Os meninos do rio Águeda que se fizeram homens

0
3703

Já conhecia o rio das férias em casa dos meus tios, na Borralha, mas foi no dia de corpus christi que fui viver para o Sardão. As suas margens, os campos de milho, a piscina, o Fojo, o Poço do Conde e o Souto do Rio deram-me a liberdade da condição de ser menino.

Ainda não sabia nadar, mas depressa lhe tomei o jeito e aos poucos fui ganhando a batalha contra a água. Primeiro com a Lola e depois com o Tio Bério que nos atirava para as pistas mais fundas, aquelas onde não tínhamos pé. Vivia dentro de água, vivíamos todos, a minha casa a cinquenta metros do rio.

E ganhei amigos para a vida, o Noronha, companheiro de quilómetros debaixo de água, (desde já mandatado para lançar as minhas cinzas no lugar do costume), os irmãos Pina, o Paulo e o João que me telefona da Suíça sempre que lhe apetece, o Acácio (Cacito), o José e Paulo Seara, o Claudio, o Jorge Miguel da escola de condução, o Jorge Costa, o Pelicano (Carlos), o Bano, o Peles, o António Borges, os irmãos Brinco, o Zé Carlos, o já falecido Tónio da louça e tantos outros que a memória não me acompanha.

E aquele que nos imortalizou nas suas crónicas, o nosso querido Afonso de Melo. Sabes, meu querido, a Francisca tem nos olhos o azul do nosso rio. Um dia iremos todos com ela nadar até ao Alfusqueiro. Está prometido.

Logo bem cedo pela manhã atravessávamos o rio e construíamos um verdadeiro arsenal de guerra. As terroas eram feitas com palha misturada na lama para não se desfazerem no ar, antes de atingirem o alvo. Algumas até tinham pequenos seixos para deixarem marcas no animal. Lá para o meio da tarde começava a verdadeira batalha.

De uma para a outra margem, alguns metros acima da piscina, todos enlameados, mergulhávamos no rio para não mais aparecermos. E assim de repente as águas ficavam castanhas, para desespero da Lola.

Uma corrente de miúdos a nadar em apneia para baixo dos estrados, para não sermos vistos. Com alguma sorte, por entre as tábuas de madeira, podíamos espreitar as pernas das senhoras mais distraídas que acudiam aos seus filhotes. Os olhitos cheios de água a tentar descobrir pipis por entre as frestas. E elas a andar de um lado para o outro e nós cá em baixo a bailar também, a ajustar a mira.

Nós inventámos os nossos rituais iniciáticos, fomos viris e descobrimos o sexo, deixando para trás, aos poucos, a infância e a adolescência. Os meninos aprenderam a ser homens.

Dito de outro modo, como eu viria a aprender mais tarde “a infância prolongada é específica da espécie humana em função da imaturação do ser humano à nascença”.

Esse rio já não existe, mas ficaram os amigos e a saudade.

Depois houve um tempo em percorri a estrada lado a lado com o Zé Luís Martins e com ele partilhei a vida em Coimbra. Tornaram possível eu lá ter estado. Trago na memória o cheirinho dos rojões da D. Lisete.

Nos anos mais recentes velhas amizades reacenderam. Reencontrei o meu querido Luís Fonseca: e como cresceste Luís, como te fizeste esse pensador enorme. Um orgulho tão grande em continuares a ser meu amigo. E continua a telefonar a horas palermas, três da manhã sei lá, só para nos ouvirmos.

O Artur e o Fortunato sempre estiveram comigo, nunca nos afastámos. São do xadrêz do Orfeão. O Nuno Melo reapareceu em boa hora, tal como o João Oliveira que ganhou um protagonismo imenso na minha vida. Dás tanto à tua terra e ela nem sabe. Bem hajas.

O Eduardo Girão que nos junta religiosamente para daqui a alguns anos estarmos todos sentados no pavilhão a ver jogar o Paulo Ramos, sequinho, e o filho do Quim Zé.

O Augusto Semedo que me desafiou e que bem que ele escreve. Excelentes editoriais que tocam com justiça e clareza nos assuntos da terra. Só precisa de carinho, e vamos falando várias vezes ao dia nem que seja apenas para dizer que no pasa nada.

O meu filho Luís é músico clarinetista na Banda Marcial de Fermentelos. O Criador a colocar as peças no tabuleiro.

Neste balanço da minha vida feito com homens guardei para o final a mulher amiga que esteve sempre presente ao longo destes anos, que sempre me ouviu e aconselhou.

Obrigado Guidinha. Guida Borja que conheci como Guida Cunha. É mais fácil se disser que é a filha da professora Zaira e do professor Flávio.

O autor escreve em português tal como o seu pai lhe ensinou, ao colo, a ler “Abola”.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui