegas é irmão da vítima”;

3 – “o presidente da Junta de Freguesia de Vimioso, José Manuel Alves Ventura, denunciou “um clima de terror e de encobrimento” que, alegadamente, se vive no Agrupamento de Escolas de Vimioso, relatando vários casos de violência entre alunos, entre alunos e funcionários”;

4 – “Várias fontes ouvidas pela Lusa confirmam que o episódio de sodomização ocorreu cerca das 12:30 [do dia 19 de janeiro] no interior do estabelecimento de ensino, “com recurso a uma vassoura” e na presença de, pelo menos, uma funcionária, que “nada fez” para travar os supostos agressores”;

5 – “Segundo estas fontes, policiais e locais, dois dos agressores têm 16 anos – já respondem criminalmente – e os restantes entre 13 e 15 anos, acrescentando que, passado uma semana, tanto os alegados agressores como a vítima, continuam a frequentar o mesmo estabelecimento de ensino.”;

6 – “Em resposta enviada à Lusa, o Ministério da Educação (ME) diz que foram sinalizadas pelo Agrupamento de Escolas de Vimioso “duas situações”, sem especificar quais. “Que espoletaram de imediato, e ao tomar conhecimento do sucedido, a instauração de 10 processos disciplinares a alunos que terão estado envolvidos no caso de aluno que terá sofrido a alegada agressão. O caso encontra-se sob a esfera do Ministério Público e mereceu intervenção da Polícia Judiciária”, refere o ME.”;

“A Lusa questionou o Agrupamento de Escolas de Vimioso, mas até ao momento não obteve respostas, e tentou contactar, várias vezes, a diretora Ana Paula Falcão, mas até ao momento, também não atendeu as chamadas.”

A fonte da informação anterior é esta notícia, mas existem muitas outras nas plataformas online.

Mas, a seguir, ainda li “Um dos alegados agressores da criança de 11 anos sodomizada “com recurso a uma vassoura”, na escola de Vimioso, no distrito de Bragança, é o irmão da vítima, avança o presidente da Comissão de Proteção de Crianças de Jovens (CPCJ) de Vimioso, António Santos, à CNN Portugal. As autoridades falam num clima “de terror e de encobrimento”. Os alunos mais novos “andam assustados” e os suspeitos “sentem que são impunes” porque “ninguém lhes põe travão”. A fonte desta segunda notícia foi a CNN Portugal.

Bom… Por onde começar?…

Em primeiro lugar: o que fazem os agressores ainda na escola? Repito o meu disclaimer inicial e admito que não conheço formalmente o conjunto de actos que levam um grupo de alunos a serem sumariamente expulsos de um estabelecimento de ensino, mas ficarei muito desiludido se a sodomização de um colega com um cabo de vassoura não figurar nessa lista.

Em segundo lugar: se indícios de corrupção levam a demissões nas mais altas esferas de governo, incluindo prisão preventiva de antigos primeiros-ministros, então o acto de sodomização de um jovem, com um cabo de vassoura, não deveria levar, no mínimo, a interrogatório imediato? E os agressores de dezasseis anos não deveriam ficar na ‘prisão juvenil’ – ou ‘reformatório’, ou lá como se chama – a aguardarem pelo desenlace da investigação? Ou, pelo menos, em casa com uma pulseira electrónica? Ou, pelo menos, fora da escola onde foi cometida a agressão? Mas quantas abébias mais é que se vão dar a estas criaturas?

Ao escrever estas linhas apercebo-me que as mesmas deixam transparecer uma dose de fel que as faz soar perigosamente próximas do discurso de um certo líder de extrema-direita que anda por aí a ulular discurso de ódio, quando lhe convém. E discurso apaziguador, quando lhe convém mais. Se essa ideia vos apareceu na mente, por favor pesquisem nas redes sociais o que escrevo sobre esse dito ‘líder’ há vários anos e verão que essa impressão desvanecer-se-á rapidamente, porque acredito piamente que até um Bonobo com hipermetropia consegue ver quão demagogo e vazio é o discurso da dita figura, que mais não quer do que angariar votos. Por outras palavras, diz o que os votos querem ouvir. Mas não conspurquemos o sofrimento do jovem de 11 anos de Vimioso, e respectivos pais, com essa tentativa infecta de chegar ao poleiro por parte de um galaró sedento de poder.

