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RADARES RODOVIÁRIOS, O GRANDE NEGÓCIO

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O mais recente relatório da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), diz que os condutores portugueses continuam a acelerar demasiado. O aumento em 93% das multas é a evidência disso mesmo. Em 2023, a receita atingiu um novo recorde, atingindo os 96 milhões de euros. Fazendo contas, são cerca de 267 mil euros por dia a entrar nos cofres públicos.

É por isso que a compra e instalação de radares é um grande negócio.  Por exemplo, a Câmara Municipal de Lisboa investiu 2 milhões de euros em novos radares, em 2022. Pagou o investimento em pouco tempo, uma vez que passou a cobrar 1200 multas por dia.

O investimento recupera-se em pouco tempo e, depois, é quase só lucro. As máquinas trabalham sozinhas. Registam imagem do veículo, o computador indica qual a morada do proprietário, a multa segue pelo correio, o cidadão paga pelo multibanco. Quase não há mão-de-obra ocupada com esta engrenagem, excepto a do carteiro que distribui as cartas ou a dos agentes policiais em operações stop.

Este aumento de receita ficou a dever-se à instalação de 37 novos radares em locais que não eram antes controlados. E note-se que os novos radares só começaram a faturar em setembro. O Estado não fica por aqui, há mais 25 radares encomendados para completar a rede projetada.

2 anos

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cartoon de Georgii Kobiashvili

A guerra na Ucrânia entra hoje no terceiro ano, se não considerarmos como guerra a situação que prevaleceu no Donbass desde 2014. Mas foi em 24 de fevereiro de 2022 que o exército russo entrou pela Ucrânia dentro, naquilo a que o Kremlin chamou “Operação Militar Especial”.

Para assinalar a data, os EUA decretaram mais medidas que visam sancionar a economia da Rússia. Essas medidas irão ser impostas aos aliados dos americanos e serão contrariadas pelos aliados da Rússia. O mundo cada vez mais dividido e empenhado na guerra.

Basicamente, as novas sanções dirigem-se ao sistema de pagamento MIR, a versão russa do sistema de pagamentos SIBS, sistemas através dos quais se processam pagamentos financeiros internacionais. O sistema MIR, foi implantado a partir de 2015 em resposta às sanções ocidentais após a anexação da Crimeia em 2014.

Os EUA pretendem ferir a economia russa, principalmente diminuir as receitas da exportação de hidrocarbonetos da Rússia. As sanções têm falhado, até agora, o crescimento económico da Rússia foi de 3,6%, em 2023. A previsão do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgada em janeiro, fala de crescimento de 2,6% do PIB para 2024. Isto mostra que a guerra é um bom negócio também para a Rússia, não apenas para os EUA.

As medidas agora decretadas pretendem dificultar a atividade e a liberdade de circulação de pessoas e de empresas, russas e de países aliados. Acontece que entre os aliados da Rússia e países que não aceitam as políticas americanas estão, entre outros, a China, a Índia e o Brasil.  Ou seja, metade do mundo não alinha com os EUA. Na verdade, o Governo americano jamais conseguirá sancionar todos os que colaboram com a Rússia, porque as sanções acabam por ter um efeito de boomerang e prejudicar também a economia do sancionador.

Por exemplo, na nova lista de alvos a sancionar estão dezenas de empresas e organizações russas, mas também da China, Turquia, Emirados Árabes Unidos, Cazaquistão e Liechtenstein, num total de 500 alvos entre individualidades e organizações. Os negócios poderão não se fazer com os americanos e europeus, mas certamente que continuarão a ser feitos na outra metade do mundo. Por exemplo, Portugal deixou de receber turistas russos? Eles foram vistos a passear nas praias do Vietname e do Brasil. Talvez venham a faltar mais produtos nas prateleiras do ocidente do que no oriente. Para já, nas ‘prateleiras’ faltam balas, obuses, mísseis, munições para a Ucrânia.

