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O QUE SOMOS COMO POVO?

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A ideia do ser do nosso povo parece-me simples:

Sabemos que somos um povo de ideias contraditórias, porque cada um tem sempre uma forma diferente de abordar um assunto, mesmo que o seu conhecimento seja somente superficial ou formado pelos “opinion makers” que sempre “plantam“ as suas formas de ver em nós, e nós, por falta de exercício mental, vamos atrás ou “abanamos” uma opinião que pretendemos nossa, para, mais tarde, acabar por mergulhar no que nos dizem… É que dá menos trabalho não pensarmos. Temos sempre a presunção que somos capazes, ainda, de desempenhar magníficos papéis no mundo, mas isso, bom, isso só seria possível se o país nos for, alguma vez, entregue integralmente.

Mantivemos uma ideia de missão, até há 50 anos. Deu no que deu. Tenho a ideia –  e a prova – de sermos um povo que não foi “criado” para executar tarefas, mas, se bem dirigidos, fazemos tudo e com a precisão pedida. A nossa forma de ser está virada para fruir o que é abstracto e em querer, seguidamente, transformá-lo em algo concreto. Também não sabemos se perdemos tempo nisso ou ganhamos tempo para fruir os nossos sonhos.

O nosso ser passa por uma liberdade que, neste momento, está a ser podada, aos nossos olhos, aos poucos, tal qual um “bonsai”. De incompetência em incompetência governativa e empresarial, a “humilhação” que nos contempla enquanto povo já começou faz algum tempo: na pobreza que ainda persiste e nos desempregados, que, por isso, não conseguem honrar os seus compromissos. Somam-se as “desgraças”, para nós: da banca que nos mostra os lucros absurdos, passando pela corrupção, lavagem de valores… Esta perda de liberdade rápida, ao som do metrónomo do capital e da incompetência generalizada que assim nos embrulha, limita e alastra por e para todos, e vai acabar, com toda a certeza, por dar azo à penetração do populismo, por arrasto. Será que um cataclismo seria mais benéfico do que o que está a ser provocado pelos usurpadores da vida das nações, “conscientes ou não”, com as suas atitudes? Com Putin ou Trump, no percurso das nações?

Olhe-se bem para todas as dívidas das nações, faça-se a conta à nossa dívida e pensemos se, algum dia próximo, a pagamos… Os governos não conseguem sacudir, com força na razão e “trabalho de casa”, o demonstrativo de que assiste, em verdade incontestável, um reiterado ataque aos povos. Putin e Trump e os seguidores destas políticas querem ter o domínio de todo o mundo. Ainda temos a possibilidade de reverter isto! As tecnologias dão-nos tempo para pensar e mudar esta forma de nos explorarem. Assim os governantes sejam povo qualificado para isso!

Necessitamos de devolver aos cursos das Economias, Finanças, Gestão, as cadeiras humanistas: a Filosofia, a História, a Psicologia, a Sociologia. Se saíssem desta nossa ideia os governos, que terão que ser em exclusivo para o povo, seria, então e só, o necessário para uma vida digna e uma liberdade plena para um povo. Esses nossos governos, porém, por demonstrada incompetência, presumo que inconsciente, sem força de vontade na razão que assiste à necessidade de ser de um povo, infelizmente, acabam isolados dos “blocos capitalistas”, martirizados com taxas sobre os empréstimos e taxas sobre os produtos produzidos para exportação, porque um governante que é um simples especulador financeiro as impõe, considerando que o seu povo deverá viver à sombra do mundo que trabalha.

Entre nós, dada a incompatibilidade de interesses, nunca se pensou no país, mas sim nos vencimentos e em “alguma visibilidade” que é proporcionada ao deputado. É, pois, natural que as necessidades imediatas das “minorias” governativas colidam nas suas determinações com as oposições dos parlamentares de outras cores. O “capital” agradece esta posição de guerrilha nos parlamentos e vai mexendo nas “suas hostes”, de forma estratégica, para que se avolume, prolongue ou termine essa oposição, sempre que lhe interessa.

Apostámos e gastámos na Educação, dando novos horizontes a milhares de jovens que provam, em todas as frentes, que estão preparados. Infelizmente alguns ainda abandonam o país, porque o nosso país não lhes oferece nada para que tenham uma vida digna – sem ser ostensiva, é claro.

