A distribuição de jornais e revistas deixou de ser negócio há muito. A principal distribuidora nacional, a VASP, limitou-se agora a reconhecer o óbvio: se não vende, não vale a pena meter carrinhas na estrada para descarregar quilos de papel em distritos onde a procura colapsou. Do ponto de vista estritamente empresarial, a decisão é lógica. Do ponto de vista da coesão nacional, é um abanão no edifício democrático.
A VASP, entretanto, reinventou-se como qualquer empresa que queira sobreviver. A antiga distribuidora da imprensa escrita é hoje parte ativa da engrenagem do comércio eletrónico: encomendas da China, artigos “pechisbeque”, roupa contrafeita, ração para animais. Falta-lhe apenas entrar no circuito das pizzas ao domicílio. O negócio da imprensa tornou-se um parêntesis na atividade da própria distribuidora.
Perante este cenário, os diretores dos jornais e revistas que ainda insistem em imprimir, alguns até fazem notícias, divulgaram agora uma carta conjunta, a que chamaram “manifesto“.

Não é a primeira. Em setembro, outra carta, assinada por pesos pesados como os patrões Pinto Balsemão e Marco Galinha, pedia uma reunião urgente ao ministro da tutela. A reunião aconteceu, mas o problema continuou.
NAS REDES SOCIAIS, O JORNALISMO NÃO SOBREVIVE
Os diretores vêm agora avisar que Beja, Évora, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real e Bragança vão ficar sem jornais nos quiosques. E sublinham, com razão, que a ausência de jornais significa a interrupção do acesso a “notícias profissionalmente validadas”. Mas eles sabem que o problema é que as pessoas já abandonaram, há muito, essas mesmas “notícias validadas”. A quebra da distribuição é apenas a fase final de um processo iniciado na erosão, alteração se preferirem, dos hábitos de leitura.
É tentador exigir ao Estado que intervenha. Mas o que exatamente se pede? Que subsidie a VASP para continuar a distribuir produtos que já não têm mercado? É isso que sobrará: um apoio público para que a arquitetura simbólica da democracia não colapse de forma demasiado visível. Porém, subsídio por subsídio, talvez fosse mais honesto que os diretores dos jornais fizessem uma vaquinha para criar uma nova distribuidora que possa viver desse subsídio estatal. Seria também uma forma de dar solução ao conflito de interesses de Marco Galinha que é, simultaneamente, proprietário da VASP e de vários jornais que a própria VASP distribui.
No fundo, o que se discute não é a distribuição, mas a sobrevivência da imprensa impressa. É uma questão política. A anunciada interrupção do serviço apenas expõe o que já se sabia: o modelo ruiu. Resta o digital, a selva das redes sociais, plataformas globais e conteúdos instantâneos, onde talvez as empresas se safem, mas o jornalismo não irá sobreviver.