Incluir a má sorte do dissidente russo Alexei Navalny nas reais preocupações do Governo americano é mera propaganda. Cada vez menos se acredita nas intenções cozinhadas na Sala Oval, face ao que tem acontecido na Palestina e noutras partes do mundo, onde persistem conflitos igualmente injustos alimentados pelos interesses dos EUA e seus aliados.

Os meninos do rio Águeda que se fizeram homens

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Já conhecia o rio das férias em casa dos meus tios, na Borralha, mas foi no dia de corpus christi que fui viver para o Sardão. As suas margens, os campos de milho, a piscina, o Fojo, o Poço do Conde e o Souto do Rio deram-me a liberdade da condição de ser menino.

Ainda não sabia nadar, mas depressa lhe tomei o jeito e aos poucos fui ganhando a batalha contra a água. Primeiro com a Lola e depois com o Tio Bério que nos atirava para as pistas mais fundas, aquelas onde não tínhamos pé. Vivia dentro de água, vivíamos todos, a minha casa a cinquenta metros do rio.

E ganhei amigos para a vida, o Noronha, companheiro de quilómetros debaixo de água, (desde já mandatado para lançar as minhas cinzas no lugar do costume), os irmãos Pina, o Paulo e o João que me telefona da Suíça sempre que lhe apetece, o Acácio (Cacito), o José e Paulo Seara, o Claudio, o Jorge Miguel da escola de condução, o Jorge Costa, o Pelicano (Carlos), o Bano, o Peles, o António Borges, os irmãos Brinco, o Zé Carlos, o já falecido Tónio da louça e tantos outros que a memória não me acompanha.

E aquele que nos imortalizou nas suas crónicas, o nosso querido Afonso de Melo. Sabes, meu querido, a Francisca tem nos olhos o azul do nosso rio. Um dia iremos todos com ela nadar até ao Alfusqueiro. Está prometido.

Logo bem cedo pela manhã atravessávamos o rio e construíamos um verdadeiro arsenal de guerra. As terroas eram feitas com palha misturada na lama para não se desfazerem no ar, antes de atingirem o alvo. Algumas até tinham pequenos seixos para deixarem marcas no animal. Lá para o meio da tarde começava a verdadeira batalha.

De uma para a outra margem, alguns metros acima da piscina, todos enlameados, mergulhávamos no rio para não mais aparecermos. E assim de repente as águas ficavam castanhas, para desespero da Lola.

Uma corrente de miúdos a nadar em apneia para baixo dos estrados, para não sermos vistos. Com alguma sorte, por entre as tábuas de madeira, podíamos espreitar as pernas das senhoras mais distraídas que acudiam aos seus filhotes. Os olhitos cheios de água a tentar descobrir pipis por entre as frestas. E elas a andar de um lado para o outro e nós cá em baixo a bailar também, a ajustar a mira.

Nós inventámos os nossos rituais iniciáticos, fomos viris e descobrimos o sexo, deixando para trás, aos poucos, a infância e a adolescência. Os meninos aprenderam a ser homens.

Dito de outro modo, como eu viria a aprender mais tarde “a infância prolongada é específica da espécie humana em função da imaturação do ser humano à nascença”.

Esse rio já não existe, mas ficaram os amigos e a saudade.

Depois houve um tempo em percorri a estrada lado a lado com o Zé Luís Martins e com ele partilhei a vida em Coimbra. Tornaram possível eu lá ter estado. Trago na memória o cheirinho dos rojões da D. Lisete.

Nos anos mais recentes velhas amizades reacenderam. Reencontrei o meu querido Luís Fonseca: e como cresceste Luís, como te fizeste esse pensador enorme. Um orgulho tão grande em continuares a ser meu amigo. E continua a telefonar a horas palermas, três da manhã sei lá, só para nos ouvirmos.

O Artur e o Fortunato sempre estiveram comigo, nunca nos afastámos. São do xadrêz do Orfeão. O Nuno Melo reapareceu em boa hora, tal como o João Oliveira que ganhou um protagonismo imenso na minha vida. Dás tanto à tua terra e ela nem sabe. Bem hajas.