Qual é, então, o nosso futuro imediato? Precisamos de o moldar. Até sabemos o que deveria acontecer, porquanto já se nos é presente. Com provas bem na nossa frente, nenhum governo conseguiu entender o nosso passado, e com as “mestrias” que nos mostram diariamente (fora e dentro do processo de governar), não vão nunca conseguir dar-nos um futuro que interesse a todos. E até somos cada vez menos… não era difícil  governar-nos.

Parece que o futuro está cada vez mais longínquo do nosso presente, mas esse só pode começar a ser traçado, quando um governo deliberar processos que projectem claramente o presente. Tem que se governar olhando sempre para cima. Nenhum governo pode traçar o futuro de um povo sem ser negativo se delibera constantemente com a “cabeça subserviente!”

Também não é possível manter sempre, mas sempre, para comprometer o futuro, uma bateria de franco-atiradores surgidos das oposições, de qualquer partido, que fazem sempre, de um simples desvio de procedimentos, uma tempestade que logo é consideradade “lesa pátria”.

O povo, por comodismo, mantém-se na defesa das cores do clube.. Temos um subsolo que nos pode dar mais bem-estar; mas lá vem a ideia da serenidade das árvores, dos mares, das montanhas, onde se querem ter “animais” a pastar silenciosamente, dando lugar a prósperas microempresas que beneficiam quatro indivíduos cada… O resto do país não conta, em lado nenhum… Até somos capazes de dizer que, se explorarmos gás em offshore, porque o temos, virão marés de petróleo que entrarão pelos hotéis dentro e fica tudo “negro”. Não é só o lítio e as terras raras… As pedras não podem sair do seu local de sempre… Nunca quisemos assumir um governo verdadeiro, mas também não permitimos que nos governem. Vamos, então, ter futuro? Projectamos, algum dia, o presente? Para quando fixarmo-nos no arco-íris e deixarmo-nos de ser monocromáticos?

EUA ABUSAM DO PODER

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No calor do verão de 2025 e enquanto Israel dizimava a população palestiniana e explodia com todas as infraestruturas públicas ou privadas na Faixa de Gaza, o Governo dos EUA declarou a imposição de sanções aos juizes do Tribunal Penal Internacional.

A notícia foi difundida, mas poucos de nós percebemos o alcance destas medidas de retaliação, motivadas pelos mandatos de detenção emitidos pelo TPI contra o primeiro-ministro e o ministro da Defesa de Israel. O TPI acusa estes dirigentes israelitas de crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Num entrevista concedida ao jornal Le Monde, em novembro, um dos juizes do TPI, o francês Nicolas Guillou, denunciou a dimensão das sanções que o afectam: «As sanções penetram em todos os aspetos da minha vida quotidiana». Segundo ele, a proibição de entrar em solo americano é apenas a parte visível de um sistema que o exclui de toda uma série de serviços essenciais.

Resumindo: as contas na Amazon, Airbnb e PayPal foram encerradas. Reservas de hotel, mesmo em França, são canceladas, encomendas postais bloqueadas, qualquer transação online tornou-se quase impossível. O juiz sublinha que «os efeitos mais graves sentem-se no setor bancário». Para além das instituições americanas, alguns bancos europeus, por receio de represálias, também encerram unilateralmente as suas contas bancárias. Os pagamentos em dólares estão bloqueados, cartões bancários Visa, Mastercard ou American Express ficaram bloqueados. Isto é, estes juizes deixaram de contar com serviços bancários em todos os países ocidentais.

É inacreditável como boa parte do mundo se submete a decisões arbitrárias e que deviam ser consideradas ilegais. As sanções decretadas por Trump deveriam ser contestadas pelos 125 Estados que integram o TPI e que, supostamente, deveriam apoiar a atividade deste tribunal internacional.

No mapa, a verde os países signatários do TPI, fonte Wikipédia

Num contexto em que o direito internacional está cada vez mais fragilizado, o juiz francês alerta que «sem soberania digital e financeira, a Europa não poderá proteger o direito internacional». O TPI reflete hoje «as fraturas do mundo contemporâneo»: as grandes potências que querem permanecer fora do quadro jurídico internacional atacam o Tribunal, não por razões processuais, mas porque «o direito limita o uso da força».