Por falar no sofrimento dos pais, não resisto a reacender o famoso caso dos seis estudantes que morreram na praia do Meco na noite de 13 de dezembro de 2013 e, para tal, reli esta notícia:

Lembro-me muito bem do que escrevi – e senti – na altura, quando ouvia frequentemente que o ‘Dux’ João Gouveia estava “demasiado traumatizado” para falar sobre o que tinha acontecido. A julgar pela notícia anterior levou sete anos para o fazer. Na altura eu não era pai, mas agora sou. Mesmo assim, o pensamento que me assaltava incessantemente era “Como é que os pais esperaram sete anos para saberem o que aconteceu?? Como é que se fica impavidamente à espera que o sobrevivente – e alegado cabecilha – “saia do trauma”??”

Embora a notícia de 2021 refira que, de acordo com o João Gouveia, o evento não esteve relacionado com praxes, eu lembro-me muito bem de quando isto aconteceu, em 2013, e de como o evento estava categoricamente associado a praxes, uma prática que está sobejamente incrustada de notícias de humilhações e maus-tratos nos campus universitários e militares. Mesmo assim, não houve umª reitorª que se atrevesse a abolir as praxes nas suas instituições.

Correndo o risco de parecer um cata-vento e desviar-me demasiado do tópico central, não resisto a ir buscar o igualmente triste episódio ocorrido quase exactamente um ano antes, em 14 de dezembro de 2012, na escola primária Sandy Hook, no Connecticut. Nesse episódio trágico, um jovem de 20 anos matou 20 crianças (com idades entre os seis e sete anos) e seis adultos, antes de se suicidar com um tiro na cabeça e depois de ter matado a mãe (a tiro) antes de sair de casa. Dias depois escorriam lágrimas pela cara do presidente Obama enquanto discursava acerca da falta de vontade dos restantes dirigentes da nação a que presidia em apertarem a legislação de controlo de armas. Não me recordo das palavras exactas mas a mensagem era de revolta profunda e professava consternação com o facto de um incidente de tamanho horror não ser suficiente para levar a uma mudança de paradigma imediata. “I guess [dizia ele] que somos uma nação onde algo como isto é aceitável, desde que continuemos a não ter controlo na aquisição e porte de armas.”

Entremos, finalmente, na fase de conclusão destas linhas, que já vão longas:

1 – Para os americanos, vinte crianças (e seis adultos) mortos não é um preço suficientemente alto para tocarem na legislação que controla a compra e porte de armas;

2 – Para os portugueses, dir-se-ia que seis estudantes mortos também não é suficiente para se tocar nas praxes ou no conceito de ‘protecção dos direitos das vítimas traumatizadas’, tendo em conta que os direitos do sétimo sobrevivente pesaram mais do que o direito ao esclarecimento dos doze pais dos seis mortos;

3 – Para os portugueses também parece que a sodomização – com um cabo de vassoura – de um jovem de onze anos às mãos de oito gandulos entre 13 e 16 também não é suficiente para os expulsar da escola, onde a vida continua como se nada tivesse ocorrido e a directora prefere não comentar.

Como pai em primeiro lugar, como cidadão que paga (muitos) impostos em segundo e, em terceiro, como ser humano que tenta viver aplicando a máxima milenar “trata os outros como gostas que te tratem”, tudo isto me choca. Profundamente.

Entendo que tenhamos de respeitar os direitos dos agressores. Também entendo que já não somos neandertais que apedrejam quem é apanhado em flagrante delito e ainda bem que deixámos de ser. Mas, caramba, se calhar desviámo-nos demasiado desse caminho de justiça hamurabiana de ‘olho por olho, dente por dente’ e deixámo-nos cair na total complacência e aceitação do que é indiscutivelmente inaceitável.