O Eduardo Girão que nos junta religiosamente para daqui a alguns anos estarmos todos sentados no pavilhão a ver jogar o Paulo Ramos, sequinho, e o filho do Quim Zé.

O Augusto Semedo que me desafiou e que bem que ele escreve. Excelentes editoriais que tocam com justiça e clareza nos assuntos da terra. Só precisa de carinho, e vamos falando várias vezes ao dia nem que seja apenas para dizer que no pasa nada.

O meu filho Luís é músico clarinetista na Banda Marcial de Fermentelos. O Criador a colocar as peças no tabuleiro.

Neste balanço da minha vida feito com homens guardei para o final a mulher amiga que esteve sempre presente ao longo destes anos, que sempre me ouviu e aconselhou.

Obrigado Guidinha. Guida Borja que conheci como Guida Cunha. É mais fácil se disser que é a filha da professora Zaira e do professor Flávio.

O autor escreve em português tal como o seu pai lhe ensinou, ao colo, a ler “Abola”.

ARTUR, HANI E MOHAMED

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Nestes dias de partidas sem regresso, lembrar que o nosso velho Artur Jorge não foi sozinho. Com ele, foi também o árbitro internacional de futebol Mohamed Khattab. O míssil israelita foi penalty certeiro que destruiu a casa de Mohamed, dizimando toda a família ali reunida. Aconteceu em Deir al-Balah, Faixa de Gaza.

À espera deles estava já há uns dias Hani al-Masri, o selecionador da equipa nacional olímpica de futebol da Palestina. Hani era uma referência desportiva, foi um dos mais cotados jogadores de futebol da Palestina, de todos os tempos. Morreu num outro bombardeamento. Algures, na Faixa de Gaza.

Artur Jorge morreu de velho, rodeado pela família. Hoje, não houve jornal, rádio ou canal de televisão que não tivesse falado nele, numa homenagem merecidíssima.

TODOS APANHADOS PELO MESMO BURLÃO

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A utilização abusiva do nome e imagem do jornalista Pedro Andersson, num esquema de burla online, não é único. Para além dos apresentadores Jorge Gabriel e Cláudio Ramos, há outros que também estão a ser vítimas dos mesmos burlões, como, por exemplo, Daniel Oliveira (diretor de programas da SIC), Nuno Rogeiro (comentador de política internacional na SIC), Manuel Luís Goucha (TVI) ou Filomena Cautela (RTP).

Contactámos Pedro Andersson, que nos explicou que, no caso dele, tudo começou em setembro de 2023. Foi quando recebeu mensagens de alerta de amigos e de outros jornalistas e, também, mensagens de seguidores nas redes sociais que lhe confirmavam já ter investido os 250 € solicitados e que perguntavam o que ia acontecer a partir dali.

Pedro Andersson disse-nos que “as empresas que gerem redes sociais sabem quem patrocina a burla”, uma vez que se tratam de mensagens comerciais sujeitas a um pagamento para serem disseminadas, mas que “o sentimento de impotência é terrível”, uma vez que as queixas apresentadas, por exemplo no Facebook, receberam a resposta de que, depois de terem verificado a situação a consideraram “credível”, pelo que a burla não foi bloqueada.

Pior, “está a aumentar”, diz Pedro Andersson. “Fisicamente, eles podem estar em qualquer parte do mundo”, explica. E com os avanços tecnológicos, estamos perto de não ser possível distinguir o verdadeiro do falso, “já fazem vídeos onde põem as pessoas a ‘dizer’ o que eles querem, no caso a que me refiro a apresentadora da TVI aparecia a dizer bem ‘daquilo’ e depois aparecia o Cristiano Ronaldo a dizer bem ‘daquilo’ também”.