Enquanto isto, com o apoio tácito dos EUA, Israel continua a matar população civil na Palestina. Sem contestação de quase ninguém, excepto daqueles que ousaram acionar o TPI com uma queixa de genocídio contra o Estado israelita e os seus dirigentes sionistas.

CPLP EM CONTRAMÃO

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Ilídio Té, primeiro-ministro do Governo de Transição da Guiné-Bissau

As recentes declarações do Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, sobre a situação política na Guiné-Bissau constituem um episódio politicamente infeliz e diplomaticamente irresponsável. Num momento em que a região exige prudência, escuta ativa e mediação serena, optar por declarações públicas inflamadas equivale a lançar gasolina sobre o fogo, quando o dever de um estadista deveria ser o de contribuir para a contenção da crise e a promoção do diálogo.

A gravidade destas declarações não reside apenas no seu conteúdo, mas sobretudo no contexto em que foram produzidas. Moçambique enfrenta, ele próprio, desafios profundos de natureza política, social e securitária. Esperava-se, por isso, maior sensibilidade, moderação e respeito pela complexidade da realidade guineense. O que se seguiu — uma vaga de condenações apressadas — expôs um problema ainda mais sério: a precipitação política da CPLP.

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa posicionou-se sem cumprir um princípio elementar da diplomacia multilateral: avaliar antes de julgar. Não foi enviada qualquer missão independente de averiguação ao terreno, não houve escuta institucional do Estado guineense, nem esforço visível de compreensão das causas profundas que conduziram ao atual quadro político. Em vez de diálogo, optou-se pela sentença sumária.

Este comportamento é tanto mais grave quanto a Guiné-Bissau não é um país recém-chegado à cena internacional, nem um Estado sem história. São 53 anos de independência, marcados por luta, resistência, erros, aprendizagens e sacrifícios. Ignorar este percurso é não compreender o país. Mais ainda: fazê-lo quando a Guiné-Bissau exerce a Presidência em Exercício da CPLP representa uma quebra clara das regras do jogo institucional.

fonte https://secretariadoexecutivo.cplp.org/informacoes/noticias/noticias-detalhe/?id=23244

A Presidência em Exercício não é um detalhe protocolar; é um pilar do funcionamento da Organização. Ao excluir a Guiné-Bissau de reuniões e decisões, a CPLP violou os seus próprios Estatutos, que consagram a igualdade soberana dos Estados membros, a participação plena e a concertação político-diplomática. Este desrespeito não atinge apenas Bissau — atinge a credibilidade da CPLP enquanto organização internacional.

Curiosamente, a CEDEAO, frequentemente acusada de rigidez, demonstrou na sua última Cimeira uma postura mais equilibrada. Embora tenha formulado reparos e preocupações legítimas, evitou condenações automáticas e manteve aberta a via do acompanhamento político e do diálogo. A comparação é inevitável e desfavorável à CPLP.

É neste contexto que deve ser lida a decisão do Governo da Guiné-Bissau de auto-suspender a sua participação nas atividades da CPLP, anunciada a 15 de dezembro de 2025 pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, Cooperação Internacional e das Comunidades. Trata-se de uma decisão soberana, politicamente firme e juridicamente fundamentada.

Ao invocar as reiteradas violações dos Estatutos, a ausência de transparência processual e o não reconhecimento da Guiné-Bissau na sua qualidade de Presidente em Exercício, o Estado guineense não rompe com a CPLP por capricho, mas por princípio. A suspensão é um gesto de dignidade institucional e um sinal claro de que a soberania não é negociável.

Este episódio revela uma contradição profunda da CPLP: proclama valores elevados — solidariedade, diálogo, respeito mútuo — mas falha na sua aplicação quando confrontada com crises políticas reais. Uma organização que não respeita os seus próprios mecanismos internos dificilmente pode exigir legitimidade aos seus membros.

A Guiné-Bissau não pede privilégios. Exige apenas o cumprimento rigoroso dos Estatutos e o respeito pela sua condição soberana. Até que isso aconteça, a suspensão da participação guineense é não apenas legítima, mas politicamente necessária.