TODOS, EXCEPTO OS FASCISTAS

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As ideias intolerantes combatem-se com firmeza ideológica e práticas políticas assertivas na defesa dos ideais democráticos. Permitir que movimentos neonazis ou partidos políticos da extrema-direita usem as leis da democracia para a minar por dentro, é uma espécie de suicídio.

Numa recente crónica publicada em diferentes meios de comunicação social, o advogado Garcia Pereira alerta para a permissividade dessa fronteira que separa democratas e fascistas.

Garcia Pereira em Fascismo, Memória colectiva e Cidadãos conscientes (a propósito do Chega) – Notícias Online (noticiasonline.eu)

Estas ideias de defesa da democracia podem ser resumidas numa única frase, como a que vimos grafitada numa esquina da Praça da Figueira, em Lisboa.

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NOS CUS DE JUDAS

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Na minha cabeça passam os fotogramas das vagas maciças de emigração portuguesa dos anos 60, princípio de 70, sobretudo para França e Luxemburgo, as tais que diziam com pouca preparação académica e prontas para aceitar qualquer tarefa a troco de manter vivo um sonho. De facto, desprotegidos, os jovens passavam as fronteiras a salto, fugindo até do serviço militar obrigatório e da morte em cenários de guerra colonial.

Mas esses pelo menos sabiam que iam encontrar um tipo de trabalho não qualificado, que lhes garantia a sobrevivência. À custa de sacrifícios medonhos, a morarem em  habitações tão precárias como no país de origem. E a preto e branco agigantam-se os degradantes bidonvilles, tão admiravelmente fotografados por Gérald Bloncourt, onde crianças de sapatos na lama exibiam roupas limpas e um sorriso inocente. Uma delas, a que segurava a boneca como quem sustém a vida, conseguia fazer um curso superior em Coimbra. Ainda o confessava ao fotógrafo antes dele falecer em 2018.

Todos os sectores da sociedade portuguesa enfrentavam então precária situação, agravada com a partida dos varões jovens para as várias frentes de guerra, com as mortes e mutilações de tantos. Ficavam os indivíduos que as ocupações do turismo absorviam, um turismo em crescimento exponencial e desregrado, que no Algarve e em outros paraísos de sol e mar, sacrificava a paisagem, as particularidades locais, para fazer crescer hotéis como cogumelos. O sector não conseguia alimentar a economia do país, insuflada pelas remessas dos emigrantes que ele mesmo, país, tinha empurrado para fora.

Comparações possíveis? Sim, muito mais tarde, em novo regime e em alternância partidária, ainda havia políticos que aconselhavam os jovens a emigrar, como se o país fosse feudo de uma elite escolhida por entidade divina. E eles emigravam, emigram ainda.

Este jovem de que falo vai a caminho dos 50, pode representar os melhores da sua geração: com licenciatura e doutoramenteo, inteligente, dedicado à investigação. Ainda motivador de camadas jovens para a necessidade de protegerem a Natureza, a limpeza dos oceanos. Como ele, tantos outros com conhecimentos técnicos e científicos que podem acrescentar capital humano de nível superior a qualquer sociedade, estarão também condenados a deixar o país ao fim de 20 anos de entrega, sem lugar no mercado de trabalho? Há décadas eram a França e o Luxemburgo, talvez menos a Suíça e a Alemanha, sempre o Reino Unido e a Irlanda, os países de acolhimento. Hoje não há garantia de estabilidade na Europa, também ela afectada por economias debilitadas e profundas crises de emprego.

Tudo culpa dos políticos de ontem e de hoje. Sempre bafejados pelo prolongamento de regalias depois de cessarem funções, num imoral sorvedouro de fundos desmesurados já depois da vida activa, pouco cuidam do futuro do país. Antes se divertem, dentro e fora, no aproveitamento de regalias, em investimentos rendosos, enquanto os jovens valores procuram desesperadamente assentar num lugar e desempenhar funções com perspectivas de futuro estável.