De facto é possível. Nós próprios aqui já publicámos um vídeo com um falso discurso do Presidente da Ucrânia. Um discurso delirante. O vídeo foi produzido com recurso a Inteligência Artificial e se não fosse tão surreal passaria como verdadeiro.

vídeo

No caso que estamos a abordar utilizam atores, jornalistas, desportistas, apresentadores de televisão e a credibilidade que lhes é reconhecida pelo público. “Já denunciei isto por todo o lado, até mesmo nos programas que faço”, diz Pedro Andersson. “Os advogados da SIC estão a preparar uma queixa”, mas contra quem? “Contra desconhecidos”, lamenta Pedro Andersson, porque não é possível chegar aos autores da burla e a META, ou a Google, não divulgam o nome dos seus clientes que patrocinam as “campanhas”, que estas empresas consideram credíveis.

Que se trata de uma burla, não há dúvidas. Se a META ou a Google consideram que se trata de um negócio válido e credível, então talvez seja possível apresentar uma queixa nos tribunais portugueses contra a META ou a Google por erro de avaliação ou negligência.

Sinal de que pode haver má fé por parte destas empresas, é o bloqueio que eles aplicam às pessoas cujo nome e imagem são indevidamente utilizadas na burla. Não bloquearam os burlões, mas bloquearam a conta de Pedro Andersson no Facebook.  “Fui suspenso pela própria META, tive de criar uma nova página do Facebook, perdi 10 anos de história e registos profissionais e da minha vida pessoal”.

A conversa com Pedro Andersson terminou com uma última explicação. “As criptomoedas não podem ser associadas à burla. As criptomoedas são um produto financeiro legal. Negociar criptomoedas é quase como ir ao casino. Pode-se ganhar ou perder. Mas ir ao casino não é ilegal”.

Os energúmenos

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Sentada diante da televisão, à espera do que se admitia ser o debate decisivo destas eleições, entre Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro, só vi homens em protesto, guardados por alguns elementos da PSP. De repente, percebo que está um carro a tentar passar, a sair de um estacionamento. Julguei vislumbrar uma amiga, a quem telefonei imediatamente, dada a preocupação em que fiquei.

Atendeu-me em pânico. Não a deixavam sair do estacionamento, abanavam o carro e proferiam impropérios contra ela. ‘Diz que és médica e precisas de passar’, afirmei, tanto mais que é tudo verdade.

A minha amiga assim fez. Pediu passagem, alegando a urgência em sair dali e prosseguir o seu caminho. Depois de ter exibido o cartão profissional por duas vezes, a pedido de quem a cercava, lentamente foram abrindo caminho para que ela passasse, enquanto lhe batiam no carro. O mínimo que lhe chamaram foi: ‘deixem passar a velha!’. O resto, não deve ser escrito aqui.

Todos vimos estas e outras infelizes imagens na televisão. Imagens de polícias numa manifestação não autorizada, a perturbarem a circulação naquela zona da Avenida da Liberdade, uma Liberdade dos outros que, claramente, não respeitaram. E agora? Que moralidade têm estes supostos agentes para exigir a outros o respeito pela Lei?

Quando entrei para a profissão, não havia áreas de trabalho como hoje, nem sequer a área de Justiça. Chamava-se, então, Serviço de Polícias, que cumpri durante mais de 30 anos. Aprendi, deste modo, a respeitar todas as polícias e sei que, com o meu trabalho, levei muita gente a fazê-lo. A polícia é o garante da nossa segurança e da nossa liberdade.

Independentemente das razões que podiam assistir aos indivíduos em protesto (e não duvido que as tinham) já as perderam. Porque quem viu aquele triste espectáculo percebeu que ali estavam energúmenos (pessoa que, dominada pela paixão, tem atitudes ou comportamentos excessivos; fanático intolerante; pessoa considerada ignorante ou muito básica – in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).

O pior é que, em qualquer momento, podemos ser fiscalizados por alguns destes energúmenos, ou termos necessidade de a eles recorrer. E aí, quem nos defende de tanta boçalidade, falta de educação e fanatismo?