A CPLP está, assim, perante uma escolha clara: corrigir o rumo, restaurar a legalidade interna e reafirmar a sua utilidade, ou continuar a perder relevância, credibilidade e autoridade moral no espaço lusófono.

comunicado do Governo da Guiné-Bissau onde se auto-suspende da CPLP

MASSACRE NA PRAIA

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Depois do massacre na praia de Bondi, na Austrália, onde 15 pessoas foram mortas e cerca de 40 ficaram feridas, atingidas a tiro por dois homens armados com armas de guerra, o discurso dominante apressou-se a classificar o ataque como “terrorista” e a enquadrá-lo no registo do “antissemitismo”. Curiosamente, quase ninguém ousou usar a palavra “retaliação”.

O primeiro-ministro de Israel não perdeu tempo. Acusou o Governo australiano de “apoiar a Palestina” e, com isso, de “encorajar o antissemitismo”, num exercício previsível de instrumentalização política da tragédia. A acusação surge desligada de qualquer análise séria dos factos e serve sobretudo para reforçar uma narrativa conveniente, que procura isentar Israel de qualquer responsabilidade no contexto mais amplo de violência em curso no Médio Oriente.

Os atacantes pertencem a uma família oriunda do Médio Oriente, e tudo indica que o ato de extrema violência que perpetraram está diretamente ligado ao que se passa na Palestina — em Gaza e na Cisjordânia — mas também na Síria e no Líbano, territórios repetidamente bombardeados por Israel, total ou parcialmente ocupados, onde a população civil é sistematicamente alvo de ataques militares. Na Faixa de Gaza, a população palestiniana está a ser dizimada num processo que o Tribunal Penal Internacional já qualificou como genocídio, tendo emitido mandados de detenção contra o primeiro-ministro israelita e um antigo ministro da Defesa.

Desta vez, a habitual demonização genérica dos muçulmanos não ganhou grande tração mediática. Talvez porque um dos heróis que evitou uma tragédia ainda maior foi um imigrante sírio, muçulmano. Num ato de coragem excecional, registado em vídeo e amplamente divulgado nas redes sociais, Ahmed al-Ahmed conseguiu desarmar um dos atacantes.

video Bondi Beach

Momentos depois, foi atingido por duas balas disparadas pelo segundo atirador. O herói da praia de Bondi encontra-se hospitalizado, já foi operado e está em recuperação.

Os atacantes eram pai e filho. O mais velho morreu atingido pela polícia, apesar de já se encontrar desarmado. O outro permanece hospitalizado, em estado grave.

Este ataque terrorista é, ainda assim, uma pálida amostra do que acontece diariamente na Faixa de Gaza desde outubro de 2023: mortes indiscriminadas, bombardeamentos cegos, tiros precisos de snipers israelitas, numa sucessão quotidiana de horror. Um cenário que, inevitavelmente, gera reações violentas por parte daqueles que se sentem compelidos a vingar a destruição de um povo inteiro – não por justiça, mas por raiva e desespero.

Na praia de Bondi, depois do massacre
Na praia de Bondi, depois do massacre

Importa sublinhar que o ataque não teve alvos aleatórios. Os atiradores dirigiram-se deliberadamente a uma celebração religiosa judaica que decorria na praia de Bondi. Entre as vítimas mortais encontra-se um rabino conhecido pelas suas declarações públicas de apoio e incentivo à destruição de Gaza e à eliminação dos palestinianos.

O rabino Eli Schlanger está entre as vítimas mortais deste ataque. Figura proeminente da Chabad de Bondi, Schlanger foi um fervoroso apologista do genocídio em curso na Faixa de Gaza. Durante os últimos dois anos, Schlanger visitou a Palestina ocupada para apoiar, encorajar e abençoar os soldados das forças genocidas israelitas.

Nestas circunstâncias, ressurge o velho ditado popular: “quem com ferros mata, com ferros morre”. Ou, se se preferir, a antiga lei do retorno.

É neste caldo de sangue, horror e morte – alimentado por décadas de ocupação, impunidade e violência sistemática – que líderes como Benjamin Netanyahu encontraram o seu verdadeiro habitat político, um ambiente propício à perpetuação no poder, à custa de vidas humanas.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu

A mão de Annan

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Não a conheço pessoalmente a ela, é uma jovem senhora egípcia de sorriso encantador. Ele é português de sorriso cativante e anda pela mesma idade.