Da parte deles, políticos antigos e dos executivos que lhes sucedem, nunca houve a preocupação de articular a criação de cursos superiores, com as necessidades do mercado. Bem sabiam e sabem que, desejosos de um canudo que lhes garanta um lugar ao sol, os jovens tentam mais um grau de ensino, melhorando as estatísticas da qualidade de vida, medidas pelo estado da saúde e pelos níveis de escolaridade. E como, percebendo o logro, o retorno de uma ocupação condigna tarda, vão da licenciatura directamene ao mestrado e ao doutoramento, sujeitando-se a ocupações mal remuneradas, ainda esperançados na concretização do sonho.

Todos são filhos de um homem e de uma mulher, mas poucos são meninos de papás com capital de relações sociais. Os progenitores menos afortunados arcam com as despesas de uma licenciatura. Portugal é dos países que apenas afecta 0,7% do PIB ao Ensino Superior. No fim do curso o mundo laboral não absorve parte dos novos graduados, ou o estado não compensa as famílias do investimento pesado. Podem elas, até, ver onerada a sua existência, porque a situação precária dos filhos passa, não raras vezes, pela estadia prolongada em suas casas já com os respectivos companheiros e descendência.

E cá temos de novo a emigração no horizonte. Sair para longe para receber uma remuneração condigna que garanta um pouco mais do que a mísera sobrevivência. Quase todas as famílias têm filhos espalhados ainda pela Europa e por mais longe, nos Emirados Árabes Unidos, na Austrália, no Canadá, ou como dizia um conhecido há dias, “nos cus de Judas”. E sentia-se duplamente penalizado por não ver o filho encontrar uma solução dignificante perto de casa, que lhes permitisse usufruir da companhia uns dos outros, enquanto há uma réstia de vida.

Portugal devia fortalecer-se, planear, aproveitar os seus recursos humanos, mas na selva da luta partidária pelo poder e neste modelo do salve-se quem puder, não há espaço para meritocracias, nem para reconhecimento da honestidade. Cidadãos revoltados, repartidos pelos cus de Judas de um mundo competitivo, eis o que o esbanjamento indevido e a falta de concentração nas políticas essenciais, vêm produzindo. Alguns conseguem a realização pessoal e acabam por se adaptar ao país de acolhimento. Afinal o reconhecimento do valor e a compensação monetária, são um forte incentivo para criarem laços. E depois o mundo é um só, neste tráfego caótico de “livre circulação”. Mas não deixam de ficar atravessados na angústia dos pais, que os levam até onde podem e que desistem de contar com o seu amparo na idade em que mais precisam.

Para eles já é importante perceber que os descendentes alcançaram uma vitória, ainda que longe das raízes. São os bem-sucedidos. Os que ficam vão-se perguntando se valeu a pena marrar noites a fio para viverem de biscates num país, e num mundo, dividido por lotes que nada têm a ver com o merecimento, mas com os oportunismos que conseguem ir derrubando os mais habilitados.

Talvez um dia também  eles tenham de partir para um cu de Judas qualquer.

Pedro Nuno Santos arrasa André Ventura

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Pedro Nuno Santos arrasou André Ventura. O secretário-geral do PS diz que o líder do Chega apenas se preocupa com a sua ambição política, tanto diz uma coisa como o seu contrário e que representa o pior do que existe em democracia: o populismo.

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A GRANDE TANGA!

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Claúdio Ramos, Jorge Gabriel, a TVI e a SIC andam a vender criptomoeda, através de um esquema que estas entidades e personalidades, provavelmente, não controlam.

O engodo vem nas páginas iniciais da Microsoft (aquela página que surge quando ligamos o computador). Entre notícias e publicidade, há “coisas” que parecem notícia e que são publicidade enganosa.

Os nomes e as caras de Jorge Gabriel e Claúdio Ramos há muito que são utilizados neste esquema. Curiosamente, nunca foi notícia que os apresentadores da RTP e da TVI se tenham incomodado com isso. Ou os respetivos canais de televisão. Mas pode ser que tenha acontecido de modo sigiloso.

O isco está no apelo à curiosidade mórbida de muita gente, sugerindo que alguma desgraça (um adeus difícil… Portugal homenageia… tristeza… amigos em choque…) se abateu sobre Jorge Gabriel. Uma doença, uma fatalidade, um drama. Quem clica para ler a “notícia”, mergulha num esquema publicitário de venda de criptomoedas.