Injectar-se com azeite espanhol

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Ocorreu-me a frase, perdoar-se-me-á, ao saber que Nuno Palma, português, com cerca de 40 anos de idade, professor catedrático de História Económica na Universidade de Manchester, decidira escrever o livro As Causas do Atraso Português – Repensar o Passado para Reinventar o Presente, assim a modos de recordar o tema que Antero de Quental escolhera para a segunda das Conferências do Casino, a 27 de Maio de 1871: «As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos».

Explico porquê. Para já, não se descortina bem o que é isso de «atraso». Como o dos aviões ou o dos autocarros? Estes, a gente sabe que é em relação ao horário previsto. Agora, o de um povo só pode ser em relação ao caminhar de um outro ou de outros. E, se não se especificam quais, pode pensar-se – como pensou o Professor Diogo Ramada Curto na revista do jornal Expresso do passado dia 16 (p. 29-33), no seu eloquente artigo – que Nuno Palma acha que está «Portugal na cauda da Europa».

A obra, editada pela D. Quixote, com data de 2023, tem sido muito vendida – diz-se que é um best-seller – e ainda bem para a editora! Não será bem, contudo, para a ciência histórica como muitos de nós, profissionais dessa ciência, a entendemos.

Tenho, pois, de justificar a referência às nefastas consequências da ingestão do tal azeite espanhol.

Apenas recorto duas frases da obra citada. Sei que não sou lá muito correcto, porque as extraio do contexto; penso, todavia, que elas valem por si. Ora leiam-se:

– «Pombal foi a pessoa mais diretamente responsável por condenar Portugal a séculos de atraso educativo» (p. 167), nomeadamente por ter expulsado os Jesuítas (explica-se);

– «O Marquês de Pombal foi talvez o pior político de sempre a governar Portugal» (p. 290).

Também diz o Professor Doutor Nuno Palma que o Liberalismo e a República foram épocas em que Portugal bateu no fundo e que o Salazarismo nos anos 50 foi o tempo da viragem, que voltou atrás depois do 25 de Abril, pelo menos no que respeita à economia (exceptue-se, esclarece, o governo de Cavaco).

Facilmente se compreende serem, estas, afirmações deveras controversas, carentes de fundamentação em dados económicos tangíveis e eficazes, que o autor, porém, não apresenta.

Não admira, por isso, que, na revista, se chame a «caixa» a frase de Ramada Curto a consubstanciar bem conhecida afirmação: «As suas ideias originais não são boas e as boas não são originais». Simpaticamente, uma apreciação dolorosa…

«Pouco importa – escreve Ramada Curto – que, no capítulo final, o autor dê mais uma cambalhota inesperada, para assumir que as suas opiniões são subjectivas», ou seja, alinha «com uma agenda neoliberal, repetindo uma lengalenga, cujos contornos são fáceis de reconhecer».

E termina:

«Nuno Palma terá de escolher, nos seus trabalhos futuros, por um lado, o ofício de historiador, à maneira de Jaime Reis, interessado em aprofundar a análise económica (…) e, por outro lado, uma carreira como intelectual público neoliberal, que escreve livros com espírito militante e panfletário».

Doutra sorte, «corre o risco de estar a construir a casa pelo telhado. Um risco que não parece muito calculado, mas que, bem feitas as contas, o pode levar a falhar no seu ofício de apontar causas e explicações para grandes processos de mudança social».

Confesso que tudo isso me surpreendeu, mormente porque lera ter sido Nuno Palma bafejado já com «vários prémios» e, portanto, não hesitei e pus-lhe o nome no motor de busca. Anoto duas ou três frases que colhi:

– «Na busca das origens de um Portugal pobre» é o título de um artigo publicado a 21-10-2016; nele afirma o Doutor Nuno Palma que o culpado foi o século XIX, uma «autêntica desgraça» para Portugal, como se percebe, afirma, duma «investigação à história económica do país»;

– Em entrevista concedida a Luana Augusto, da Sábado, a 29-9-2023: «Portugal cada vez mais será visto como a Cuba da Europa, uma curiosidade» e até os nossos «políticos bastante maus» são reflexo do atraso que acumulamos desde o século XVIII;

Concluindo: Valerá a pena levar a sério análises «históricas» desprovidas de bases concretas minimamente válidas? E, hoje, 22 de Fevereiro de 2024, até apeteceria perguntar:

«Atrasados nós? Em quê? Em relação a quê? O Diogo Ribeiro não se adiantou a todos os demais e não se sagrou campeão do mundo em 50 e em 100 metros mariposa?».