Conheceram-se no Cairo eram ainda mais jovens, num projecto multidisciplinar da UE, fez há duas semanas 22 anos. Muito tempo, mas sempre mantiveram, pelas redes sociais, por telefone, uma ligação forte como fio de seda a que chamo Amizade.

Ele contava-lhe que constituíra família, ia dando novidades da evolução do trabalho, das actividades paralelas que praticava, sem nunca lhe perguntar uma palavra da vida pessoal. Sabia dela o que ela queria contar.

Recentemente ele foi mergulhar no Mar Vermelho integrado num grupo de mais cinco amigos. Numa mensagem informou-a de que passaria pelo Cairo, novamente.

Quando pousaram de novo na cidade, terminada a actividade do grupo, e saído ele de um acidente descompressivo e infecção bacteriana num ouvido, estava ela à espera para lhe fazer uma surpresa e rever o Amigo que não via há tanto tempo. O cabelo de ambos embranquecera, o sorriso mantinha-se inalterado.

Os colegas do grupo dele acharam-na encantadora. Agilizou a compra dos bilhetes para entrarem no Grande Museu do Egipto (GEM) o maior museu antropológico do mundo dedicado a uma só civilização. Chegou-se à bilheteira donde partia uma fila interminável de pessoas e comprou os ingressos para todos.

Fez com eles parte da visita. Ainda ensinou a um dos funcionários, que impedia certos visitantes de tocarem uma placa com gravuras em relevo e escrita em Braille, que era mesmo para ser tocada por pessoas com deficiência visual, para que entendessem a figura que representava o que liam.

À hora de almoço indicou-lhes o melhor restaurante do espaço, mas recusou o convite para almoçar com eles. Afinal ainda tinha de vencer três horas de viagem para chegar a sua casa em Alexandria.

Resistiu em aceitar o valor da compra dos bilhetes. E com o sorriso mais simpático do mundo, despediu-se de todos e do Amigo, com a ternura de uma Cumplicidade sempre baseada no respeito e nos mesmos interesses culturais.

Quando eles saíam do restaurante confortados com a comida e com a camaradagem, avistaram-na a correr para eles carregada de presentes que fora comprar naquele intervalo: uma lembrança para cada um.

A Dignidade não lhe permitia aceitar a devolução do que quisera oferecer espontaneamente: o valor dos bilhetes. Só depois se despedia de vez sem olhar para trás e corria para apanhar o transporte.

Já tinha aprendido há muitos anos, mas voltei a escrever umas notas para me situar neste tempo entretecido de equívocos. Vivemos entre os que julgam ter tudo, mas a quem falta o respeito pelos que, parecendo menos afortunados materialmente, têm o privilégio da riqueza cultural e humana.

Assistimos ao patético julgamento de pessoas ou povos com base em preconceitos injustificados. Pensam muitos que alguém com nível de vida inferior, não pode ter superior capacidade cognitiva e um código de valores mais consistente.

E tendo viajado, interagido com empatia, nunca menosprezar uma Amizade que está longe. Ela pode resistir ao passar dos anos mantendo-se na sua forma mais pura.

Poderá esta ser uma história de Natal?

Vamos desembrulhar mais este conceito, porque é urgente fazê-lo nestes dias, para saborear o aroma do primeiro “doce” de um pacote que esperamos como prenda duradoura.

Um nome e uma mão tocando os simbolos de acessibilidade em Braille, neste Museu onde Tutankamon é a estrela principal.

A TELEVISÃO SEM MÉRITO

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A morte de Paula Coelho trouxe à memória um estranho programa de televisão chamado “Nutícias”. Tratava‑se de uma espécie de noticiário em que a apresentadora se despia à medida que lia o texto colocado no teleponto.

Tirando o pormenor de tirar a roupa, tudo o resto era, de facto, semelhante aos programas de informação em que as apresentadoras não se despiam.

Tenho memória de uma conversa com o então diretor‑geral da SIC, Emídio Rangel, sobre aquela ideia peregrina de um programa em que a apresentadora se despia. Rangel terá dito que se tratava de uma aposta do próprio patrão. Balsemão gostava de contemplar “Majas Desnudas”, como ele próprio afirmou, e aquilo seria, em certa medida, um programa para o patrão ver. Creio que nunca teve grandes audiências.

