Num dia de almoço de filetes de polvo acompanhados com arroz do dito, da dedicatória, o mestre e amigo Dr. Paulo Sucena ofereceu-me o seu livro que é uma visita à obra de Manuel Alegre: que pátria para este exílio? O poeta em demanda.
Voltei recentemente ao livro para reler o poema Rua de Baixo, a rua onde o poeta viveu parte da sua infância, a Rua Vasco da Gama. O poema é uma aguarela viva.
O livro de Paulo Sucena é uma chave para compreender o poeta homem, e a sua obra.
O rio Águeda está presente na obra de Manuel Alegre, campeão de natação pela Associação Académica de Coimbra e internacional, como nos conta o professor:
“Haverá sempre em mim o Rio Águeda Meu ritmo é seu fluir e seu buscar.”
Do livro Rua de Baixo (1990). E ainda,
“Dezembro e sua cheia. O rio em casa. (Meu rio Águeda `flor da pele). Talvez por isso a inquietação o bater de asa e este desejo de partir com ele.”
No poema “Canção do tempo e sua flauta”, (Atlântico,1981).
Do livro Rua de Baixo podemos encontar no poema Escola do Adro uma caracterização da sociedade local fortemente marcada por assimetrias nos anos 40 do século passado. O poeta marcava as suas preocupações sociais:
“A malta que vinha à escola vestia ganga comia um naco de boroa e uma sardinha tinha tinta nos dedos e às vezes tinha na cabeça uma doença chamada tinha. (...) Todas as manhãs se fazia a saudação fascista mal o professor virava costas começavam os manguitos e as caretas daquela malta que não gostava de estender o braço e punha a língua de fora para os retratos de Carmona e Salazar na parede ao fundo. Aquela malta que vinha à escola não era malta para ser domada. Talvez por isso o jeito que me ficou de fazer manguitos pela vida fora.”
Nas palavras do poeta, a infância aguedense está presente em tudo o que escrevo: nos sons, nos cheiros, nas imagens, na cor de certas palavras, na toada de certos ritmos.
Cultivar a memória como património comunitário é produzir cultura. Manuel Alegre é um aguedense cuja obra leva o Largo do Botaréu, o Largo de Além-da-Ponte, leva Águeda pelo mundo fora. Não só a sua poesia e prosa levam Águeda pelo mundo fora como o próprio inscreve na badana de todos os seus livros “Manuel Alegre de Melo Duarte nasceu em Águeda a 12 de Maio de 1936”.
O autor escreve em português tal como o seu pai lhe ensinou, ao colo, a ler “Abola”.
Nota da redação: agregamos a esta crónica a leitura de um poema de Manuel Alegre.