Laranja

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Coloquei na tábua meia dúzia de alhos. Ao esmagá-los com a faca, vieram-me à cabeça as críticas acutilantes que fizeste ao longo do tempo, por vezes magoaram, mas sempre agradeci a sinceridade.

A situação também se invertia muitas vezes. Poucas vezes na realidade, mas era sempre a aprender sobre nós, sobre o mundo.

Sempre te achei perfeita (ninguém o é) mas o teu sentido critico, a tua cultura geral, o humor inteligente, a forma como desmanchas algo complicado em simples, seja a conversar comigo, ou a fazer um desenho a um energúmeno qualquer, são qualidades raras de encontrar numa só pessoa.

És um poço de carinho que, sabe-se lá porquê, pões uma tampa em cima. Consegui abri-lo… mas só às vezes.

Foste a melhor amiga durante anos, cresci tanto contigo, tanto. Dancei ainda mais!  Somos diferentes, sim, mas metades de laranjas diferentes.

Juntei massa de pimentão, erva de provence, cominhos, coentros mais um mix de temperos que comprei na mercearia da senhora de Viseu, vinho branco e muito gindungo. Tu, tal como eu, gostas de emoções fortes.

Cortei ao meio batatas de ir ao forno, duas ou três cenouras para reforçar a cor do prato. Laranja, tal como a nossa amizade, alegre!

Sal grosso e o sumo de três laranjas. Peguei na varinha mágica, desfiz tudo enquanto recordei as intermináveis caminhadas, jantaradas, as noites e os dias, as conversas estimulantes, a nossa interminável vida juntas. Rimos tanto com inteligência e absoluta falta dela!

No pirex reguei o molho em cima do lombo, acrescentei batatas e cenouras a contornar. O pirex ficou com uma cor eléctrica. Sempre disseste que eu era assim, eléctrica, nunca soube ao certo se era um elogio ou uma crítica. Era capaz de ser ambos. Tapei o pirex com uma folha de alumínio, deixei a marinar no frigorífico.

Foi pela língua portuguesa, como se diz e escreve, que a nossa amizade começou. Pela fonia que diferencia “molhos” de mesa e “mólhos” de brócolos.

“That’s when the cookie crumbels”, mandou para o microfone o jogador de rugby. Tinha de legendar a entrevista e pedi-te ajuda. Entendíamos a ideia, mas andámos às voltas para encontrar a expressão idiomática portuguesa.

Lembro-me como se fosse hoje. Estávamos naquele bar religioso quando o atravessaste direita a mim, com um sorriso triunfante: “É quando a porca torce o rabo!” Rimos, tornei-me tua groupie, fiz a legendagem.

Sempre nos imaginei velhinhas sentadas num banco de jardim, com cabelo branco, a rir, discutir política, cultura, o quotidiano, homens, claro, as aventuras, histórias e parvoíces do presente e do passado. Consegues imaginar-nos?

No dia seguinte, ao abrir o frigorifico, saiu de lá um forte aroma a laranja. Intenso, fresco. Meti o lombo no forno e fui para o portátil.

Às seis ainda não tinhas telefonado a perguntar a morada. Às sete percebi que não vinhas. Não te liguei. Não vieste.

Às nove servi-me de um pouco de lombo, batatas e cenouras que cortei previamente na bancada. Sentei-me no sofá com a mantinha e o aquecedor ligado. Não repeti. Às onze estava na cama.

No dia a seguir, ao abrir o frigorifico, o cheiro intenso a laranja enjoo-me. Coloquei-o num taparuer, tranquei-o no congelador e não pensei mais naquelas duas velhinhas.  

Dedicado à minha amiga Madalena.