A SIC explorou indecentemente aquela mulher. O programa não era melhor do que uma vitrine de luzes vermelhas de Amesterdão. Paula Coelho não foi prostituta, mas não deixou de vender o corpo, exibindo‑o numa montra onde, potencialmente, milhões de pessoas a viam despir‑se. O cachet não deve ter sido grande coisa, porque não há notícia de a apresentadora ter ficado rica.

A verdadeira aberração do programa era a utilização de notícias reais, da atualidade do dia, naquele cenário. Olhando para a cena, ainda hoje é perturbador e desprovido de sentido ver a apresentadora anunciar que “nos caminhos do ambiente, o Governo procura alternativas à co‑incineração…” enquanto desabotoa a camisa e a deixa cair no chão.

Nos baús da internet encontram‑se outras evidências de como os canais de televisão abusam das ilusões e das necessidades das pessoas. No caso de Paula Coelho, anos mais tarde, acabou por aceitar um convite da SIC para participar num daqueles programas de exploração de sentimentos, expondo‑se ainda mais do que quando tirava a roupa no “Nutícias”.

No programa “Júlia”, apresentado por Júlia Pinheiro, Paula foi levada a falar de traumas de infância, do abandono, da adoção, da pobreza, de esmolar nas ruas, tudo sem qualquer sentido fraterno, apenas para engordar as audiências do canal.

VENDER A ALMA AO DIABO

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Fotomontagem, imagem descritiva.

Dino d’Santiago é uma figura pública amplamente reconhecida pela sua intervenção cívica no combate ao racismo, às desigualdades sociais e à exclusão. O seu percurso artístico e público tem sido marcado por um discurso de emancipação, diversidade e justiça social. Nesse contexto, o apoio a uma candidatura oriunda da direita política surge como uma contradição difícil de aceitar.

Luís Marques Mendes é um histórico do PSD: antigo secretário-geral do partido, deputado durante décadas e ministro em governos sociais-democratas. Ao longo desse percurso político, participou inevitavelmente na aprovação e na redação de políticas e diplomas que pouco ou nada têm a ver com os valores de igualdade substantiva, justiça social e fraternidade que Dino d’Santiago tem defendido de forma pública e, até agora, consistente.

Importa sublinhar que este apoio não se resume a uma declaração simbólica. Dino aceitou ser mandatário para as áreas da Cultura, Diversidade e Inclusão na candidatura de Marques Mendes. Trata-se de um papel político concreto, com responsabilidade funcional e significado político claro, que ultrapassa largamente a esfera do gesto pessoal ou da cordialidade institucional.

O enquadramento político torna esta opção ainda mais problemática. O PSD é o principal pilar do atual Governo, cujas iniciativas recentes têm sido marcadas por políticas restritivas no domínio da imigração, incluindo legislação orientada para a expulsão de imigrantes em situação irregular, um universo onde se encontram, evidentemente, cidadãos africanos. Em paralelo, multiplicam-se as notícias sobre situações de exploração extrema e até de escravatura moderna em setores como a agricultura intensiva, envolvendo trabalhadores africanos, asiáticos e sul-americanos.

Até ao momento, não se vislumbrou uma reação política à altura da gravidade destes casos, nem sinais de um reforço legislativo sério das penas e dos mecanismos de combate a estas práticas. O Governo não pareceu particularmente comovido, nem mobilizado, perante esta realidade.

É neste contexto que a pergunta se impõe, ainda que de forma incómoda: que papel vai desempenhar Dino d’Santiago numa candidatura da direita política? Trata-se de um cálculo de benefício pessoal ou profissional? O estatuto de mandatário abrir-lhe-á portas adicionais no circuito cultural ou mediático? Ou estaremos perante ambições políticas que, afinal, se acomodam no espaço ideológico da direita?

Durante muitos anos, a vida de Dino d’Santiago, como a de tantos afrodescendentes portugueses, não terá sido fácil. O racismo estrutural existe e deixa marcas. Mas a superação dessas barreiras não exige, nem justifica, a abdicação de princípios fundamentais. Para fugir às injustiças, não é necessário vender a alma ao diabo.