Através de uma entrevista fictícia, desenrola-se uma cena que nunca existiu, em que Jorge Gabriel terá dito a Claúdio Ramos, em direto, no estúdio da TVI, que fez fortuna a comprar criptomoedas. Apenas um lamiré:

A cereja em cima do bolo é a ideia de que se pode ficar rico sem trabalhar. Na verdade, é possível. Mas, para isso, será preciso fazer como os que inventaram esta história mal parida: tentar enganar os trouxas e explorar as fraquezas dos outros. A verdade é que deve resultar, a julgar pelo tempo que já dura esta treta.

40 MILHÕES EM ARTE PELA VIDA DE ASSANGE

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Andrei Molodkin, artista plástico, anunciou que está pronto para destruir 16 obras de arte, entre as quais telas de Picasso, Rembrandt e Warhol, se Julian Assange, jornalista australiano preso no Reino Unido à espera de ser extraditado para os EUA, morrer na prisão.

As obras de arte reféns de Molodkin já estão guardadas a 7 chaves. São pinturas estimadas em cerca de 40 milhões de euros, segundo afirma o próprio Molodkin..

Esta história foi contada ontem, pela televisão Sky News.

Molodkin não está sozinho na missão de salvar Julian Assange. As obras de arte foram-lhe entregues por Giampaolo Abondio, um galerista italiano que já exibiu uma exposição com obras de Molodkin. Abondio terá dito que as pinturas estão armadilhadas com uma substância “extremamente corrosiva” que será derramada se Assange morrer.

Esta história baseia-se apenas em afirmações de Molodkin e Abondio, as pinturas ameaçadas não foram mostradas. O que se vê no vídeo da Sky News são caixotes dentro de um cofre. No vídeo podemos ver uns contentores brancos de tampa vermelha onde supostamente estará a substância corrosiva. Mas pode ser tudo uma espécie de “golpe publicitário”, não só para chamar a atenção para a situação do prisioneiro, mas para autopromoção do artista e do galerista.

Andrei Molodkin e o cofre armadilhado, imagens obtidas da reportagem vídeo da Sky News

Seja como for, Assange aguarda a decisão final do tribunal que, no próximo dia 21, anunciará o que decidiu sobre o recurso apresentado pelos advogados para evitar a extradição para os EUA, onde poderá ser condenado a 175 anos de prisão. Enquanto aguarda, Assange está detido na prisão de alta segurança de Belmarsh.

De resto, não é a primeira vez que Molodkin aborda questões controversas de modo espetacular. Por exemplo, a questão da Irlanda do Norte e do separatismo entre as comunidades católica e protestante, foi tema de uma exposição em Derry intitulada “Sangue Católico”. A obra principal da exposição foi executada propositadamente com sangue humano, sangue de 36 católicos voluntários irlandeses. Aconteceu em 2013, foi um escândalo. A peça representava a rosácea do Palácio de Westminster, era feita com tubos transparentes por onde circulava o sangue bombeado por um compressor.

Sangue Católico, Andrei Molodkin, 2013

A Rua de Baixo

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Num dia de almoço de filetes de polvo acompanhados com arroz do dito, da dedicatória, o mestre e amigo Dr. Paulo Sucena ofereceu-me o seu livro que é uma visita à obra de Manuel Alegre: que pátria para este exílio? O poeta em demanda.

Voltei recentemente ao livro para reler o poema Rua de Baixo, a rua onde o poeta viveu parte da sua infância, a Rua Vasco da Gama. O poema é uma aguarela viva.

O livro de Paulo Sucena é uma chave para compreender o poeta homem, e a sua obra.  

O rio Águeda está presente na obra de Manuel Alegre, campeão de natação pela Associação Académica de Coimbra e internacional, como nos conta o professor:

“Haverá sempre em mim o Rio Águeda
Meu ritmo é seu fluir e seu buscar.”

Do livro Rua de Baixo (1990). E ainda,

“Dezembro e sua cheia. O rio em casa.
(Meu rio Águeda `flor da pele). Talvez
por isso a inquietação o bater de asa
e este desejo de partir com ele.”