CHAMEM A POLÍCIA!

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Isto está a saque e as pessoas mais desprevenidas, menos informadas, são as presas preferidas dos bandidos que se dedicam aos assaltos digitais. São carteiristas digitais, tentam meter a mão no bolso das pessoas mais incautas. E devem ter sucesso, uma vez que os esquemas são cada vez mais notórios, em número e qualidade.

O Facebook tem várias armadilhas. O caso que destacamos hoje envolve o jornalista Pedro Andersson e a TVI. Mais uma vez, um engodo a apelar ao drama: “um dia difícil para Portugal. Despedimo-nos de Pedro Andersson”, levando as pessoas a pensar que o homem caiu de um 10º andar.

O que eles pedem não é muito: 250 euros. O que eles prometem é o céu, o paraíso, o nirvana. A aldrabice é tosca, mas quando envolve figuras públicas, canais de televisão e redes sociais, há sempre quem caia.

Na grande tanga que relatámos há semanas, o esquema utilizava os nomes e as imagens de Jorge Gabriel, Cláudio Ramos e o nome das empresas TVI, SIC e Microsoft. Agora temos o jornalista Pedro Andersson, os mesmos canais de televisão, o Facebook substitui a Microsoft como plataforma de disseminação da coisa.

Andersson é um jornalista que trabalha na SIC, dedicado aos temas da economia, autor de livros sobre a mesma temática. O esquema utiliza a imagem de credibilidade que Andersson granjeou ao longo de anos de trabalho, para ajudar a convencer mais facilmente.

QUANDO O TELEFONE TOCA

Estranhamente, a TVI parece estar em todas. Há um outro esquema de venda agressiva, não nas redes sociais mas usando indevidamente dados pessoais. O relato está nas redes sociais, nos perfis de pessoas que foram alvo deste processo.

O relato que transcrevemos é elucidativo: “o telefone tocou e identificaram-se como sendo da TVI. Explicaram brevemente que o (número) telefone tinha sido “selecionado” porque em tempos participara num passatempo da estação…. E tinham uma oferta… Depois de 3 ou 4 perguntas sobre a TVI…. Tipo: gosta de nós e da nossa programação e das nossas vedetas, desvendam a oferta: é que temos aqui para lhe oferecer um seguro de vida (Medicare) em condições muito vantajosas..

Ora… Acho isto inacreditável. Ou a Medicare mente e obteve o número por outra via ou a TVI aproveita os muitos milhares de números de telefone e dá (?) a informação a empresas para o seu marketing manhoso. Tudo isto me parece surreal e nojo é a palavra que mais me ocorre perante esta estratégia.”

Falta perceber o aparente silêncio das pessoas e das empresas envolvidas nestes esquemas. As figuras públicas expõem a vida nas redes sociais, mas neste caso não dizem nada. As empresas sempre prontas a defender as “marcas” que representam, deixam-se envolver em esquemas manhosos e agressivos de vendas e marketing, nem um comunicado sobre o assunto. E também achamos estranho que a Meta (dona do Facebook), sempre tão atenta aos conteúdos publicados, sempre pronta a censurar para “manter a comunidade segura” e feliz, não perceba que está a fazer negócio (com conteúdos patrocinados) que se destinam a lesar os utentes da rede social.

E mais não dizemos. Falta só chamar a polícia!

Histórias da Galiza

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E foi oportuna a solenidade de que o acto se revestiu. Primeiro, porque – como o próprio título indica – se procurou fazer não apenas a história dum sítio, mas também as histórias das pessoas, das famílias que nele viveram e intervieram.

Depois, porque essa história, deveras singular, conta como um aglomerado de barracas, envolvido nas imaginadas condições de ínfima salubridade e propenso, pela génese dos seus habitantes, a submeter-se a ‘pressões’ de todo o género, abarca também o tempo anterior às barracas do «Fim do Mundo» (assim se chamava o bairro) e narra, de modo especial, como – mercê do sacrificado labor conjunto da freira salesiana Irmã Elvira, do ATL da Galiza e dos competentes serviços camarários logrou um resultado de excelência.