RETRATO A ÓLEO

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Kaihan Hamidi. Não é a primeira vez que escrevo algumas palavras sobre este pintor afegão. Kaihan fugiu do Afeganistão, depois dos EUA terem abandonado o país nas mãos dos taliban. Kaihan fugiu, não deixou ninguém para trás, trouxe a mulher e os dois filhos.

Depois de muitas peripécias, estão já há uns anos em Portugal. Kaihan trabalha, ganha o salário mínimo, claro. O dinheiro que é pouco para comprar comida para quatro, tem ainda de chegar para as tintas, pincéis e as telas. Porque a alma precisa de alimento que só a arte lhe consegue dar.

Em Kabul era professor de arte e pintor. Um artista de grande prestígio na sociedade afegã. Em Lisboa é só mais um a tentar sobreviver. Mas seria mais interessante e útil se, também aqui, ele pudesse ensinar a sua técnica artística às crianças e aspirantes a artistas portugueses.

A escola de arte de kaihan Hamidi em Kabul

Kaihan retrata o que vê, num estilo muito original. As suas aguarelas são caracterizadas pelo contraste entre a luz e a sombra. É uma pintura muito interessante e esteticamente bela.

Lisboa
Kabul

Também faz retrato. Neste vídeo, vemos um óleo, que este escriba lhe encomendou…

vídeo

Em conversa, Kaihan diz que os portugueses são “gentis e amáveis”. Diz que se não fosse a língua que seria “como se vivesse entre o meu próprio povo”. Kaihan fala como um homem agradecido.

Na verdade, somos nós que lhe deveríamos agradecer, porque a presença dele é regeneradora de feridas que sangram da intolerância e do racismo que persistem entre nós.

UM PRECEDENTE PERIGOSO

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A recente decisão da União Europeia de manter imobilizados os ativos do Banco Central da Rússia, baseada numa cláusula de “emergência económica”, consolida um padrão preocupante porque arbitrário. Este mecanismo, justificado como excecional, permite contornar a regra da unanimidade entre Estados-Membros, princípio fundador que garante equilíbrio e soberania dentro do bloco. A prática, já testada durante a pandemia de Covid-19, revela como a classificação de uma situação como “emergência” serve frequentemente de pretexto para decisões políticas rápidas, pouco escrutinadas e potencialmente arbitrárias.

O Equilíbrio Perdido: Segurança contra Soberania

Este caso vai além do juízo sobre a Rússia e coloca uma questão fundamental: qual é o equilíbrio adequado entre medidas de segurança económica ou estratégica e os princípios de propriedade privada e soberania financeira? E, sobretudo, quem decide esse equilíbrio, e com que mandato? O que hoje se aplica a ativos russos pode, amanhã, justificar o bloqueio de contas de qualquer cidadão ou Estado sob nova “emergência”. A arrogância do poder, a pretexto do Covid e da Guerra, está a corroer as garantias legais e a tornar-se insuportável para cidadãos conscientes.

A.Costa e Ursula von der Leyen, o apoio à Ucrânia na guerra contra a Rússia

Geopolítica na UE: A Lei do Mais Forte

A guerra na Ucrânia evidenciou, de forma crua, as divisões geopolíticas na Europa. Em vez de uma resposta verdadeiramente coletiva, assistiu-se ao oportunismo de uma Europa dividida, onde os interesses das grandes potências (Alemanha, França e, outrora, o Reino Unido), frequentemente se sobrepõem aos dos demais Estados-membros. Para impor os seus interesses, estas potências recorreram ao estratagema da “emergência”, suspendendo o compromisso da unanimidade e, com ele, o principal mecanismo de proteção das soberanias nacionais mais pequenas.

Os Pequenos Estados: Campo de Batalha das Potências

Esta dinâmica segue a lógica da “lei do mais forte”, que só é contida por um poder equivalente. Na sua ausência, os países menores tornam-se o campo de batalha onde as potências disputam influência, vendo-se obrigados a “pôr-se em bicos de pés” para se alinharem com os grandes. Essa posição é instável e leva à abdicação dos seus próprios interesses nacionais, como se observa no isolamento imposto a países como a Hungria quando ousam divergir. O fraco é instrumentalizado, e a solidariedade europeia revela-se seletiva.