No poema “Canção do tempo e sua flauta”, (Atlântico,1981).

Do livro Rua de Baixo podemos encontar no poema Escola do Adro uma caracterização da sociedade local fortemente marcada por assimetrias nos anos 40 do século passado. O poeta marcava as suas preocupações sociais:

“A malta que vinha à escola vestia ganga
comia um naco de boroa e uma sardinha
tinha tinta nos dedos e às vezes tinha
na cabeça uma doença chamada tinha.
(...)
Todas as manhãs se fazia a saudação fascista
mal o professor virava costas
começavam os manguitos e as caretas
daquela malta que não gostava de estender o braço
e punha a língua de fora para os retratos
de Carmona e Salazar na parede ao fundo.
Aquela malta que vinha à escola
não era malta para ser domada.
Talvez por isso o jeito que me ficou
de fazer manguitos pela vida fora.”

Nas palavras do poeta, a infância aguedense está presente em tudo o que escrevo: nos sons, nos cheiros, nas imagens, na cor de certas palavras, na toada de certos ritmos.

Cultivar a memória como património comunitário é produzir cultura. Manuel Alegre é um aguedense cuja obra leva o Largo do Botaréu, o Largo de Além-da-Ponte, leva Águeda pelo mundo fora. Não só a sua poesia e prosa levam Águeda pelo mundo fora como o próprio inscreve na badana de todos os seus livros “Manuel Alegre de Melo Duarte nasceu em Águeda a 12 de Maio de 1936”.

O autor escreve em português tal como o seu pai lhe ensinou, ao colo, a ler “Abola”.

Nota da redação: agregamos a esta crónica a leitura de um poema de Manuel Alegre.

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TESOUROS EM PARTE INCERTA

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Em Beja.

Numa bela tarde de Verão, em casa do Dr. Fernando Nunes Ribeiro, que foi Governador Civil de Beja, que escavou a villa romana de Pisões e reuniu relevante colecção de antiguidades, designadamente arqueológicas, estudava eu as pedras romanas com letras que ele guardara.

            – E mais, dr.? Sabe de mais inscrições romanas por i? Fora das do Museu, claro! Tem ideia de um tal José Mendonça Furtado Lindo Januário, de que Abel Viana falou?

            – Sim, era um antiquário daqui.

            – Era?

            – Sim, já não está cá. Abalou para as bandas de Tavira, dizem!

Tavira? Vamos lá! Um contacto com a Câmara, porque Abel Viana tivera o cuidado de dar o nome completo do senhor e poderia ser fácil, através dos cadernos eleitorais, por exemplo, saber dele. E soube-se logo, porque da Câmara rapidamente responderam. Abençoados! Conhecia-se bem o «Zèzinho da Beja». Morava no Monte da Guerreira, em Estiramanténs, freguesia de Santo Estêvão. Lá fomos. Recebidos com a maior atenção, mostrou-nos tudo o que fora ajuntando, mesmo aquelas moedinhas preciosas, que bem escondidas tinha.

Aí estudei, pois, duas inscrições da área de Beja, de que uma já mostrei na edição do dia 9 do Diário do Alentejo, com bem sugestiva ilustração de enquadramento da autoria do Dr. José Luís Madeira.

Trata-se de mui singelo epitáfio latino que diz assim (traduzo para português):

«A Monia, liberta de Leucínico, de 19 anos. Aqui jaz. Que a terra te seja leve».

Há, desde logo, um pormenor a prender a atenção: ninguém se identifica como promotor da homenagem; apenas se diz que a jovem foi liberta de Leucínico. Sua serva durante algum tempo, acabou Leucínico por lhe dar a liberdade, certamente devido aos seus bons serviços e, quiçá, imaginamos nós com a nossa mentalidade, por dela se haver enamorado. Tudo, porém, se nos mostra envolto em diáfano manto de discrição.

Mas… cadê a pedra?

A outra epígrafe deu entrada no Museu Municipal de Tavira. E esta para onde é que foi? A fotografia então feita é, pois, a única prova da sua existência. Acreditam em mim, que fiz a foto e a estudei; mas onde é que ora estará? Documenta, como vimos, o testemunho do uso único de dois nomes antigos; daí o seu interesse histórico. Vamos à cata dela?