Pôde a Irmã Elvira obter ‘carta branca’ da sua congregação, as Filhas de Maria Auxiliadora, para, sem constrangimentos, se dedicar de alma e coração ao incondicional apoio a essas famílias carenciadas; ergueu-se, a braços, o ATL; houve, da parte dos técnicos camarários, indesmentível compreensão da singularidade da obra a que estavam a meter ombros.

«Sabes que no dia 6 de Fevereiro o nosso A. T. L. faz um ano? Sabes que ele já mudou muito? Queres vir ver a nossa exposição, onde mostramos como ele era dantes e como ele é agora? Então vem, porque nós convidamos-te». Rezava assim, em letra, quase gatafunhada, de criança, o convite para o 1º aniversário das Actividades nos Tempos Livres, em 1985. O repórter do Jornal da Costa do Sol foi lá e regressou encantado, não resistindo a publicar a imagem da cadeira ali exposta, que estava «a ser feita por 3 crianças». Estava-se, então, bem longe de vir a saber o que aconteceria depois!

Na sessão do passado dia 10, saudou-se esse ingente trabalho, sempre levado a efeito sob a diligentíssima orientação de Maria Gaivão, a incansável alma-mater deste projecto da Santa Casa da Misericórdia de Cascais.

Compreende-se, pois, que o resultado haja sido auspicioso por, ao longo de todo o processo, sem titubear, terem sabido dar as mãos a Irmã Elvira, a Misericórdia e os técnicos da autarquia, sem quaisquer preconceitos políticos, sociais ou religiosos.

O livro

Saliente-se, desde já, que o livro – de excelente apresentação gráfica, com coordenação, texto e seleção de imagens de João Miguel Henriques e de Maria Conceição Santos (do Departamento de Arquivos, Bibliotecas e Património Histórico da Câmara Municipal de Cascais), não é para ser lido de um só fôlego: é obra que vai merecer miúda consulta, atendendo à densidade de informação que veicula.

Um aspecto se deve realçar, porque, se não erro, é a primeira vez que se lança mão, com maestria (diga-se), do relevante espólio do Arquivo Técnico do Urbanismo, na medida em que houve o cuidado de se apresentarem os projectos de algumas das casas mais antigas do povoado. Assim se prova como a boa organização de um arquivo deste género se reveste de grande interesse histórico.

E, no que concerne à informação, para além das histórias das pessoas e da abundante documentação reproduzida, refiram-se apenas dois pormenores, significativos precisamente do que por ali está disseminado, em jeito de ‘como quem não quer a coisa’:

– Mostram-se, por exemplo, a Casa dos Cedros, «onde, em 1957, decorreu o 5º Congresso do PCP», e o «projecto da Vivenda Montalvinho, onde se refugiou Álvaro Cunhal, em 1960».

– Mostra-se o «apeadeiro da Parede», em 1889, que ostenta – pasme-se! – o letreiro PAREDE-GALLIZA, demonstração clara da importância de que já então a Galiza dava mostras, porquanto, recorde-se, na actualidade, na Linha de Cascais, entre as estações do Estoril e da Parede, há outras duas, a de S. João e a de S. Pedro, povoações que só umas décadas depois viriam a ganhar relevância.

Foi muito concorrida a sessão do dia 10, a mostrar o empenho da população na festa. Actuou o grupo de cantares dos anciãos.

Usaram da palavra: o Doutor João Miguel Henriques, a dar conta da obra e do seu conteúdo; a Dra. Isabel Miguéns Bouças, Provedora da Santa Casa, que, acerca do ATL, salientou, entre outros aspectos, o elevado alcance de que se revestiu, do ponto de vista educativo, a criação, no seu seio, de uma equipa de râguebi; falou o presidente da autarquia, congratulando-se vivamente com o trabalho desenvolvido e que, em grande parte, lhe fora dado acompanhar.

Encerrou a cerimónia a actuação do Rancho Infantil, muito aplaudida.