O Presidente da Hungria contestatário das políticas da UE em relação à Rússia e à guerra na Ucrânia

Consequências: Erosão da Confiança e Danos Colaterais

O congelamento prolongado de ativos soberanos, agora normalizado como procedimento automático, fragiliza a confiança no sistema financeiro internacional e levanta sérias dúvidas sobre a proporcionalidade e a transparência das instituições da UE. Além disso, o recurso crescente a sanções económicas como instrumento político raramente atinge apenas as elites; os danos espalham-se maleficamente por sociedades inteiras, afetando cidadãos comuns tanto do lado sancionado como do lado sancionador. A história mostra que os conflitos são muitas vezes alimentados por elites, mas os custos são invariavelmente distribuídos pelos povos.

O Imperativo da Vigilância Cívica

Num momento em que decisões cruciais são tomadas em nome da Europa, é fundamental que os cidadãos mantenham um espírito crítico aguçado e exijam transparência absoluta. É urgente recordar aos representantes que a democracia não pode degenerar num governo tecnocrático, autoritário e opaco, desligado do bem comum. A vigilância cívica é o último garante contra a corrosão da democracia, das liberdades e o abuso de poder. Não podemos permitir que “emergência” se torne sinónimo de arbitrariedade institucionalizada.

(artigo também publicado no blog Pegadas do Tempo)

JORNAIS IMPRESSOS EM ESTADO TERMINAL

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A distribuição de jornais e revistas deixou de ser negócio há muito. A principal distribuidora nacional, a VASP, limitou-se agora a reconhecer o óbvio: se não vende, não vale a pena meter carrinhas na estrada para descarregar quilos de papel em distritos onde a procura colapsou. Do ponto de vista estritamente empresarial, a decisão é lógica. Do ponto de vista da coesão nacional, é um abanão no edifício democrático.

A VASP, entretanto, reinventou-se como qualquer empresa que queira sobreviver. A antiga distribuidora da imprensa escrita é hoje parte ativa da engrenagem do comércio eletrónico: encomendas da China, artigos “pechisbeque”, roupa contrafeita, ração para animais. Falta-lhe apenas entrar no circuito das pizzas ao domicílio. O negócio da imprensa tornou-se um parêntesis na atividade da própria distribuidora.

Perante este cenário, os diretores dos jornais e revistas que ainda insistem em imprimir, alguns até fazem notícias, divulgaram agora uma carta conjunta, a que chamaram “manifesto“.

fonte Alerta Democrático: Risco de Colapso da Imprensa Escrita em Portugal

Não é a primeira. Em setembro, outra carta, assinada por pesos pesados como os patrões Pinto Balsemão e Marco Galinha, pedia uma reunião urgente ao ministro da tutela. A reunião aconteceu, mas o problema continuou.

NAS REDES SOCIAIS, O JORNALISMO NÃO SOBREVIVE

Os diretores vêm agora avisar que Beja, Évora, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real e Bragança vão ficar sem jornais nos quiosques. E sublinham, com razão, que a ausência de jornais significa a interrupção do acesso a “notícias profissionalmente validadas”. Mas eles sabem que o problema é que as pessoas já abandonaram, há muito, essas mesmas “notícias validadas”. A quebra da distribuição é apenas a fase final de um processo iniciado na erosão, alteração se preferirem, dos hábitos de leitura.

É tentador exigir ao Estado que intervenha. Mas o que exatamente se pede? Que subsidie a VASP para continuar a distribuir produtos que já não têm mercado? É isso que sobrará: um apoio público para que a arquitetura simbólica da democracia não colapse de forma demasiado visível. Porém, subsídio por subsídio, talvez fosse mais honesto que os diretores dos jornais fizessem uma vaquinha para criar uma nova distribuidora que possa viver desse subsídio estatal. Seria também uma forma de dar solução ao conflito de interesses de Marco Galinha que é, simultaneamente, proprietário da VASP e de vários jornais que a própria VASP distribui.

No fundo, o que se discute não é a distribuição, mas a sobrevivência da imprensa impressa. É uma questão política. A anunciada interrupção do serviço apenas expõe o que já se sabia: o modelo ruiu. Resta o digital, a selva das redes sociais, plataformas globais e conteúdos instantâneos, onde talvez as empresas se safem, mas o jornalismo não irá sobreviver.