«Depois de mim, que será do meu Museu?» – interrogava-se Zezinho da Beja em entrevista concedida ao conceituado jornalista Ferreira Fernandes de que se mostra praticamente só o cabeçalho e fotografia na página do Facebook do grupo «Penso, logo existe Tavira», com comentário exarado a 16 de Julho de 2018. Aí se preconizava uma acção camarária para salvaguarda do que ainda restasse. «O que ainda restasse»… Que o único comentário ao texto é de Rosário Afonso: «E tudo o vento levou…. Bye, bye, tesouro!».

Também eu fui obsequiado «com um figuinho e um copinho de aguardente», como se assinala nessa página; também eu tive ocasião de ver as  «onze salas completamente cheias das mais variadas peças» – a Sala dos Candeeiros, a Sala Religiosa…; os quadros, os oratórios, os cristais, os marfins, os móveis…

Parte desse precioso espólio, uma parte pequena, deu entrada no Museu Municipal de Tavira onde está a ser devidamente inventariado.

Quem sabe se, um dia, os herdeiros põem a mão na consciência e se decidem a negociar? A memória do seu benemérito antepassado bem no merece!

Crescer implica mão-de-obra

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“Quando a China despertar, o mundo tremerá!”.

Atribuída a Napoleão, sem fundamento científico que suporte a paternidade, esta frase significaria que o gigante adoemecido poderia acordar a qualquer momento e liderar o mundo. O número, leia-se quantidade de pessoas, é fundamental no poderio económico. Entretanto, a Índia já ultrapassou a China no número de habitantes.

Portugal é um país pequeno, com baixa densidade populacional e com um crescimento demográfico negativo. Isto é, a manterem-se todos estes factores, a prazo vai falecer, de morte natural. Morrem mais do que aqueles que nascem.

Estamos, hoje, em termos populacionais, tal como estávamos no séc XV. Em tudo o mais estamos francamente pior comparativamente. Liderávamos a ciência e a técnica, a construção naval, a navegação, a astronomia, a matemática. Em suma, a bem-dita Ciência. Éramos, aproximadamente, um milhão de habitantes.

O desafio que se nos coloca é voltarmos a ser, não os primeiros, mas a regressar ao grupo dos primeiros, aprendendo com as lições do passado. Todas as organizações em crise fazem uma reflexão em torno dos seus valores de criação, dos seus princípios orientadores e, a partir desse momento fundador, renascem.

Hoje, tal como ontem, a escassez de mão-de-obra tem que ser resolvida. No passado, foi a escravatura que a supriu, hoje tem que ser a imigração com direitos, apoiada no clima de segurança do país, na tolerância dos portugueses face ao Outro, ao diferente, assente na multiculturalidade.

No passado, fomos pragmáticos, fomos buscar os melhores que vieram pelo dinheiro que oferecemos mas trouxeram conhecimento efectivo. Não, não escrevo sobre Michael Porter, uma encomenda de Cavaco Silva datada de 1994, que descobriu no vinho, no turismo, no sector automóvel e por aí fora, “clusters”, vocábulo estrangeiro, à época, para seduzir os pacóvios com responsabilidades públicas. Sobre o Mar e as pescas nem uma palavra para um país que 97% do seu território é marítimo.

Temos pensadores suficientes que produzem saber,  que acrescentam valor, que inovam, mas temos que ser rigorosos para não contratar peritos internacionais que nos vêm ensinar aquilo que já sabíamos. Se assim não for, corremos o risco de acabarmos a bater punho (para não ferir as susceptibilidades do leitor), como aquele ex-ministro que afinal não era doutor…

As cidades modernas competem umas com as outras, competem entre si pela atracção de empresas para os seus parques industriais, pela fixação de populações nos seus concelhos, pela fixação de pólos universitários nos seus territórios. Atraem novas gentes. A capacidade de conquistar o Outro, o estrangeiro de Camus, para vir viver perto de nós, para a nossa cidade, é um trabalho de todos. Era aqui que eu pretendia chegar.

O sociólogo Frédéric de Coninck escreveu L’Homme Flexible et ses Appartenances, O Homem Flexível, digamos, nas suas várias dimensões. Oferece-nos uma perspectiva de encarar e aceitar o outro nos desafios da modernidade. Haverá sempre um desvio entre as expectativas das novas comunidades que vêm viver para o nossos espaços e a realidade que lhe é oferecida.

O segredo da integração residirá, por um lado, na capacidade que essas mesmas comunidades terão de interiorizar, aceitar e conviver com a cultura do nosso povo. Por outro lado, teremos que lhes reconhecer o direito a circular, provavelmente de forma difusa, entre diversos papéis que são novidade para elas.

A flexibilidade é um ajustamento constante e pressupõe adaptações, mas também a vontade de conseguir alcançar. Os portugueses, quando mobilizados, já demonstraram possuir essas capacidades.

O autor escreve em português tal como o seu pai lhe ensinou, ao colo, a ler “Abola”.

PAGAMOS E NÃO TEMOS

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Ainda mal tinha havido tempo para ter sido lido, já os adversários políticos vinham a terreiro dizer mal do que lá está escrito. Por exemplo, o líder da Iniciativa Liberal (IL) aproveitou uma reunião no Sindicato Independente dos Médicos (SIM) para tentar fazer boa figura, não só perante aqueles médicos como, também, perante o grupo social que vota na direita.

Rocha disse que o PS apresenta medidas “gravosas e intoleráveis” para a saúde, porque os socialistas querem estudar a hipótese de os médicos compensarem o Estado no caso de emigrarem ou integrarem o setor privado.

“Não é obrigando as pessoas a ficar, quando já não querem ficar. É criando as condições para que haja motivação para os médicos fazerem o seu trabalho de forma digna e em condições,” ouvimos Rui Rocha dizer na televisão.

Lendo o programa eleitoral, não vem lá nada sobre sequestro de médicos ou grilhetas nos pés para ficarem nos hospitais públicos. O que vem escrito é que se vai ponderar (isto é, estudar, discutir, negociar) sobre uma indemnização a pagar ao Estado por se ter investido na formação profissional de um médico que prefere ir trabalhar para o estrangeiro ou para um hospital privado.

A questão é interessante e muitos portugueses já terão pensado nela. Um curso de medicina custa ao Estado muitos milhares de euros e se o médico, depois de formado, não trabalhar nos hospitais públicos por um tempo minimamente aceitável, andámos todos a pagar para depois o médico ir trabalhar só para os mais ricos.

índice do programa eleitoral do PS, da página 60 à 66, as propostas para a Saúde

É possível que alguns médicos não gostem da ideia de indemnizar o Estado, talvez os industriais do setor e acionistas dos grupos privados da Saúde prefiram ter médicos em que não investiram um cêntimo na formação, mas também é possível que a grande maioria da população concorde com a ideia.

Em muitos países europeus existem financiamentos públicos para estudos universitários que os alunos, depois de formados, têm de devolver num prazo previamente estipulado. Ou seja, passarão os primeiros oito, nove ou dez anos de trabalho a descontar uma boa parte do salário para devolver o investimento feito neles. É assim no Reino Unido, por exemplo. Só em Portugal é que o Estado faz figura de rico, de tio perdulário, que tudo oferece e nada pede em troca.

Na Universidade Católica, a única instituição privada que leciona cursos de medicina, cada estudante paga 16.600 euros de propina por ano. O curso tem 6 anos de duração, são cerca de 100 mil euros para se ser doutor. O montante reflete o custo de formação de um aluno de medicina, que não é diferente na Universidade Católica de uma universidade pública. A diferença é que, no ensino público, o valor é coberto pelo Orçamento do Estado, enquanto que, na Católica, é suportado pelas famílias dos alunos.

Nas universidades públicas, a propina máxima das licenciaturas e mestrados integrados é de 697 euros anuais. Por isto, a proposta do PS é bastante razoável e a decisão de obrigar os meninos a recompensar o que neles o Estado investiu, se for adoptada, só peca por tardia.